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2.2 Programas que marcaram a história da TV

2.2.2 Telenovela – Sua vida me pertence

Primeiramente, a afirmação de que no início da década de 50 a telenovela era um gênero de menor importância requer cautela. Na verdade, deve ser esclarecido que

o início da televisão foi marcado pelo jogo de tentativas dos profissionais que começavam a trabalhar no setor, fossem eles novatos, advindos do rádio ou do cinema. Fica claro que o caso das experimentações com os novatos, como foi o caso do produtor do programa TV de Comédia, não implicam em julgamentos de qualidade ou de afinidade do profissional em relação ao programa.

No entanto, no início da televisão foi observado que os profissionais que migraram do teatro, do rádio e do cinema e começaram a trabalhar com televisão tinham impressões e opiniões sobre os programas exibidos durante a programação. Ao longo da primeira década de introdução desse novo meio no país, a TV viveu seu período elitista em que os valores da família de modelo patriarcal da elite eram reproduzidos através dos conteúdos e formatos dos programas. Como foi visto anteriormente, os formatos dos programas foram se desenhando ao longo do tempo, segundo o interesse em manutenção de determinados gêneros a serem exibidos e a organização dos programas em grades com horários definidos.

O teleteatro foi um gênero que agradou mais os profissionais que vinham do teatro, como, por exemplo, os artistas que preferiam trabalhar em programas que encenassem peças de obras clássicas da literatura. Essa preferência por um gênero considerado “culto” passava por um processo mais ou menos inverso no caso da telenovela. Poderíamos enumerar uma lista de fatores que possam ter dificultado o investimento na produção das telenovelas, mas essa não seria uma medida que ajudaria a discussão sobre o porquê da telenovela não ter recebido o mesmo tipo de incentivo que recebeu o teleteatro.

“Deixando de lado o julgamento de valor, o testemunho revela uma tensão real entre um grupo oriundo do rádio e outro próximo do teatro e do cinema. Tudo se passa como se a escala de prestígio crescesse na razão inversa de sua aproximação à herança radiofônica; ora, o teatro e o teleteatro se afastam desta presença incômoda. O primeiro devido a seu passado clássico, o segundo na sua insistência em se aproximar ao máximo do ideal cinematográfico que lhe serve como modelo. Dentro deste contexto, a telenovela surge como uma continuidade da radionovela, e a ela se impõe o sinal de desqualificação. A novela era percebida, tanto pelos

produtores, pelos financiadores, como por aqueles que a realizavam, como um gênero menor”. (ORTIZ, 1989, p. 44-45)

Na verdade, talvez seja menos importante identificar qual foi o fator determinante para tal ocorrência, pois muitos fatores podem ser apontados: a pouca experiência dos profissionais envolvidos em fazer novela, o preconceito de alguns em relação a esse gênero que vem como continuidade do rádio, o desprezo dos artistas. Enfim, pode-se apontar uma infinidade de fatores responsáveis pelo pouco desenvolvimento do gênero telenovela na primeira década de implantação da televisão no país.

O mais importante nesse caso é identificar que o potencial das telenovelas só tenha sido desenvolvido no período seguinte, nos anos 60/70. Nas décadas seguintes a telenovela começou a ser produzida em maior escala, ocupando o espaço que vai ser deixado com o fim do teleteatro e se tornando um fenômeno que cai no gosto do público, gerando altos índices de audiência. Enquanto essa potencialidade não foi percebida, foram poucas as telenovelas exibidas na década de 50. Vejamos as tabelas34:

34 Tabelas baseadas no Quadro IV – Número de telenovelas apresentadas em São Paulo por emissora: 1951-

1963, da página 51 do livro Telenovela história e produção de Renato Ortiz, Silvia Helena Simões Borelli e José Mario Ortiz Ramos. A tabela do livro tem como fonte o IDART – Departamento de Informação e Documentação Artísticas.

