Segundo esses autores, aquele que foi “um mendigo e um assassino, desde o começo”, foi também o promotor principal dos fenômenos espirituais. Ele esteve durante milhares de anos à frente da teurgia pagã; foi ele, novamente, que, encorajado pelo aumento das heresias, da infidelidade e do ateísmo, fez sua reaparição no nosso século. A Academia Francesa ergueu a sua voz num grito geral de indignação e de Gasparin tomou-o como um insulto pessoal. “É uma declaração de guerra, um levante de armas” – escreveu ele em seu volumoso livro de refutações. “A obra de de Mirville é um verdadeiro manifesto (...) Eu me contentaria em ver nele a expressão de uma opinião estritamente
pessoal, mas, na verdade, isso é impossível. O êxito da obra, estas adesões solenes, a sua reprodução fiel pelos jornais e pelos escritores da facção, a solidariedade estabelecida entre eles e todo o corpo católico (...) tudo tende a mostrar uma obra que é essencialmente um ato e que possui o valor de um
trabalho coletivo. Sendo assim, senti que tinha um dever a cumprir. (...) Senti
que era obrigado a tirar as luvas (...), a erguer alto e firme a bandeira protestante contra o estandarte transmontano.”9
9. Op. cit., vol. II, p. 524. [Ed. Ingl., II, p. 425.]
As faculdades de Medicina, como se poderia prever, assumindo o papel dos coros gregos, ecoaram as diversas reconvenções contra os escritores demonológicos. Os Medico-Psychological Annals, editados pelos Drs. Brierre de Boismont e Cerise, publicaram as seguintes linhas: “Exceto essas controvérsias das partes antagônicas, nunca em nosso século um escritor ousou enfrentar, com uma serenidade mais agressiva (...), os sarcasmos, o desdém do que chamamos de bom senso; e, como que para desafiar e provocar ao mesmo tempo explosões de risos e sacudidelas de ombros, o autor acentua a sua atitude e, colocando-se com audácia diante dos membros da Academia (...), dirige-lhes aquilo que a sua modéstia chama de Mémoire on
the Devil!”10
10. Annales médico-psychologiques, 1.º de Janeiro de 1854.
Isso foi um insulto cáustico aos acadêmicos, não há dúvida; mas desde 1850 eles parecem ter sido condenados a sofrer em seu orgulho mais do que a maioria deles poderia suportar. Que idéia a de chamar a atenção dos quarenta “Imortais” para as brincadeiras do Diabo! Eles juraram vingança e, aliando-se, propuseram uma teoria que excedeu em absurdo a demonolatria de de Mirville! O Dr. Rayer e Jobert de Lamballe – celebridades na sua área – formaram uma aliança e apresentaram ao Instituto um alemão cuja habilidade fornecia, de acordo com a sua afirmação, a chave de todos os ruídos e de todas as batidas de ambos os hemisférios. “Nós nos ruborizamos” – observa o Marquês de Mirville – “ao dizer que todo o artifício consistia simplesmente no deslocamento retirado de um dos tendões musculares das pernas. Grande demonstração do sistema em sessão plenária do Instituto – e no mesmo instante (...) expressões de gratidão acadêmica por sua interessante comunicação e, poucos dias depois, uma declaração formal dada ao público por um professor da faculdade de Medicina de que, tendo os cientistas formulado a sua opinião, o mistério estava finalmente desvendado!”11
Mas os esclarecimentos científicos não impediram que o fenômeno seguisse tranquilamente o seu curso, nem que os dois escritores sobre demonologia continuassem a expor as suas teorias estritamente ortodoxas.
Negando que a Igreja tivesse algo a ver com os seus livros, des Mousseaux gratificou a Academia, em acréscimo ao seu Mémoire, com os seguintes pensamentos interessantes e profundamente filosóficos sobre Satã:
“O Diabo é a coluna fundamental da Fé. É uma das grandes personagens cuja vida está intimamente ligada à da Igreja; e sem a sua fala, que saiu tão triunfalmente da boca da Serpente, o seu médium, a queda do homem não teria ocorrido. Assim, se não fosse por ele, o Salvador, o Crucificado, o Redentor seria apenas um ente ridículo e a Cruz, um insulto ao bom senso!”12
12. Chevalier des Mousseaux, Moeurs et pratiques des démons, p. x.
Este escritor, lembrai-vos, é apenas o eco fiel da Igreja, que anatematiza ao mesmo tempo aquele que nega Deus e aquele que duvida da existência objetiva de Satã.
Mas o Marquês de Mirville leva ainda mais longe as relações de Deus com o Diabo. Segundo ele, trata-se de um negócio comercial regular, em que o idoso “parceiro silente” tolera que o comércio ativo da firma seja conduzido segundo a vontade do seu sócio jovem, de cuja audácia e diligência ele se beneficia. Que outra opinião se poderia formular com a leitura das linhas seguintes? “Ao sobrevir a invasão espiritista de 1853, olhada com tanta indiferença, ousamos dizer que era sintoma ameaçador de uma „catástrofe‟. O mundo está, não obstante, em paz, mas nem todos os desastres têm os mesmos antecedentes, e tivemos o pressentimento dos tristes efeitos de uma lei que Görres formulara da seguinte maneira: „Estas aparições misteriosas precederam invariavelmente a mão punitiva de Deus sobre a Terra‟.”13
13.De Mirville, op. cit., p. 4, citando Görres, Die Christliche Mystik, vol. V, p. 356.
