Capítulo II – Perceção de risco e turismo
2.2. Dimensões de perceção de risco
2.2.1. Teorias do risco
No mundo ocidental vivemos atualmente no que Beck (2003) apelidou de “sociedade do medo e do risco”. Contudo, e paradoxalmente, a prevenção do risco tem evoluído de uma forma tal que instituímos uma cultura de “risco zero” (Heiderich, 2005). Entre os grandes riscos que vivemos, destacam-se sobretudo aqueles que se prendem com fatores tecnológicos, humanos e naturais, estes últimos com maior dificuldade de previsibilidade. A possibilidade de imputar responsabilidades à sociedade em geral faz com que grande parte dos riscos se tenha convertido numa questão social e política.
Não obstante a diversidade de definições propostas para explicar a perceção de risco, existem duas linhas centrais de investigação: a das ciências naturais e a das ciências sociais. As definições de caráter mais quantitativo, formal, convencional, matemático e probabilístico, tiveram origem em campos da economia, engenharia,
estatística e física. Nesta perspetiva, o risco refere-se a perdas que podem ser reduzidas a um valor numérico (Slovic, Fischoff & Lichtenstein, 2000).
Estudado durante mais de 50 anos, o conceito de risco provou ser difícil de operacionalizar. A grande razão reside no facto de o conceito ser socialmente construído e psicologicamente orientado (Slovic, 2000). Nas ciências sociais houve um interesse crescente na explicação da resposta humana face aos riscos, o que permitiu que alguns campos das ciências sociais passassem a investigar a questão concreta da perceção dos indivíduos ou comunidade face ao risco. As investigações sugerem novas componentes associadas à definição de risco, tais como: o choque, a ameaça, o perigo, o controlo e a incerteza (Althaus, 2005; Floyd, & Pennington-Gray, 2004; Law, 2006; Sjöberg, 2000).
Apesar de ser um termo comummente usado, o risco encerra em si diversos significados na perspetiva individual e em tempos historicamente diferentes. Este facto conduziu, como seria de esperar, a alguma controvérsia. No entanto, a única certeza é a de que o risco se constitui como parte integrante da vida quotidiana e das decisões que tomamos, individual ou coletivamente. Historicamente esteve intimamente ligado à área da economia desde o início do século XX, mais concretamente em 1920, e tornou-se muito importante no que toca às teorias da tomada de decisão e finanças (Han, 2005).
A teoria económica sugere que o termo risco implica o sentido de “ perda” (Reisinger & Mavondo, 2005, Sönmez & Graefe, 1998b). Kaplan, Szybillo e Jacoby
(1974) desenvolveram uma taxonomia do risco ligado à perda na área financeira, do desempenho, física, psicológica, social e temporal. O risco, numa linha mais economicista, pode ser visto na perspetiva de custo/benefício. No entanto, Slovic (2000) considera que esta perspetiva está muito ligada aos conceitos matemáticos, deixando de fora aspetos individuais importantes (como, por exemplo, a motivação, a experiência, a educação e a influência social ou cultural do grupo de referência).
Segundo Vlek e Keren (1991) caracterizar o risco numa perspetiva mais objetiva implica utilizar definições formais. Contudo, podemos abordar a definição de risco numa perspetiva mais construtivista que toma em consideração o significado dos seus aspetos pessoais, sociais e culturais, colocando, assim, mais ênfase no valor subjetivo. Desta forma, reforçamos a ideia do caráter multidimensional do risco, no sentido em que para além de uma dimensão numérica, quantificável, existe ainda um conjunto de outros aspetos qualitativos tomados em consideração pelos indivíduos quando julgam
um “risco”, a saber: a familiaridade, voluntariedade, efeitos imediatos ou a longo prazo, credibilidade das pessoas ou instituições responsáveis.
