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CARTOGRAMA 2 - PARTICIPAÇÃO DOS MUNICÍPIOS NO PELADÃO 2008 E NA

2. PÓS-MODERNIDADE E ESPAÇO

2.2 COTIDIANO E VIDA COTIDIANA

2.2.1 Vida cotidiana em Henri Lefebvre

Henri Lefebvre é um autor bastante discutido na Geografia, sobretudo no que refere às suas contribuições aos estudos urbanos, sistematizados de forma mais evidente em O direito à cidade e A cidade do capital (LEFEBVRE, 2003, 2008d). No entanto, é em outros livros que consideramos que Lefebvre traz suas principais contribuições à Geografia e às ciências humanas em geral, através de uma profunda discussão epistemológica e teórico-conceitual que tem como principal ponto de partida as formulações de Marx. Lefebvre é um dos autores que apresenta uma das mais significativas discussões acerca do espaço, que são extremamente pertinentes para a Geografia – sobretudo diante do grande desafio epistemológico da criação de uma base teórico-conceitual verdadeiramente sólida para a discussão de questões simbólicas (sociais e culturais) após a “virada lingüística” ou “cultural” e para o desenvolvimento de uma nova abordagem cultural em geografia (CLAVAL, 2001a;

COSGROVE; JACKSON, 2003; SAHR, 2007). Apesar da matriz marxista, Lefebvre apresenta também grande contribuição para a discussão dos aspectos simbólicos da vida social, bem como das relações entre espaço e representação. Entretanto, a compreensão da teoria espacial de Lefebvre exige a discussão de vários outros conceitos, que somente podem ser apreendidos através do entendimento de sua vasta teoria, de sua influência em Marx e de suas ora severas críticas a este mesmo autor.

De sua extensa obra filosófica, nos ateremos a apenas alguns dos conceitos e

aspectos de sua teoria que julgamos mais pertinentes para a discussão geográfica e deste trabalho em específico. Tais idéias são: vida cotidiana (e cotidiano); momentos (presença e ausência); e espacialidade (espaço social). A utilização desta última, naturalmente a de maior interesse para a Geografia, exige a compreensão das outras duas, pois delas é derivada ou, pelo menos, posterior cronológica e teoricamente.

Lefebvre defende a universalidade da utilização do materialismo dialético como método científico e como maneira de se ler o mundo. Procura avançar na aplicação do materialismo dialético além dos estudos sobre o capitalismo de Marx e Engels.

Acredita que este método pode e deve ser estendido para os demais domínios da vida social, tais como a política e as relações sociais em geral. Desta forma, apesar da grande influência de pensamento em Marx, Lefebvre não é um autor economicista e que reduz toda a realidade às lutas de classe como grande parte dos marxistas fizeram. Mesmo assim, é notável em sua obra a preocupação com a utilização de categorias típicas do marxismo, como alienação, mercadoria, modos de produção, trabalho, etc. Entretanto, o autor acrescenta à teoria crítica, outras discussões, como as acerca da vida cotidiana e do espaço, das quais defende a centralidade.

Além de Marx e Engels, as principais influências no pensamento de Henri Lefebvre são Nietzsche, Spinoza, Hegel, além das correntes artístico-filosóficas Surrealismo e Dadaísmo com as quais dialogou durante sua carreira acadêmica e de militância. O autor teve forte inspiração nos Surrealistas ao atribuir ao cotidiano papel central em sua teoria. Não obstante, segundo a análise de Shield (1999; 2006) acerca da vida e obra de Lefebvre, é o interesse humanístico na alienação o que unifica todo o seu trabalho. Este argumento é endossado pela preocupação demonstrada por Lefebvre quanto à importância de se discutir o conceito de alienação e sua centralidade no pensamento marxista, como fica evidente no seguinte trecho do primeiro volume de Critique of everyday life (2008a, p. 04): “today we are only just beggining to glimpse the complexity of the question that theory of alienation poses”13.

Portanto, é fundamental retomar minimamente as formulações de Marx e do próprio Lefebvre sobre a alienação. Nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 (2006, p. 110-122), Marx explicita as formas de alienação produzidas pelo capitalismo.

