4 AS PALAVRAS COMUNICAM SIGNIFICADOS: ANÁLISE DOS
4.1 CONSIDERAÇÕES E ANÁLISE
4.1.1 Análise argumentativa dos textos históricos
4.1.1.1 Texto 01: A hipótese de dois tipos de eletricidade: a vítrea e a resinosa
Nós percebemos que existem dois tipos de eletricidade totalmente diferentes de natureza e nome; àquela dos sólidos transparentes como o vidro, o cristal etc. e àquelas betuminosas ou dos corpos resinosos tais como âmbar, o copal, a cera de lacre etc. Cada uma repele corpos que adquiriram a eletricidade de sua mesma natureza e atrai aquelas de natureza contrária. Nós pudemos perceber que mesmo os corpos que não são elétricos podem adquirir alguma destas eletricidades e passam a agir como os corpos que a cederam (DUFAY apud WHITTAKER, 1973, p. 44).
Este texto foi escrito por Dufay, no século XVIII, estudioso que participou ativamente na tentativa de buscar uma solução para alguns fenômenos elétricos apresentados por determinados materiais.
O enigma, que intrigava a sociedade científica da época, consistia em desvendar os mecanismos de atração, contato e repulsão que ocorriam entre corpos eletrizados e neutros. Na tentativa de esclarecer a origem de tais mecanismos da matéria sutil invisível, o francês Charles François de Cisternay Dufay teve importante contribuição.
Dufay ao notar a existência de comportamentos distintos apresentados por dois tipos de materiais (os que se comportavam como a cera e a resina e os que tinham comportamento próprio do vidro) estabeleceu a hipótese de dois tipos de eletricidade; a vítrea e a resinosa. Dufay usou inicialmente um argumento de reenquadramento por dissociação: o que o autor constatou, foi de um lado os diferentes tipos de eletricidade decorrentes da natureza dos materiais e de outras denominações a que foram atribuídas, caracterizando-as de acordo com tal natureza (BRETON, 2003).
Vimos também no texto de Dufay, o uso do pronome ―nós‖ criando uma proximidade com o auditório, como se ele também concordasse com a ideia defendida. Ademais, o uso da primeira pessoa do plural demonstrou um compartilhamento da opinião proposta com outros indivíduos. Em outras palavras, há outros que comungavam com a ideia, não sendo, portanto, uma adesão apenas do autor (orador) que proferiu os argumentos. De acordo com Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005, p. 202), esta situação pode ser caracterizada por uma figura de comunhão, em que ―[…] o orador se assimila aos seus ouvintes, confundindo-se a última, com seu pseudo discurso direto‖. Dessa forma, esta etapa comprometeu outros, a si mesmo e também o leitor (auditório).
A opinião do texto de Dufay pode ser resumida da seguinte forma: - a existência de dois tipos de eletricidade totalmente diferentes.
- eletricidades de mesma natureza se repeliam e de natureza contrária se atraiam.
- estas eletricidades puderam ser transmitidas a outros corpos, que, por sua vez, passaram a exibir as mesmas propriedades dos corpos que a cederam.
Após o reenquadramento do real por dissociação, Dufay propôs-nos o seu ponto de vista a respeito do comportamento de tais materiais, tanto entre si quanto em relação aos materiais não elétricos. Como afirmaram Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005), as premissas (objetos dos acordos), são ―fatos‖; referiram-se a uma realidade objetiva. Ao versar sobre o real foram presumidamente válidas para o auditório universal, e, assim, tanto orador quanto auditório as compreenderam com base no mesmo estatuto, pelo menos até que uma divergência explicita obrigasse a modificar a hipótese.