Na perspetiva do que acabamos de afirmar podemos depreender que o risco é um constructo social. Numa leitura social é difícil conceber o risco em termos de conceito objetivo e unidimensional. Contudo, Yates e Stone (1992) propuseram uma alternativa mais conciliadora, uma vez que consideram que uma das ideias de base presente nas diferentes definições é a de perdas ou danos que se podem exprimir pelo significado atribuído a essas perdas e à incerteza associada às mesmas. As perdas são avaliadas numa perspetiva subjetiva e podem ser agrupadas em múltiplas categorias (económicas, psicológicas, sociais, físicas, entre outras). Este aspeto conduz-nos à multidimensionalidade do risco. O seu significado subjetivo liga-se às atitudes, valores, motivações, expectativas e experiência de vida que permitem estabelecer a sua amplitude de análise. Neste caso, a dualidade entre peritos e leigos é importante, uma vez que estes últimos tomam em consideração dimensões psicológicas, sociais e culturais, ligadas às suas convicções éticas e morais (Slovic, Fischoff & Lichtenstein, 2000)
A incerteza está presente em qualquer definição de risco, na medida em que pressupõe uma possibilidade ou probabilidade de algo acontecer. Quanto maior a incerteza sobre as perdas, maior é o risco. Yates e Stone (1992) utilizam o exemplo das novas tecnologias para ilustrar este caso. Consideram que quanto mais recente for a tecnologia, maior a tendência para que seja considerada perigosa pelo público em geral, porque desconhece o tipo de perdas que lhes estão associadas. Nesta linha, o paradigma psicométrico (ao qual voltaremos mais à frente no ponto 2.3) é relevante na medida em que toma em consideração o fator da novidade na perceção de risco.
A grande diferença entre risco real (objetivo, racional, avaliado por peritos) e risco percebido (subjetivos, irracionais e avaliados por leigos) é importante para percebermos as questões ligadas à perceção de risco. Esta dicotomia tem-se revelado importante para quem trabalha em áreas relacionadas com a gestão, a avaliação e perceção de risco ou de segurança (Slovic, 2000).
Num primeiro momento, a perspetiva de risco real, analisada pelos especialistas, tomou em consideração as perceções dos leigos sobre o desenvolvimento tecnológico e industrial, para demonstrar que estas poderiam ser erróneas e que deveriam ser corrigidas (Slovic, 2000). Posteriormente, as áreas sociais vieram demonstrar que as perceções dos leigos não poderiam ser consideradas irracionais ou erróneas, mas que,
Sobreavaliação de Risco Emoção Medo Perceção Subavaliação de Risco Otimismo Apatia Fatalismo
pelo contrário, correspondiam a diferentes formas de racionalidades dos especialistas. Assim, poderemos dizer que a dicotomia entre risco objetivo e subjetivo está ligada à questão da avaliação feita por especialistas e leigos, bem como pelos diferentes tipos de características para definir risco (vide figura 2.1).
Figura 2.1 – Avaliação de risco Fonte: Canadian Food Inspection Agency, 2007
Como podemos perceber através da figura anterior, a avaliação está intimamente ligada às características intrínsecas do risco em articulação com as características de personalidade ou técnicas do individuo que o avalia.
A perceção subjetiva vs objetiva é enfatizada por Slovic (2000) quando procede à análise da perceção de risco entre especialista e não especialista. O autor encontrou um conjunto de discrepâncias entre as duas visões, sendo que os especialistas davam um enfoque central ao risco como expressão de características objetiváveis, uma vez que as probabilidades e consequências de um acontecimento adverso são geralmente assumidas como quantificáveis. Quando a opinião sobre um risco é dada pelos especialistas, este é avaliado do ponto de vista técnico e das estimativas anuais de casos mortais. Pelo contrário, quando é feito por um não especialista, toma em consideração uma multiplicidade de fatores que não existem independentemente das pessoas, da sua cultura ou pensamento (vide figura 2.2).
Características do Risco Voluntário Natural Não temido Conhecido Controlado pelo indivíduo
Manipulado por uma fonte segura Manipulado de forma responsável Características do Risco Coercivo (involuntário) Desconhecido Temido Controlado por outros Manipulado por fontes pouco seguras Manipulado de forma
Figura 2.2 – Características do risco Fonte: Canadian Food Inspection Agency, 2007
A figura 2.2 representa esquematicamente as características que permitem diferenciar a opinião sobre um risco em função de uma análise com características mais científicas ou do senso comum. Consideramos que ambas são importantes no processo de avaliação de um risco.
É a inconsistência entre uma perspetiva subjetiva vs objetiva da natureza de risco que o torna mais atrativo no campo de estudo da psicologia (Jenkin, 2006). Cvetkovich e Earle (1992) clarificaram as perspetivas de análise de risco insistindo, no entanto, na dimensão objetiva e construtivista, os autores designaram esta perspetiva por “realismo ingénuo” e posteriormente por “ relativismo cultural”.
