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CAPÍTULO II UM OLHAR SOBRE AS POLÍTICAS DE COMUNICAÇÃO

2.1 A MATRIZ COMUNITÁRIA DA TV NO BRASIL E EM CUBA DE QUE ESTAMOS

2.1.1 Televisões provinciais e municipais em Cuba

As práticas comunitárias e participativas nas televisões provinciais e municipais cubanas constituem – tanto quanto as TVs comunitárias do cabo no Brasil, anteriormente analisadas a partir da bibliografia e da documentação já disponível - a delimitação do corpus de nosso objeto de pesquisa.

As televisões provinciais cubanas são emissoras de TV sem frequência radioelétrica própria que transmitem em horário determinado pelo Sistema Nacional de Televisão Cubano através de uma frequência nacional (a frequência de um dos canais nacionais denominado Tele Rebelde). A sua programação objetiva informar a população a respeito dos principais acontecimentos da província, promover a cultura e as tradições da localidade de abrangência, assim como contribuir ao entretenimento dos cidadãos (CABRERA, LEGAÑOA, 2007, p.77). Além disso, as TVs provinciais funcionam como sucursais dos canais nacionais do Sistema de Televisão, sendo que há produções realizadas nas emissoras que são veiculadas em espaços da TV nacional. Na atualidade existem em Cuba 16 canais provinciais - os quais

são conhecidos como telecentros provinciais -, um em cada província do país (Ver ANEXO.1).

Por sua vez, os canais municipais são emissoras locais de televisão. Dagmar Herrera (2008, p.62) os define como centros de produção e transmissão regular de sinais de TV com frequências próprias e transmissões que se originam nas localidades em que funcionam. São destinadas à população da localidade, e as temáticas e os conteúdos das grades de programação respondem aos interesses da comunidade de abrangência. Essas TVs constituem, do mesmo modo que as TVs provinciais, um serviço público orientado e dirigido pelo Instituto Cubano de Rádio e Televisão (ICRT) no país.

As televisões cubanas de cobertura municipal transmitem em UHF (Ultra High Frequency), implementando o uso da tecnologia digital em suas produções - sendo que as demais TVs utilizam o modo analógico em Cuba. Um dos inconvenientes da transmissão em UHF é o alcance das frequências de TV dependendo da altura dos aparelhos transmissores e receptores. Geralmente, a cobertura é de 10 a 15 km de rádio do lugar onde se encontram localizadas as TVs - às vezes a área de cobertura é menor que a extensão do município.

É comum em Cuba que essas TVs sejam denominadas de telecentros municipais. Os principais canais surgem a partir do ano 2004 e chegam a 30 iniciativas já em funcionamento na atualidade26, espalhadas pelo território nacional.

Na concepção dos canais municipais e provinciais, o setor estatal tem um papel fundamental que pode ser constatado em aspectos relacionados com sua gestão, seus objetivos e finalidades e o financiamento. Do ponto de vista construtivo, foi o Estado cubano quem financiou o investimento nos canais. Cada emissora dispõe de um estúdio próprio, transmissor, locais para diretores, realizadores, jornalistas, e outros espaços. O Estado foi o encarregado também da dotação de equipamento técnico, assim como da capacitação do pessoal, valendo-se para isso de diferentes organizações, dentre elas o ICRT, a Escola de Meios Audiovisuais do Instituto Superior de Arte, da UNEAC, da UPEC, dentre outras.

As duas modalidades de televisão – TV provincial e TV municipal – integram o Sistema Nacional de Televisão. As relações que se estabelecem entre elas apontam como eixos fundamentais a orientação de linhas temáticas, capacitação do pessoal, apoio técnico em questões relacionadas à tecnologia, assim como avaliação da qualidade da programação por

26 Foram criados 17 canais municipais em diferentes municípios do país. Além disso, existem 13 canais nos

municípios principais de cada província, onde também se encontram geralmente as TVs provinciais. Para maiores detalhes ver ANEXO.2.

parte da TV provincial, a qual pode dar sugestões a respeito das formas de fazer TV respeitando as diferenças específicas que marcam a tipologia municipal de televisão.

Também se estabelecem relações entre essas TVs e a televisão nacional que se baseiam no intercâmbio de materiais de produção local e provincial, aumentando, dessa forma, a representatividade dos diferentes espaços na tela nacional. Ambas modalidades tem como órgão diretor a Direção Nacional de Telecentros, que pertence ao ICRT, encarregado de dirigir em nível nacional as atividades de radiodifusão no país e subordinado diretamente ao Conselho de Ministros de Cuba e ao Estado cubano.

Em pesquisa realizada na Faculdade de Comunicação da Universidade da Havana, Herrera (2008) faz um balanço a respeito dos principais avanços que especialistas em comunicação, diretores de TV, gestores e os próprios trabalhadores dos meios reconhecem a esses espaços de televisão municipal na realidade cubana.

