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CENTRO DE ESTUDOS DE LETRAS, ARTES E HISTÓRIA

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SUMÁRIO

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No período de janeiro de 1895 a janeiro de 1900, uma revista catalisava todas as forças vivas da inteligência do Brasil, que ali publicavam trabalhos inéditos, sérios e vigorosos, que marcaram a cultura brasileira e a história da literatura, como aqui é demonstrado por José Cavalcanti de Souza.

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Neste artigo, a obra de Fitzgerald é analisada por Edalcy Garcia, considerando o período de avanço econômico que ocorria nos Estados Unidos, nos anos 1920, com a produção em série de automóveis e eletrodomésticos, entre outros produtos, que incorporavam grandes contingentes de jovens no mercado de trabalho, originando mudanças na moda, nos costumes, na música, na dança, nos hábitos – mudanças tão radicais que escandalizavam os mais velhos e a imprensa da época.

A posição de Gramsci sobre a origem e ascensão do fascismo, pró capital monopolista e contra a classe operária, é posta em discussão, aqui, por Marcos del Roio, que reúne em seu artigo, ainda, as posições do Partido Comunista Italiano, da Internacional Comunista, da Social Democracia e da Igreja Católica, da época, sobre a questão.

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Aqui, Rosa Maria Fernandes coloca em discussão uma obra de Balzac, que mostra as mudanças que se operavam na sociedade francesa do século XlX, onde o dinheiro assumia importância tão grande que passava a comandar inclusive os casamentos da burguesia, que ocorriam movidos pelo interesse em aumentar a fortuna ou para adquirir posições sociais elevadas.

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TEMA 2

O papel do Estado Brasileiro no desenvolvimento econômico do país, bem como as razões políticas que orientam tanto a estatização como a privatização estão colocadas neste artigo, onde Roberto Bassi Ribeiro Soares ainda apresenta exemplos de situações que exigiram atuação extrema de governos de diversos países, ao redor do mundo, ao longo do século XX.

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Nos inícios dos anos 1960, no Brasil, um grupo de

religiosos e intelectuais ligados à Igreja Católica assumia uma ousada posição política em favor de justiça social, assumindo compromissos com as camadas sociais mais pobres do país, e, para externar esse modo de pensar e ajudar a promover mudanças, criou e publicou um jornal que apresentava propostas econômicas para o Brasil, ao mesmo tempo que conferia a si próprio o papel de formador de opinião de uma esquerda católica. Esse importante momento da história de nosso país é, aqui, apresentado por Maria Fernanda Antunes.

SUMÁRIO

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Editor Responsável:

Zenaide Bassi Ribeiro Soares – MTb 8607. Conselho Editorial:

Prof.Dr.Alcides Ribeiro Soares(UNESP),Profa.Dra.Alessandra Moreira Lima(UCR),Prof.Dr.Antonio Carlos Mazzeo(UNESP),Prof.Dr.Armando Farias(USL),Profa.Dra.Ana Lúcia Cavani(UENF),Profa.Dra.Cássia Ortolan(Fatema/ CELARTH)Profa.Dra.Conceição Viúde Fernandes(Faculdade Drummond),Prof. DrJoão CardosoPalma Filho(UNESP-SP),Profa.Dra.Maria Lúcia Pimentel Góes(USP),Profa.Dr.Mauro Cherobin(UNESP),Profa.Dra.Meire Mathias(UEM),Prof. Dr.Moacir Barbosa de Lima(UNG),Prof.Dr.Paulo Ribeiro Cunha(UNESP-Marilia),Prof.Dr.Pedro Scuro Neto(Universidade de Leeds),Profa.Roberta Nechar Gorni(U.C),Prof.Roberto B.R.Soares(Uninove),Profa.Dra.Rosa Maria Valente Fernandes(Universidade Católica de Santos),Profa.Dra.Urquisa Maria Borges(UNESP),Profa.Dra.Zenaide Bassi Ribeiro Soares(CELARTH)

Capa:

Mariana Bassi Ilustrações:

André Santos, Joanes Lessa e Mariana Bassi Língua Inglesa:

Carla Cristina Pasquale e Magali Fialho Linge Editoração Eletrônica:

Roberto de Camargo Damiano e Lúcia Maria Teixeira Web Designer:

Paulo Alexandre.

TEMA

Publicação vinculada ao Centro de Estudos de Letras, Artes e História - Celarth Edição de Maio a Agosto de 2012

Letras, Artes e História - Nº 74, Ano 26. Volume XXVI

CENTRO DE ESTUDOS DE LETRAS, ARTES E HISTÓRIA

Rua Barão de Itapetininga, 50, 5º andar, 502 - 01042-902 - São Paulo www.celarth.com.br

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TEMA 4

TEMA

Letras, Artes e História

R.TEMA S.Paulo nº 74 maio/agosto 2012 P. 111

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Apresentação

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esta edição focalizaremos um mundo em grandes transformações na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil. Começaremos pelos registros de Balzac, que mostra a França do século XlX num processo de mudança em que tudo passa a ser comandado pelo dinheiro, inclusive os casamentos da burguesia, que se constituíam em meios para se aumentar a fortuna ou para se alcançar prestígio social.

Nos Estados Unidos, ao longo das duas primeiras décadas do século XX, vamos encontrar na literatura de Fitzgerald a economia dinamizada pela produção de automóveis, de eletrodomésticos e outros produtos fabricados em série que promoviam radicais mudanças nos costumes e hábitos dos jovens, na moda, na música, na dança, e também no cinema, que, sob o impacto da tecnologia, deixava de ser mudo.

Na Itália, passaremos pelo período do fascismo, que, inclusive com apoio do Papa Pio Xll, desafiava os analistas políticos, mas encontrava em Gramsci uma leitura lúcida. No Brasil do final do século XlX e inicios do século XX, iremos nos encontrar com revistas especializadas que se tornavam veículos de divulgação de ideias e pesquisas em diferentes áreas, inclusive na política e na literatura. Ainda no Brasil, no início dos anos 1960, veremos setores da Igreja Católica que participavam ativamente de projetos de natureza política e social, criando e mantendo, inclusive, uma imprensa libertária.

O papel do Estado brasileiro nas mudanças econômicas e sociais do país também serão aqui consideradas, ao lado dos interesses privatistas, que norteiam grupos políticos em plena atividade.

Boa leitura!

Zenaide Bassi Ribeiro Soares Diretora Responsável

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TEMA 6 Rosa Maria Valente Fernandes

EUGÉNIE GRANDET, UMA SOCIEDADE EM TRANSFORMAÇÃO

Eugénie Grandet, a society in transformation.

R.TEMA S.Paulo nº 74 Maio/Agosto 2012 P. 06-19 PALAVRAS-CHAVE

RESUMO

ABSTRACT

KEYWORDS Dinheiro. Sociedade. Amor. Negócios.

Este artigo pretende mostrar através da análise de Eugénie Grandet, de Honoré de Balzac, a importân-cia do dinheiro nos relacionamentos e no desen-volvimento econômico-político-social da sociedade francesa no século XIX.

This article aims to show, through the analysis of Eugénie Grandet, from Honoré de Balzac, the importance of the money in the relationships and in the economical, political and social increase in the French society of XIX century.

Money. Society. Love. Business.

Autor e Texto Author - Text

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Rosa Maria Valente Fernandes *

EUGÉNIE GRANDET, UMA SOCIEDADE EM TRANSFORMAÇÃO

Eugénie Grandet, a society in transformation

* Doutora em literatura pela universidade de São Paulo.Professora na Universidade Católica de Santos

Os casamentos são vistos como mercadoria, pois constituem uma forma de enriquecimento

F

rancês de Tours, Balzac pertencia a uma família constituída de quatro irmãos, dentre eles, Laure, sua preferida.

