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CARTOGRAMA 2 - PARTICIPAÇÃO DOS MUNICÍPIOS NO PELADÃO 2008 E NA

2. PÓS-MODERNIDADE E ESPAÇO

2.1 PÓS-MODERNIDADE E SOCIALIDADE

2.1.2 Territorialidade, globalização e localismo

Antes de qualquer formulação mais avançada acerca de globalização e localismo, precisamos esclarecer o que entendemos por território, territorialidade e territorialização (idéias que se relacionam, se completam e se fundem). Utilizaremos a concepção de território pautada no que Haesbaert chama de uma perspectiva integradora, ou seja, que discute a apropriação tanto material quanto simbólica do

espaço5 – apesar de neste trabalho atribuirmos um peso maior à simbólica. Segundo Haesbaert (2004, p. 74): “o território carregaria sempre, de forma indissociável, uma dimensão simbólica, ou cultural em sentido estrito, e uma dimensão material, de natureza predominantemente econômico-política”. Para compreendermos como, a partir do espaço – que possui também forte carga simbólica –, os territórios são criados, nos pautaremos nas discussões acerca de dominação e apropriação do espaço apresentadas por Lefebvre (1991). Segundo o autor, a dominação e a apropriação do espaço são coisas distintas, mas intimamente relacionadas. A dominação está ligada a uma mediação tecnológica e prática, pela qual o espaço natural é transformado com fins econômicos (e políticos). Este espaço dominado, normalmente, tem caráter “fechado, esterilizado, esvaziado”. Já a apropriação – contraponto e complemento da dominação –, remete a uma dimensão identitária e simbólica. A apropriação é realizada por um grupo (uma comunidade, uma tribo), que busca uma porção do espaço para se estabelecer como tal, sem necessariamente se pautar na lógica econômica. Apesar de que, geralmente, para a apropriação ocorrer, é necessária a condição de propriedade. O processo apropriativo remete à arte, a uma construção fundamentalmente simbólica:

It may be said of a natural space modified in order to serve the needs and possibilities of a group that it has been appropriated by that group. Property in the sense of possession is at best necessary precondition, and most often merely an epiphenomenon, of “appropriative” activity, the highest expression of which is the work of art. An appropriated space resembles a work of art, which is not to say that it is any sense an imitation work of art. (LEFEBVRE, 1991, p.

165, grifo do autor)6.

Tomaremos como ponto de partida, para a definição de território e territorialidade, o par dominação-apropriação. É possível dizer que a perspectiva integradora, de Haesbaert (2004), contempla ambos os processos, pois considera tanto os aspectos políticos-econômicos quanto os simbólicos-identitários. Portanto, partiremos da idéia de que o território necessita, para sua constituição e existência,

5 A discussão acerca do espaço será realizada com maior detalhe na parte 2.3, mas já adiantamos que nossa visão de espaço é fundamentalmente simbólica e de acordo, sobretudo com as formulações de Lefebvre (1991), Soja (1996) e Gil Filho (2002).

6 Pode ser dito de um espaço natural modificado para satisfazer as necessidades e possibilidades de um grupo que este espaço foi apropriado por esse grupo. Propriedade no sentido de posse é na melhor das hipóteses uma precondição necessária, e com maior freqüência meramente um epifenômeno, de atividade “apropriativa”, a maior expressão do que é a obra de arte. Um espaço apropriado lembra uma obra de arte, o que não significa que seja em qualquer sentido uma obra de arte imitação. (tradução nossa).

não apenas da apropriação, mas também e principalmente da dominação, que “tende a originar territórios puramente utilitários e funcionais, sem que um verdadeiro sentido socialmente compartilhado e/ou uma relação de identidade com o espaço tenha lugar”

(HAESBAERT, 2002, p. 120-121). Já a territorialidade – de fundamento simbólico – é construída a partir da apropriação de determinado espaço ou reapropriação de um dado território. Assim, a territorialidade se pauta exclusivamente nas lógicas simbólica, cultural e de identificação, sem que haja a necessidade de dominação prévia. As tribos, ao se apropriarem de um determinado espaço, não precisam exercer poder sobre tal, mas sim construir referências simbólicas neste e a partir deste. O acesso, e não mais a dominação, passa a ser condição para tal. Isto não significa que a territorialidade também não tenha uma dimensão concreta, mas que esta não implica em definições claras e fixas de limites de ação.

