Como já verificado, no Brasil, a regra geral é a proibição de trabalho realizado por menores de 14 anos de idade, e, aos menores entre 14 e 16 anos de idade, somente é permitido o trabalho na condição de aprendiz. A partir dos 16 anos de idade, o trabalho permitido deve atender algumas regras e limitações previstas na legislação, sendo defeso, em qualquer idade, o desempenho de atividades classificadas como as piores formas de trabalho infantil. (BARROS, 2017, p. 366- 373).
De acordo com a Convenção 182 da OIT, promulgada no Brasil pelo Decreto 3.597/2000, dentre as piores formas de trabalho infantil está “o trabalho que, por sua natureza ou pelas condições em que é realizado, é suscetível de prejudicar a saúde, a segurança ou a moral das crianças”. (GARCIA, 2018, p. 1105).
É consenso entre os doutrinadores que o trabalho infantil, além de causar prejuízos de ordem psíquica e emocional, pode contribuir para sérios danos na saúde do trabalhador mirim. Melo e César (2016, p. 46) referem que “As crianças e adolescentes que trabalham em condições desfavoráveis pagam com o próprio corpo, quando carregam pesos excessivos, são submetidos a ambientes nocivos à saúde, vivem nas ruas ou se entregam à exploração sexual”.
Ainda, conforme ensinam Melo e César (2016, p. 48), o trabalho precoce pode comprometer o desenvolvimento do sistema muscular e esquelético da criança, causando retardo no desenvolvimento pôndero-estatural, além de “desnutrição proteico-calórica, fadiga precoce, maior ocorrência de doenças infecciosas (gastrointestinais e respiratórias), parasitárias e contaminações”. Também enfrentam deformidades da coluna, dores lombares e encurtamento de membros. Isso decorre do fato de as crianças e adolescentes não terem “seus ossos e músculos completamente desenvolvidos”. Os autores acrescentam:
A ventilação pulmonar é reduzida. Têm maior frequência respiratória. Absorvem mais substâncias tóxicas do que os adultos, podendo levar à morte.
Crianças e adolescentes têm maior frequência cardíaca que os adultos para o mesmo esforço. Portanto, ficam mais cansadas, ainda que exerçam a mesma atividade dos adultos.
As pressões do trabalho podem provocar diversos sintomas, como por exemplo, dores de cabeça, insônias, tonteiras, irritabilidade, dificuldade de concentração e memorização, taquicardia e, consequentemente, baixo rendimento escolar.
Sistema nervoso central não está totalmente desenvolvido. Essas pressões podem causar diversos problemas psicológicos: medo, tristeza e insegurança.
Crianças têm fígado, baço, rins, estômago e intestinos em desenvolvimento, o que provoca maior contaminação pela absorção de substâncias tóxicas. Quando submetidas a trabalhos pesados, as crianças produzem mais calor corporal que o dos adultos, causando desidratação e maior cansaço.
A pele está menos desenvolvida que a dos adultos, mais vulneráveis aos efeitos dos agentes físicos, mecânicos, químicos e biológicos.
Maior sensibilidade aos ruídos que os adultos, o que pode provocar perdas auditivas mais intensas e rápidas.
Têm visão periférica menor que a do adulto – menos percepção do que acontece ao seu redor.
Os instrumentos de trabalho e os EPIs são feitos para adultos, desse modo, crianças e adolescente ficam mais expostas a acidentes de trabalho e doenças ocupacionais.
Nesse mesmo sentido, João Batista Amâncio (2016, 183-189) trata dos aspectos da fisiologia da criança e adolescente, e discorre sobre o desenvolvimento físico das crianças e possíveis doenças decorrentes do trabalho precoce. Refere que “Crianças e adolescentes têm apenas uma única oportunidade de crescimento e desenvolvimento e sofrem grande influência do meio ambiente em que vivem” e que o desenvolvimento lento e progressivo do ser humano “precisa ser respeitado para que tenha a chance de alcançar todo seu potencial”.