Quando os parentes mudaram-se para Paris, Balzac iniciou o curso de Direito. Desiludido com esses estudos, pediu, então, à família que lhe concedesse um ano de licença para escrever, o que lhe foi permitido. Redigiu, então, uma tragédia: Cromwell, sem sucesso. Voltou-se para o gênero romance, o que lhe trará a fama.

A vida do escritor coincide com o meio século definido por dois golpes de estado: o de 1799, pelo qual Napoleão I dá um golpe na Revolução Francesa, e o de 1851, pelo qual Napoleão III extinguiu a Segunda República. Conheceu tes-temunhas da Revolução e também do Antigo Regime e, por ocasião de sua morte, em 1850, já se previa o advento do poder forte sob a forma do Segundo Império.

De espírito inquieto, representava a burguesia. Monar-quista e conservador, sonhava com a carreira política, cujos princípios, para ele, baseavam-se na autoridade política e

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TEMA 8

religiosa, sendo influenciado nesses aspectos por mulheres como Madame de Berny e a Duquesa de Abrantes.

Escrevia para ganhar a vida. Fez fortuna, embora tenha passado por sérios desastres financeiros, nos quais, muitas vezes, foi ajudado pelas inúmeras amantes, amigas e mesmo pela mãe.

Em vinte anos, publicou noventa romances e novelas, trinta contos e cinco peças de teatro, produção literária ini-gualável, sob o título geral de La Comédie Humaine: Histoire des Moeurs du XIX siècle, que representava o sonho do autor de contar a história social de seu tempo.

Afirma Balzac no Avant - Propos de sua obra: A ideia primeira da Comédia Humana foi para mim, a princípio, como que um sonho, como um desses projetos impossíveis que se acariciam e se deixam voar; uma quimera que sorri, que exibe seu semblante feminino e logo em seguida distende as asas, subindo para um céu fantástico. Mas a quimera, como tantas quimeras, transforma-se em realidade; tem suas imposições e suas tiranias, às quais se é forçado a ceder. Essa ideia nasceu de uma comparação entre a humanidade e a animalidade1.

Acreditava que a sociedade se assemelhava à nature-za, conceito defendido por pensadores e estudiosos como Buffon em sua História Natural em 36 volumes em que se inspirou. Para Balzac, existiriam analogias entre espécies sociais e zoológicas, princípio realista, vindo ao encontro de um progresso que se fazia sentir nesse período. O autor se questiona: Se Buffon fez um trabalho magnífico tentan-do apresentar num livro o conjunto da zoologia, não seria desejável fazer-se uma obra desse gênero com relação à sociedade2?

Ele pretendia, ainda, não simplesmente ser o arrolador de fatos de seu tempo, e sim o contador da História, configurada

1-BALZAC, Honoré de. Prefácio à Comédia Humana, in A Comédia Huma-na, vol.1, p. 9. Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo: Editora Globo, 1946. 2-Idem, p. 11.

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no presente, em que pessoas, animais e coisas participariam da história processual da vida humana: A sociedade francesa ia ser o historiador, eu nada mais seria do que seu secretá-rio. Ao fazer o inventário dos vícios e das virtudes, ao reunir os principais fatos das paixões, ao pintar os caracteres, ao escolher os acontecimentos mais relevantes da sociedade, ao compor os tipos pela reunião dos traços de múltiplos ca-racteres homogêneos, poderia, talvez, alcançar escrever a história esquecida por tantos historiadores, a dos costumes. Com muita paciência e coragem, eu realizaria para a França do XIX século esse livro que todos lamentamos não nos terem deixado Roma, Atenas, Tiro, Mênfis, a Pérsia, a Índia, sobre sua civilização, e que a exemplo do padre Barthélemy, o corajoso e paciente Monteil tentara para a Idade Média, mas sob forma pouco atraente3.

Otto Maria Carpeaux4 afirma, em sua obra, que a história

do romance como gênero literário divide-se em duas épocas: antes e depois de Balzac. Se no século XVIII, esse tipo de narrativa fora uma simples relação romanceada de histórias extraordinárias, de aventuras mirabolantes, fora do comum, após Balzac e com ele, embora ainda produzisse obras com estruturas semelhantes às anteriores, surge o romance como espelho: reflexo do mundo, dos países, das ruas, das casas, dos dramas quotidianos.

A Comédia Humana seria, assim, a edificação da socie-dade de seu tempo, movida pela paixão, dinheiro, tradições, histórias da vida, dos costumes do ser humano com o intuito de melhorá-lo. Por este motivo, descrições e objetos, em seus textos, assumem uma importância fundamental. Atento observador dos ambientes em que circulava, anotava todos os movimentos dessa sociedade da qual a religião e a mo-narquia seriam os reguladores e controladores.

Estruturada sob ótica burguesa, a obra de Balzac reflete

3-Idem. P. 14

4-CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental. Rio de Janeiro: Alhambra, 1987, vol.VI.

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TEMA 10

todo o processo de aburguesamento na França, o início do processo de industrialização, metáfora de uma sociedade em transformação, em que fortunas surgem e desaparecem rapidamente tais como na vida financeira do próprio autor.

Tal fato explicaria o caráter cíclico de seus textos e seu entrelaçamento pelo retorno dos mesmos personagens e dos tipos humanos, representativos da sociedade. O autor afirma: Não era pequena tarefa pintar as duas ou três mil figuras salientes de uma época, pois tal é, em definitivo, a soma dos tipos que cada geração apresenta e que a Comédia Humana comportará. Esse número de figuras, de caracteres, essa multidão de existências, exigiam cenários e, perdoem--me a expressão, galerias5.

Dividiu, então, a obra em seis partes:

1- Cenas da Vida Privada: representando a infância, a adolescência, os erros;

2- Cenas da Vida de Província: representando a idade das paixões, dos cálculos, dos interesses e da ambição;

3- Cenas da Vida Parisiense: quadro dos gostos, dos vícios, do desregrado, do encontro do bem e do mal;

4- Cenas da Vida Política; 5- Cenas da Vida Militar;

6- Cenas da Vida Rural: princípios de ordem, da política, da moralidade.

Profundo conhecedor da vida de província e de uma sociedade em transformação, inspira-se na figura de um avarento conhecido na Touraine, onde costumava passar uns tempos com amigos. E relata em Eugénie Grandet6, a história

de uma jovem, habitante do interior da França (Saumur) que levava uma vida de grande penúria, apesar da enorme fortuna

5-BALZAC, Honoré de. Comédia Humana, in A Comédia Humana, vol. 1, p. 20.

6-BALZAC. A abreviação EG. consta na edição de Garnier Flammarion: Paris, 1964.

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de seu pai, M. Grandet, avaro ao extremo e sua mulher Mme. Grandet. Um dia, Charles, um primo enviado de Paris pelo pai e sem saber que este se suicidara por se ver arruinado, vem passar um tempo com a família que mora no interior. Eugénie apaixona-se por ele, vimjvendo um amor ingênuo. Sabendo que nada mais possui, é ajudado pelo velho Gran-det que lhe paga a viagem e por Eugénie que lhe dá todas as suas economias, Charles parte para as Índias a fim de fazer fortuna. A protagonista espera-o. Passados alguns anos, soube do regresso do primo a Paris e do seu casamento por interesse com uma aristocrata. Eugénie, fiel a seu amor frustrado, se casará com outro sem, no entanto, consumar o casamento. Sozinha, e cada vez mais rica, após a morte dos pais e do marido, sem filhos, fará o bem à comunidade pelo resto da vida.

Na obra, o tema dinheiro é de fundamental importância. Tudo gravita em torno dele, inclusive, os casamentos, como forma de aumentar fortuna ou de alcançar prestígio social, pois se vive num período de expansão do capitalismo, sistema que valoriza o capital, o acúmulo de riquezas e a produtividade do trabalho.

Conceitos como valor de uso (satisfação de desejos e necessidades) e valor de troca (o homem não pode con-sumir tudo o que produz e o excesso troca com outros), são princípios que norteiam a economia da época. As riquezas constituem-se em valor de troca e tornam-se mercadorias segundo as teorias propostas por Adam Smith, vigentes no período.