Além da definição de territorialidade proposta, o termo pode ser entendido a partir de outra acepção com sentido mais amplo, ou seja, como “qualidade de ser território” (HAESBAERT, 2004). Evitaremos usar “territorialidade” neste sentido, a fim de minimizar a confusão que ele pode suscitar. Entretanto, se partimos de uma leitura de que o território, na pós-modernidade, é essencialmente simbólico-cultural, é impossível pensar a “qualidade de ser território” sem considerar a “qualidade de ser simbólico”. As territorialidades são definidas a partir de representações sociais, que têm ligações com a realidade objetiva ou material. Portanto, o processo de apropriação e a construção das territorialidades passam muito mais pelas relações humanas do que pelas tradicionais relações sociedade-natureza, sejam elas de perspectiva naturalista (de caráter eminentemente biológico), econômica (território como fonte de recursos) ou política (no sentido de controle de fronteiras).

Para Haesbaert (2004, p. 339), territorializações são “as relações de domínio e apropriação do espaço, ou seja, nossas mediações espaciais do poder, poder em sentido amplo, que se estende do mais concreto ao mais simbólico”. Desta forma, o termo “territorialização” não se refere exclusivamente à construção de territorialidades, pois considera também o processo de dominação, nem à formação de territórios, pois abarca até as apropriações “mais simbólicas” do espaço. Temos, portanto, um termo com sentido duplo. Como partimos do pressuposto de que vivemos em um tempo de mudança do paradigma moderno (calcado no social) para o pós-moderno (a partir da socialidade), podemos afirmar que a territorialização passa a se dar, agora, sobretudo a partir de uma perspectiva de formação de territorialidades. Entretanto, não

acreditamos no fim dos territórios (no sentido da dominação). Partiremos, então, das formulações de Deleuze e Guattari para chegarmos aos processos de territorialização pós-modernos, ou seja, que têm como característica a prevalência da apropriação sobre a dominação.

Na perspectiva de Deleuze e Guattari (1992), a territorialização não é um processo que ocorre isoladamente, senão associada à desterritorialização e à reterritorialização. Segundo os autores, estes dois últimos processos são indissociáveis e pressupõem uma prévia territorialização, ou seja, a transformação da terra (superfície terrestre) em território. O movimento de desterritorialização está ligado à desapropriação de determinada porção da superfície terrestre (transformação de território em terra). Isto permite uma nova territorialização em outra escala ou a partir de uma nova apropriação da terra, a reterritorialização (DELEUZE; GUATTARI, 1992).

Ao deslocar esta discussão às territorialidades, é possível dizer que a desterritorialização ocorre quando uma porção do espaço perde seu sentido simbólico, deixando de ser uma referência a uma ou mais tribos (HAESBAERT, 2002). Isto não significa que esta desconstrução simbólica e afetiva é definitiva e que a comunidade permanecerá sem territorialidade, ou seja, sem um referencial simbólico-cultural fundado no espaço. Há uma posterior reterritorialização, que – segundo Haesbaert (2002) – se dá, geralmente, em uma escala diferente daquela em que houve e desterritorialização. Desta forma, é possível dizer que os processos de territorialização, desterritorialização e reterritorialização vão além de uma transformação terra-território (e vice-versa), mas também é um jogo de escalas, de deslocamentos de estruturações identitárias.

O processo de reterritorialização pode se dar a partir de diversas territorialidades sobrepostas e articuladas em diferentes escalas. Desta forma, é possível falar, na pós-modernidade, não apenas em territórios e territorialidades fixos e estáveis, mas em multiterritorialidades, articuladas em diferentes escalas e por diferentes representações sociais. Este jogo de escalas desloca muitas das estruturações simbólicas, identitárias e culturais da escala nacional às escalas global e local. Portanto, nos deparamos com dois fenômenos intimamente relacionados: a globalização e o localismo.

