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CAPÍTULO I: TEORIAS SUBJACENTES AO CONSTRUCTO MULTIDIMENSIONAL

1. Delimitação do campo de estudo 16

1.1 Teorias subjacentes à definição do constructo locus de controlo 18

1.1.1 Teoria da Aprendizagem Social de Rotter 19

S

egundo a perspectiva behaviorista (ou comportamentalista), todas as formas de comportamento podem ser aprendidas, realizando-se essa aprendizagem por intermédio de mecanismos de condicionamento clássico (centrado na associação temporal de certos acontecimentos) e de condicionamento operante (centrado nas consequências, ou seja, nos efeitos positivos ou negativos desse comportamento). Aceita, assim, o determinismo do ambiente sobre o sujeito. Esta perspectiva explica a aprendizagem, sem tomar em consideração o efeito específico dos contextos sociais. Contudo, compreender a forma como o aluno aprende implica, entre outros aspectos, atender às suas expectativas, ao seu interesse pelos temas ou às crenças individuais e familiares em relação ao valor da escola. Contrariamente aos behavioristas, os cognitivistas acreditam que os indivíduos possuem valores, opiniões e expectativas em relação ao mundo que os rodeia, tendo por base as suas representações internas.

No final da década de 60 do século XX, passou a aceitar-se que os fenómenos mentais podiam ser inferidos experimentalmente a partir dos comportamentos observados. O indivíduo é assumido como agente activo e causal do próprio comportamento. Atribui-se-lhe, como tal, um papel mais activo e admite-se que possui capacidades cognitivas que lhe permitem seleccionar e procurar, deliberadamente, alternativas de acção ou seja, está

capacitado para interpretar os estímulos e, por isso mesmo, com poder para decidir as suas

respostas. Em contexto escolar, a estrutura cognitiva e a rede de conceitos nela existente, determinam a capacidade do estudante para compreender novas ideias e relações.

A perspectiva sociocognitiva defende que a aprendizagem não pode ser exclusivamente atribuída ao meio (como afirma o behaviorismo) ou ao sujeito (como defende a teoria cognitivista). O ser humano apenas pode ser compreendido a partir do estudo das interacções estabelecidas entre este e o seu meio, ou seja, a cultura e o meio social são dimensões intrínsecas do comportamento humano. Com efeito, parte da aprendizagem processa-se num ambiente social e cultural que contribui para orientar essas aprendizagens. Nesse sentido, as crenças dos alunos representam um material psicológico determinante para a compreensão dos processos de aprendizagem e da motivação. Incluem-se na orientação sociocognitiva as teorias defensoras da auto - regulação da aprendizagem que se situam no campo de estudo do controlo pessoal, nomeadamente, a teoria da aprendizagem social de Rotter, a teoria da auto- eficácia de Bandura e a teoria da atribuição causal de Weiner.

As teorias da aprendizagem social partilham o princípio de que as consequências de um comportamento influenciam a sua repetição e de que os processos cognitivos não directamente observáveis tais como, expectativas, percepções e crenças, exercem também influência sobre o comportamento. A teoria da aprendizagem social surge como uma forma de colmatar algumas lacunas existentes nas teorias anteriores; as que por um lado defendem que apenas os factores ambientais exercem influência sobre o comportamento e, como tal, desprezam os factores hereditários ou pessoais do sujeito, ou as que afirmam o inverso, que apenas os factores pessoais influenciam o comportamento, não dando qualquer importância à influência do meio. A Teoria da Aprendizagem Social toma em consideração os aspectos comportamentais, ambientais e cognitivos da aprendizagem humana, sem esquecer que esta se realiza, essencialmente, num meio social. Introduz, por isso, um conceito inovador - a aprendizagem por observação de modelos. Com efeito, um dos processos de aprendizagem mais relevantes do ser humano é a aprendizagem por observação ou imitação de modelos, ou seja, a aprendizagem social.