Esta guerrilha entre os campeões do clero e a materialista Academia de Ciências prova abundantemente quão pouco esta última fizera para desarraigar o fanatismo cego das mentes mesmo das pessoas mais instruídas.
Evidentemente a ciência não venceu, nem sequer refreou a Teologia. Ela só a
dominará no dia em que se dignar ver nos fenômenos psíquicos algo além de mera alucinação e charlatanismo. Mas como pode ela consegui-lo sem investigá-los a fundo? Suponhamos que antes da época em que o eletromagnetismo fosse reconhecido publicamente, o Prof. Oersted, de Copenhague, seu descobridor, sofresse de um ataque daquilo que chamamos
psicofobia ou pneumatofobia. EIe observa que o fio ao longo do qual circula
uma corrente voltaica apresenta a tendência de fazer a agulha magnética virar- se da sua posição natural para uma outra, perpendicular à posição da corrente. Suponhamos, além disso, que o professor tivesse ouvido falar de determinadas pessoas supersticiosas que utilizavam essa espécie de agulhas magnetizadas para conversar com inteligências invisíveis. Que recebiam sinais e até mantinham conversações corretas com elas por meio dessas agulhas e que, em consequência, ele sentisse de repente um horror científico e uma repugnância por essa crença ignorante e recusasse sem rodeios ter qualquer coisa a ver com essa agulha. Qual teria sido o resultado? O eletromagnetismo não teria sido descoberto até agora e os nossos experimentadores teriam sido os principais perdedores.
Babinet, Rayer e Jobert de Lamballe – todos membros do Instituto – distinguiram-se particularmente na sua batalha entre o ceticismo e o sobrenaturalismo e muito seguramente não colheram louros. Babinet, o famoso astrônomo, arriscou-se imprudentemente no campo de batalha dos fenômenos; quis explicá-los cientificamente, mas, aferrado à vã opinião, tão generalizada crença entre os cientistas de que as manifestações psíquicas não resistiriam mais que um ano, cometeu a imprudência de expô-los nos artigos que, como acertadamente observa de Mirville, apenas chamaram a atenção de seus colegas e de modo algum do público.
Babinet começou por aceitar a priori a rotação e os movimentos das mesas, fato que declarou estar “hors de doute”. “Esta rotação”, disse ele, “pode manifestar-se com uma energia considerável, seja por uma velocidade muito grande, seja por uma forte resistência quando se deseja que ela se interrompa.”14
14.De Mirville, op. cit., p. 28; Revue des deux mondes, 15 de janeiro de 1854, p. 108.
Agora temos a explicação do eminente cientista: “Suavemente empurrada por pequenas impulsões concordantes das mãos colocadas sobre ela, a mesa começa a oscilar da direita para a esquerda. (...) No momento em que, após um intervalo mais ou menos longo, uma trepidação nervosa se estabelece nas mãos e as pequenas impulsões individuais de todos os experimentadores se harmonizam, a mesa se põe em movimento”15
15. Repetição e variação da teoria de Faraday. [Ibid., p. 28.]
Babinet considera isso muito fácil, pois “todos os movimentos musculares são determinados nos corpos por alavancas de terceira ordem, para as quais o ponto de apoio está muito próximo do ponto em que a força age. Este, em consequência, comunica uma grande velocidade às partes móveis em busca
da pequena distância que a força motriz tem de percorrer. (...) Algumas pessoas se espantam ao ver uma mesa sujeita à ação de muitos indivíduos bem-dispostos e em conjunto, a vencer obstáculos poderosos e mesmo a quebrar as pernas da mesa quando interrompidos repentinamente; mas isto é muito simples se considerarmos o poder das pequenas ações concordantes. (...) Uma vez mais, a explicação física não oferece dificuldades”16.
16. Revue des deux mondes, p. 410 e 414.
Nessa exposição, dois resultados são claramente mostrados: a realidade dos fenômenos é provada e a explicação científica se torna ridícula. Mas Babinet permite que se ria um pouco às suas custas; ele sabe, em sua qualidade de astrônomo, que se pode encontrar manchas escuras até no Sol.
Há algo, entretanto, que Babinet sempre negou terminantemente, a saber: a levitação da mesa sem contato. De Mirville apóia-o, proclamando que tal levitação é impossível: “absolutamente impossível”, diz ele, “tão impossível quanto o movimento contínuo”17. Depois disto, quem se atreverá a crer nas
impossibilidades científicas? 17. Ibid., p. 414.
OS GÊMEOS – “CEREBRAÇÃO INCONSCIENTE” E O