Apesar de admitirmos a sua relevância, não partiremos de uma discussão econômica da globalização, como o fazem alguns autores, como Ortiz7 (2000) e Ianni (1999), entre outros. Indubitavelmente, o aspecto econômico da globalização é importante, mas no que nos propomos a discutir – a questão territorial, cultural e identitária (se é que é possível separá-las) – ele é residual. Não negamos o valor dos avanços tecnológicos, sobretudo no campo da comunicação. Pelo contrário, consideramos este um ponto fundamental nas novas configurações territoriais – pois permitem e incentivam, em alguns casos, a organização reticular –, mas evitamos cair em um determinismo tecnológico ou da rede (BIJKER, 1995; BENAKOUCHE, 2005;

DIAS, 2005). Ainda, tomamos como relativa, apesar de importante, a idéia de compressão tempo-espaço (HARVEY, 2003), pois o encurtamento do tempo e das distâncias não pode ser generalizado, sobretudo se considerarmos que a globalização não é um fenômeno homogêneo em todo o mundo. É inegável que houve uma facilitação dos fluxos econômicos internacionais, o que não significa dizer que o mundo se encontra totalmente integrado nem que esta “livre” circulação também se reflete nos fluxos populacionais, que encontram severas limitações (MASSEY, 2008;

HALL, 2008). Portanto, a globalização não pode ser entendida como uma integração ilimitada, mas sim, a partir da sugestão de Massey (2008), como uma nova geometria do poder. Nova geometria na qual também circula a potência, pois permite que a massa se comunique e que novas tribos se formem se conectando, por exemplo, pelo ciberespaço.

Esta nova geometria traz consigo multiplicidades e flexibilizações territoriais. Há uma intensificação no processo de multiterritorialização: constantes e múltiplas reterritorializações (precedidas por desterritorializações, seu par dialético). Sob o ponto de vista cultural, a desterritorialização está relacionada com “a desvinculação cultural de espaços-específicos e a mescla de identidades ou o hibridismo como norma cultural dominante” (HAESBAERT, 2004, p. 221). Desta maneira, o processo de multiterritorialização – típico da pós-modernidade – redefine as territorialidades destas estruturações identitárias, deslocando sua escala de nacional à global e à local. Como observa Haesbaert (2004, p. 337-338):

Não se trata mais de priorizar o fortalecimento de um “mosaico”-padrão de unidades territoriais em área, vistas muitas vezes de maneira exclusivista entre

7 Ortiz (2000) faz uma distinção, que não utilizaremos, entre “globalização” e “mundialização”. Enquanto aquela se refere aos processos econômicos, esta está relacionada com o campos da cultura.

si, como o caso dos Estados nacionais, mas seu convívio com a miríade de territórios-rede marcados pela descontinuidade e pela fragmentação que possibilita a passagem constante de um território a outro, num jogo que denominaremos aqui, muito mais do que desterritorialização ou declínio dos territórios, a sua “explosão” ou, em termos teoricamente mais elaborados, uma

“multiterritorialidade”, pois como já afirmávamos em 1997, “na ‘pós’ ou ‘neo’

modernidade, um traço fundamental é a multiterritorialidade humana [...]”

(Haesbaert, 1997: 42).

A multiterritorialidade, característica da pós-modernidade, contrasta com a territorialização rígida da modernidade, fundada, sobretudo, nos Estados nacionais.

Estes se baseavam (e continuam o fazendo) no projeto de uma nação una, estável, de caráter quase biológico e incontestável, mas que não passa de uma “comunidade política imaginada” (ANDERSON, 2008, p. 32). Segundo Hall (2005, p. 50-51):

Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos [...]. As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre a ‘nação’, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades.

No entanto, se este discurso nacional passa a suscitar dúvidas e se esta comunidade imaginada deixa de ser compartilhada, ou mesmo, passa a ser imaginada em outras escalas, as identidades nacionais sofrem fragmentações e deslocamentos, como vem ocorrendo através da globalização – que também, segundo Massey (2008) é um modo de se imaginar geograficamente o mundo:

a globalização tem, sim, o efeito de contestar e deslocar as identidades centradas e “fechadas” de uma cultura nacional. Ela tem um efeito pluralizante sobre as identidades, produzindo uma variedade de possibilidades e novas posições de identificação, e tornando as identidades mais posicionais, mais políticas, mais plurais e diversas; menos fixas, unificadas ou trans-históricas.