De acordo com os dados das tabelas, a telenovela foi um gênero pouco trabalhado nas emissoras ao longo dos anos 50. No entanto, devemos considerar a existência de uma produção que foi extremamente importante para o surgimento desse gênero no Brasil. A telenovela Sua vida me pertence foi eleita neste trabalho como representante do gênero telenovela, pois foi a primeira a ser exibida na TV Tupi em 1951.

Número de telenovelas apresentadas em São Paulo por emissora: 1951-1960

Ano Tupi Excelsior Record Paulista Cultura

1951 1 0 0 0 0 1952 9 0 3 0 0 1953 9 0 1 0 0 1954 6 1 0 0 0 1955 11 1 0 0 0 1956 9 0 3 0 0 1957 8 4 1 0 0 1958 15 6 1 0 0 1959 7 4 3 0 0 1960 11 4 1 0 0

Total de telenovelas em cada emissora ao longo desse período

Tupi Excelsior Record Paulista Cultura TOTAL

De dezembro de 1951 a fevereiro de 1952 foi ao ar a primeira telenovela brasileira, escrita por Walter Forster e encenada por atores de grandes nomes do radioteatro e radionovela, tais como Lia de Aguiar, Walter Forster, Vida Alves, Lima Duarte, José Parisi, Dionísio Azevedo, Néa Simões, João Monteiro, Tânia Amaral e Astrogildo Filho (SILVA, 1981, p. 22). Geralmente, os capítulos com duração média de 20 minutos, eram exibidos duas vezes por semana, mas dependendo da oportunidade, podia haver uma apresentação em outro dia da semana (SIMÕES, 1986, p. 52).

“A decadência do gênero35 se acelera e, em seu lugar, surge o folhetim, ou melhor, a telenovela, que desde 1951, com ‘Sua vida me pertence’ (TV TUPI/SP), estiveram hibernando num plano secundário, transmitida duas vezes por semana (e a cada oportunidade sendo necessário montar de novo todo o cenário, convocar o elenco, a equipe técnica etc.), sem maior repercussão”. (SIMÕES, 1986, p. 52).

Sua vida me pertence surgiu no período em que os teleteatros faziam muito sucesso junto ao público, porém essa concomitância não foi determinante para que um fato dentro da telenovela chamasse a atenção do público. O par romântico formado por Vida Alves e Walter Forster deu o primeiro beijo da televisão brasileira, o que marcou a história da TV e gerou uma discussão sobre os conteúdos nela exibidos, a partir da escala de valores que regiam o estilo de vida dos telespectadores inseridos no modelo de família patriarcal elitista.

A questão do beijo torna-se banal nos dias de hoje. Contudo, nos anos 50, a exibição do primeiro beijo na televisão foi uma situação que movimentou o cenário comunicacional na própria televisão e, consequentemente, na sociedade da época. É muito interessante observar o que o beijo na telenovela representou, mais do que o ato em si, a linha pela qual sua produção iria seguir. Enquanto os teleteatros tratavam da adaptação de peças, em muitos casos estrangeiras, a telenovela mostrava essa capacidade, que iria ser desenvolvida mais fortemente na década seguinte, de abordar questões que estavam presentes na cultura nacional, no cotidiano das pessoas.

35 A citação faz referência aos anos 60, quando o gênero teleteatro perdeu força e a telenovela começou com

Curiosamente esse é um dos fatores que podem ser identificados na primeira telenovela brasileira e que será detectado nas produções atuais. Hoje, podemos utilizar a seguinte definição para a telenovela: “Trata-se de uma narrativa popular, reconhecida por todos e que admite tanto o entrelaçamento das fronteiras entre cultura popular e cultura de massa quanto a emergência de relações de mediação entre produtores, produtos e receptores, que dialogam entre si, mediante um repertório ficcional e documental compartilhado” (BORELLI e PRIOLLI, 2000, p. 32).

