2 A MÚSICA COMO RECURSO TERAPÊUTICO COMPLEMENTAR
3 TEORIA DO CUIDADO TRANSPESSOAL DE JEAN WATSON: modalidades
transpessoais de cuidar-curar
Antes de eu começar a trazer comigo para o hospital, a minha sala de estar, eu era apenas mais uma doença. Os enfermeiros entravam no quarto com frequência e nunca me olharam nos olhos. Após eu ter trazido obras de artes e música, estes começaram a notar as pinturas, e a fazer perguntas acerca da música. Tornei-me numa pessoa para eles em vez de ser outra doença. Watson (2002b, p.194) apud McNiff (1992)
A Teoria do Cuidado Transpessoal de Jean Watson (1940) é utilizada como base teórica para o entendimento dos dados qualitativos, deste estudo, por considerar que essa teoria propõe, com base também no Metaparadigma de Florence Nightingle, que as artes são modalidades transpessoais de cuidar-curar, sendo essenciais ao tratamento holístico. Essas modalidades, por sua vez, “são também medidas de conforto, que servem para controlar a dor, acalmar e relaxar, e para ajudar a criar um sentido de bem estar, através do qual a cura natural pode ocorrer e o processo natural de reparação pode ser facilitado”. (WATSON, 2002b, p. 201).
A autora também acredita que, ao incorporar a arte no ambiente diário, a ela ajudará os enfermos e profissionais a recordarem a alma e os anseios profundos, pelas mensagens que afirmam a vida, sendo, portanto, imprescindível para a humanização e revitalização dos cuidados de saúde oferecidos, principalmente, aos idosos em cuidados paliativos.
Dessa forma, as modalidades transpessoais de cuidar-curar, como as auditivas, visuais, olfativas, táteis e gustativas, entre outras, permitirão novas relações entre a arte e a cura, bem como, atenderão às “doenças da alma e do psíquico” e do corpo físico. (WATSON, 2002b, p. 195).
Margaret Jean Watson nasceu na Virgínia Ocidental nos Estados Unidos, em 1940, porém reside, atualmente, na cidade de Boulder, no Colorado, desde 1962. Obteve o diploma da Graduação em Enfermagem e Psicologia, pela Universidade do Colorado, bem como, o Grau de Mestre em Enfermagem em Saúde Mental - Psiquiatria e o de doutorado em psicologia educacional e aconselhamento. (WATSON, 2002b).
Dessa maneira, Doutora e professora de Enfermagem, Watson foi Diretora da Escola de Enfermagem da Universidade do Colorado, local onde é atualmente Professora Emérita de
Enfermagem e fundadora do Center for Human Caring 30, desde 1986. Escreveu seu primeiro livro, Nursing: the philodophy and science of caring, em 1979, o qual, segundo ela: "surgiu a partir de minha busca para trazer um novo significado e dignidade para o mundo da Enfermagem e da assistência ao paciente". (WATSON, 2007, p. 130).
Como membro da Academia Americana de Enfermagem, Watson recebeu vários prêmios nacionais e internacionais. Possui numerosos trabalhos publicados, que descrevem a sua filosofia e a Teoria do Cuidado Humano, os quais são estudados por enfermeiros (as) em várias partes do mundo. (TOMEY; ALLIGOOD, 2004).
No seu primeiro livro, Nursing: the philosophy and science of caring, a autora apresenta o núcleo original e a estrutura para a Teoria do Cuidado Humano, que segundo ela, a base nas ciências humanas aliadas às bases científicas pode auxiliar as (os) enfermeiras (os) a ampliar a visão e perspectivas do mundo, além de desenvolver habilidades do pensamento crítico, sendo este necessário à ciência do cuidado, que tem como foco a promoção da saúde e não a cura da doença. Para Watson (2002b), a cura é do domínio da medicina, enquanto a atitude do cuidado pertence à Enfermagem, estando esse cuidado ameaçado pelas tarefas e exigências tecnológicas.
Entende-se, desse modo, que a Teoria de Jean Watson direciona-se para a realidade dos idosos sob cuidados paliativos, os quais apresentam uma doença não transmissível e progressiva, que não responde mais às terapêuticas curativas.
Além disso, Watson (2005) traz que ao se trabalhar com pessoas em momentos de desespero e vulnerabilidade, como as (os) enfermeiras (os) que atuam com idosos sob cuidados paliativos, estas são desafiadas a aprender novamente e a reexaminar o próprio significado da vida e da morte. À medida que isso é efetivado, nos envolvemos em um processo autêntico, de modo a cultivar e sustentar práticas de cuidado de si e dos outros.
Nesse sentido, no momento atual, a Enfermagem parece estar respondendo às várias exigências do maquinário, com menor consideração às necessidades da pessoa, que está presa à máquina. Para a teorista em questão, o cuidado é a essência da Enfermagem e exprime sensibilidade entre a (o) enfermeira (o) e a pessoa, ou seja, a (o) enfermeira (o) coparticipa da relação de cuidar.
