Terceiro Sector
2. O Terceiro Sector em Portugal
2.5. Terceiro Sector – Uma Força Económica em Portugal
Em 2007, existiam em Portugal 10123 organizações do Terceiro Sector, representando uma considerável fatia da economia portuguesa, tendo apresentado em 2002 valores de despesas que equivalem a 4.2% do PIB nacional, ou seja, 5.4 mil milhões de euros. (Cf: Franco, Sokolowski, Hairel, & Salamon, 2005). Já para 2007 os valores são de uma despesa de 9.2 mil milhões de euros, ou seja, 5.64% do PIB.
Por outro lado, este sector empregava, na mesma data, cerca de 227 mil trabalhadores, o que representa 4.2% da população activa portuguesa (Cf: Franco, Sokolowski, Hairel, & Salamon, 2005). De acordo com Ana Carvalho (2010), em 2007 o número total de trabalhadores no Terceiro Sector era de cerca de 208 mil, o que equivale a 4% da população activa portuguesa. Apesar da ligeira diferença entre os valores dos dois estudos, segundo o último, o número de trabalhadores aumentou de 1997 para 2002 38% e de 2002 para 2007 34% (Cf: Carvalho, 2010).
Observando em particular o voluntariado8
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“Voluntariado é o conjunto de acções de interesse social e comunitário, realizadas de forma desinteressada por pessoas, no âmbito de projectos, programas e outras formas de intervenção ao serviço dos indivíduos, das famílias e da comunidade, desenvolvidos sem fins lucrativos por entidades públicas ou privadas. Não são abrangidas pela
neste sector, o valor deste foi estimado em 675 milhões de euros, ou seja, mais de 0.5% do PIB.
28 Analisando os valores da força de trabalho do Terceiro Sector em Portugal com os restantes países aos quais foi aplicado o projecto CNP, verifica-se que Portugal se encontra abaixo da maioria dos países da Europa Ocidental e apresenta valores semelhantes aos de alguns países do sul da Europa, como Espanha (4.3%) e Itália (3.8%). De ressalvar que, comparando Portugal com os países em transição, ou seja, os países da Europa Central e de Leste que transitaram recentemente de um regime autoritário, Portugal apresenta um sector que emprega três vezes mais trabalhadores do que a média dos países em transição, de 1.1% da população activa, contra os de 4% de Portugal.
Numa perspectiva também comparativa, verifica-se que a percentagem de voluntários na força de trabalho das organizações do Terceiro Sector é inferior em Portugal à média dos países desenvolvidos e mesmo dos países em transição. Portugal apresenta valores na ordem dos 29%, os países em transição de 32% e os países desenvolvidos 37%. No entanto, o esforço voluntário em Portugal é quase três vezes superior ao dos países em transição da Europa Central e de Leste, onde é apenas 0.4% da população economicamente activa, apresentando Portugal valores na ordem dos 1.1%.
No entanto, gerar emprego não é o principal objectivo das organizações do Terceiro Sector, pelo que segundo o projecto CNP podem ser identificadas quatro grandes funções destas organizações:
• Fornecem uma variedade de serviços humanos, como saúde, educação e serviços sociais e de desenvolvimento comunitário;
• Defendem causas e têm um vincado advocacy role na identificação de problemas, trazê-los à atenção do público e expressar interesses e preocupações sociais, politicas, ambientais, étnicas e comunitárias;
• Têm uma função de expressão, dando voz a sentimentos e impulsos artísticos, espirituais, culturais, étnicos, ocupacionais, sociais e de lazer;
• Contribuem para o “capital social”, ou seja, para a transmissão de normas de cooperação na relação entre os indivíduos que, por sua vez, contribuem para que
presente Lei as actuações que, embora desinteressadas, tenham um carácter isolado e esporádico ou sejam determinadas por razões familiares, de amizade e de boa vizinhança.” ( art.º 2.º da Lei n.º 71/98).
29 uma política democrática e uma economia de mercado funcionem de forma eficaz.
Duas funções são, neste sentido, de salientar: as funções de serviço e as funções de expressão. As funções de serviço “envolvem o fornecimento de serviços directos como educação, saúde, habitação, promoção do desenvolvimento económico, e outros semelhantes.” Por sua vez, as funções de expressão “envolvem actividades que proporcionam avenidas para a expressão de valores, interesses e crenças culturais, espirituais, profissionais ou políticas.” (Franco, Sokolowski, Hairel, & Salamon, 2005, p.15).
