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TRADIÇÃO E MODERNIDADE NA TRILOGIA ÁLVARO MENDIOLA

No documento – PósGraduação em Letras Neolatinas (páginas 160-163)

3 JUAN GOYTISOLO – MÁSCARAS E ESPELHOS

3.2 TRADIÇÃO E MODERNIDADE NA TRILOGIA ÁLVARO MENDIOLA

Os conceitos de tradição e de modernidade ainda ensejam debates entre os teóricos, e de forma mais recorrente, o tema da modernidade. De todo modo, parece mais consolidada nos estudos literários a sistematização relacionada à tradição, e iniciamos por esse aspecto as nossas observações. Se considerarmos a tradição em termos gerais, vamos encontrar que está relacionada a um legado – conjunto de elementos culturais, procedimentos e valores –, que pela constância, recebe um determinado estatuto de legitimidade e, isento da necessidade de questionamento, se perpetua transmitindo-se entre as gerações.

Seria algo como um passado que se faz presente e interfere no comportamento do indivíduo que, dispensado da necessidade de pensar, ou impedido de exercer sua razão crítica, tão somente reproduz o que lhe transmitiram os mais velhos. Observa Américo Castro: “la actividad pensante llegó a constituir grave riesgo desde la segunda mitad del siglo XVI” (CASTRO, 1963, p. 49). O autor se refere à supremacia exercida pelos espanhóis cristãos na divisão social das castas que imperou na Espanha por muitos séculos. Esse detalhe nos parece importante porquanto as manifestações sociais e artísticas, bem como o próprio comportamento individual aceitável, nesse contexto seriam os que se manifestassem dentro dos padrões previamente determinados. O uso da força física ou simbólica permeia, a nosso entender, esse conceito de tradição, e esse fato nos parece primordial para se compreender a história da literatura espanhola.

Dentre os princípios clássicos da tradição literária espanhola, os estudiosos do tema destacam o predomínio da imaginação poética sobre a reflexão política, forte sentimento de nacionalismo e de religiosidade, tendência à simplicidade e culto ao temperamento estóico, elevado sentido da honra e da história nacional, como algo permanente e imutável, e sua correspondência na divisão social em castas. Qualquer manifestação que escapasse ou que fugisse a esses critérios entraria na área marginal da História e da Literatura exatamente onde Juan Goytisolo irá identificar características da modernidade como, na sequência, elucidaremos.

Partimos de uma visão da tradição em sentido geral e a veremos agora pela ótica de Juan Goytisolo, que tem uma assumida influência dos estudos de Américo Castro. E nos apoiaremos também na obra Os filhos do barro (1996), de Octavio Paz, cuja teoria coincide com o pensamento de Goytisolo. Américo Castro descreve a estrutura da sociedade espanhola a partir da divisão das castas – cristã, judaica e muçulmuna - que perdurou até o ano de 1492, e atribui a formação da tradição espanhola, sustentada em uma concepção que ele considera retrógada e preconceituosa, à recusa dos espanhóis daquele período em admitir que sua identidade nacional se plasmou no convívio e miscigenação de três etnias. Juan Goytisolo compartilha dessa visão e a atualiza quando critica em Don Julián:

campeones de la evidente concatenación del gen, prueba de la perduración secular de ciertos caracteres étnicos imborrables : del espíritu atraído por sus raíces a lo eterno de la casta : de vuestra indudable filiación con Túbal, hijo de Jafet y nieto de Noé : de esa linea guadianesca y soterraña que va de Sagunto y Numancia a la epopeya del Alcázar de Toledo (GOYTISOLO, 1999, p. 121).

Goytisolo ratifica o que afirma Américo Castro sobre a necessidade dos espanhóis de forjar para si um passado ilustre que reverberou na tradição cultural da Espanha, tornando-a tão impermeável a qualquer possibiidade de liberdade de criação. Segundo Castro: “El motivo de haber convertido en españoles a Séneca, Trajano, Teodosio et alii fue la necesidad de llenar de españolidad universalizada y deslumbrante un pasado […]” (CASTRO, 1963, p. 24). Nos parece nítida a convergência de pensamento de Goytisolo e de Américo Castro na forma como entendem a tradição, que se relaciona com a falta de liberdade e de autenticidade

que historicamente teria marcado a literatura espanhola. As ressalvas ficam circunscritas á literatura do pós-guerra até a contemporaneidade.