(...) constituem uma via para a informação das comunidades locais; fazem a abordagem de temas, situações e problemáticas da localidade que são pouco refletidas em outros meios; oferecem a possibilidade de tratar com imediatez essas problemáticas e favorecem a busca de soluções no próprio território; aumentam o nível de representação da realidade do município e de seus atores no espaço local, provincial e nacional; aumentam as possibilidades de satisfazer necessidades informativas, educativas, culturais e de entretenimento da população; facilitam processos de orientação social em diversos âmbitos da vida; constituem canais de comunicação entre as autoridades locais e a população; se tornam fontes de emprego para a população local, fundamentalmente para jovens; são meios de comunicação importantes em situações excepcionais de caráter natural (IDEM, 2008, p.115, tradução própria).

Por sua parte, a TV provincial, segundo Cabrera e Legañoa (2007, p.126), tem evolucionado significativamente no país, sendo que se fala em sistema de televisão territorial, como aquele que abrange os interesses da comunidade geográfica. Além de transformar-se em espaço para divulgar os acontecimentos culturais, históricos, as tradições e para a problematização da realidade social do território. As autoras apontam que tem havido uma evolução similar na programação das TVs provinciais que se evidencia no aumento dos horários de transmissão, na diversidade das propostas de programas e na qualidade. Não obstante, os mecanismos de participação ainda são insuficientes, pois a opinião da população não é o elemento essencial para criar ou suspender das grades um determinado programa (CABRERA, LEGAÑOA, 2007, p.128).

Ao longo da sua existência as TVs provinciais e, mais recentemente, as municipais tem enfrentado dificuldades tecnológicas e organizativas. Os canais provinciais não tem uma frequência de transmissão própria e sua programação no início era de uma hora à tarde e meia hora ao meio-dia. Nos finais de semana os horários se estendem, mas geralmente entre os

programas transmitidos, uma parte não é de produção própria. Atualmente, os canais das províncias transmitem de 12h30 à 1h e das 16h30 às 18h, de segunda a sexta-feira.

Geralmente as televisões municipais transmitem nas sextas, sábados e domingos das 18:00 até meia-noite, embora haja algumas exceções nas quais as TVs saem ao ar durante a semana, no mesmo horário, mas não transmitem no final de semana. Uma das diferenças fundamentais enunciadas por Herrera (2008, p.113-114) é o fato dos canais municipais terem maior quantidade de horas de transmissão do que as TVs provinciais, além da programação de produção própria, maior nas telas provinciais.

As grades de programação das televisões nos municípios se estruturaram nos começos com programação própria e com programas produzidos fora do canal27, sendo que têm sido transmitidos programas de produção nacional e estrangeiros. Contudo, almeja-se uma mudança nessa tendência que favoreça uma maior produção de programação própria que dê conta dos objetivos e fins que orientam a criação desses espaços televisivos.

Com relação aos canais provinciais, assinalam Cabrera e Legañoa (2007, p.128), a perspectiva é que os telecentros consigam ter uma frequência própria para suas transmissões, que estendam seus horários e aumentem a produção de conteúdos próprios.

Ao analisar as grades pode-se dizer que há uma predominância de conteúdos e programas informativos, seguidos de programas que se estruturam nos moldes de uma revista para a informação cultural e a orientação social em diversos âmbitos da vida e da sociedade, observam-se também programas de opinião, culturais, históricos, musicais, infantis e dedicados à juventude. Em alguns canais, é possível assistir programas esportivos, outros que refletem a realidade da população rural, destinados à educação em saúde, dentre outros, mais específicos (HERRERA, 2008, p.100).

Apesar das TVs provinciais e municipais apresentarem diferenças em relação às iniciativas comunitárias de TV no Brasil - fundamentalmente a respeito das formas de propriedade, de gestão, das vias para adquirir a infraestrutura e para garantir a sustentabilidade tecnológica e econômica, assim como nas relações que se estabelecem com o ente estatal e com as instituições políticas – é possível afirmar que nas emissoras cubanas existem práticas comunitárias tais como a divulgação de conteúdos de interesse público

27 Mesmo sendo o sistema de televisão em Cuba público-estatal, nos diversos canais, sejam eles nacionais,

provinciais ou municipais, observa-se a presença de considerável quantidade de programação produzida fora do país. Por exemplo, são transmitidas novelas brasileiras, séries de TV de fatura norteamericana, programas educativos, documentários estrangeiros, dentre outros. Essas produções são geralmente conhecidas como “enlatados importados” e passam por um processo de reedição antes de serem transmitidas nos canais cubanos. Para poder completar seus horários de programação as TVs provinciais e municipais incluem esses programas nas suas transmissões.

relacionados ao funcionamento das instituições da comunidade, a existência de possibilidades efetivas de participação da sociedade – mesmo se limitadas e ainda muito estreitas para fazer avançar experiências profundamente democráticas – e a produção de programações que contribuem ao desenvolvimento social da localidade.