Caracterizando o sector não lucrativo, com base na distinção dos dois tipos de funções das organizações, o estudo demonstra que, em Portugal, predominam as actividades de serviços, com cerca de 60% dos trabalhadores remunerados e voluntários envolvidos neste tipo de actividades. Contudo, este valor é ligeiramente inferior à media internacional (64%) e à média dos países desenvolvidos (65%).
A actividade de serviços, por sua vez, tem em Portugal características muito próprias e distintas dos restantes 38 países abrangidos pelo projecto CNP. A área de Serviços Sociais absorve 48% do total da força de trabalho da sociedade civil no país, contrastando com 22% para os países desenvolvidos e 18% para os países em transição. Em 2007, esta tendência mantém-se, com a categoria dos serviços sociais a contabilizar 32.74% do total de organizações e empregando 52.79% dos trabalhadores do Terceiro Sector (Cf: Franco, Sokolowski, Hairel, & Salamon, 2005) .
No que concerne ao tamanho das organizações, 41.12% emprega menos de 5 pessoas e 25.84% mais de 20 pessoas. Com mais de 250 colaboradores, existem apenas 64 organizações, ou seja, 0.67%. Por seu turno, no que respeita à idade das organizações do Terceiro Sector, verifica-se que a grande maioria, 31.23%, tem entre 20 e 50 anos e 26.32% tem entre 10 e 20 anos. Com mais de 100 anos contam-se 419 organizações (4.14%) e entre 50 e 100 anos, 12.69%. Algumas Misericórdias têm mesmo mais de 500 anos (Cf: Carvalho, 2010).
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2.5.1. Origem dos fundos
No que diz respeito à origem dos fundos das organizações do Terceiro Sector estes provêm, segundo a Universidade John Hopkins de três grandes fontes:
“Receitas próprias, que incluem pagamentos privados por bens e serviços, quotizações e rendimento de investimento; filantropia, que inclui doações individuais, doações de fundações e doações empresariais; e apoio público ou governamental, que inclui subsídios, contratos, reembolsos por serviços prestados a terceiras partes elegíveis (como vouchers escolares ou seguros de cuidados públicos de saúde) e pagamentos de sistemas de segurança social financiados pelo governo, que operam como quasi-organizações não-governamentais.” (Franco, Sokolowski, Hairel, & Salamon, 2005, p.17).
Assim sendo, verifica-se que, em Portugal, a grande origem de fundos das organizações do Terceiro Sector são as receitas próprias, responsáveis por 48% dos fundos, seguidas do apoio público ou governamental, com 40% e , por ultimo, da filantropia, com apenas 12%.
Em comparação com os restantes países analisados, constata-se que a situação de Portugal apresenta valores que se encontram entre as médias dos países desenvolvidos e as médias dos países em transição e da média internacional. No que respeita aos fundos provenientes de receitas próprias Portugal contabiliza 48%, os países em transição 49%, os países desenvolvidos 44% e a média internacional 53%. Os fundos provenientes do Governo têm, em Portugal, um peso de 40%, nos países em transição 31%, nos países desenvolvidos 48% e na média internacional 35%. Por último, os fundos oriundos da filantropia representam, em Portugal, 12% do total de fundos, tal como para a média internacional, nos países em transição 20% e nos países desenvolvidos 8%.
No entanto, incluindo o voluntariado na Filantropia, a estrutura dos fundos muda consideravelmente. As receitas próprias passam a representar 44% dos fundos, o Governo 36% e a Filantropia sobe, assim, de 12% para 21%. Também neste panorama os valores em Portugal se mantém inferiores à média dos países desenvolvidos, que apresentam uma origem de fundos de Filantropia de 33% em relação ao total de fundos recebidos.
31 De salientar, ainda, que a origem dos fundos nas organizações do Terceiro Sector varia consoante as áreas de actividade. As áreas da Saúde e Educação são as duas áreas predominantemente financiadas pelo Governo (82% e 66% do total, respectivamente). Nas restantes áreas analisadas verifica-se que os fundos provêem, sobretudo, de receitas próprias (Cf: Franco, Sokolowski, Hairel, & Salamon, 2005).
Em termos gerais, traçando um perfil da década 1997-2007, constata-se que o número de organizações do Terceiro Sector aumentou cerca de 90% e a empregabilidade 85%. As receitas do sector praticamente que duplicaram, com um aumento de 98%. Todas estas alterações acentuaram-se, sobretudo, entre 2002 e 2005, traduzindo-se nos cinco anos de maior crescimento do Terceiro Sector em Portugal (Cf: Carvalho, 2010).