2.2 ADOÇÃO DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO
2.3.7 Teoria Ator-Rede (TAR)
A Teoria Ator-Rede (TAR) tem origem no campo de estudo da sociologia da ciência. Os principais estudos seminais foram desenvolvidos por Bruno Latour, John Law e Michel Callon que teorizaram a Ator-Rede com objetivo de conhecer processos condutores da formação e transformação de redes sociotécnicas. Tem como foco a compreensão dos atores- chave que interagem e constroem redes heterogêneas, formadas por atores (ou atuantes) humanos e não-humanos. Tais redes são constituídas por alianças e mobilizam recursos, a partir do momento em que são dedicadas a transformar ideias em realidade. (SANTOS, 2005)
Elbanna (2012) evidencia que na Ator-rede, para se alcançar um determinado objetivo, deve-se criar uma rede de alianças leais. Nessa teoria há uma visão diferenciada da sociedade, formada por uma rede de humanos e não-humanos que interagem e cooperam para o alcance de objetivos. Por outro lado, Freire (2006) esclarece que enquanto rede, no contexto da internet, faz referência ao transporte de informações, sem sofrerem quaisquer deformações, por longas distâncias, na teoria Ator-Rede, a noção de rede está vinculada a fluxos, alianças e circulações, em que atores envolvidos sofrem interferências constantes e também interferem no contexto da rede. Nesse sentido, a noção de rede não é reduzida à ideia de vínculo, pois, na verdade, busca destacar a ação dos atores presentes nas redes.
Essa teoria tem sido aplicada em pesquisas da área de Sistemas de Informação por cerca de uma década. Entretanto, quando aplicam essa teoria, os pesquisadores da área de SI ainda enfrentam dificuldade em convencer a comunidade acadêmica da relevância e contribuição dessas análises. A TAR tem sido aplicada em SI em áreas como: implementação de sistemas, mudança organizacional, desenvolvimento de sistemas, infraestrutura de TI, tendo como
objetivo conhecer os processos que conduzem à construção e transformação de redes sociotécnicas (ELBANNA, 2012).
O conceito de ator na TAR tem suas peculiaridades e merece ser esclarecido. Primeiramente, é essencial a diferenciação do significado tradicional de ator social presente na Sociologia. Para Latour, ator é tudo aquilo que age, produz efeito no mundo e deixa traço. Dessa maneira, refere-se a pessoas, instituições, animais, objetos, máquinas ou coisas. Em essência, são considerados atores os elementos que produzirem efeito na rede, sendo modificados ou modificando-a. Sendo assim, estes elementos são os que farão pauta da descrição de uma rede na perspectiva da TAR. Entretanto, não é possível, a priori, antecipar quais atores produzirão efeito em uma rede. Quais atores se movimentam e farão diferença? Essa resposta só pode ser buscada a partir do acompanhamento da dinâmica de movimentos da rede em análise (FREIRE, 2006).
Essa teoria é usada, principalmente, para estudos que buscam entender fenômenos sociais, a exemplo do estudo de Freire (2006), que buscou descrever o processo de uma intervenção do Favela-Bairro em Acari-RJ, tendo como foco de pesquisa não apenas identificar vínculos e alianças construídas no entorno de uma intervenção, a exemplo da aliança entre a prefeitura e as associações de moradores que possibilitava interação entre moradores e agentes comunitários de habitação, mas, principalmente, o foco esteve na descrição de efeitos produzidos pelos vínculos. Assim, foi possível perceber mudanças ocorridas no projeto de urbanização inicialmente proposto. Tais mudanças foram fruto de negociações entre prefeitura e presidentes de associações. Dessa forma, foi possível perceber as novas formas de apropriação e uso do espaço público da favela por parte dos moradores, principalmente a partir da atuação de agentes de habitação junto aos morados locais.
O estudo social também tem sido aplicado às tecnologias da informação e é visto como uma corrente híbrida do campo de estudo da área de Sistemas de Informação. De fato, a área é peculiar e possui diversas fronteiras, entre estudos de áreas como computação aplicada e administração. Recebe influência de várias disciplinas e almeja a expansão do corpus dominante das pesquisas em Sistemas de Informação. Expandir fronteiras é necessário, pois, tradicionalmente, pesquisas em SI estão fundamentadas a partir de visão técnica/racional. De modo que a riqueza dos fenômenos em estudo em SI leva o pesquisador a se deparar com diversos atores e interesses, suscitando a necessidade de lentes teóricas de base social e o campo de pesquisas em SI tem recebido influência da teoria social.
Em estudo longitudinal sobre 10 anos de Internet Banking em um banco brasileiro, Diniz e Santos (2013) justificam a relevância de uso de uma teoria social, no caso a Ator-rede,
pois, apesar da importância do fenômeno da introdução de serviços bancários pela internet, a incorporação dela em ambiente bancário merece ainda atenção especial. Isso ocorre em virtude de que boa parte dos estudos que abordam o fenômeno Internet banking, já publicados, dão destaque aos aspectos tecnológicos e econômicos, revelando pouco sobre como se dão os processos de incorporação tecnológica, dentro de uma perspectiva de superação de conflitos culturais, no ambiente interno da organização. Ainda, como se dá o confronto em relação a ambientes tecnológicos estabelecidos e de que forma são superadas as resistências e adversidades no caminho de consolidação da tecnologia na organização como um todo (DINIZ; SANTOS, 2013).
Os autores supracitados acreditam que apesar de estarem diante de caso bem-sucedido de adoção e uso estratégico de tecnologia da informação, já que a utilização que os bancos brasileiros têm feito da Internet já é fato, não se pode desconsiderar as dinâmicas e movimentos dos atores que levaram a tal sucesso, sob risco de simplificar um processo organizacional complexo. Por fim, os autores concluem que os “argumentos levam a sugerir que o Banco estará tão intimamente vinculado à Internet que, provavelmente a palavra ‘Banco’ englobará a noção de serviços e produtos bancários pela Internet”. Conforme pode ser ilustrado (Quadro 7) no aumento da movimentação financeira que esse serviço gerou nos últimos 10 anos no caso analisado (DINIZ; SANTOS, 2013, P.40).
Quadro 7 - Evolução da movimentação dos canais de atendimento bancário
Fonte: Diniz e Santos (2013)
Os autores concluem o estudo desenvolvido, sinalizando a diversidade de atores envolvidos no processo de uso e consolidação do serviço de Internet banking, já que o mesmo tem sido uma tecnologia relevante para a organização. Ainda, evidenciam que na perspectiva da Ator-Rede, foi possível estudar a dinâmica e estratégias envolvidas para sustentar tal consolidação. A partir das narrativas dos atores investigados, observou-se a heterogeneidade dos envolvidos, bem como a constante movimentação dos mesmos em busca de seus objetivos (DINIZ; SANTOS, 2013).