Relevante destacar algumas considerações efetuadas por Amâncio (2016, 183-189), correspondentes às patologias por ele mencionadas. Acerca do sistema respiratório, o autor refere que foi realizado um estudo sobre silicose, que é uma fibrose pulmonar associada à exposição a poeiras de sílica, no qual restou revelado que “os indivíduos que iniciaram a atividade ocupacional com exposição às poeiras em idade mais jovem, apresentaram maiores taxas de mortalidade”. (AMÂNCIO, 2016, p. 185)
Com relação à visão e à audição, o autor assevera que, conforme pesquisa, crianças e adolescentes apresentam “perdas auditivas mais intensas e mais rápidas” quando comparados com adultos, “comprovando a maior sensibilidade [...] à níveis elevados de pressão sonora”. Além disso, afirma que a
“exposição combinada de um agente químico [...] e o ruído (mesmo que abaixo do limite de tolerância) provoca perda auditiva mais elevada que “aquela prevista pela ação de cada um deles separadamente”. (AMÂNCIO, 2016, p. 188).
De acordo com Maria de Lourdes Leiria (2014), no artigo “Trabalho infantil na agricultura expõe a doenças”, o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos podem contaminar o meio ambiente e causar diversas doenças. As crianças expostas a esse tipo de contaminação tornam-se vulneráveis à intoxicação, uma vez que se tratam de seres em desenvolvimento e “[...] ainda estão em formação de fígado, baço, rins e sistema respiratório”.
Como se observa, o trabalho precoce acarreta sérias consequências na vida das crianças e adolescentes, considerando que seu organismo ainda está em desenvolvimento e, por isso, são mais vulneráveis. Dentre essas consequências verifica-se a doença ocupacional. Muitas doenças, no entanto, somente se manifestam tempos depois e a caracterização como doença ocupacional torna-se uma tarefa difícil, mesmo em perícias médicas. Necessário, assim, a identificação do nexo causal capaz de caracterizar a doença ocupacional, e para isso, “deve ser feita uma análise mais profunda e técnica do caso, exigindo-se maior cuidado e pesquisa”, pois nem sempre é possível comprovar se a doença é decorrente do trabalho. (ALMEIDA, 2015).
Conforme Garcia (2018, p. 605), a verificação do nexo de causalidade teve “notável avanço” com a instituição do nexo técnico epidemiológico – NTE, por meio do qual é possível a constatação do elemento epidemiológico, com o que se presume a natureza ocupacional do agravo, assim entendido como ‘a lesão, doença, transtorno de saúde, distúrbio, disfunção ou síndrome, inclusive morte, independentemente do tempo de latência’ (nos termos do § 4º do art. 337 do Regulamento da Previdência Social, com redação dada pelo Decreto nº 6.042 de 2007).
Garcia (2018, p. 608) destaca que “a constatação da natureza ocupacional da doença pode ocorrer de três formas”, de modo que, na primeira, o NTE é determinado pela aferição da relação entre o ramo de atividade econômica da empresa (CNAE) e a entidade mórbida motivadora da incapacidade, utilizando- se como parâmetro a Lista C do Anexo II do Regulamento da Previdência Social (Decreto 3.048/1999), que indica os intervalos de CID-10.
Na segunda, o nexo é estabelecido pela constatação “de que o agravo decorre de agente etiológico ou fator de risco de natureza ocupacional das Listas A e B” do Anexo II antes mencionado. Tais listas elencam, respectivamente, os ‘Agentes ou Fatores de Risco de Natureza Ocupacional relacionados com a etiologia de doenças profissionais e de outras doenças relacionadas com o trabalho’ e as ‘Doenças infecciosas e parasitárias relacionadas com o trabalho’. Já na terceira modalidade, é realizada a verificação da hipótese excepcional, na qual a doença resulta de “condições especiais em que o trabalho é executado e com ele se relaciona diretamente”, nos termos do art. 20, § 2º, da Lei 8.213/1991. (GARCIA, 2018, p. 608).
No entanto, por vezes não é possível estabelecer o nexo técnico epidemiológico com precisão e as situações necessitam de análise mais profunda para sua caracterização. Como menciona Saliba (2016, p. 33), para a apuração do nexo de causalidade, muitas vezes deve haver uma análise detalhada de fatores que envolvem o trabalho, como o ambiente do trabalho, o processo de trabalho, intensidade ou concentração dos agentes, tempo de exposição, entre outros.