A partir de uma leitura convencional do texto, identificar-se-iam três formas de alienação:

13 “Hoje nós estamos apenas começando a vislumbrar a complexidade das questões que a teoria da alienação possui”. (tradução nossa).

a) alienação do trabalhador em relação aos produtos de seu trabalho – o que o trabalhador produz se torna alheio a ele e quanto maior o esforço que o trabalhador emprega ao produzir os objetos, mais ele se esgota e mais poderoso se torna o mundo dos objetos, assim, “mais pobre ele [o trabalhador]

fica na sua vida interior, [e] menos pertence a si próprio” (MARX, 2006, p. 112);

b) alienação do trabalhador em relação ao ato da produção – como o trabalhador é exterior ao trabalho, ele não se realiza plenamente em suas atividades produtivas, isto faz com que somente se sinta “em si fora do trabalho, enquanto no trabalho se sente fora de si” (MARX, 2006, p. 114), além disso, o trabalhador é alienado de seu trabalho porque este não o pertence, mas sim a outro.

c) alienação do trabalhador de si mesmo como ser humano – se o homem não se realiza no trabalho se vê reduzido a animal, já que somente lhe restam as funções animais para se sentir livre, assim, “o elemento animal torna-se humano e o humano, animal” (MARX, 2006, p. 115).

Lefebvre, para quem a alienação é um conceito espacial que se refere ao deslocamento e a distâncias (SHIELDS, 1999), com o objetivo de expandir a leitura da alienação de Marx, circunscrita às questões econômicas, para os demais aspectos da vida social, analisa a alienação em quatro formas (LEFEBVRE, 2008a, p. 61-62, grifo do autor):

a) “the alienation of the worker as an object (the alien power which turns him into an object)”14 – concerne ao fato de que o trabalhador é tratado, em sua atividade produtiva e nas demais relações sociais, como um objeto;

b) “the alienation of productive activity, in other words of labour itself (which is divided and split up by it)”15 – diz respeito à obliteração dos aspectos de criatividade e de auto-realização do trabalho, devido sua estruturação através de linhas de montagem, que o fazem ser uma atividade fragmentada em tarefas repetitivas e sem sentido para o trabalhador que as realiza;

14 “A alienação do trabalhador como um objeto (o poder de alienação que o torna um objeto)”. (tradução nossa)

15 “A alienação da atividade produtiva, em outras palavras, do trabalho em si mesmo (que é dividido e repartido por este)”. (tradução nossa).

c) “the alienation of man as species-being, member of the human species – as a system of humanized species-needs”16 – refere-se ao afastamento das pessoas de suas atividades criativas e de suas próprias necessidades como seres humanos;

d) “the alienation of man as being of nature, as a set of natural needs”17 – concerne à alienação das pessoas em relação a seus próprios corpos e a suas necessidades naturais.

A importância que Lefebvre atribui à discussão da teoria da alienação se deve ao fato de que a sua concepção de crítica da vida cotidiana ser baseada nela e nas formulações acerca do homem total – conceito emprestado de Marx, mas com raízes nietzschianas (SHIELDS, 1999). Isto se torna claro nas palavras do próprio Lefebvre (2008a, p. 76): “the theory of alienation and of the ‘total man’ remain the driving force behind the critique of everyday life”18. Podemos dizer, portanto, que a vida cotidiana é resultante de um processo dialético entre as diversas formas de alienação (Lefebvre dedica boa parte dos volumes de Critique of everyday life ao desenvolvimento da teoria da alienação e à demonstração da pluralidade das alienações) e os processos de desalienação, que levam à constituição do homem total. Comparando à alienação filosófica, relativa à “verdade sem realidade”, Lefebvre (1968, p. 26-27) delimita a alienação cotidiana, correspondente à “realidade sem verdade”. Estes dois tipos de alienação não são apenas opostos, mas complementares e correspondentes. Este contraponto entre a filosofia e a vida cotidiana, levado à frente, é esclarecedor quanto ao significado desta, que se caracteriza como não-filosófica e real, enquanto aquela se configura no campo das idéias e julga-se superior. Entretanto, a vida filosófica não consegue apreender a vida cotidiana justamente devido ao seu caráter abstrato e distante da realidade, da trivialidade da vida cotidiana: “banalidade prática e prática banal” (LEFEBVRE, 1968, p. 25).

A vida cotidiana, portanto, se refere à repetição de atividades banais, à prática social sob condições de alienação, sendo uma vida sem um significado profundo, sem

16 “A alienação do homem como pertencente a uma espécie, membro da espécie humana – como um sistema de necessidades de espécie humanizadas”. (tradução nossa).

17 “A alienação do homem como ser da natureza, como um conjunto de necessidades naturais”.

(tradução nossa).