Os casamentos em Eugénie Grandet são vistos como mercadoria, pois se constituem uma forma de enriquecimento pela troca: por ocasião do casamento de M. Grandet este “recebeu” a mulher e um dote, condição principal em todo contrato de casamento nesse período, de deux cent doublé louis. Com o dinheiro pôde comprar os melhores vinhedos da região e tornou-se membro da administração do distrito

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12 TEMA

de Saumur. Após a morte da sogra Mme Gaudinière, viu o patrimônio crescer, o casamento rendendo-lhe lucros. Ma-dame Grandet tornou-se um objeto de troca valoroso. Ela anulou-se, transformou-se em verdadeira escrava, utilizada pelo marido sempre que tinha necessidade: Je ne puis rien conclure sans avoir consulté ma femme. Sa femme qu’ íl avait réduite à un ilotisme complet, était en affaires son paravent le plus commode. (EG. P. 34). Nesse contexto, não há lugar para os sentimentos.

Eugénie, angelical e pura, aparece pela primeira vez em cena, não pelo que representa, mas pela herança e caracter-izada pelas expressões: la financière / le riche héritage / le prix était la main d´Eugénie. (EG. P. 36). Mede-se seu valor pelo dinheiro. Por isso, é disputada pelos Cruchotins e pelos Gras-sinistes, submissos a M. Grandet, que visavam, igualmente, ao enriquecimento pelo casamento. Nesse jogo de interesses, percebe-se o olhar do protagonista ao analisar friamente as diferentes possibilidades do lucro que adviria do casamento da filha. Para M. Grandet, a felicidade fundamentava-se no dinheiro. A filha, por sua vez, aspirava casar-se por amor, havendo, no que se refere a esta personagem, dois eixos matrimoniais:

Casamento ideal= natural= frutificaria

Casamento real= não natural= não produziria frutos. O casamento real e o jogo de interesses acabam prev-alecendo no texto. Eugénie, decepcionada com a atitude do primo ao retornar das Índias, acaba casando-se com M. de Bonfons, que se “vende” em troca de um favor solicitado por Eugénie: a não consumação do casamento: Le Président comprit, lui, qu´ il devait mademoiselle Grandet à un dépit amoureux, aussi s’ empressa-t-il d’ exécuter ses ordres avec la plus grande promptitude, afin qu’ il n’ arrivât aucune réc-onciliation entre les deux amants. (EG. P. 185).

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uma suposta fortuna. Priorizou o material, embora assumisse um casamento não natural.

Charles, jovem, vivendo em Saumur, talvez, pretendesse um casamento natural com a prima. Porém, ao retornar rico, de sua longa viagem às Índias, casa-se com Mlle d‘ Aubrion, lucrando muito com essa relação, porque adquire um título de nobreza ao pagar as dívidas da família da noiva, arruinada pelo desperdício.

Através dos laços matrimoniais, a casa d’ Aubrion tam-bém lucrou, porque recuperou a fortuna e ofereceu um título a Charles. Houve troca de bens, retrato de uma sociedade, preocupada essencialmente com o material. A ligação do primo com Eugénie, talvez não prosperasse, porque alimen-tada pelo sentimento.

Estabelecem-se, assim, no texto, dois polos: um, que valoriza os sentimentos, o amor, a pessoa; o outro, preocu-pado com o dinheiro, neutralizador dos sentimentos, símbolo de uma classe que ascende ao poder: a burguesia, em que os homens-mercadorias são usados e trocados e o casamento, nesse escopo, é um contrato comercial.

Nas relações matrimoniais, o dinheiro comanda e adquire um valor considerável. Para Balzac, o casamento ideal é o realizado por interesse, e dificilmente, o amor impulsiona o casamento. Um único casamento, na obra, difere dos demais, pois natural: o de Nanon e Cornoiller: Un de ses premièrs actes fut de donner douze cents francs de rente viagère à Nanon, qui, possédant déjà six cents autres francs, devint un riche parti. En moins d’ un mois, elle passa de l’ état de fille à celui de femme, sous la protection d’ Antoine Cornoil-ler, qui fut nommé garde general des terres et propriétés de mademoiselle Grandet (EG. P. 168), ainda não totalmente contaminados pelo jogo lucrativo do poder e pelos negócios, que tecem, igualmente, o texto.

No que concerne às transações comerciais, Eugénie Grandet mostra-nos o quadro de uma pequena cidade da

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14 TEMA

França, Saumur, em que o objeto das vendas são mercado rias:

- deux ou trois paquets de sel et de mourue - des cordages

- du laiton

- quelques pièces de draps

- bouteilles..., etc..., produtos do dia-a-dia, trocados e vendidos nas feirinhas e nas portas das casas, sem inter-mediários. Economia, pois, de subsistência, quase medieval. Os produtos da terra dependem da natureza: Dans ce pays, comme en Touraine, les vicissitudes de l’ atmosphère dominent la vie commerciale ...Il y a un duel constant entre le ciel et les intérêts terrestres... Voilà un temps dor! Se chif-frent de porte en porte. Aussi chacun répond-il au voisin: “Il pleut”, en sachant ce qu’un rayon de soleil, ce qu’ une pluie opportune lui en apporte (EG. P. 29). Soleil, or, pluie são sig-nos relevantes no texto. Sol e ouro equivalem-se, conotando o enriquecimento dos comerciantes:

bom tempo = boa colheita = prosperidade

chuva em excesso = mau tempo = péssimas colheitas = péssimos negócios = ruína.

Ou seja, submetem-se aos revezes da natureza, base de uma economia agrícola.

M. Grandet vive nesse tipo de sociedade, com proprie-dades, vinhedos, mas também com o ouro, símbolos de um capitalismo crescente. Em sua casa, os personagens vivem em dois mundos opostos: o primeiro, o do crescimento da for-tuna do avarento: Financièrement parlant, M. Grandet tenait du tigre et du boa: il savait se coucher, se blottir, envisager longtemps sa proie, sauter dessus, puis il ouvrait la gueule de sa bourse , y engloutissait une charge d’ écus, et se cou-chait tranquillement, comme le serpent qui digère, impassible,

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froid, methodique. (EG. P. 32), cujos olhos segundo se dizia, haviam adquirido o mesmo tom amarelado das moedas de ouro. A fiel empregada Nanon, cúmplice e aluna aplicada do velho, já havia aprendido com ele a guardar dinheiro e, as-sim, formar seu dote. O segundo mundo era o da privação de todo e qualquer conforto, seja no vestuário, seja na alimen-tação, pois, para a senhora e a senhorita Grandet nada era concedido, além de dois vestidos por ano, sendo o açúcar, a manteiga e até as velas racionados e fechados a sete chaves. As duas viviam na ignorância total da fortuna acumulada por Grandet e aceitavam com naturalidade todas as limitações.

Em Eugénie Grandet, como em geral, na obra de Balzac, nota-se uma evolução perfeita dos negócios, correspondendo a uma sociedade em transformação.

Esperto no manejo do dinheiro, o protagonista, no iní-cio, trocava bens naturais por outros igualmente naturais: vende o produzido em suas propriedades, obtendo ganhos: Commercialemment, il fournit aux armées républicaines un ou deux milliers de pièces de vin blanc, et se fit payer en superbes prairies dépendant d’ une communauté de femmes que l’ on avait réservée pour un dernier lot. (EG. P. 30). Um verbo neste texto, merece nossa atenção: fit payer, indicando que ele capitalizou seus bens, os lucros advindos da terra.

A venda proporcionou a compra de mais terras: Froid-fond, uma fazenda com um castelo, rodeada de parques, flo-restas – peupliers -, rios, propriedade comprada a dinheiro. De posse da terra, cortou a madeira das florestas aí existentes: Après avoir jeté sur sa propriété le coup d’ oeil du maître, il revint à Saumur, certain d’ avoir placé ses fonds à cinq, et saisi de la magnifique pensée d’ arrondir le marquisat de Froidfond en y réunissant tous ses biens. (EG. P. 38).

