GRAMSCI E O FASCISMO
80 TEMAesclarecer o tema desenvolvimento:
“É somente devido à dominação es-trangeira que os povos pobres não se desenvolvem?
Nada disso – há outras causas. Uma das mais importantes é a Estrutura Capitalis-ta que é toCapitalis-talmente inadequada para as-segurar a promoção do Desenvolvimento dos países subdesenvolvidos.
Em outro trecho:
“E quanto ao fato dos proprietários poderem dispor à vontade dos resultados da produção? Também provoca consequências negativas. Com uma tal faculdade, é claro que os proprietários guardam os lucros para si. Assim, o desenvolvimento por vezes acentua os desequilíbrios pois, enquanto os proprietários ficam mais ricos, os trabalhadores podem ficar na mesma situação. E as consequências econômicas? Dispondo livremente dos meios de produção e de suas rendas, os proprietários fazem com que a Economia Nacional se oriente em função de seu lucro e não dos interesses da comunidade.” (B,U, nº 15, p.14).
Apesar de, no governo Goulart, os trabalhadores terem obtido o Estatuto do Trabalhador Rural (2 de março de 1963), garantindo como seus direitos: salário mínimo, férias, indenização por demissão, etc. vários fatores de desiquilíbrio são apontados como construtores do subdesenvolvimento:
“... não há prioridade no atendimento das necessidades da população, daí os desequilíbrios entre as classes e as regiões.” (B,U, nº 15, p. 6).
nacional: 83% da população usufrui 40%, 16% fica com 30% e 1% (latifundiários e grandes capitalistas) ganham 30%.” “Quais são as causas desses desequilíbrios?
Estes desequilíbrios, que prejudicam a maioria da população brasileira, constituem uma gravíssima injustiça social. Sua principal causa é o Subdesenvolvimento, ou seja, o estágio econômico e social globalmente deficiente por que passa o Brasil. Para eliminar os desequilíbrios é preciso superar o subdesenvolvimento. Mas, antes de mais nada, é preciso conhece-lo bem. É o que esta Cartilha pretende possibilitar.” (B,U, nº 15, p. 15)
No governo Goulart se popularizou a explicação de que o desenvolvimento só viria com as reformas de base. A mais discutida delas era a reforma agrária. Outras reformas de base, entretanto, aparecem no jornal e são reivindicadas pela mobilização política de diversos setores sociais. Trata-se, especialmente, da reforma universitária, eleitoral, adminis-trativa e bancária. A universitária e a eleitoral ao contemplar uma população maior ampliariam a democracia. A bancária e a administrativa ajudariam, respectivamente a racionalizar a economia e ampliar os recursos do Estado.
O apoio à reforma agrária aparece em todos os números do jornal, pois realiza-la é, acima de tudo, como uma questão de justiça social, como diz, em entrevista, o gal. Osvino Fer-reira Alves, comandante do I Exército (Rio de Janeiro):
“A reforma agrária é uma exigência do país. A estrutura agrária que aí temos é caduca, tem mais de 200 anos. Enquanto a indústria conheceu o desenvolvimento a agricultura estacionou” (B,U, nº 1, p.11).
O jornal defendia, para a reforma agrária, além da distri-buição da terra, que se incluísse a assistência técnica e out-ros recursos que levassem a modernização das relações de
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produção. E, a reforma agrária devia ser feita nos termos da legalidade, sem ferir o direito da propriedade privada, como afirma o governador de Goiás, no artigo Mauro Borges: “A reforma agrária é incoercível”:
“A reforma agrária não deve servir de dis-farce para uma mudança de sistema, ou seja, para anulação do direito de proprie-dade mediante indenizações fictícias ou duvidosas...”(B,U,nº26,p. 12).
Mas, nem todas as falas eram absolutamente alinhadas e sem contradições como mostra o texto “Problema Agrário” de um dos jornalistas profissionais do semanário, Dorian Jorge Freire. Ele oscila entre radicalizar sobre o “determinismo histórico” da reforma agrária e a preocupação em preservar a propriedade privada dentro da visão das encíclicas. A reforma agrária, não se chocaria com o direito da propriedade privada, ao contrário, ampliaria este legítimo direito estendendo-o, portanto, atendendo à sua dimensão social. (B,U, nº 43, p.6).
