CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS: EXCLUSÃO, TRABALHO E IDENTIDADE
1.5. Desmistificando conceitos
1.5.2. Trabalho e Exclusão
Neste complexo sistema interligado, há a existência de grupos que sem emprego, sem dinheiro e sem condições de uma reinserção na sociedade regida pelo mercado, se excluem e perdem seus valores como cidadãos com direitos e deveres, deste modo, vão preencher as lacunas menos favorecidas do sistema.
Devido à evolução tecnológica e pela necessidade de qualificação profissional essas pessoas são descartadas do mercado de trabalho, inúmeras pessoas que perderam o valor, não são necessárias para a manutenção da mais valia, não podem consumir, logo, não existem para o sistema capitalista de produção.
Na análise do Quadro 01 é possível observar que a questão do “trabalho” passa por uma depreciação, há negligência no valor do trabalhador; o que se valoriza é a mercadoria produzida e as diversas atividades que esse homem ou mulher pode desempenhar na produção em sua jornada de trabalho, ou seja, tem que haver qualificação e flexibilidade para desempenhar mais de uma função.
Há nesta apropriação da força de trabalho a necessidade do capital de se inserir em todas as classes, sentidos e valores, há uma reestruturação produtiva que leva a uma mundialização do capital (Alves, 2000).
Quadro 01 - Estruturação produtiva como acumulação flexível. Fonte: Alves, Giovanni (2000.p.18 e 19) apud Mattoso, 1995. Organização: Cantóia, 2011.
Segundo Marx, 1990, apud Alves (2000, p.22)
Uma das condições histórico-ontológicas da produção capitalista é sempre
“flexibilizar” as condições de produção – principalmente as da força de
trabalho. Um dos traços ontológicos do capital é a sua notável capacidade em
“desmanchar tudo o que é sólido”, revolucionar, de modo constante, as
condições de produção; pôr – e repor- novos patamares de mobilidade do processo de valorização nos seus vários aspectos (MARX, 1990, apud Alves, 2000, p.22, grifos do autor).
Analisando a flexibilização como ferramenta indispensável do capital para coibir e desconfigurar o trabalhador enquanto sujeito Alves (2000, p.23) aponta,
É claro que, na era da mundialização do capital, a partir da terceira Revolução Tecnológica, sob a ofensiva neoliberal, a categoria da flexibilidade se desdobra e adquire múltiplas determinações no interior do complexo de produção de mercadorias, assumindo, desse modo, novas
proporções, intensidade e amplitude. Ela não se restringe apenas à “maior versatilidade possível do trabalhador”. A flexibilidade torna-se sentido geral,
um atributo da própria organização social da produção (ALVES, 2000, p.23, grifos do autor).
Ou seja, é através da flexibilidade do trabalho que a acumulação do capital é possível, crescente e devastadora.
Inovações Capitalistas Flexibilização de Produção Especialização Flexível Novo patamar do desemprego estrutural
Resultado da acumulação flexível sobre o mundo do trabalho
Proliferação do trabalho precário nos principais países capitalistas
Anos 90 Anos 80
Novas formas de exclusão social - surgem novas clivagens de desigualdades, uma nova pobreza no interior do centro capitalista (insegurança no
trabalho, no interior do centro capitalista, insegurança no trabalho, no mercado de trabalho, no emprego, na contratação e na
Neste processo transformativo e perverso, inúmeros trabalhadores vivem a
insegurança do dia a dia, se tornam obsoletos para as qualificações exigidas neste “novo e precário mundo do trabalho.” (Alves, 2000), se tornando grupos de reserva, grupos
desqualificados dentro dos novos padrões que formam uma classe que não consegue um lugar no mercado formal, que mesmo trocando jornada por salário não servem mais.
Nasce assim a classe informal, excluída.
O mundo do trabalho sob o novo complexo de reestruturação produtiva é permeado não apenas por novos tipos de controle do trabalho, mas principalmente por uma nova exclusão social, caracterizada pelo desemprego estrutural que atinge os polos industriais mais desenvolvidos (ALVES, 2000, p. 259).
Estes trabalhadores desempregados vão encabeçar à classe de trabalhadores informais, que retirados do mercado irão se reagrupar em outras condições, em outros modelos para continuarem trocando jornada de trabalho por salário, o que muda é que continuam sendo explorados, porém, sem carteira de trabalho, ou seja, sem direitos trabalhistas, como é o caso da categoria dos catadores de materiais recicláveis.
Este grupo surge diante de um mercado que está em expansão, o da reciclagem. Neste processo há a necessidade de grandes quantidades de materiais aptos a serem reutilizados e transformados em novas mercadorias colocadas novamente no mercado. As indústrias deste ramo necessitam então dessa matéria prima para obtenção de lucro, que na maioria das vezes nasce da exploração destes catadores que “garimpam” os materiais nas montanhas de lixo e os vendem geralmente para atravessadores.
A existência das pessoas que sobrevivem da catação de resíduos em lixões, não é reconhecida por parte da sociedade, que é responsável pela geração e pelo descarte desses resíduos dia após dia, sem cuidados específicos. Segundo Gonçalves (2004),
Apesar de inclusos no circuito econômico da reciclagem os trabalhadores catadores dos lixões estão longe dos olhos daqueles que produzem o lixo nos centros urbanos, ou seja, a maioria dos citadinos desconhece esses lugares e nunca viu de perto como se realiza o trabalho de catação/garimpagem em um lixão. Estão distantes também do contato com empresários e das portas das indústrias recicladoras, que estão interessadas nas mercadorias e não na maneira que se dá o trabalho daquele que as fazem chegar até as suas engrenagens; apesar disso, controla os preços e a escolha dos materiais retirados do lixo pelos catadores; não na negociação direta com estes últimos, mas através da compra junto aos sucateiros de determinados materiais (GONÇALVES, 2004).
O trabalho de catação dos resíduos recicláveis nos lixões apresenta uma das faces mais perversas da organização da sociedade nessa viragem do século XXI. Ao garantir sob qualquer aspecto da vida humana, a reprodução ampliada do capital subjuga e eleva à máxima potência a exploração do trabalho, ou à super-exploração do trabalho, não conferindo outra razão para a vida aos que não estejam a seu serviço, mesmo que em condições precárias (GONÇALVES, 2006, p.33).
O fato de essas pessoas serem “descartadas” do meio de produção e por isso se
reinserirem mesmo não estando em um circuito econômico formal tem suas origens no caso brasileiro na flexibilização de produção e na especialização flexível, como é apontado em Alves (2000).
Devido ao circuito perverso do capital estas pessoas foram perdendo valor e deste modo sujeitando o indivíduo a se considerar imprestável, culpado por estar desempregado, tentado achar um meio para que “fique novamente apto” para a sua própria venda, pois com o acúmulo de profissões de qualificações viramos como aponta Bauman (2008) um objeto pronto para ser comprado.