Temos, dessa forma, o seguinte movimento: DINHEIRO, oriundo de um bem natural; MERCADORIA (peupliers), ven-didos para ganho, transformada em DINHEIRO novamente, movimento que indica circulação de mercadorias, do capital,

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16 TEMA e aumento dos bens individuais.

O texto aponta para dois fatos:

•M. Grandet, um provinciano, pequeno-burguês, compra as terras de um marquês, nobre empobrecido, fato comum na época, pois após a Revolução Francesa muitos nobres haviam perdido seus bens que passam às mãos dos burgue-ses, enriquecidos pelo comércio;

•M. Grandet só visava ao lucro em questões de negócios. Honestidade, piedade, sentimentos não pertenciam ao seu universo na relação compra e venda de mercadorias.

Nas negociatas, soube captar as mudanças em curso. Por ocasião da vinda do sobrinho de Paris, percebeu que a aplicação do dinheiro e a circulação deste em juros, du-plicariam o capital. Ingressou, assim, no mundo financeiro. Os bens naturais foram trocados por artificiais: o ouro por papéis, conseguindo lucros extraordinários.

Dessa forma, a MERCADORIA= o ouro torna-se DI- NHEIRO: Vers cinq heures du soir, Grandet revint d’ Angers, ayant eu quatorze mille francs de son or, et tenant dans son portefeuille des bons royaux qui lui portaient intérêt jusqu’ au jour où il aurait à payer ses rentes (EG. P. 127), e compra cem mil em TÍTULOS, que lhe renderão juros.

M. Grandet é, assim, a imagem de uma sociedade que supervaloriza o dinheiro e os bens materiais. Preocupa-se com a quantidade. É a metáfora de um período de transição, de uma economia de subsistência, baseada no valor da terra e da propriedade a uma economia capitalista, movida pelo papel que representa valores.

Charles, seu sobrinho, é o protótipo do homem mod-erno. Com o dinheiro que lhe foi emprestado por Eugénie, enriqueceu nas Índias, vendendo chineses, negros, crianças, artistas, mercadorias roubadas pelos piratas, aumentando, consequentemente, o capital com o tráfico de seres humanos. Comercializou o homem, enricou e aplicou o dinheiro em um casamento de conveniências: Cette fortune me permet de

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m’unir à la famille d’ Aubrion, dont l’ héritière, jeune personne de dixneuf ans, m’ apporte en mariage son nom, un titre, la place de gentilhomme honoraire de la chambre de Sa Majesté , et une position des plus brillantes. (EG. P. 178). Charles é, portanto, a metáfora do homem moderno, inescrupuloso na busca de uma situação de prestígio na sociedade.

Entre M. Grandet (negociante) e Charles, surgem diferen-ças: Grandet representaria o pré-capitalismo= bens que vêm, na maior parte, da terra e são capitalizados. Ele, porém, não comercializa o ser humano. Vale pelo que possui; pratica a usura: guarda, não se expõe, nem deseja títulos de nobreza, ou seja, status social. O único bem que o deslumbra é o ouro: extasia-se diante do estojo de toilette de Charles, con-siderando que Eugénie fizera um bom negócio ao aceitá-lo em troca do dinheiro dado ao primo. E o mesmo êxtase se repete na hora de sua morte ao olhar o crucifixo en vermeil que o padre lhe apresentava. O tempo todo, porém, esconde o segredo do que possui, não revelando por palavras ou ações, sua verdadeira situação financeira. Desumanizado é considerado um monstro. Representa os valores da província e de um passado que se transforma.

Charles também capitaliza os bens. Consome e gasta pela necessidade de se manter sempre elegante. Tem neces-sidade de ser um nobre. Para tal, compra um título de conde. Vende uma mercadoria: o ser humano. Na realidade, acaba, igualmente, se vendendo, ao trocar uma vida que poderia lhe trazer felicidade por uma distinção social. Suas atividades são consideradas normais na sociedade parisiense. Simboliza o presente e o futuro.

O dinheiro, o capitalismo crescente e os dois tipos de so-ciedade, ambas em processo são o sustentáculo do romance e da Comédie Humaine, ela mesma. Uma devorará a outra: a aristocracia sendo digerida pela burguesia em ascensão, perderá força e honra. Perderá o poder e as terras. O dinheiro invadirá casas, lares, contaminará a província. Explorará.

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18 TEMA

Sufocará as paixões, neutralizará as forças sentimentais, transformará os seres humanos em mercadorias.

Em Balzac, ele reina. Encontra-se simbolizado no nome do personagem Grandet, GRAND, o grande negociante, meta-forizado pela imagem do tigre affamé, animal sanguinário, conotando seu temperamento impiedoso, principalmente na realização dos negócios, pela luta e ferocidade na obten-ção do ouro, dos lucros, metáfora, também, da dinâmica do século XIX.

Não somente o protagonista, M. Grandet, metaforiza-se em um animal. Outros personagens, de acordo com suas características, também o são: Nanon, a empregada dos Grandet, assemelha-se a um cão, símbolo da fidelidade e de devotamento ao dono.

Mlle d’ Aubrion é descrita de uma forma delicada e com-parada à libélula, mostrando sua magreza.

Paralelos são estabelecidos entre o mundo vegetal e os personagens: Mme Grandet é comparada a um fruto amadu-recido, denotando seu estado de saúde e sua idade; Eugénie, a uma flor, significando a natureza feminina e revelando um certo gosto romântico pela expressão fleur éclose.

Poderíamos, então, afirmar que na caracterização dos personagens, a força estaria centrada nos homens, ao passo que a fragilidade, nas mulheres, caracterizadas pelos cli-chês da época, principalmente os fixados pelo Romantismo: mulher-flor, frágil. Por outro lado, o homem-tigre, simboliza a força, o domínio.

Grandet, o avaro, o homem-tigre, simboliza o campo. Passou pela República, Consulado, Império e soube tirar proveito financeiro de todos os períodos.

Em Eugénie Grandet acompanhamos a ascensão da burguesia, a capitalização dos objetos, dos homens, do casamento, dos costumes, da Literatura (sabemos que Balzac escrevia muito para se manter). Nesse contexto, as mulheres sucumbem e valores são destruídos, temas repetidos em

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vários textos do escritor. São cenas de província, pincel-adas da sociedade francesa do século XIX, pós Revolução Francesa e pós-período heróico napoleônico, época do “des-pertar” da burguesia, cujos interesses, infiltrados, minavam toda a sociedade. Caminhada irreversível de ideais frívolos, promotores de uma especulação em que tudo gira em torno do DINHEIRO, DO CAPITAL E DO LUCRO.

Eis o quadro social desse período que Balzac soube captar com mestria em Eugénie Grandet e ser seu porta-voz. Mostra claramente os ideais liberais e individualistas do sécu-lo XIX e as necessidades econômicas e utilitárias. Evidencia o período de transição vivenciado pela sociedade francesa de então, período marcado pelo progresso das ciências, pela industrialização progressiva, pela ascensão da burguesia, desejosa de adotar os hábitos dos nobres e pela ascensão de determinadas classes sociais, como a dos banqueiros.

Eugénie Grandet conta a história dos costumes, do dia a dia, das paixões e dos interesses que movem o século XIX, enfim, de uma história que se fez História, correspondendo ao ideal expresso pelo autor no Avant-Propos à Comédia Humana.

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20 TEMA Edalcy Garcia

FITZGERALD E O SONHO AMERICANO NA ERA DO JAZZ.

FITZGERALD AND THE AMERICAN DREAM IN THE ERA OF JAZZ

R.TEMA S.Paulo nº 74 Maio/Agosto 2012 P. 20-29 PALAVRAS-CHAVE

RESUMO

ABSTRACT

KEYWORDS Fitzgerald. Anos 20. Jazz. Mudanças.

