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3. A TEORIA DOS PRINCÍPIOS DE RONALD DWORKIN

3.5. A TESE DA ÚNICA RESPOSTA CORRETA (RIGHT ANSWER THESIS)

Dworkin trava uma discussão137 com os positivistas, segundo a tradição jurídico-filosófica do convencionalismo e com os realistas que fundamentam o pragmatismo, a respeito da possibilidade de uma resposta correta (right answer thesis) para os chamados casos difíceis (hard cases), com o objetivo de negar a tese segundo a qual, diante daqueles casos que inexistisse incidência de uma regra expressa, o juiz estaria autorizado, por meio do poder discricionário, criar um direito novo e aplicá-lo retroativamente ao caso concreto.

O clássico exemplo de Dworkin é o caso Tom contra Tim que assinaram um contrato no domingo, sendo que, existia uma lei que invalidava contratos sacrílegos, ou seja, que fossem assinados em dias feriados e santificados. Entretanto, Tom processa Tim para obrigá-lo a cumprir o que fora pactuado, mas encontra um argumento contrário no sentido da invalidade do negócio jurídico. Caso se leve em consideração os conceitos de contrato válido, crime e responsabilidade civil para algumas situações, pode-se verificar que os magistrados têm o dever de decidir as demandas. Desta forma, tais conceitos são identificados por Dworkin como dispositivos, tendo a característica da tese da bivalência.

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Muito embora a tese positivista queira negar a bivalência para os conceitos dispositivos, essa ambigüidade sobre a questão de direito subjacente ao caso, não pode excluir a possibilidade de uma resposta correta.

Dworkin utiliza-se de um exemplo relativo a uma partida de tênis para demonstrar seu raciocínio. É sabido que os árbitros têm o dever de marcar falta toda vez que um dos tenistas execute um saque inteiramente fora da quadra e também tem a obrigação de não marcar essa falta se a bola não sair completamente. Portanto, existe um lapso entre proposições que afirmam que um árbitro tem o dever de marcar a falta, mas isso está distante da admissão de existência de um espaço entre as proposições de que a bola caiu inteiramente dentro ou completamente fora da quadra. Assim, deduz-se que os conceitos dispositivos são usados para descrever as ocasiões do dever oficial, mas não se pode abstrair que esses conceitos devam ser próprios e ter a mesma estrutura que o conceito de dever.

“Dirá, corretamente, que o conceito de contrato válido não descreve simplesmente as circunstâncias factuais sob as quais os juízes têm certo dever. Podemos facilmente imaginar as regras do tênis sendo mudadas, de modo que, por exemplo, o juiz tenha o dever de marcar falta se a bola cair na linha da quadra. Mas não podemos imaginar uma mudança nas regras do Direito, de modo que os juízes não tenham mais nem sequer o dever prima facie de aplicar um contrato válido; em todo caso, se tal mudança ocorresse, certamente diríamos que o próprio conceito de contrato teria mudado radicalmente”.138

Existem diferenças de significado entre uma proposição que afirma um contrato como válido e outra que afirma que os juízes têm o dever de impor promessas constitutivas desses contratos. Sob o ângulo de visão da teoria semântica, há uma carência de validade para uma teoria do direito, pois se entendem absolutamente normais que o primeiro ponto oferece um argumento favorável ao segundo e não uma simples repetição.

“Esses conceitos propiciam um tipo especial de ponte entre certos tipos de eventos e as afirmações conclusivas sobre direitos e deveres válidos, quando provado que esses eventos ocorreram. Ambos designam premissas para afirmações conclusivas e insistem em que, se as premissas que designam não ocorrerem, é válida a afirmação conclusiva oposta, não apenas a negação da primeira. A necessidade de conceitos que tenham essa função na argumentação jurídica surge porque os conceitos de direito e dever em que se inserem as afirmações conclusivas são estruturados, isto é, porque há um espaço entre as afirmações conclusivas opostas. Sua função é negar que o espaço assim oferecido possa ser explorado pela rejeição das duas afirmações opostas”.139

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DWORKIN, Ronald. Uma questão de princípio. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 182.

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Desta forma, fornecerá um melhor argumento a favor da proposição que é a tese contrária tomada como inválida, por exemplo, o anteriormente citado contrato de Tom. É correto analisar que uma proposição jurídica é verdadeira se fornece a melhor justificativa para o conjunto de proposições jurídicas tidas como estabelecidas.

Ao contrário, a proposição é falsa se fornecer um argumento melhor a favor dessa proposição inversa. Assim, o raciocínio jurídico que se caracteriza como mais complexo também fará uso de um conceito próximo ao de coerência normativa.

Dworkin conclui seu raciocínio, afirmando que a dimensão da moralidade parte do pressuposto que as justificativas, quando apresentadas, vão se adequar igualmente aos dados jurídicos. Entretanto, uma delas oferece uma justificativa melhor através da teoria política ou moral.

“(...) se duas justificativas oferecem uma adequação igualmente boa aos dados jurídicos, uma delas, não obstante, oferece uma justificativa melhor que a outra se for superior enquanto teoria política ou moral; isto é, se apreende melhor os direitos que as pessoas realmente têm. A disponibilidade dessa segunda dimensão torna ainda mais improvável que algum caso específico não tenha nenhuma resposta certa. Mas a força da segunda dimensão – e o caráter da indeterminação que introduz – será objeto de disputa, porque juristas que sustentam tipos diferentes de teoria moral irão avaliá-las de maneira diferente. Céticos morais declarados argumentarão que a segunda dimensão não acrescenta nada porque nenhuma teoria é superior, em matéria de moralidade política, a nenhuma outra”.140

Dworkin abre um novo nível de debate, tendo em vista as objeções colocadas por aqueles que negam a possibilidade de uma resposta correta. Somente o argumento filosófico pode aceitar a tese de que existe uma resposta correta para casos difíceis, contestando que em um sistema jurídico complexo e abrangente seja improvável que duas teses divirjam a ponto de exigir respostas diferentes.

Assim também, deve fornecer argumentos que justifiquem certo ceticismo moral. Caso contrário, seria necessário preferir uma das teorias, com base na moralidade política para além do qual tenha se mostrado impossível.

A compreensão positivista do direito segundo a qual o direito é um sistema normativo composto por um conjunto de regras foi severamente combatida por Dworkin que contrapôs a esse entendimento afirmando que no ordenamento jurídico existe o gênero norma que englobam as espécies regra e princípio.

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Conclui sua análise sobre esta temática, afirmando que a diferença entre princípios e regras tem natureza lógico-argumentativa, onde ambos direcionam seus padrões para as decisões particulares sobre a obrigação jurídica para o caso concreto, mas são absolutamente distintas quanto aos parâmetros que disponibilizam para o sistema jurídico.