Julian Rotter (1954), ao combinar aspectos das teorias behavioristas (como a noção de reforço) e cognitivistas (com o conceito de expectativa), concebe a sua teoria do locus de controlo com o objectivo de identificar os factores pessoais e situacionais que determinam a conduta social humana. Este autor acreditava que os indivíduos se percebem como seres conscientes, capazes de mudar as próprias vidas. O comportamento é determinado por estímulos externos e pelo esforço investido, sendo a influência desses dois factores mediada

por processos cognitivos.Na sua teoria, Rotter (1966) defende que o ambiente pode controlar

o comportamento e acentua a ideia de expectativa, ou seja, que uma situação idêntica pode não ser valorizada do mesmo modo por dois indivíduos. Os sujeitos apresentam expectativas gerais que representam a relação entre o seu comportamento e o reforço - locus de controlo. É a partir das expectativas sobre os resultados prováveis do comportamento que os indivíduos se situam nos seus contextos de vida (Rotter, 1966). Se o aluno acreditar na relação entre o seu esforço e as classificações obtidas (mais horas de estudo e melhores métodos originam maior capacidade para lidar com os conteúdos da matemática), tenderá a aplicar-se mais, já que associa os resultados obtidos a essa dedicação. Na sua teoria distingue dois tipos de expectativas gerais, as quais podem diferenciar os alunos quanto ao seu tipo de auto-controlo - as expectativas de controlo interno e as expectativas de controlo externo. Contudo, a probabilidade de ocorrência de um comportamento depende também do valor subjectivo, ou seja, da importância e interesse que o indivíduo atribui aos resultados esperados, à situação ou à realização de uma tarefa - valor do reforço (valor da tarefa). Quando o aluno realiza uma determinada tarefa e se sente inseguro em completá-la, esta pode assumir um baixo valor reforçador.

Outro aspecto determinante no comportamento humano é percepção subjectiva da acção, das diferentes situações de vida ou da realidade, o significado subjectivo do ambiente (Jesus, 2000), ou o modo como o indivíduo vivencia as situações - situação psicológica. Rotter (1966) atribui grande importância à realidade subjectiva, definindo as situações tal como são vividas pelo indivíduo, de acordo com os significados que este lhe atribui. A sua teoria refere, assim, três conceitos: as expectativas, o reforço e a situação psicológica que, em conjunto, sustentam seis postulados da Teoria da Aprendizagem Social:

- As variáveis da personalidade e do meio influenciam-se mutuamente. “A unidade de investigação para o estudo da personalidade é a interacção do indivíduo com o meio significativo” (Barros, Barros & Neto, 1993, p.20);

- Os comportamentos sociais são objecto de aprendizagem e não determinados biogeneticamente ou seja, o comportamento humano não é inato mas sim aprendido;

- A unidade da personalidade é construída à custa de experiências variadas, vivenciadas pelo indivíduo;

- As variáveis situacionais, ou específicas (características da situação) e disposicionais (inerentes ao indivíduo nessa situação) são consideradas importantes e influenciam-se mutuamente;

situações. Devem, como tal, ser interpretados em função dos motivos que o determinaram.

Cada indivíduo apresenta um comportamento único, num determinado ambiente psicológico, podendo um mesmo reforço adquirir diferentes valores para os diferentes sujeitos, de acordo com o valor subjectivo que estes lhe atribuem em função das suas expectativas.

- A importância das expectativas, em interacção com o reforço, determinam a probabilidade de um comportamento ocorrer (Barros, Barros & Neto, 1993). O modelo comportamental de Rotter premeia a reflexão de que o comportamento humano está orientado para resultados, de tal modo que o ser humano realiza uma acção na esperança de obter algo em troca. Nesse sentido, duas variáveis determinam a acção dos indivíduos: o valor da recompensa e o que se espera pela recompensa.

Em suma, o locus de controlo (externalidade ou internalidade) não constitui um traço de personalidade, mas poderá ser considerado uma tendência predominante do indivíduo em resultado de crenças aprendidas. Depende da história pessoal e da percepção que o sujeito tem do que lhe foi acontecendo ao longo da vida. Nas palavras de Vala (1993), “as crenças que sustentamos têm origem em informações obtidas directa (através da nossa experiência pessoal) ou indirectamente (através da interacção com os outros) ” (p. 185).