Neste artigo, focalizaremos a obra de Fitzgerald, que retratava os anos 1920 ,com as transformações que ocorriam na economia e nos costumes, incluindo a moda, a música, a dança.

This article focuses on the work of Fitzgerald,which adresses the changes in economy and customs of Young people in fashion, music, dance.

Fitzgerald. Twenties. Jazz. Changes.

Autor e Texto Author - Text

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Edalcy Garcia*

FITZGERALD E O SONHO AMERICANO NA ERA DO JAZZ.

FITZGERALD AND THE AMERICAN DREAM IN THE ERA OF JAZZ

* Mestre em Literatura.Professora na FCS.

Era tão desolado aquilo, que a gente tinha pena do topo dos arranha-céus, perdidos lá em cima, no céu, no céu cinza-esverdeado

O

s Estados Unidos, nos inícios dos anos 1920, conheceram grande prosperidade provocada por uma revolução ocorrida no sistema industrial, com a fabricação em massa de automóveis, que gerava empregos em grande escala, difundindo o uso desses veículos em todas as classes sociais, alimentando o sonho de luxo e conforto da população.

A produção de automóveis dinamizava a economia norte – americana, que era também favorecida pelo sistema de fabricação em série, que se estendia a outros produtos, como os eletro domésticos, que promovia grande circulação de dinheiro no país, além de estabelecer um clima intenso de otimismo e mudança de hábitos na população.

As mulheres começaram a ser incorporadas ao mercado de trabalho de modo significativo, o que acabou interferindo

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22 TEMA

no seu modo de vestir-se, de cortar os cabelos para enfrentar o novo cotidiano, passando a dirigir automóvel, a consumir alimentos enlatados, a usar aparelhos elétricos que facilitavam o trabalho doméstico, o que estimulava o crescimento de produção desses equipamentos.

O desenvolvimento tecnológico crescia. O cinema deixou de ser mudo, tornando-se sonoro em 1927, com a estreia de “O cantor de jazz”, que apresentava o cantor Al Jolson, com o rosto pintado de negro. O filme foi lançado com grande publicidade pela Warner Bros, que ganhou um prêmio especial pelo pioneirismo.

Nessa época, o rádio já gozava de grande popularidade, divulgando novos gêneros musicais como o fox-trot, e o jazz que mobilizavam a juventude, estimulando o hábito de dançar.

O Charleston passou a ser a dança da moda. O jazz ganhava força excepcional em New Orleans, Chicago e New York, vibrante e animado, conquistando o gosto popular de multidões que se entregavam a esse gênero em bailes públicos.

A Ousadia Na Moda Feminina e Na Literatura

A moda passava por grandes transformações, nos grandes centros urbanos. As mulheres passaram a exibir uma moda feminina esfuziante, com finos tecidos e vestidos muito curtos, que desafiavam os costumes, provocando reações agressivas em vários setores da sociedade.

Os conservadores ficavam tão escandalizados com as mudanças que se operavam nos costumes femininos, a ponto do jornal New York Times ter publicado em uma edição de julho de 1920 que

“a mulher americana reduziu o comprimento da saia até um ponto

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que vai muito além de qualquer limitação imposta pela decência”. Os cabelos curtos , com um corte chamado a “la garçonne”, tornaram -se ,de certa forma, símbolos da época, que se difundiram por todo o mundo através do cinema, com atrizes como Louise Brooks e Gloria Swanson, que ,com cabelos curtos e arredondados, olhos muito pintados e baton escuro difundiam o modelo das melindrosas.

Nessa época, surgiu um escritor que viria a ser o porta voz dessa trepidante época. Francis Scott Fitzgerald publicava livros que deixavam as famílias perplexas diante de narrativas que expunham as novas crenças e valores da juventude norte-americana, que se desviava do padrão tradicional de comportamento capitalista da época que era agradar Deus acumulando o dinheiro ganho com o trabalho, para desfazer-se dele rapidamente financiando prazeres fúteis, comportando-se de uma maneira que ofendia a moral e os bons costumes.

Quando publicou seu primeiro livro, em 1920, Fitzgerald tinha apenas vinte e quatro anos e “ Este lado do paraíso” surgiu como um sinal de alerta para coisas que estavam acontecendo entre danças, bebidas e cigarros, escancarando coisas que pais e principalmente avós não gostariam de

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24 TEMA enxergar e nem saber.

Contava a história de Armory, um jovem que falava sobre a feiura da pobreza, que não gostava de gente pobre, explicando que

“ser corrupto e rico é essencialmente mais higiênico do que ser inocente e pobre”.

Mais que uma afirmação cínica, refletia o modo de pensar de grande parte da população norte-americana, obcecada pelo crescimento da riqueza como bem único a ser almejado, de tal modo que todo o resto deixava de ter importância. Entre ela, estavam muitas das pessoas que agora se escandalizavam diante dos retratos pintados por Fitzgerald, entendendo que o escritor era imoral.

A juventude flamejante dos anos vinte e seus sonhos alucinantes continuaram sendo retratados em 1922, quando foi publicado o novo livro de Fitzgerald, “Seis contos da era do jazz e outras histórias”.

Ao lado de uma história fantástica, chamada “O curioso caso de Benjamin Button”, que rejuvenescia quanto mais passavam os anos, outros, verossímeis, continuavam mostrando jovens bem sucedidos agarrados com mulheres de saias curtas, dançando de modo frenético, com movimentos sensuais, em salões, onde os cheiros de pó-de-arroz e de bebida se misturavam com os cheiros de cigarros que enchiam o ambiente de fumaça.

As forças conservadoras se escandalizavam com a leitura das obras de Fitzgerald, que, com talento, expunha o processo de fragmentação, vivenciado, sem perceber, pela sociedade recém saída da primeira querra mundial, ansiosa para usufruir de modo predatório os momentos de prosperidade vividos pelo país.

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como se, escondido por perto , houvesse um ponto final se anunciando.

O modo de agir sugeria que as lembranças de anos difíceis precisavam ser rapidamente esquecidos, e por isso cada um procurava se aturdir vivendo de um modo enlouquecido, revisando valores éticos, afetados pelas mudanças de hábitos de práticas cotidianas.

Os rumos cartesianos do passado estavam rompidos. Relacionamentos estranhos desfilavam nos romances, que desnudavam novas formas de amor.

Mulheres de cabelos bem curtos e vestidos de comprimento bem acima dos joelhos, fumavam e rodavam de automóvel, insatisfeitas, buscando emoções desconhecidas.

Homens bem sucedidos, elegantes, se descobriam sem objetivos claramente definidos. E o desfile de personagens enche as páginas dos livros, deixando no leitor a sensação de que esses personagens tinham vida real, e previam que 1929 iria chegar demolindo a prosperidade norte-americana, fomentando suicídios e misérias .

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26 TEMA

Era como se cada um visse a si próprio prestes a ter de enfrentar a noite escura, descrita pelo próprio Fitzgerald no conto “Ó feiticeira ruiva”, que integra o livro”Seis contos da era do jazz”:

“Era uma tarde escura, ameaçadora de chuva e do fim do mundo, uma dessas tardes particularmente cinzentas e sombrias, como só as tardes de Nova Iorque costumam, às vezes, ser. O vento uivava pelas ruas, carregando jornais velhos e pedaços de coisas; pequenas luzes piscavam em todas as janelas. Era tão desolado aquilo, que a gente tinha pena do topo dos arranha-céus, perdidos lá em cima, no céu, no céu cinza-esverdeado, e achava que agora, com certeza, a farsa deveria encerrar-se, e que logo todos os edifícios desmoronariam como casas de cartas e baralho e se empilhariam, num monte poeirento e irônico, sobre todos os milhões de pessoas iam entrar e sair deles.”