O texto, portanto, consistiu de opiniões transformadas em argumentos para convencer. A dinâmica argumentativa do autor consistiu no uso de um argumento de dissociação ao propor a existência de dois tipos de eletricidade ―totalmente diferentes‖. Esta situação implicou uma retomada do que já era conhecido, do que era compreendido e, serviu de ponto de referência para o reenquadramento do real, o qual ―implica em uma novidade, um deslocamento, um outro olhar‖ (BRETON, 2003, p. 94). Além de que o uso de termos como ―totalmente‖ na expressão ―tipos de eletricidade totalmente diferentes‖ veio reforçar a opinião defendida de que há distinção entre as formas ou tipos de eletricidades. Ainda podemos constatar que o uso da figura zeugma ―àquela dos sólidos transparentes‖ e ―àquelas betuminosas‖ teve o objetivo de evidenciar tal distinção pela exemplificação utilizando-se de materiais cujos aspectos físicos são bastante distintos. Essa ideia de distinção foi reforçada, ainda, no uso de antítese ―Cada uma repele corpos que adquiriram a eletricidade de mesma natureza e atrai aquelas de natureza contrária‖. De acordo com Reboul (2004), a oposição foi reforçada com a identidade dos dois hexâmetros.
Se tomarmos como ações da eletricidade os verbos ―repele, atrai, agir, ceder‖ tem-se a personificação. Estes termos tornaram a explicação mais palpável, clara ao leitor, ou seja, tornaram os acontecimentos presentes à consciência do leitor.
Para Lakoff e Johnson (2002) a personificação possibilita a compreensão de inúmeras experiências pertencentes às ―[…] entidades não humanas em termos de motivações, características e atividades humanas‖ (LAKOFF e JONHNSON, 2002, p.87). Ainda que a personificação seja a transformação de um evento em um indivíduo, ela não foi generalizada. Cada personificação foi caracterizada pelo aspecto humano que representou. Dessa forma, a personificação consistiu da mais evidente metáfora ontológica em que os objetos físicos foram compreendidos como pessoas.
4.1.1.2 Texto 02: “Observações e suposições em direção a uma nova hipótese para explicar os vários fenômenos dos raios” (FRANKLIN, 1941, pp. 201-211)
2. O fogo elétrico ama a água, é fortemente atraído por ela e eles podem coexistir, 3. O ar é um elétrico por si só e quando seco não conduz o fogo elétrico […], 4. A água
quando eletrizada, os vapores que dela saem também são eletrizados e flutuam no ar na forma de nuvens que mantêm o fogo elétrico até encontrarem outras nuvens ou corpos não tão eletrizados, e então comunicam o [fogo elétrico] a eles […] e 33. Quando as partículas eletrizadas da primeira nuvem próxima perdem seu fogo [elétrico], as partículas de uma outra nuvem próxima recebe […] A colisão ou o solavanco dado no ar também contribui para derrubar a água, não apenas destas duas nuvens mas também de outras próximas. Portanto a queda súbita da chuva imediatamente acende o relâmpago.
Estas observações/suposições foram enviadas para John Michel (1724-1793), em uma carta endereçada em 29 de abril de 1749. Na primeira observação, 1-―O fogo elétrico ama a água, / 2- é fortemente atraído por ela / 3- e eles podem coexistir‖ (numerações e divisões nossas), Franklin ao descrevê-la, utilizou um argumento inovador para o enquadramento do real em que a apresentação dos fatos pôde entrar em ressonância com o conhecimento mais geral existente, tornando-o mais evidente (BRETON, 2003). Tratando-se de uma carta, o auditório consistiu de um único interlocutor, o que Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005) consideraram um diálogo entre orador e interlocutor. Neste caso, os argumentos presumidos tiveram o objetivo de buscar a verdade para ambos, conduzindo a uma evidência. Todavia, pelo caráter experimental (observações) que foram derivadas essas proposições, elas foram suscetíveis de controvérsias.
De acordo com Reboul (2004) pode-se afirmar que Franklin ao enunciar essa observação, iniciou-a com uma catacrese ―fogo elétrico‖, atualmente, considerada por Campadelli e Souza (2000) uma metáfora forçada, já desgastada pelo uso, tendo em vista a época meados de 1749, e o contexto histórico em que o fenômeno foi estudado. Não havia outra forma de expressão para exprimir o inexprimível com relação ao que atualmente é conhecido como descarga elétrica.
Nota-se o emprego do oxímoro, chamada de tropo complexo, mediante o verbo ―coexistir‖, unindo dois termos incompatíveis (fogo/água), permitiu a ideia de causa e efeito (nuvens/relâmpago).