A luta contra o atraso que o latifúndio representa se evidencia na reportagem de A. Tomé: “MG: Latifundiários armam bandidos para massacrar camponeses”. Frente à violência dos latifundiários os trabalhadores rurais criam núcleos de organização e resistência, ocupam as terras devolutas do pântano Vale da Redenção, próximas ao rio Piumbi (MG). Os agricultores, a princípio receosos, depois fortalecidos, pela sua união e pelo apoio do padre e do pastor locais, pressionam a SUPRA. O Decreto-Lei, do governo federal, de 28.1.64 que declarava aquelas terras como de utilidade pública expressou a sua vitória. O perigo da violência dos latifundiários, dos políticos da UDN e PSD, porém, ainda não estava completamente afastado. (B,U, nº 48, p. 10/11).
No artigo “Liga de Alagoa Grande Lidera a Reforma no Brejo Paraibano” se combate a imagem negativa difundida
pela direita que projetava a liga como:
“Entidade de trabalhadores rurais, es-pecialmente do Nordeste, que teriam como líderes perigoso próceres comu-nistas e como objetivo a revolução san-grenta, apropriação violenta das terras e extinção do princípio da propriedade privada”. (B,U, nº 26, p.15).
Afirma-se serem as ligas a forma de libertação encon-trada por aqueles que eram, até então, explorados como semiescravos nos engenhos de açúcar daquela região. A organização dos trabalhadores de Alagoa Grande nessa liga camponesa cabia ao líder Manuel Santino, ajudado pela advogada Ophélia Maria Amorim.
Muitos eram os entraves à realização da reforma agrária; o mais discutido era a falta de recursos estatais para cum-prir os termos do parágrafo 16 do artigo 141 da Constituição que garantia prévia e justa indenização em dinheiro a quem tivesse sua propriedade desapropriada. Para viabiliza-la, o semanário engrossava a campanha para pressionar o Con-gresso na alteração desse artigo constitucional.
Os assuntos econômicos do semanário não se restrin-giam às reformas de base. Outro recorrente, que indica um projeto econômico de desenvolvimento nacionalista, é a denúncia dos abusos, privilégios e poderio das multinacio-nais entre nós. A começar pela manchete, em letras garrafais, na capa do primeiro exemplar: “Remédios matam o Brasil” que remete à desnacionalização da indústria farmacêutica no Brasil, vítima da concorrência com as gigantes internacionais ou esgotada pelo pagamento de royalties.
O escritor, jornalista e radialista, Mário Donato, do PTB fundamenta:
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fachada é nacional. Além de onerada por out-ros fatores é encarecida pelos pagamentos de “royalties” ao exterior, e os seus preços finais quase sempre lhes impossibilitam a com-petição com mercadorias de outros países, já instalados nos mercados tradicionais e amparados por um sistema creditício de bra-ços longos, através de ‘trustes’, ‘holdings’ e ‘dumpings’ de caráter internacional. Em con-sequência, a nossa economia torna instável a situação política interna.” (B,U, nº 26, p. 5). Outras manchetes revelam os escândalos do domínio imperialista que, sugando nossos recursos humanos, mate-riais e capitais perpetuavam o nosso subdesenvolvimento: “DIVISAS VÃO EMBORA NO PAGAMENTO DE ROYALTIES” (B,U, nº 1, p. 5).
Na cartilha política que trata do Imperialismo se mostra como os países ricos sugam nossos recursos usando a falsa imagem de que estão nos ajudando:
“(...) esses empréstimos são, em sua maioria, de dois tipos – para pagamento de dívidas antigas e para financiamentos de importa-ções. Nos empréstimos que fazem para nós pagarmos dívidas vencidas ou a vencer eles recebem juros normais – realizam, em suma, uma operação comercial de rotina.
E quanto aos financiamentos?
Destinam-se, em geral, à imposição de produ-tos americanos por firmas do Brasil. Os ameri-canos nos emprestam para que compremos de suas indústrias. É o mesmo caso, por exemplo, de uma imobiliária que vende um terreno a prazo. Ela está financiando o
com-prador. Você diria que este está recebendo uma ‘ajuda’?” (B,U, nº 27, p. 6).
O desenvolvimento também é associado à educação, como capacitação para a indústria, mola propulsora do crescimento econômico, na fala do ministro da Educação Paulo de Tarso, na II Reunião Interamericana de Ministros da Educação em Bogotá:
“O desenvolvimento da industrialização cria necessi-dades urgentes de mão de obra especializada” (B,U, nº 24, p. 11).
OS FUNDAMENTOS TEÓRICOS DO