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4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.3 TESTE PERCEPTUAL PRELIMINAR

Apesar do objetivo deste trabalho de pesquisa estar relacionado apenas à produção dos segmentos nasais [ ] e [ ] em codas, fez-se um estudo preliminar de percepção com os dez informantes, alunos e alunas, que participaram das gravações dos dados.

A metodologia utilizada foi bastante simples, pois se tratou de um estudo bastante preliminar: cada um dos informantes escutou uma única vez as suas próprias produções de sentenças do livreto 1 (apêndice 2), ao mesmo tempo em que as escrevia (uma espécie de ditado). Os meninos fizeram o mesmo com as frases do falante nativo M; as meninas escutaram e escreveram as suas frases e as da falante nativa B.

Os resultados tabulados a seguir referem-se apenas à produção dos nativos ouvidas pelos alunos, já que ouvir a sua própria produção poderia gerar um erro duplo, pois nem sempre a produção dos alunos corresponde ao padrão das nasais.

O símbolo “ ” significa que se conseguiu reconhecer com acerto o som. O símbolo “X” significa que não reconheceu acertadamente o som.

O símbolo “%” refere-se ao percentual de reconhecimento do(s) segmento(s). As tabelas 11, 12, 13 e 14 apresentam estrutura similar, alternando ora os resultados de percepção de alunas, ora de alunos, e também alternando o segmento final a ser reconhecido ([ ] ou [ ]). Na primeira linha aparecem, além do segmento a ser identificado, as iniciais dos informantes, e após um traço duplo, o percentual de reconhecimento obtido com cada elemento do par mínimo que aparece na linha correspondente. Assim, por exemplo, com dados da tabela 11, tem-se que as

informantes BA, C e L reconheceram acertadamente o som do segmento [ ] em CAM, enquanto as informantes R e V não conseguiram tal reconhecimento. Então, o percentual de reconhecimento deste elemento do par mínimo CAM x CAN foi de 60% entre as meninas. Para cada uma destas quatro tabelas, há uma linha em branco, e depois, por último, o percentual total de reconhecimento para cada um dos informantes da tabela em questão. Por exemplo, BA conseguiu um percentual total de reconhecimento de segmentos [ ] de 90%.

A tabela 15 apresenta um resumo dos testes preliminares de percepção, onde aparecem os resultados separadamente para meninos e meninas, e meninos + meninas (na coluna “alunos” desta tabela, para fins de cálculo de percentual de reconhecimento foram desconsiderados os dados relativos ao aluno H, que considerou sistematicamente todas as palavras como se tivessem coda [ ]). Os últimos segmentos de cada palavra alvo aparecem na primeira coluna. Assim, tem-se palavras terminadas em [ ] + [ ], [ ] + [ ] e o conjunto de palavras com segmento final [m]: [ ] + [ ] e [ ] + [ ]. Depois, a mesma seqüência para as palavras terminadas com o segmento [ ]: [ ] + [ ], [ ] + [ ], e [ ] + [ ] e [ ] + [ ].

TABELA 11 – ALUNAS OUVINDO AS PRODUÇÕES DE B COM SEGMENTO [ ] [ ] BA C L R V % CAM X X 60 DAM 100 [ ] GRAM 100 JAM 100 PAM X X X 40 % 80 100 100 60 60 80 DIM X X 60 GYM 100 [ ] PIM X 80 SKIM X X X 40 TIM 100 % 100 80 60 60 80 76 % [ ] e [I] 90 90 80 60 70 78

TABELA 12 – ALUNAS OUVINDO AS PRODUÇÕES DE B COM SEGMENTO [ ]

[ ] BA C L R V % CAN 100 DAN X 80 [ ] GRAN X X X X 20 JAN X X X 40 PAN 100 % 40 60 100 80 60 68 DIN X X 60 GIN X X X X X 0 [ ] PIN 100 SKIN X X 60 TIN X X 60 % 20 80 80 60 40 56 % [ ] e [I] 30 70 90 70 50 62

TABELA 13–ALUNOS OUVINDO AS PRODUÇÕES DE M COM SEGMENTO [ ] [ ] BR CA D G H % CAM X X X X 20 DAM X X 60 [ ] GRAM X 80 JAM X X 60 PAM X X X 40 % 80 40 40 100 0 52 DIM X X X 40 GYM X X X 40 [I] PIM X X X X 20 SKIM X X X X X 0 TIM X X X 40 % 40 0 20 80 0 28 % [ ] e [I] 60 20 30 90 0 40