18 “A teoria da alienação e do ‘homem total’ permanecem sendo a força motriz da crítica da vida cotidiana”. (tradução nossa).

sentido. Entretanto, ela também é o palco para os acontecimentos genuínos, dos momentos que a vida é vivida em sua plenitude, em que o homem experimenta sua realização consigo mesmo e com seus pares. Este embate contraditório que ocorre no seio da vida cotidiana, no entanto, não pressupõe uma equidade de forças, sobretudo quando se fala em relação às atividades cotidianas da vida moderna (LEFEBVRE, 2008a). A vida cotidiana passa a ser dominada pela alienação, pela falta de consciência, pela privação do homem em relação à realidade social e ao poder sobre si mesmo. Desta forma, é tomada pelo e confundida com o cotidiano. Apesar de muitas vezes confusa esta distinção na obra de Lefebvre, Shields (1999, p. 69) aponta alguns aspectos que diferenciam a vida cotidiana e o cotidiano.

It is worth distinguishing carefully between everyday life and the concept “the everyday” in order to clarify its meaning. The term “everyday life” in Lefebvre’s books means “banal and meaningless life”, not daily life. In French, there is a certain interchangeability between this idea of banal activities and daily tasks.

While “everyday life” in the sense of daily tasks is an amorphous set of more or less usual and unremarkable activities “the everyday” always means the ordinary, banal and repetitive. […]. Lefebvre foregrounds the lack of authenticity and the pervasive domination of daily life by alienation, which turns daily life form a set of creative and self-actualising experiences into the boring and repetitive “everyday”19.

O cotidiano compreende não apenas o trabalho e as relações sociais diretamente advindas dele, mas também tem como elementos as atividades de lazer, a família e a vida privada (LEFEBVRE, 2008a, 2008b, 2008c). Ele possui caráter trivial e recorrente. Repete-se uma rotina dentro e fora do trabalho. O lazer, portanto, não é o outro do trabalho. Ele apresenta uma relação de contradição, mas de união com a vida cotidiana, uma vez que o mesmo homem que trabalha durante o dia busca seu lazer nos horários de folga. Com isto, através do entretenimento e da distração, procura estabelecer o não-cotidiano no cotidiano. Esta relação se dá apenas como ilusão, já que não é possível ir além do cotidiano, pois o maravilhoso (marvellous) só existe como ficção e como ilusão compartilhada. Portanto, esta ilusão cria um círculo vicioso em que o trabalhador trabalha para conseguir o lazer, mas que o lazer não tem outro significado se não o escapar do trabalho (LEFEBVRE, 2008a). Lefebvre, portanto,

19 É válido distinguir cuidadosamente a vida cotidiana do conceito de “o cotidiano” a fim de clarificar seu significado. O termo “vida cotidiana” nos livros de Lefebvre significa “vida banal e sem sentido”, não vida diária. Em francês, há uma certa permuta entre esta idéia de atividades banais e tarefas diárias.

Enquanto “vida cotidiana” no sentido de tarefas diárias é um conjunto amorfo de atividades mais ou menos usuais e comuns, “o cotidiano” sempre significa o ordinário, o banal e o repetitivo. [...].

Lefebvre coloca em primeiro plano a falta de autenticidade e a dominação pregnante da vida diária pela alienação, que transforma a vida diária de um conjunto de experiências criativas e que encontram seu ápice em um “cotidiano” tedioso e repetitivo. (tradução nossa).

deixa transparecer uma visão negativa quanto ao lazer, pois este, ao fazer parte da vida cotidiana, pode ser tão alienado quanto o próprio trabalho com o qual pretende se contrapor. Assim, o autor apresenta três níveis de lazer, em escala de grandeza: o primeiro, como as caminhadas ou passeios em família, não é claramente distinguível das demais atividades do cotidiano; o segundo, refere-se a atividades de lazer que envolvem atitudes passivas, que podem ser exploradas economicamente e em que a alienação é evidente, como ir ao cinema; o terceiro, o das atividades de lazer críticas, diz respeito a atividades que envolvem atitudes ativas, que exigem uma profunda participação de quem as pratica, pois é necessário um conhecimento técnico. Dentre estas atividades poderíamos incluir desde a prática esportiva até outras atividades como pintura, fotografia, etc. As atividades deste terceiro nível vão em direção a um rompimento com o cotidiano alienante, apesar de estarem inseridas na vida cotidiana.