A perspetiva construtivista reconhece que, por exemplo, os perigos ambientais são questões sociais, isto é, são uma qualidade inerente ao mundo físico mas representam uma interação entre as características físicas e psicossociais. No entanto, posteriormente, Shrader-Frechette (1991) propôs uma visão intermédia e menos reducionista que considera a avaliação e gestão de risco numa dimensão humana. Numa valorização desta perspetiva, Cvetkovich e Earle (1992) também consideram que existe uma necessidade de reconciliação entre as perspetivas mais objetivistas e mais subjetivista do risco. Consideraram, assim, que a melhor perspetiva seria a que pudesse aproveitar o melhor da ciência e da tecnologia, de acordo com valores democráticos.
Uma perspetiva alternativa à avaliação objetiva vs subjetiva de risco foi dada por Vlek e Stallen (1981) segundo os quais os dois enfoques são diferentes, embora centrados em aspetos complementares da definição de risco: por um lado, as definições objetivas e estatísticas, as quais designam por estímulo e, por outro, as definições resposta, ou seja, as que consideram o risco na perspetiva do observador. Os autores sublinham ainda que, no caso dos especialistas, o risco pode ser calculado mediante a seleção, combinação e quantificação de um conjunto de varáveis do ambiente externo.
Este modelo de análise não está isento de erros e, por isso, não é possível atingir uma objetividade plena na avaliação de risco. No que toca ao risco percebido, o autor assinala que este pode ser operacionalizado e medido a partir de três níveis diferentes: (i) fisiológico, referente à ansiedade expressa através de respostas do sistema nervoso autónomo (por exemplo, aumento do ritmo cardíaco ou indicadores de stress emocional); (ii) comportamental, interpretado a partir de padrões de comportamento (por exemplo, defesa, fuga ou apatia) e (iii) cognitivo, interpretado a partir de atitudes e descrições verbalizadas face a um determinado objeto ou acontecimento, implicando um conjunto de juízos de valor sobre as eventuais consequências.
Vlek e Keren (1991) esclarecem que os diferentes níveis de análise podem conduzir a uma definição de risco que qualificam como “transacional”, na medida em que permite delinear um processo de ligação entre as características situacionais e os padrões psicológicos da resposta.
Uma questão pertinente que tem sido debatida sobre a perceção de risco, é a de risco aceitável (RA). Este conceito centra-se na ideia de que deve existir um critério que permita julgar, decidir ou legislar, sobre o grau de aceitabilidade de um risco, tomando em conta os benefícios ou custos que o mesmo pode trazer. Passemos a exemplificar: se uma determinada tecnologia gera um risco inferior ao critério fixado como aceite ou tolerável, essa tecnologia é aceite pela comunidade; se, pelo contrário, supera esses critérios, há que encontrar forma de diminuir os riscos e aumentar o nível de segurança. Este nível de risco pode definir-se, segundo os especialistas, por uma dimensão quantitativa em função da probabilidade de acidente, mortalidade e/ou morbilidade (Fischoff, Slovic & Lichtenstein, 2000).
Os autores sugerem ainda que a aceitabilidade de um risco pode estar intimamente ligada à perceção, na medida em que os indivíduos tomam em consideração um conjunto de dimensões e atributos relacionados diretamente com as fontes de risco que coincidem, em grande parte, com as que são valorizadas na
estimativa de valores percebidos. O RA associa-se às dimensões psicológicas e psicossociais, no sentido multidimensional, tal como referimos anteriormente.
Um ponto crítico da aceitabilidade de um risco reside na diferença entre a aceitabilidade individual e social. Por outras palavras, devemos tomar em conta os riscos que individualmente estamos disposto a suportar nas atividades quotidianas e os riscos que uma comunidade está disposta a aceitar, como os custos face a um benefício público (Oltedal, Moen, Kemple, & Rundmo, 2004).
Como vimos, a conceptualização de risco possibilita diferentes interpretações que refletem um conjunto alargado de fatores individuais e ambientais. As diferentes perspetivas de análise tomam em consideração que o risco pode ser interpretado do ponto de vista do individuo, sem formação técnica especifica, ou pela comunidade científica. Segundo Slovic (2000) o risco real não existe enquanto realidade independente daquilo que é o nosso background social, cultural, uma vez que só é passível de ser observado ou medido enquanto inserido num determinado contexto que o produz. No ponto seguinte exploramos em concreto a perceção de risco individual em função de diferentes fatores.