Esse caráter da telenovela atual de ser uma narrativa popular tem a ver com o cotidiano e a vida dos brasileiros, e essa colocação pode ser comparada com a situação do beijo na primeira telenovela da década de 50. Claro, é necessário considerar a intensa transformação social que ocorreu nas últimas décadas no país. Não podemos dizer que o cenário não mudou e por isso a telenovela manteve suas características principais. Definitivamente, não é isso. O que acontece é que a telenovela de hoje pode ser entendida como um retrato que se aproxima da realidade das pessoas que compartilham desse cenário atual. Na telenovela Sua vida me pertence houve o beijo, um fator que representou a aproximação ao cotidiano da vida das pessoas.

O beijo foi uma ousadia, um experimento, uma situação do cotidiano que ganhou espaço na televisão e que demonstrou a capacidade desse meio em chamar a atenção do público para um determinado fato. Esta telenovela foi importante porque introduziu um novo gênero na televisão. Mais do que a coragem em dar início à telenovela no momento em que o teleteatro começava a despontar, Sua vida me pertence marcou a história com o primeiro beijo exibido pela televisão.

Nesse ponto parece que a análise se contradiz. De um lado, apontamos que a telenovela era um gênero sem muita credibilidade, de outro, está o beijo que marcou a história da televisão. A partir dessa dicotomia, é possível que surja a dúvida de como a telenovela tenha se mantido em segundo plano se trazia questões, como no caso do beijo, que eram polêmicas para a sociedade da época. A primeira consideração que deve ser feita frente a essa pungente dúvida é que a forma como enxergamos a telenovela hoje é totalmente distinta da forma como se enxergava esse gênero nos anos 50.

Como foi visto anteriormente, no início da televisão o gênero de maior sucesso era o teleteatro. Enquanto isso, a telenovela começava a dar os primeiros passos a

fim de se firmar como gênero na televisão, já que sua herança histórica está diretamente ligada às novelas que haviam feito sucesso no rádio. Foi com o passar dos anos e com o cansaço do público diante dos teleteatros que a telenovela começou a ganhar espaço.

O beijo foi uma demonstração de que a televisão era um meio inovador e que, por conseqüência, alguns de seus gêneros experimentavam mais do que outros. A telenovela foi um desses gêneros que experimentou trabalhar uma série de temas que já haviam sido trabalhados nas radionovelas, porém a possibilidade de visualização das histórias fez com que determinadas ações gerassem polêmica. É exatamente essa constatação que responde à dicotomia da telenovela que estava em segundo plano e o beijo que marcou a história da TV.

“Mas não podemos esquecer que foi com simplicidade e despretensão que o gênero se instalou no Brasil. E que as primeiras telenovelas apenas copiavam o esquema das radionovelas – na forma e no conteúdo. Só que, nas imagens, o resultado foi outro – de extraordinária repercussão. Essa repercussão gerou uma popularidade inimaginável e duradoura, o que incentivou os homens de TV a investirem mais na telenovela”. (FERNANDES, 1987, p. 21)

A partir da constatação de que o uso da imagem associado à determinados temas era capaz de gerar uma grande repercussão na sociedade, outros fenômenos começaram a fazer parte da história da televisão. De uma maneira generalista, o acontecimento que mais reflete esses fenômenos é a existência da publicidade em determinados gêneros televisivos. Se a exibição do beijo na televisão na telenovela, que neste período era considerado um gênero de menor importância, foi capaz de trazer uma discussão em âmbito público, imagine o que a exibição de produtos dentro da programação era capaz de fazer.

Foi seguindo essa linha de raciocínio que os anunciantes identificaram o poder das imagens em prol do consumo. Eles identificaram que a inserção do anúncio dentro da grade de programação era uma forma eficaz de exibir os serviços e os produtos a serem consumidos pelos telespectadores. Só que o fato de não haver uma fórmula que indicasse como os anunciantes deveriam inserir suas marcas e produtos na televisão gerou uma busca por programas que pudessem deixar clara a ligação com o anunciante. Dessa

forma, o melhor exemplo de como a publicidade estava associada a um programa de televisão é o telejornal Repórter Esso.