Na realidade, as mulheres desses novos tempos, de cabelos curtos e saias curtas, que trabalhavam, votavam e tinham direitos iguais aos dos homens, viveram realmente essa profecia de Fitzgerald, pois tiveram que enfrentar e vivenciar, um 1929, terrível drama , com a quebra da Bolsa de Nova York e a depressão econômica que se abateu sobre os Estados Unidos. Mas essa tragédia foi contada por outro grande escritor norte-americano, John Steinbeck, autor de As vinhas da ira.

O Sonho Americano

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exemplar do sonho americano. É narrado por um personagem-narrador, Nick Carraway, vizinho do protagonista Jay Gatsby, um self-made man, ou seja, aquele que é capaz de ser bem sucedido na vida por mérito próprio, que vive numa mansão luxuosa e promove festas extravagantes, .onde, apesar da lei seca, não faltavam bebidas alcoólicas em grandes quantidades.

Conta a trajetória de Jay, um homem de origem pobre que buscou sua própria ascensão social, e tenta reconquistar um antigo amor, Dayse, sua prima distante, que é casada com Tom Buchanan, que provém de família tradicional. Por essa razão, Dayse não se separaria do marido, o que magoa Jay. Ele inventa para si próprio uma identidade fantasiosa, para esconder sua origem modesta.

Fitzgerald foi o autor que mais se ocupou com o sonho americano da terra prometida onde se alcançava a fartura estendendo o braço ,e a subida na escala social dependia apenas de iniciativas individuais; mas tratou também dos pesadelos que se incrustavam nesses sonhos, com os abalos sofridos pelo psiquismo de seus personagens, como ocorreu em Tender is the night, onde o psiquiatra Dick Diver se casa com sua paciente Nicole Warren e levam vida luxuosa e vazia na Reviera francesa, onde organizavam festas, reuniões, coquetéis. Aos poucos o médico adoece, abalado pela esquizofrenia da mulher, de quem vai se tornando dependente.

A reputação da América como uma terra de oportunidades baseava-se na sua alegação de que promovia a ruptura dos obstáculos para o progresso, herdados do passado, e que havia criado as condições para as oportunidades, bastando apenas o empenho de cada um para se subir na escala social. Assim, a mobilidade social dependia apenas da iniciativa individual e dessa maneira, o mito do homem feito por si mesmo ganhou força e modificações, que passavam por

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mudanças nas escalas de valores, conforme o tempo e visões de grupos protestantes, como os Puritanos ou os Calvinistas.

A ética do trabalho passava por mudanças de significado. O verdadeiro cristão, que de acordo com os conceitos calvinistas de uma existência honrada, suportava bem tanto a boa sorte, como a má sorte com equanimidade, contentando-se com o que lhe chegascontentando-se às mãos, também passou por mudanças, laicizando-se.. As virtudes na visão capitalista passam a serem reconhecidas como virtudes somente na medida em que sejam úteis para o indivíduo. Como ocorria no romance “Este lado do paraíso”, com Armory, para quem a corrupção, que enriquecia, parecia mais higiênica do que a inocência da pobreza.

A América do século XVlll que havia feito da temperança uma virtude, passava para o século XlX procurando expressar todos os valores em termos monetários e dera origem à emergência nos inícios do século XX a gerações que ansiavam por viver de um modo alucinado, embriagando-se, dançando, valorizando mais os efeitos da corrupção do que os gerados pelo trabalho.

Na busca desenfreada pelo lazer, como fuga do trabalho, a juventude da época não conseguia perceber que as mesmas forças que organizaram as fábricas, organizaram também o lazer, transformando-o num apêndice da indústria, ou seja numa simples extensão da produção de mercadorias. Presos nas engrenagens do mundo dos espetáculos, buscavam recobrar a lucidez imergindo no vazio, no tédio, no álcool e na loucura.

É esse tempo que Fitzgerald retrata em suas obras, onde predominam a desmedida valorização dinheiro, o culto ao luxo e às futilidades, podendo até se chegar à emergência de distúrbios psicológicos nas mais variadas dimensões.

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BIBLIOGRAFIA

FITZGERALD, Scott F.Este lado do paraiso. Rio de janeiro: Civilização Brasileira. 1962

___________Seis contos da era do jazz e outras histórias. Rio de Janeiro:Civilização Brasileira.1962

¨___________Suave é a noite. Rio de Janeiro:Civilização Brasileira.1964

____________ O grande Gabsty. Rio de Janeiro:Globo. 2003 GARCIA,Edalcy.Os anos loucos e a literatura de Fitzgerald. In TEMA, revista de Letras, Artes e História, número 03, São Paulo, edição de maio/agosto de 1988.

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TEMA 30 José Cavalcante de Souza

DE POLÍTICA E LITERATURA NA REVISTA BRASILEIRA

POLITICS AND LITERATURE IN THE ‘REVISTA BRASILEIRA’

R.TEMA S.Paulo nº 74 Maio/Agosto 2012 P. 30-51 PALAVRAS-CHAVE

RESUMO

ABSTRACT

KEYWORDS

Revista Brasileira. Graça Aranha. João Ribeiro. Literatura.

Este artigo trata da Revista Brasileira, que foi publicada, no Rio de Janeiro, no período de janeiro de 1895 a janeiro de 1900. A revista teve como diretor e principal colaborador, José Veríssimo.

This article refers to the Revista Brasileira (a Brazilian magazine), that was published in Rio de Janeiro, in the period from January of 1895 to January of 1900. The review had José Veríssimo as director and main collaborator.

Revista Brasileira (Brazilian magazine). Graça Aranha. João Ribeiro. Literature

Autor e Texto Author - Text

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José Cavalcante de Souza*

DE POLÍTICA E LITERATURA NA REVISTA BRASILEIRA

POLITICS AND LITERATURE IN THE ‘REVISTA BRASILEIRA’

. . . “ e n t r e t o d a s a s i n j u s t i ç a s nenhumas clamam tanto ao céu como as que tiram a liberdade aos que nasceram livres, e as que não pagam o suor aos que trabalham; e estas são e foram sempre os dois pecados deste Estado, que ainda tem tantos defensores”.(Pe. Antônio Vieira)

Interrogaste o lírio imaculado Interrogaste a flor da laranjeira Hoje interrogas o cipreste esguio ( A l p h o n s u s d e G u i m a r a e n s ) É incontestável, hoje em dia, a importância das revistas

* Doutor em Literatura pela Universidade de São Paulo.

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especializadas como veículo de divulgação de ideias e pesquisas das mais diferentes áreas do conhecimento. No passado recente de nossa história cultural, não foi diferente, e a atuação da Revista Brasileira da fase José Veríssimo, que se publicou no Rio de Janeiro, de janeiro de 1895 a janeiro de 1900, é do que afirmamos o melhor exemplo.

A procura contínua do saber prático, hoje em dia, que apesar da aparência modernosa, tem o ranço de ideias antigas, aliado ao vertiginoso desenvolvimento tecnológico, fazem com que, no geral, o homem moderno passe ao largo das fontes primárias do saber de um passado sequer distante. Estas ideias veiculadas por livros, jornais e revistas, hoje se desconhecem no todo ou em parte ou apenas delas se tem notícia de forma fragmentária ou de segunda mão, o que exclui a possibilidade de uma verdadeira reflexão, levando a não poucos enganos que fazem a humanidade sofrer ainda hoje, de forma vergonhosa, os equívocos do fim do século, que automaticamente passarão para a nova era do terceiro milênio. Por tudo isto, é de bom alvitre o retorno às fontes primárias de jornais e revistas, portadoras das ideias que precederam o que aí vai em questões de arte, ciência, filosofia, história e literatura. Este intuito nos levou à leitura sistemática da Revista Brasileira, de que foi diretor e principal colaborador José Veríssimo, como parte de um projeto mais amplo de pesquisa da Universidade de São Paulo, de que participou o nosso trabalho, que foi objeto de tese de Doutoramento, defendida junto àquela Instituição, em tempo que já vai longe, da década de 80.