Não obstante, todas as atividades de lazer trazem em seu âmago uma crítica do cotidiano: “They are that critique in so far as they are other than everyday life, and yet they are in everyday life, they are alienation” 20 (LEFEBVRE, 2008a: 40, grifo do autor).

A teoria lefebvriana sobre a vida cotidiana, se analisada fora de contexto, parece altamente pessimista, apesar de o autor deixar transparecer em sua obra uma visão de que a vida cotidiana moderna, especificamente, é especial e fundamentalmente alienada. Entretanto, não se pode desconsiderar o fato de que o pensamento de Lefebvre é tributário do método materialista dialético, portanto se há alienação na vida cotidiana, há sua negação (ou antítese), que chamaremos preliminarmente de desalienação. Esta é atingida, segundo Lefebvre (2008a) através da arte de viver. O pensamento dialético de Lefebvre foi apreendido por Shields (1999, p. 77, grifo do autor): “In effect, he [Lefebvre] presents a dialectical notion of everyday life which involves a double essentialism – everyday life is both, by definition, alienated and, in essence, also unalienated or authentic material”21. A vida cotidiana é, portanto, também locus da experiência autêntica de si próprio e de integração com os demais, que ocorre quando se alcança a desalienação, quando a falsa consciência é superada.

Este caráter dialético da vida cotidiana é explicitado nas palavras de Lefebvre (1968, p.

20 “Elas são essa crítica à medida que são diferentes da vida cotidiana, e ainda elas estão inseridas na vida cotidiana, elas são alienação.” (tradução nossa).

21 “Efetivamente, ele [Lefebvre] apresenta uma noção dialética da vida cotidiana que envolve um duplo essencialismo – a vida cotidiana é, por definição, alienada e, em essência, material inalienado ou autêntico”. (tradução nossa).

34-35), que também refletem a prevalência do imediato (“aqui e agora”) nas relações promovidas em seu interior.

E, no entanto, essas pessoas nascem, vivem e morrem. Vivem bem ou mal.

Mas é no quotidiano22 que ganham ou não ganham a sua vida, num duplo sentido: não sobreviver ou sobreviver, apenas sobreviver ou viver plenamente.

É no quotidiano que nos divertimos ou sofremos. Aqui. E agora.

O homem ao se desvencilhar da alienação tem a possibilidade de se desenvolver em direção a se tornar um homem total (LEFEBVRE, 2008a, 2008b, 2008c; MARX, 2006). Em um trecho dos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, Karl Marx explicita o conceito, que é chave para a compreensão da crítica da vida cotidiana, de Henri Lefebvre:

Do mesmo modo como a propriedade privada constitui apenas a expressão sensível do fato de o homem ser para si algo de objetivo e se tornar para si um objeto estranho e não-humano, do fato de a sua manifestação da vida ser a sua alienação da vida, de a sua realização ser a sua desrealização, a emergência de uma realidade estranha; assim também a eliminação positiva da propriedade privada, ou melhor, apropriação sensível da essência e da vida humanas, do homem objetivo, das criações humanas para e por meio do perante o objeto a apropriação do referido objeto, a apropriação da realidade humana. A maneira como eles reagem ao objeto é a confirmação da realidade humana; é a eficiência humana e o sofrimento humano, já que o sofrimento humanamente considerado é uma autoposse do homem. (MARX, 2006, p.

141, grifo nosso).

A tradução brasileira desta edição, do trecho grifado, talvez não dê a verdadeira dimensão do homem total, em Marx. O trecho em inglês, comentado por Lefebvre (2008a, p. 173), nos parece mais esclarecedor: “Man appropriates his integral essence in an integral way, as a total man”23 (MARX, 1975, p. 351). O termo “essência integral”

denota de maneira mais clara, direta e precisa, que o homem total designa “man’s

22 O livro de onde foi retirada a citação A vida quotidiana no mundo moderno é uma tradução feita em Portugal, havendo algumas diferenças de termos devido à própria tradução e ao padrão ortográfico da língua portuguesa da época. Realizamos, em algumas das citações do livro, alguns ajustes com vistas a adequar ao atual padrão ortográfico. Entretanto, não modificamos as palavras, mantendo termos como “quotidiano”, que nas traduções brasileiras (esta obra não foi traduzida no Brasil) aparecem de forma diferente, como no caso: “cotidiano”.