(HALL, 2005, p. 87, grifo do autor).

Entretanto, contrariando uma leitura óbvia, o global não remete apenas ao internacional, ao mundial, mas também (e, para nós, principalmente) à massa. Neste sentido, o global se refere à escala em que a massa afetual se agrega e se representa como tal. Esta escala pode ser, por exemplo, mundial, municipal ou até nacional.

Portanto, se o global está relacionado à massa, as tribos se manifestam territorial, identitária e simbolicamente em escala local.

O localismo – signo de heterogeneização – é apontado por Maffesoli (2004b, 2006) como uma das características fundamentais da pós-modernidade. Ele está baseado na proxemia – o caráter relacional do homem com seus semelhantes. Esta

trama comunitária necessita de uma base territorial8, ou melhor, constituir territorialidades para abrigar a tribo, possibilitar e legitimar o estar-junto, como explicita Maffesoli (2004b, p. 57): “Esse território, no caso, é causa e efeito da comunicação-comunhão”. Assim, podemos afirmar que a proxemia tem caráter territorializante, sobretudo no que se refere às territorialidades locais, que são construídas nas relações diárias das tribos. Esta apropriação do espaço em escala local “adquiriu uma ressonância totêmica” (MASSEY, 2008, p. 24). Desta forma, a tribo, ao mesmo tempo em que se representa em suas territorialidades, é representada simbolicamente por estas. Tal como a territorialidade pressupõe uma apropriação, as tribos pressupõem territorialidades para existir como tal.

O localismo se constrói a partir de representações sociais de um grupo de vinculação afetual, que partilha territorialidades e vive conjuntamente a sua vida cotidiana, inclusive seus momentos de presença9 (SHIELDS, 1999; LEFEBVRE, 2006).

O local se relaciona com as atividades mais banais, de manipulação imediata – com base no “aqui” e “agora” –, sendo, portanto, a escala do tátil (MAFFESOLI, 2004b).

Esta metáfora do sentido do toque demonstra que, na escala local, as tribos vivenciam o máximo de suas pulsões gregárias, seus momentos mais sublimes de ligação (e re-ligação) entre seus membros, com o Outro e com o próprio local, que é transfigurado em altar. Estes são apontados por Maffesoli (2004b, p. 57) como espaços (apropriados) de celebração de “cultos de forte componente estético-ético. São cultos do corpo, do sexo, da imagem, da amizade, da comida, do esporte, etc.” O autor continua falando destas territorialidades de forte carga erótica:

feitos por e para iniciados, aos quais se vai em busca de iniciação e onde se observam os iniciados: no sentido etimológico do termo, portanto, espaços onde se celebram mistérios. As pessoas se reúnem, reconhecem umas às outras e, com isso, conhecem a si mesmas. (MAFFESOLI, 2004, p. 58).

Muitas vezes, os altares – territorialidades locais – são reconhecidos apenas pela própria tribo que o apropriou e o mantém. Suas demarcações não são necessariamente materiais, assim como uma mesma tribo pode construir uma diversidade de altares. Esta justaposição de territorialidades nos permite atribuir ao localismo (assim como, comumente, se faz à globalização) uma organização territorial

8 Em sua obra, Maffesoli utiliza território para exprimir o que aqui chamaremos de territorialidade – a apropriação simbólica de determinada porção do espaço e a relação mantida com ela.

9 Momentos de presença e de ausência, a partir de Lefebvre e Shields, serão discutidas na parte 2.2.

reticular. Esta se manifesta de maneira mais intensa nas grandes cidades, servindo como vetor de socialidade entre as tribos, através da centralidade subterrânea:

se observarmos apenas as características “físicas” da megalópole, correremos o risco de só prestar atenção a uma espécie de solidão gregária que a constituiria, ao passo que existe uma multiplicidade de redes que geram a ordem simbólica nos canais tidos como mais sólidos. Aí está a centralidade subterrânea. (MAFFESOLI, 2004b, p. 55).