Diante de controvérsias existentes acerca da causalidade nas doenças ocupacionais, o Conselho Federal de Medicina editou a Resolução CFM nº 1.488 em 1998, indicando procedimentos a serem adotados para o estabelecimento do nexo causal entre a patologia e a atividade laboral:
Art. 2º - Para o estabelecimento do nexo causal entre os transtornos de saúde e as atividades do trabalhador, além do exame clínico (físico e mental) e os exames complementares, quando necessários, deve o médico considerar:
I – a história clínica e ocupacional, decisiva em qualquer diagnóstico e/ou investigação de nexo causal;
II – o estudo do local de trabalho;
III – o estudo da organização do trabalho; IV – os dados epidemiológicos;
V – a literatura atualizada;
VI – a ocorrência de quadro clínico ou subclínico [sic] em trabalhador exposto a condições agressivas;
VII – a identificação de riscos físicos, químicos, biológicos, mecânicos, estressantes e outros;
VIII – o depoimento e a experiência dos trabalhadores;
IX – os conhecimentos e as práticas de outras disciplinas e de seus profissionais, sejam ou não da área da saúde. (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 1998).
Outra norma que a ser observada é a Resolução DC/INSS nº 10, de 23/12/1999, que aprova os Protocolos Médicos, contidos nos anexos dessa
resolução, divididos em 14 grupos de patologias que podem ser relacionadas com o trabalho. Referidos anexos apresentam a definição da doença com critérios para o diagnóstico, os fatores etiológicos e identificação de agentes patogênicos, os parâmetros utilizados para a avaliação, a mensuração da incapacidade laborativa, dentre outros aspectos. (INSTITUTO NACIONAL DE SEGURIDADE SOCIAL, 1999).
Relevante pontuar a respeito da legislação supramencionada a recomendação contida nos anexos para que sejam incluídos “nos procedimentos e no raciocínio médico a resposta a dez questões” consideradas essenciais, a saber:
- Natureza da exposição: o "agente patogênico" é claramente identificável pela história ocupacional e/ou pelas informações colhidas no local de trabalho e/ou de fontes idôneas familiarizadas com o ambiente ou local de trabalho do Segurado?
- "Especificidade" da relação causal e "força" da associação causal: o "agente patogênico" ou o "fator de risco" podem estar pesando de forma importante entre os fatores causais da doença?
- Tipo de relação causal com o trabalho: o trabalho é causa necessária (Tipo I)? Fator de risco contributivo de doença de etiologia multicausal (Tipo II)? Fator desencadeante ou agravante de doença preexistente (Tipo III)? - No caso de doenças relacionadas com o trabalho, do tipo II, foram as outras causas gerais, não ocupacionais, devidamente analisadas e, no caso concreto, excluídas ou colocadas em hierarquia inferior às causas de natureza ocupacional?
- Grau ou intensidade da exposição: é ele compatível com a produção da doença?
- Tempo de exposição: é ele suficiente para produzir a doença?
- Tempo de latência: é ele suficiente para que a doença se desenvolva e apareça?
- Há o registro do "estado anterior" do trabalhador segurado?
- O conhecimento do "estado anterior" favorece o estabelecimento do nexo causal entre o "estado atual" e o trabalho?
- Existem outras evidências epidemiológicas que reforçam a hipótese de relação causal entre a doença e o trabalho presente ou pregresso do segurado? (INSTITUTO NACIONAL DE SEGURIDADE SOCIAL, 1999).
O documento ainda menciona que “A resposta positiva à maioria destas questões irá conduzir o raciocínio na direção do reconhecimento técnico da relação causal entre a doença e o trabalho”. (INSTITUTO NACIONAL DE SEGURIDADE SOCIAL, 1999).
Ao fim do presente tópico, verifica-se que para a identificação do nexo de causalidade entre doença e trabalho necessária a análise do histórico do trabalhador, como um dos aspectos a ser considerado para a caracterização ou não do agravo como doença ocupacional.
No próximo tópico serão apresentadas algumas decisões judiciais a respeito do tema.