23 “O homem se apropria de sua essência integral de forma integral, como um homem total”. (tradução nossa).

unity with himself, in particular the unity of the individual and the social, is an essential aspect of the definition of the total man”24 (LEFEBVRE, 2008a, p. 73, grifo do autor). O homem total, segundo Lefebvre, aquele humanizado ao extremo, que encontra o equilibro entre a natureza e a consciência, entre corpo e mente, entre si próprio e o outro, entre seus atos, coisas e produtos, é uma idéia a ser perseguida, não simplesmente um estágio histórico. Em uma entrevista, o autor define esta figura central em sua teoria: “Not physical, physiological, psychological, historical, economic or social exclusively or unilaterally; it is all of these and more, especially the sum of these elements of aspects; it is their unity, their totality…”25 (LEFEBVRE, 1968, p. 157 apud SHIELDS, 1999, p. 49). O homem total, mediante análise de Shields (1999) é uma apropriação marxista do “super-homem” (Übermensch)26 de Nietzsche, que é o que possibilita sentido ao devir da humanidade, ou seja, nas palavras de Nietzsche (2007b, p. 17) “Eu vos anuncio o super-homem. O homem existe para ser superado.”

Portanto, é compreendendo o super-homem, que se pode compreender o homem.

Mas como viver a vida intensamente? O que permite que aflore o homem total?

Teremos que nos dedicar a compreender a teoria dos momentos, de Lefebvre, para sermos capazes de responder as questões postas. Os momentos, para o autor, são diferentes dos instantes e têm relação com a vida cotidiana. Eles possuem algumas propriedades (LEFEBVRE, 2008b, p. 344-347, grifo do autor):

a) “The moment is constituted by a choice which singles it out and separates it from a muddle or a confusion, i.e., from an initial ambiguity”27 – o momento, portanto, procura romper com o cotidiano, mesmo que seja difícil identificá-lo em seu estágio embrionário com clareza, devido à ambigüidade entre este e a trivialidade;

24 “A unidade do homem consigo mesmo, em particular a unidade do individual e do social”. (tradução nossa).

25 “Não exclusiva ou unilateralmente físico, fisiológico, psicológico, histórico, econômico ou social; [o homem total] é tudo isso e mais, especialmente a soma destes elementos de aspectos; é a sua unidade, sua totalidade...” (tradução nossa).

26 O termo alemão Übermensch literalmente poderia ser traduzido como sobre-humano ou supra-humano. Contudo, as traduções brasileiras costumam utilizar “super-homem” para designar o termo.

27 “O momento é constituído por uma escolha que o singulariza e o separa de um estado de desordem ou de uma confusão, por exemplo, de uma ambigüidade inicial”. (tradução nossa).

b) “The moment has a certain specific duration”28 – mesmo que procure resistir e durar para sempre, o momento tem sua própria história, com começo, meio e fim; ele é essencialmente presente (contém em si uma presença);

c) “The moment has its memory”29 – o momento exige uma memória própria, que é condição para que ele seja reconhecido como tal e para que tenha implicações;

d) “The moment has its content”30 – este conteúdo provém da vida cotidiana, já que todos os momentos emergem dela, da qual eles extraem todo o material necessário;

e) “Equally, the moment has its form”31 – esta forma demanda a criação de um tempo e um espaço específicos, que são, ao mesmo tempo, objetivos e subjetivos; o momento se torna a sua própria forma e se impõe a seu conteúdo;

f) “Every moment becomes an absolute”32 – todo momento tem como condição ser absoluto, ou seja, se constituir como o impossível a ser alcançado, a ser desejado; esta condição fomenta a dialética entre o possível e o impossível, bem como suas implicações;

g) “Disalienating in relation to the triviality of everyday life – deep in which it is formed, but form which it emerges – and in relation to the fragment activities it rises above, the moment becomes alienation”33 – isto se deve a ele se anunciar absoluto, portanto, pressupor uma impossibilidade, uma falha potencial, uma negatividade específica; por isso mesmo, o momento traz consigo a noção do trágico, que assim e por sua vez, se encontra intimamente ligado ao cotidiano.

Após apontar todas as propriedades dos momentos, Lefebvre (2008b, p. 348, grifo do autor), define o momento como “the attempt to achieve the total realization of a possibility”34. A partir desta definição e das propriedades dos momentos podemos chegar a algumas questões importantes. A primeira se refere ao fato de que da

Após apontar todas as propriedades dos momentos, Lefebvre (2008b, p. 348, grifo do autor), define o momento como “the attempt to achieve the total realization of a possibility”34. A partir desta definição e das propriedades dos momentos podemos chegar a algumas questões importantes. A primeira se refere ao fato de que da