Ambos os autores entendem a tradição como um modelo, cujas bases têm mais de político que de literário propriamente, uma vez que impõe arbitrariamente suas normas e, no caso espanhol, censura, persegue e desqualifica qualquer tentativa de originalidade. Em palavras de Castro: “El agente humano maneja la literatura desde y para sus finalidades expresivas, y partiendo de la posición que ocupa en su propia vida. Cuando la literatura se hace sólo con previa literatura, entonces vale muy poco, o nada” (CASTRO, 1963, p. 41). A nosso ver, essa forma de compreender a tradição pode ser considerada a pulsão e força motriz que alimenta o projeto da Trilogia Álvaro Mendiola.

As possibilidades de transgressão, de destruição e de ruptura dirigidas às representações da tradição espanhola são exaustivamente empregadas e o autor, ao fazê-lo, termina por instaurar sua própria tradição. A narrativa de Goytisolo, mais que uma inovação do gênero, seria uma espécie de diálogo pelo qual o autor desafia o cânone a lhe dar uma classificação. E à falta dessa, uma nova tradição teria início.

Nesse aspecto recorremos a Octavio Paz (1996), que entende a tradição como: “a transmissão de notícias, lendas, histórias, crenças, costumes, formas literárias e artísticas, ideias e estilos de uma geração para outra” (PAZ, 1996, p. 15). Até esse ponto o seu conceito não difere do que apresentamos no início deste item. O que o torna interessante e adequado para este estudo é o fato de que ele traz consigo a ideia da modernidade e a apresenta como a ruptura com a tradição e a tradição da ruptura.

A questão que Octavio Paz (1996) coloca sobre a pertinência de se nomear como tradição aquilo que rompe o vínculo com o passado nos remete tanto à instauração de uma nova tradição – no caso a tradição de Goytisolo – bem como ao tema da modernidade. Para o teórico mexicano,

A modernidade é uma tradição polêmica que desaloja a tradição imperante, seja ela qual for; mas só a desaloja para no instante seguinte, ceder o lugar

a outra tradição, que, por sua vez, é mais uma manifestação momentânea da realidade (PAZ, 1996, p. 15).

Estaríamos, então, diante de um fenômeno cuja característica principal reside em sua fluidez e atemporalidade. Não se restringe a períodos, estéticas ou correntes. Enquanto a tradição estaria intrinsecamente relacionada a uma dimensão temporal rígida e canonizada, a modernidade saúda o inesperado, o novo, o heterogêneo, o surpreendente. E, portanto, a modernidade estaria em qualquer criação artística que se mostrasse estranha à tradição imperante. Destarte, Goytisolo identifica a modernidade nas obras de autores como San Juan de la Cruz, Miguel de Cervantes, Luis de Góngora, Fernando de Rojas, Mateo Alemán, Blanco White, Luis Cernuda, autores que, de alguma forma, foram considerados, ou se consideraram, escritores marginais e marginalizados e cuja obra foi, quando menos, oficialmente ignorada. A esse respeito o autor comenta:

Los ataques dirigidos a un escritor prueban […] que su obra existe [...] la obra inovadora promueve una respuesta defensiva de quienes se sienten amenazados o agredidos por su fuerza o novedad: ello es tan real hoy como en tiempos de Góngora (GOYTISOLO, 1986, p. 108).

No que se refere ao tema da Espanha – tradição onde se insere Juan Goytisolo -, o autor se antecipa. Mais que abordar temas que já não se aplicam à realidade espanhola, Goytisolo resgata e coloca em tela um fenômeno que hoje ocupa a atenção da mídia mundial – os movimentos de migração, com seus enormes contigentes de refugiados, em escala e proporções jamais pensadas. E que trazem consigo um novo debate sobre a identidade. E nesse ponto poderia ser encontrada uma marca de sua modernidade.

No documento – PósGraduação em Letras Neolatinas (páginas 160-163)