PARTE I Enquadramento concetual
CAPÍTULO 2 Território
2.2. Território, um conceito polissémico
2.2.5. Território como sistema
Desde o final da Segunda Guerra Mundial que as contínuas inovações tecnológicas tornam o mundo cada vez mais complexo. Os limites e as fronteiras tradicionais ficaram mais permeáveis, translúcidos.
Segundo Mélèze (1972 apud Moine, 2014: 13), a complexidade “é a incapacidade que temos de descrever todo o sistema e de deduzir o seu comportamento a partir do conhecimento do comportamento das suas partes”. A complexidade de um sistema baseia- se “no número e variedade dos seus elementos constituintes, na interdependência dos níveis hierárquicos aos quais eles pertencem e à não linearidade das suas múltiplas interações. [...] O grau de complexidade de um sistema depende então do número dos seus componentes e do número e tipo de relações que os ligam entre si” (idem: 14).
Na segunda metade do século XX, surge a visão do território segundo uma perspetiva sistémica, inicialmente com MacLoughlin (1969) e Chadwick (1966)28 nos estudos sobre as
questões urbanas e, já neste século, com Ripoll e Veschambre (2002), Massey e Keynes (2004) e Massey (2008), Taylor (1998), Haesbaert e Limonad (2007), Moine (2007 e 2014) e Séde-Marceau e Moine (2008), entre outros.
Mas o que é um sistema? É um “todo complexo, um grupo de coisas ou partes conectadas entre si, um conjunto de coisas materiais ou imateriais, um grupo de objetos relacionados ou em interação de tal modo que formam uma unidade” (Mcloughlin, 1971: 77); é “um complexo de elementos em interação” (Bertalanffy, 1973 apud Moine, 2014: 15), considerado como um todo que tem propriedades de conjunto diferentes das propriedades das partes que o constituem (Ripoll e Veschambre, 2002).
Assim, a sua estrutura é determinada pela organização das suas relações, sendo as interconexões entre as partes desse sistema essenciais para o seu funcionamento. No entanto, este funcionamento deve ser entendido em termos do modo como as suas partes estão conectadas com as partes de outros sistemas, bem como, internamente, umas com as outras (Ripoll e Veschambre, 2002)29, em que “cada parte pode-se considerar como um
sistema por si mesmo e todo o sistema pode considerar-se como um sistema de uma parte maior” (Macloughlin, 1971: 79). Em suma, um sistema é um conjunto de coisas ou partes conectadas, relacionadas ou interdependentes de modo a construir um todo complexo (Macloughlin, 1971; Almmendinger, 2009). Tem coerência ou unidade, o que permite distingui-lo de outros sistemas – o que é comum num conjunto unifica-o e, ao mesmo tempo, distingue-o de outros conjuntos (Taylor, 1998).
28 Estes autores foram influenciados pelas ideias do botânico Patrick Gueddes, que no início do século XX
apresentava a cidade como um sistema, referindo que as cidades e as suas regiões são como organismos vivos (perspetiva organicista). Patrick Gueddes defendia que os sistemas existem em todas as áreas do ambiente natural e humano e que podem ser controlados através da regulação da comunicação entre as várias partes (Almmendiger, 2009). No entanto, no planeamento urbano, esta visão foi votada ao esquecimento até meados do século XX. O biólogo Ludwig Bertalanffy apresenta, já na década de 1950, a Teoria Geral dos Sistemas, difundindo a ideia de que o organismo é um todo maior que a soma das suas partes.
29 Na visão sistémica, as cidades são apresentadas como sistemas inter-relacionados de atividades e lugares,
em que a mudança de uma das partes provoca a mudança em alguma outra parte. Toda a proposta de um novo desenvolvimento deve ser avaliada em termos dos seus prováveis efeitos, incluindo os efeitos nos lugares e atividades muito além dos lugares atuais onde o novo desenvolvimento foi proposto.
Massey e Keynes (2004: 17) apresentam uma conceção de espaço que reforça a perspetiva sistémica de território. Para estes autores, ele é “o produto das dificuldades e complexidades, dos entrelaçamentos e dos não entrelaçamentos de relações, desde o inimaginavelmente cósmico até ao intimamente pequeno”. Massey (2008) e Massey e Keynes (2004) referem que o espaço não é estático nem neutro. Não é um sistema fechado, mas interligado com o tempo e, assim, em constante mudança. Encontra-se sempre em processo, nunca está acabado. Esta questão evolutiva, característica de um sistema, torna inegável a analogia do território a um sistema.