Franklin utilizou-se de uma metáfora expandida em que a ideia da primeira metáfora ―ama a água‖ foi reforçada pelas duas últimas ―atraído por ela‖ e ―podem coexistir‖, (atração e coexistência), ao mesmo tempo, em que resultaram numa personificação, pois, atribuíram ações humanas ao ―fogo elétrico‖. Isto contribuiu para tornar o argumento mais palpável,
mais concreto, ou seja, uma situação mais próxima do real facilitando para o interlocutor, as abstrações necessárias para o entendimento do fenômeno elétrico ocorrido.
Na proposição 3, constatamos o uso das metáforas ―o ar é um elétrico‖ e ―quando seco não conduz o fogo elétrico‖ para induzir o interlocutor à reflexão quanto à capacidade e as restrições que foram apresentadas pelos corpos elétricos, de conduzir tal eletricidade a outros corpos não elétricos. Franklin ao enunciar estes argumentos (fatos) a respeito da natureza elétrica dos raios, fez uma comparação implícita com os fenômenos elétricos manifestados pela matéria sutil e invisível. Além disso, tentou influenciar o pensamento de John Michell sobre essas propriedades comuns às duas situações, ao estabelecer a igualdade dos fenômenos observados.
Na proposição 4, observamos que o autor fez uso de duas metáforas mediante os verbos ―encontrar‖ e ―comunicar‖ na expressão ―flutuam no ar na forma de nuvens que mantêm o fogo elétrico até encontrarem outras nuvens ou corpos não tão eletrizados, e então comunicam o fogo elétrico a eles‖, resultando numa personificação. Dessa forma, Franklin tornou o processo da descarga elétrica presente à consciência do seu interlocutor, persuadindo-o de que o relâmpago constituiu-se um fenômeno elétrico, (REBOUL, 2004).
Ainda nesta carta, na proposição 33, Franklin reforçou a natureza elétrica do relâmpago ao evidenciar o processo de transferência de carga elétrica entre as nuvens ao afirmar que ―quando as partículas eletrizadas da primeira nuvem próxima perdem seu fogo [elétrico], as partículas de uma outra nuvem próxima o recebe […]. Assim, os verbos perder/receber constituíram uma antítese (oposição de termos contrários), ou seja, uma ―oposição retórica que sobressaiu graças à repetição‖ (REBOUL, 2004, p.127). Também foi possível observar o uso das metáforas: ―derrubar a água‖, ―queda súbita da chuva‖ e ―ascende o relâmpago‖ em que a força argumentativa maior esteve em dar ênfase no que se quer dizer. Além disso, expressou o que de maneira comum não se conseguiu expressar. Dito de outra forma, expressou o que na linguagem literal foi indizível.
Na composição do texto, constatamos que o autor utilizou a figura de retórica zeugma na elocução dos argumentos, tornando-o mais coeso e, portanto, mais persuasivo.
Com base em Lakoff e Johnson (2002), vimos que nas suas observações e suposições, Franklin utilizou-se das experiências do cotidiano com objetos físicos fornecendo a base
experiencial para as distintas metáforas ontológicas, ou seja, diferentes formas de conceber eventos, atividades etc., propiciando a compreensão do fenômeno elétrico, assim como do relâmpago, mediante essas experiências com substâncias e objetos físicos. Lakoff e Johnson (2002) lembraram-nos que a compreensão a partir de objetos e substâncias permitiu selecionar parte dessa experiência e tratá-la como ―entidades discretas‖ ou ―substâncias de uma espécie uniforme‖. A possibilidade de identificar as nossas experiências como entidades ou substâncias permitiram a apreensão de aspectos da natureza, especialmente os fenômenos elétricos propostos por Franklin, tornando-os entidades delimitadas por uma superfície. Assim, esta demarcação desempenhou papel importante para o início do processo de aprendizagem do fenômeno apresentado.
Na concepção destes autores ―[…] a metáfora está infiltrada na vida cotidiana, não somente na linguagem, mas também no pensamento e na ação‖. Dessa forma, o nosso sistema conceptual ordinário, por meio do qual percebemos, pensamos e agimos foi essencialmente metafórico (LAKOFF e JOHNSON, 2002, p. 45).
4.1.1.3 Texto 03: Experimento proposto à Royal Society para verificar a natureza