TABELA 14-ALUNOS OUVINDO AS PRODUÇÕES DE M COM SEGMENTO [ ]

[ ] BR CA D G H % CAN X 80 DAN 100 [ ] GRAN X X X 40 JAN X X X 40 PAN 100 % 60 80 60 60 100 72 DIN 100 GIN X X X X 20 [I] PIN 100 SKIN 100 TIN X 80 % 80 80 60 80 100 80 % [ ] e [I] 70 80 60 70 100 76

TABELA 15 – PERCENTUAIS GERAIS DE RECONHECIMENTO (EM %)

ALUNAS ALUNOS50 ALUNAS + ALUNOS

[ ] + [ ] 80 65 72,5 [ ] + [ ] 76 35 55,5 [ ]+[ ] e [ ]+[ ] 78 50 64 [ ] + [ ] 68 65 66,5 [ ] + [ ] 56 75 65,5 [ ]+[ ] e [ ]+[ ] 62 70 66 4.3.1 COMENTÁRIOS

Um dos fatos que se pode observar foi que havia muita dúvida quanto ao som que correspondia às codas das palavras alvo (com [ ] ou [ ] no final), relatado informalmente pelos próprios alunos.

As estratégias usadas pelos alunos para tentar reconhecer o que ouvem na produção deles próprios ou na de falantes nativos variam. Há a negação total do segmento [ ] e conseqüente consideração de todas as palavras ouvidas como se tivessem coda [ ] (H), negação do segmento [ ] quando antecedido por [ ] (CA), reconhecimento da coda [ ] em apenas 30% dos casos (D), reconhecimento da coda [ ] em apenas 30% dos casos (BA) . Os demais cometem menos erros, mas a estratégia de reconhecimento parece ser bastante aleatória. A palavra gin obteve o índice mais baixo de percepção, tendo sido reconhecida por apenas um dos alunos, assim mesmo por um que optou por considerar que todas as codas seriam [ ]. Percebe-se que os alunos percebem alguma diferença, mas não conseguem defini-la exatamente (talvez falta de

feedback).

As médias de reconhecimento para a vogal antecedente [ ] para o conjunto alunos+alunas foram bem superiores às de [ ] no caso do segmento [ ], 72.5 contra 55.5%, e apenas um ponto percentual superior no caso do segmento [ ] ,66.5 contra

65.5%. Isto ocorreu porque os meninos, para o segmento [ ], reconheceram melhor os pares com vogal antecedente [ ]. Note-se que no experimento de produção, os pares [ ] apresentaram percentual de similaridade maior (44 % de [ ] contra 36% de [ ]). O percentual geral de reconhecimento foi de 64% para codas [ ] e 66% para codas [ ], enfim muito próximos entre si.

Parece que, pelos resultados obtidos, ocorre mais nitidamente para os alunos que há uma diferença de outiva entre os segmentos [ ] e [ ], porém eles não conseguem reproduzir esta diferença quando produzem os segmentos – melhores resultados de percepção do que de produção (o oposto ao que havia sido obtido por KLUGE (2004), em que a tendência foi que a produção foi mais precisa que a percepção). Talvez haja que se revisar a concepção de que não se produz porque não se percebe. Talvez se perceba, mas se necessite de um reforço para se produzir consistentemente a diferença.

5. CONCLUSÕES

Para se alcançar o objetivo geral deste trabalho de pesquisa, que era o de verificar o que era produzido pelos alunos quando estes tentavam realizar uma das duas consoantes nasais em estudo, a saber, o segmento [ ] e o segmento [ ], através de análise acústica de dados, faltavam-nos na literatura indicações sobre quais parâmetros acústicos utilizar para a comparação entre os dois segmentos. Apenas Ladefoged assinalava a possibilidade de o segundo formante da nasal do segmento [ ] ter a freqüência mais baixa quando da sua articulação (LADEFOGED, 2001(b), p.54), porém não mencionava comparativamente a produção de [ ]. Foi através da análise comparativa dos dados obtidos nas gravações com os dois falantes nativos do grupo controle que se verificou a consistente superioridade do segundo formante do murmúrio nasal de [ ] em relação ao F2 de [ ] para todos os pares mínimos analisados. Há que se frisar que a pesquisa em questão tem seu escopo limitado, e que muito mais ainda precisa ser feito, porém acredita-se que para monossílabos com a nasal em coda simples e com os ambientes adjacentes às nasais definidos neste trabalho (silêncio após as nasais, ambiente este que apresentou também o maior grau de dificuldade de produção na pesquisa de KLUGE (2004), e vogais de duas qualidades – [ ] e [ ] as antecedendo), a definição de F2 do murmúrio nasal como parâmetro comparativo foi significativa.