O que foi a Revista Brasileira da fase de José Veríssimo? Melhor fora considerar antes de tudo, a importância de um veículo de comunicação que se constituiu em elemento catalisador de todas as forças vivas da inteligência do Brasil de fins do século passado. Esta entidade existiu.

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precederam e se substituíram, ao que se chamou em história literária, “a tradição das revistas”, que foi interrompida pelo excesso de pragmatismo e pela falta de espírito cívico que sempre caracterizou a política cultural brasileira.

A R e v i s t a d e 1 8 9 5 f o i u m a p u b l i c a ç ã o , d e início,quinzenal de 64 páginas, depois mensal, que, devidamente encadernada, após os cinco anos em que existiu, de janeiro de l895 a janeiro de 1900, perfaz 20 volumes de aproximadamente 300 páginas cada um.

De seu espírito nos diz o próprio diretor: “Um órgão inteiramente independente de escolas, partidos e filosofias. Não pertence a nenhum grupo ou parceria, não publica senão inéditos e deixa aos seus colaboradores, sob sua inteira responsabilidade, a máxima liberdade na exposição de suas ideias, na manifestação de seus sentimentos.

Largamente enciclopédica os seus leitores acharão nas suas páginas, romances, novelas e contos, poesia, teatro, ciência pura e aplicada, questões de jurisprudência, medicina e engenharia, estudos de arte e de literatura, crítica, história, filosofia...”1 Dos 96 números da Revista Brasileira que, como

vimos, versam sobre os mais variados assuntos e que para estudá-los os classificamos e subdividimos em temas mais específicos, escolhemos o fascículo de número 74, por enfocar matéria de permanente atualidade sobre política e literatura, isto é, o velho tema do capitalismo e socialismo e o da importância da literatura brasileira no final do século XIX. Consideremos em primeiro lugar a questão literária.

Na noite de 22 de dezembro de 1897 Graça Aranha proferiu em Buenos Aires conferência sobre o estágio da literatura brasileira em sua época. Em nota, a Revista esclarece que o autor fora “colhido de surpresa em plena

1-REVISTA BRASILEIRA, IV ano, tomo XII, Sociedade Revista Brasilei-ra, Rio de Janeiro, 73º fascículo, 15 de janeiro de 1898, 1ª página, não numerada.

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viagem de recreio”, pelo que não pôde dar um quadro completo da literatura brasileira, o que não diminui, a nosso ver, a importância do texto da palestra pois, como os demais da Revista, além do interesse específico do conteúdo e de serem até então material inédito, apresentam linguagem, estrutura e método que demandam atenção do leitor de hoje, sobretudo quando se trata de crítica e história literária.

Inicia o autor de Canaã, justificando-se por expressar-se em português, aproveitando a ocasião para discorrer sobre a importância da língua pátria como facilitadora da comunicação admitindo a dificuldade e incômodo, sobretudo para o ouvinte e falante nativo, da expressão em língua estrangeira: “dou-vos assim uma prova do íntimo respeito não perturbando com a estranha aspereza da minha pronúncia o que há de cristalino, de sonoro, de nobre, de meigo no vosso idioma”2. E sugere, no alto estilo

que lhe é próprio, que este caráter misterioso e íntimo de uma língua não deve ser violado por um falante estrangeiro.

Introduzindo o tema, lembra que um dos excelentes críticos argentinos da revista La Biblioteca já iniciara o público argentino na literatura brasileira. Reporta-se a Martín Garcia Mérou que publicara em 1896, na mencionada revista, artigo sob o titulo: El Brasil Intelectual - Impressiones. Ao definir Graça Aranha os aspectos diferenciadores das duas culturas e literaturas, detém-se na análise do estranhamento recíproco entre os brasileiros lusófonos e os hispano-falantes, sobretudo os vizinhos argentinos. E a diferença, deixa explícito, não é só linguística, mas cultural. Embora não aprofunde a argumentação, declara que, em relação aos hispano-americanos, “somos, como os Japoneses ou os Escandinavos, os exóticos”3.

Deixa claro que não sabe bem qual destino aguarda

2-REVISTA BRASILEIRA, IV ano, tomo XIII, Sociedade Revista Brasilei-ra, Rio de Janeiro, 74º fascículo, 15 de fevereiro de 1898, p.181.

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o Brasil do futuro: “No princípio era o caos. Não sei qual será a trajetória da nossa evolução, se sairemos da matéria cósmica inicial como um grande corpo ou se nos iremos desagregando em asteroides pela via láctea dos povos”4.

Mas quaisquer que sejam as diferenças e também o futuro do Brasil e dos brasileiros, o elemento unificador é a língua, a eloquência e a paixão literária. E aqui passamos a palavra ao autor nesta longa citação literal que serve também para ilustrar o seu próprio estilo bem como o conteúdo tratado:

“Somos um povo de homens de letras: não quer isto dizer que sejamos grandes escritores, grandes poetas ou oradores; apenas significa que temos em alta dose, talvez com prejuízo de mais vitais energias, a sensualidade da frase. Sentir nas palavras toda a melodia da alma, receber pela pilha dos vocábulos, como em uma descarga elétrica, todas as sensações esquisitas, refinadas que levam à desesperação, ao amor, à ilusão, à realidade; transportar pela única força misteriosa da frase o nosso ser a todas as situações emotivas é um grande deleite, a magia que nos encanta e nos prende insolúveis. Vivemos da forma. Para saboreá-la melhor, separamo-la do pensamento, e com que delícia não contemplamos as transformações por que passou a frase antiga, simples, lapidária, límpida, até chagar ao complicado período moderno, em que a palavra é feita de música, impregnada de pintura, e carregada de eletricidade. Gozamos da voluptuosidade destas várias estruturas da frase, como se encantam outros em

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admirar os estilos da arquitetura. Tem para nós todas as seduções delicadas e raras, como se fora uma rosa que cultivamos no jardim, uma mulher que se insinua em nossos nervos, ou uma saudade que a nossa alma evoca”5.

E reporta-se a dois importantes fatos para confirmar “esta paixão literária, retórica ou decadente”, segundo suas palavras. O primeiro foi a então recente fundação da Academia Brasileira de Letras, “em meio de tribulações políticas tão graves”, mas em que prevaleceu o “instinto conservador da nossa vocação literária”. O outro fato a confirmar a tese do amor às letras é o colóquio vespertino da Revista Brasileira. E aqui convém passar novamente a palavra ao próprio Graça Aranha:

“Todas as tardes no Rio de Janeiro, antes que o sol transmonte, um grupo de homens se reúne em uma pequena e modesta sala. É o five o’clock tea da Revista Brasileira, refúgio suave, tranquilo da tormentosa vida fluminense. Houve desordens no parlamento? As forças do exército e da marinha estão se batendo? Há estado de sítio? Há assassínio político? Que importa! Recolhemo-nos àquele retiro e reciprocamente nos infiltramos de fluidos intelectuais. Não penseis que seja uma atitude, um gesto desdenhoso de estetas indiferentes. Não, os que ali vão, são de vários aspectos morais; ao lado dos poetas, dos puros literatos, encontram-se os políticos, os oradores, os pensadores em geral. E todos vão esquecer suas tristezas,

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vão confundir-se, admirar os mestres, e engolfar-se no abandono sedutor da palestra. E é por esta confraternização inteligente, que não temos lugar entre nós para o inimigo literário. Talvez se não acredite, mas no fundo das relações dos nossos homens de letras há uma rara e feliz porção de solidariedade, que os faz suportarem-se uns aos outros nas diversidades dos temperamentos”6.

Feitas estas considerações e depois de deixar claro que não pretende tratar do espinhoso problema, que é o conceito de literatura, propõe-se a falar apenas de homens que representem a cultura brasileira pelo lado artístico e destes tão somente se ocupará dos vivos.