Esta organização através de redes múltiplas, baseada na dinâmica e no simbólico (sobretudo no caso dos localismos), contrasta com aquela de territórios-zona – forma mais tradicional e fixa de dominação ou apropriação do espaço. Tal território possui fronteiras bem definidas, organização centrípeta e promove maior estabilidade, pois delimita e enraíza. Os territórios nacionais possuem tais características, sendo associados à modernidade. No entanto, na pós-modernidade esta organização zonal não desaparece, mas passa a ser permeada e re-estruturada por uma reticular, que ao contrário do que possa parecer possui forte dimensão territorial, só que centrífuga e instável, pois promove desenraizamento e rompe limites. O território-rede (no nosso caso, seria mais apropriado falar em territorialidade-rede), organizado a partir de pontos e linhas, é pautado no movimento, em fluxos. Desta forma, é não-hierárquico, horizontal e descentralizado. Suas condições de criação são apontadas por Haesbaert:

A esta reterritorialização complexa, em rede e com fortes conotações rizomáticas, ou seja, não-hierárquicas, é que damos o nome de multiterritorialidade. As condições para sua realização incluiriam a maior diversidade territorial [...], uma grande disponibilidade de e/ou acessibilidade a redes-conexões (quer dizer, uma maior fluidez do espaço), a natureza rizomática ou menos centralizada dessas redes e, anteriores a tudo isto, a situação socioeconômica, a liberdade (individual ou coletiva) e, em parte, também, a abertura cultural para a efetivamente usufruir e/ou constituir essa multiterritorialidade. (HAESBAERT, 2004, p. 343, grifo do autor).

Na pós-modernidade, a multiterritorialidade, assim como o tribalismo, vem influenciando as instituições – pautadas ainda em uma organização vertical: “O processo tribal tem contaminado o conjunto das instituições sociais” (MAFFESOLI, 2006, p. 14). Esta “contaminação” se dá através da centralidade subterrânea e da proxemia. Esta ligação afetiva reforça o caráter local do tribalismo, mas não refuta a sua globalidade – que se dá através das massas. Assim, é possível afirmar que, sob o paradigma da socialidade, a multiterritorialidade possui fundamentalmente uma dimensão afetual pautada em constantes diálogos entre o local e o global a partir de

estruturações identitárias (e consequentemente de territorialidades), que produzem uma organização territorial rizomática, horizontal.

Esta interação entre local e global não se dá de modo vertical, ou seja, o local não é determinado pelo global. Pelo contrário, o próprio global pode ser construído no local (MASSEY, 2008). Isto ocorre porque, mesmo com o advento das novas tecnologias que facilitam as interações à distância, é no aqui e agora, no contato direto, na dimensão tátil que as relações gregárias se dão de forma mais efetiva.

Entretanto, não podemos ignorar a capacidade da geração de referências globais, sobretudo pelos meios de comunicação de massa. Tais referências mobilizam pessoas de diferentes lugares, formando uma grande massa conectada por elas, todavia são nas interações proxêmicas que estas vão se materializar em tribos, em territorialidades. Esta conjunção de natureza híbrida entre o local e o global, chamaremos, seguindo Haesbaert (2002, p. 120-121), de glocal:

Como no mundo contemporâneo vive-se concomitantemente uma multiplicidade de escalas, numa simultaneidade atroz de eventos, vivenciam-se também, ao mesmo tempo, múltiplos territórios. Ora somos requisitados a nos posicionar perante uma determinada territorialidade, ora perante outra, como se nossos marcos de referência e controle espaciais fossem perpassados por múltiplas escalas de poder e de identidade. Isto resulta em uma geografia complexa, uma realidade multiterritorial (ou mesmo transterritorial) que se busca traduzir em novas concepções, como em termos hibridismo e “glocal”, este significando que os níveis global e local podem estar quase inteiramente confundidos.

Deparamo-nos, portanto, com um fenômeno diverso da globalização e do próprio localismo, a glocalização. Este hibridismo conjuga as referências e as dinâmicas das massas e das tribos, através de uma complexa dialética. Não nos interessa, assim, as relações globais que não se materializam nem são gestadas no local, escala da experiência comunitária. Esta encontra suas bases na razão sensível, no trágico e na imagem (MAFFESOLI, 1998, 2003, 2005a).