Então, através de comparações feitas das produções dos alunos com a produção de dois falantes nativos, com base na análise acústica do murmúrio nasal, especificamente do segundo formante deste, verificou-se que 40% das frases produzidas pelos alunos era acusticamente similar à produção das nasais feita por um falante nativo (onde o F2 de [ ] é maior que o F2 de [ ]). Um terço das produções dos alunos mostra valores de F2 para [ ] superiores aos [ ], porém muito próximos entre si, o que talvez possa a vir a sinalizar duas possibilidades: num extremo, a tentativa de acerto, quando o aluno tenta realizar um ou outro segmento, mas não é plenamente bem sucedido, e no outro a possibilidade de que esteja nasalizando a vogal antecedente à nasal, daí a indistinção. Ainda do total, 27% dos resultados traz valores de F2 do murmúrio nasal de [ ] maiores que os de [ ], o oposto do que ocorre com as produções de um falante nativo.

A hipótese levantada na introdução deste trabalho de que estudantes de inglês falantes nativos de português brasileiro tendem a produzir vogais nasalizadas pode, portanto, ser verdadeira para um terço dos casos, segundo os resultados obtidos neste trabalho, e nas condições delimitadas nesta pesquisa.

Com relação ao ambiente antecedente à nasal, os dados mostraram que com a vogal antecedente [ ] a produção tende a ser, percentualmente, mais próxima à produção de falantes nativos: 56% de similaridade (contra 52% para os pares [ ]) para as meninas, e 32% (contra 20% para os pares [ ]) para os meninos. As meninas conseguiram, no geral, um grau de similaridade com a falante nativa bem superior ao que os meninos conseguem com o falante nativo: 54% contra 26% dos meninos.

A título de curiosidade, e num trabalho bastante preliminar, foi realizado um teste perceptual com os alunos, onde 64% das codas [ ] e 66% das codas [ ] foram corretamente reconhecidas. Estes resultados, contrariamente às expectativas iniciais, sugerem que pode ser mais fácil para os alunos perceberem a diferença entre os segmentos [ ] e [ ] do que produzi-la.

Neste estudo, trabalhou-se com um corpus limitado a palavras monossilábicas, tendo como ambientes anteriores às consoantes nasais apenas duas vogais: [ ] e [ ]. O campo de estudos, levando apenas em consideração estes ambientes já seria bastante amplo se tomássemos todo o inventário dos fonemas vocálicos da língua inglesa, nos seus dois dialetos mais usados, o americano (General American) e o britânico (Received

Pronunciation). Há necessidade também de estudo acústico de nasais em codas de

polissílabos, levando em consideração o acento da palavra, o que poderá influenciar a produção da nasal, assim como com ambientes posteriores às nasais que não o silêncio, o que se utilizou neste trabalho.

No que diz respeito aos informantes, que no presente estudo foram alunos de nível pré-intermediário apenas, haveria necessidade de se abrir o leque para outros níveis, desde o básico até o adiantado, para se verificar se haveria, como se espera, progresso em níveis de similaridade da produção com falantes nativos à medida que os conhecimentos e o contato com a língua inglesa se intensificam.

O número de informantes do grupo controle precisa ser também ampliado para se conseguir mais segurança na definição do(s) parâmetro(s) acústico distintivo entre as nasais bilabiais e alveolares. A idéia é confirmar o F2 do murmúrio nasal como um fator

acústico distintivo entre aqueles segmentos em todas as posições dentro de uma sílaba, e em todos os ambientes possíveis, ou se não, encontrar outro(s) fator(es) que o seja(m) . Verifica-se, então, que nesta área de análise acústica de consoantes nasais, muito ainda precisa ser feito considerando-se a interlíngua L1 (português) – L2 (inglês), tal que resultados práticos sejam levados para dentro das salas de aula e dos livros didáticos de ensino de inglês como língua estrangeira.

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