Moine, em vários dos seus estudos (2006, 2007, 2014; Séde-Marceau e Moine, 2008), tem-se dedicado à concetualização do território segundo uma abordagem sistémica. Para este autor, o território é um sistema aberto em constante evolução. “Não é um objeto neutro, decidido no abstrato e desconectado da realidade e, acima de tudo, improvisado pelos atores em função de um grande número de parâmetros em constante mudança” (Lajarge, 2000 apud Moine, 2014: 13); ele “é um sistema complexo evolutivo que associa um conjunto de atores, por um lado, e o espaço geográfico que estes atores utilizam, ordenam e gerem, por outro” (Moine, 2006: 126).
Assim, segundo a visão sistémica, o território é uma construção intelectual (Moigne, 2007) em movimento, evolutiva, cujas características correspondem às que podemos atribuir mais globalmente ao princípio da complexidade (De Rosnay, 1975 apud Moine, 2007).
Nesta perspetiva, compreender um território é pôr em evidência as interações entre as suas diferentes componentes e não as considerar como camadas sucessivas, cuja totalidade constituiria um conjunto designado território.
2.3. Síntese
Ao longo do capítulo 2, procuramos analisar a polissemia do conceito de território, delimitando e sistematizando cinco aceções fundamentais da palavra: a que o encara como o suporte da ocorrência de todos os fenómenos naturais (perspetiva naturalista); a baseada nos conceitos de propriedade e de administração, que garantem o controlo e a gestão de um espaço delimitado (perspetiva político-administrativa); a que reflete uma apropriação utilitária e funcional do espaço (perspetiva económica) ou vital; a que o concebe como um suporte de identidade individual e coletiva (perspetiva simbólica); a que o considera como um todo complexo, como um sistema aberto em constante evolução (perspetiva sistémica).
Enquanto na primeira aceção, a dimensão material é indiscutível, na segunda a materialidade do território está intimamente relacionada com a questão da “propriedade”, com o domínio político- jurídico da terra, sendo menorizada, ou mesmo esquecida, a questão da “apropriação”. No entanto, segundo Henri Lefèbvre (1981), ambos os processos – de domínio/propriedade e de apropriação – estão presentes quando se encara o território como “espaço político-administrativo”.
A aceção de território com espaço vivido remete-nos para o conceito “apropriação”, mas como uma condição da sua natureza territorial, de soberania política. No entanto, ao contrário da visão anterior, como espaço vivido o território é encarado como o suporte onde os grupos sociais se projetam, que eles moldam, que faz parte das suas vidas, em relação ao qual se identificam e que influencia os seus comportamentos e as suas atitudes, estando implícito um significado mais “pacífico” do termo “apropriação”.
A caracterização do território como fonte de recursos e como sistema colocou algumas dificuldades devido à escassez de estudos no âmbito da Geografia sobre esta temática e ao facto de a concetualização do território estar “imiscuída” em estudos geográficos não especificamente dedicados a essa questão. No caso da visão sistémica do território, a bibliografia que a ela se refere diz respeito aos estudos urbanos e de planeamento; no caso do território encarado como uma fonte de recursos, a bibliografia circunscreve-se a estudos mais recentes, ligados à geografia económica e ao desenvolvimento territorial.
Esta situação repete-se nos dicionários geográficos, de diferentes origens, conforme se apresenta no quadro 2.1., onde se constata que os dicionários consultados somente abordam as duas últimas entradas conceptuais.
Se a visão sistémica é recente nos estudos sobre o território, apesar de já se vislumbrar desde o início do século XX, a de território como fonte de recursos é ainda mais recente e reflete uma apropriação utilitária e funcional (económica) do espaço – quando se concebe o território como uma fonte de ativos territoriais – e, por outro, vital e sustentável –
quando encarado como fonte de recursos escassos e como bem comum.
O aprofundamento das várias abordagens do conceito de território permitiu concluir que o facto de elas serem distintas não invalida uma conceção integradora, já que elas se sobrepõem, implícita ou explicitamente, com frequência, sugerindo a necessidade de uma leitura flexível da sistematização proposta.
Quadro 2.1. Presença de diferentes perspetivas de território em alguns dicionários
de Geografia 2.2.1. 2.2.2. 2.2.3. 2.2.4. 2.2.5. Perspetivas Dicionários Com o supor te fí si co Com o es paç o pol íti co - adm ini st rat ivo Com o es paç o vi vi do Com o font e de re cu rso s Com o si st em a
Zoido Naranjo et al. (2000) X X X Levy e Lussault (dir.) (2003) X X X
Lacoste (2006) X X
Gregory et al. (2009) X X
Castree et al. (2013) X X
Rio Fernandes et al. (2016) X X X X