Para isso, Watson revela os 10 Carative Factors, onde o termo carative foi introduzido, no intuito de se opor a palavra “curativa”, própria do modelo dominante e
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O Center for Human Caring foi o primeiro centro interdisciplinar com o compromisso global de desenvolver e propagar o conhecimento do cuidado humano e cura, como base para a transformação do sistema de saúde afirmando e sustentando atividades humanas que cuidam e a cura como base moral e científica da prática clínica.
tradicional da ciência médica. (WATSON, 2007). Neste estudo, bem como no de Santos (2012), optou-se por conservar o termo, Carative31 Factors, no seu idioma de origem, por acreditar que a tradução não expressaria o sentido real da palavra, em latim.
As referências dos humanistas existenciais foram utilizadas por teóricos como Maslow, Rogers, Heidegger, Merleau-Ponty e Erikson, assim como nas Teorias de Selye e Lazarus, quando delineia o estresse e o cuidado, somando-se as teorias de Leininger e Henderson, voltadas para o conhecimento em Enfermagem. (TOMEY; ALLIGOOD, 2004).
Para ciência do cuidado na Enfermagem, Watson propõe sete premissas básicas as quais foram utilizadas para construção dos 10 Carative Factors e, são apresentadas a seguir: (1) O cuidado pode ser efetivamente demonstrado e praticado apenas de modo interpessoal; (2) O cuidado consiste em fatores de cuidado que resultam na satisfação de certas necessidades básicas; (3) O cuidado eficiente promove saúde e crescimento individual ou familiar; (3) As repostas de cuidado aceitam uma pessoa não apenas como ela é, mas como aquilo que ela pode vir a ser; (5) Um ambiente de cuidado é aquele que proporciona o desenvolvimento do potencial, ao mesmo tempo em que permite à pessoa escolher a melhor ação para si mesma, num determinado ponto no tempo; (6) A ciência do cuidado é complementar a ciência da cura. A prática do cuidado integra o conhecimento biofísico ao conhecimento do comportamento humano para gerar e promover saúde, e para propiciar auxílio àqueles que estão doentes e (7) A prática do cuidado é fundamental à Enfermagem.
Registra-se que, além disso, na perspectiva de Watson, os principais pressupostos são:
Quadro 4- Principais pressupostos da Teoria Transpessoal de Jean Watson
Fonte: SILVA, R., SILVA, M.J.P. Enfermagem e os cuidados paliativos. In: SILVA, R., AMARAL, J.B., MALAGUTTI, W.
Enfermagem em cuidados paliativos: cuidando para uma boa morte. São Paulo: Martinari, 2013.
Assim, essa primeira obra de Jean Watson concentra-se na área do cuidado prestado às pessoas e perdas, direcionando o foco principal da Enfermagem para o Carative Factors, que derivam de uma perspectiva humanista, combinada com conhecimentos científicos. Os dez fatores básicos que formam a estrutura da teoria de Watson, compreendem:
FATOR 1 – Formação de um sistema de valores humanístico-altruístas:
Consistem em valores compartilhados pelos pais, as próprias vivências, crenças, culturas e experiências, que são necessárias para o amadurecimento, os quais refletiram na prestação do cuidado e podem ser influenciadas pelas enfermeiras-educadoras. Por fim, esse fator pode ser definido como uma satisfação, através da qual pode se dar uma extensão do sentido de um mesmo.
FATOR 2 – A instalação de fé-esperança:
Por incorporar valores humanísticos e altruístas, esse fator “facilita a promoção do cuidado de enfermagem holístico e do cuidado positivo, em uma população de pacientes”. Além disso, “descreve o papel da (o)
ENFERMAGEM Ciência humana da pessoa e das experiências de saúde/doença, com foco na promoção e recuperação da saúde, bem como na prevenção e tratamento de doenças por intermédio do cuidado transpessoal humanístico.
PESSOA Ser dotado de valor a ser atendido, respeitado, nutrido, compreendido e auxiliado, necessitando de valorização e respeitado na sua essência, objetivando um cuidado integral.
SAÚDE Inter-relacionamento entre mente, corpo e alma, aliando a coerência entre o “eu percebido” e o “eu vivenciado”.
AMBIENTE Espaço físico, onde habitam a pessoa, família e comunidade, influenciadas por fatores culturais e sociais.
enfermeira (o) no desenvolvimento das inter-relações eficazes enfermeira-paciente e na hora de promover bem-estar, ajudando ao enfermo para que este adote condutas que buscam a saúde”. Entretanto, quando a ciência moderna nada mais puder oferecer à pessoa, a (o) enfermeira (o) poderá utilizar alternativas, como meditação e crença no self ou no espiritual, no intuito de oferecer sensação de bem-estar, através das crenças significativas para o indivíduo.