Lamenta que por força das circunstâncias tenha que, em duas palavras, fazer-lhes a psicologia inteira, como num “cinematógrafo literário”. E diz que, com o aval de José Veríssimo, Sílvio Romero e Araripe Júnior, ocupar-se-á dos nomes que “melhor sintetizam as completas qualidades da cultura brasileira”: Machado de Assis, Rui Barbosa e Joaquim Nabuco.

A crítica que faz de Machado, do escritor, refletido sobretudo em Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, é das mais penetrantes e elucidativas, tendo já há cem anos, identificado características em sua obra que a crítica posterior veio referendar. Aqui diremos apenas que nele reconhece o psicólogo revestido por uma forma “irônica, satírica, cruel” e que encontrou nos livros “extraordinários e dolorosos” de Anatole France, L’Orme du Mail e Le Manequin d’Osier, “alguma coisa de novo e de original no processo do romance” que já vira em Machado de Assis.

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E como se propusera a ilustrar a crítica com documentos, transcreve o texto O delírio das Memórias Póstumas, a impressionante descrição que faz Machado do protagonista. Este se transforma em um barbeiro chinês, na Suma Teológica, para finalmente recuperar a forma humana e, montado num hipopótamo, transportar-se para o início e fim dos séculos, e da estranha montaria contemplar os espaços mais longínquos e inusitados, como o das planícies de neve, mas sobretudo observar o passar vertiginoso do tempo, em que desfila com suas grandezas e misérias a raça humana. Ao despertar, o personagem constata que o hipopótamo não era senão o gato sultão que “brincava à porta da alcova, com uma bola de papel”7.

Continuando a sua fala, nomeia Rui Barbosa que considera a segunda pessoa da “santíssima trindade” da literatura brasileira, que se completa com Joaquim Nabuco. De Rui Barbosa afirma que “é um publicista, um polemista formidável, um escritor épico, é um doutrinário”8. Deixa

explícito o valor linguístico e o caráter enciclopédico de seu saber, como se pode observar nesta citação, que fazemos para que, como em outras passagens deste escrito, se possa sentir o estilo da versão original do autor de Canaã, que assim se refere à obra de Rui Barbosa:

(...) “se por um desses cataclismos imaginários, se queimassem os livros dos atuais autores da língua portuguesa e só escapassem os seus, a posteridade cuidadosa poderia restaurar quase toda a língua, que hoje falamos, no que há de mais puro, copioso e forte, e bem compreender a cultura contemporânea no que tem de solene e superior”9.

Dos fatos que refere como os mais dignos de nota da

7-Idem, ibidem, p. 191. 8-Idem, ibidem.

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vida e obra de Rui Barbosa, o primeiro é o do julgamento do capitão Dreyfus de cujo processo e errônea condenação Rui pedira em nome da humanidade, revisão. Esse fato, diz o conferencista, a França não desconheceria se “lesse os livros sul-americanos”. Para concluir o discurso de Rui sobre a história política da Argentina, que o conferencista lê para o seu público, registramos o juízo definitivo que faz o publicista baiano sobre Manuel Rosas, cujas qualidades de político avalia por estas palavras: “A minha conclusão, pois, é que só os ideais de Rosas são os duradouros”.

A terceira pessoa da “santíssima trindade” da literatura brasileira de que se ocupa ainda o conferencista é Joaquim Nabuco. O perfil físico e moral que dele nos faz, com a autoridade de quem é seu contemporâneo, confirma o que nos passa hoje o seu biógrafo, Luís Viana Filho (Revista Veja de 18/8/1999), com o título Quincas, o Belo. São estas as palavras de Graça Aranha:

(...) “varonilmente belo, com seu semblante apolíneo, com um sorriso superior, em uma atitude fidalga, e se fizéssemos todos um esforço, ouviríamos pela sugestão da memória, a sua voz timbrada, volumosa e vibrante. Quero dizer que o Sr. Nabuco, é um conjunto de perfeições naturais, é um desses excelentes exemplares humanos em que todos folgam de reconhecer o tipo de raça em seu esplendor, um magnífico conjunto de superioridade coletiva10”...

Destas qualidades salienta a do pensador político cheio de ideias e que é a um tempo um generalizador com grande capacidade de síntese que vê “todos os fenômenos da sociedade, através de uma equação pessoal”. Este seu olhar de político e filósofo se pode constatar, sobretudo, em seu livro Balmaceda que começou a publicar nas páginas da Revista Brasileira. O texto de Nabuco, que utiliza Graça Aranha como exemplo para seus ouvintes, trata da ideia de

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pátria, vivida e sentida por um marinheiro e por um soldado do exército. Demonstra e por fim conclui que o marinheiro vivencia o sentimento de pátria de maneira mais profunda que o soldado. E isto porque aquele vive distante e carente dos seus e de sua terra, em contato com povos estranhos, acontecendo o inverso com o soldado do exército, que não se afasta da sua pátria e de seu país, não avaliando devidamente tudo o que tem ao redor de si.

Por último vai procurar outras qualidades do autor de Minha Formação no discurso da fundação da Academia Brasileira de Letras quando este “justifica todas as imperfeições desta fundação com uma dialética de advogado diabólica”, e argumenta: “há um momento em que, vendo-se diante de uma mocidade cristalizada em acadêmicos, sorri e a defende deste modo11”... E exemplifica Graça Aranha

com trecho que lê do referido discurso publicado num dos primeiros boletins da A.B.L, bem como na Revista Brasileira (fascículo de no. 63, tomo XI, de 1º de agosto de 1897). Eis as palavras de Nabuco:

“Havia também que atender à representação igual dos antigos e dos modernos. Uma censura não nos hão de fazer: a de sermos um gabinete de antigualhas. A Academia está dividida ao meio, entre os que vão e os que vêm chegando; os velhos, aliás sem velhice, e os novos; os dois séculos estão bem acentuados, e se algum predomina, é o que entra; o século XX tem mais representação entre nós, de que o século XIX. Quanto a mim, já tomei o meu partido... Uma vez me pronunciei entre os dois e como o fiz no livro de uma jovem senhora do nosso patriciado, pedir-lhe-ei licença para reproduzir, creio

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que nos mesmos termos, essa minha última profissão de fé. Nascido, dizia eu, em uma época de transição, prefiro em tudo, arte, política, religião, ligar-me ao passado, que ameaça ruína, do que ao futuro que ainda não tem forma. É apenas, como vedes, uma preferência; resta-me ainda muita simpatia pelas quimeras que disputam umas às outras o toque da vida e muita curiosidade pelas invenções e revelações iminentes.” (Boletim da Academia Brasileira de Letras: setembro de l897).

No domínio da crítica literária também destaca três nomes da segunda trindade, como diz. São eles: Silvio Romero, José Veríssimo e Araripe Júnior. Depois de salientar que a história da cultura brasileira de seu tempo vive a idade da crítica, aborda de forma sucinta a obra de Sílvio Romero, tendo destacado a História da Literatura Brasileira em que “examinou a obra de arte como um resultado de múltiplos fatores, que formam a personalidade do escritor” e em que “generalizou a psicologia do brasileiro12”.

Passa depois a ocupar-se de José Veríssimo, “o verdadeiro impulsor da nossa literatura”, sobretudo como diretor da Revista Brasileira, “o maior centro das simpatias literárias”. E continua: é ele superior a todos os “preconceitos de escolas, de raça, de política, de nacionalidade; nada o limita, nem o diminui”, o que fica comprovado ao ler trecho do periódico, “um folheto de poucas páginas”, em que Veríssimo discorre em “estilo amplo, harmonioso, sonoro”, sobre as “atuais tendências da arte”, o simbolismo. Refere-se à crítica que publica ele nos nº 55 e 56, de 1º e 15 de abril, tomo X, de 1897, da Revista Brasileira, sob o título: “Um romance simbolista. A propósito de Giovannina do Sr. Afonso Celso”.

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