3 ESCOLHAS TEÓRICAS
3.3 TRADUÇÃO: ENTRELAÇANDO LÍNGUAS E LINGUAGEM
Para que a comunicação se efetive, precisamos fundamentalmente da linguagem, seja ela verbal, não-verbal, em Libras (espaço-visual), numérica ou simbólica. Traduzir, segundo o dicionário Houaiss, é transpor de uma língua para outra; submeter a uma interpretação; tornar conhecido ou compreensível; explicar, explanar; simbolizar, expressar, representar ou identificar por meio de símbolo(s); figurar, representar simbolicamente; emblemar.
Já na concepção bakhtiniana o termo “compreensão responsiva” reforça o conceito de que traduzir é interpretar, e se é responsiva podemos partir do princípio que é também dialógica, uma vez que a compreensão imprime uma tomada de posição de responsabilidade a respeito do enunciado traduzido.
Para Petrilli, a “tradução é o encontro de línguas, linguagem, signos verbais e não verbais, encontro de ideologias e visões de mundo” (PETRILLI, 2013, p. 344). Traduzir vai além de transpor, implica estreitar-se com a ideologia que impregna as vozes de outros, vai além de dar significado, é construir sentido a partir da palavra do outro, em toda sua força dialógica, repleta de alteridade. Segundo Petrilli (2013)
[...] a tarefa de traduzir implica a possibilidade de superar os limites de lógicas identitárias, e com essas a tirania da “própria” língua, a possibilidade de sair das suas prisões, graças a língua do outro, à palavra do outro (PETRILLI, 2013, p. 331).
A tradução, para o aluno surdo, é de fundamental importância para desenvolver suas habilidades cognitivas e para atribuir sentido ao que se lê. Para auxiliar no processo de leitura e compreensão dos enunciados matemáticos, a grafia das palavras, associadas a sua imagem e retextualizada em Libras, pelo próprio aluno, podem ser elementos que potencializem seu aprendizado.
Ao serem traduzidas para Libras esses elementos podem funcionar como auxiliares mnemônicos, pois segundo Vigotsky as
[...] operações relativamente simples, como atar nós e marcar um pedaço de madeira com a finalidade de auxiliares mnemônicos, modificam a estrutura psicológica do processo de memória. Elas estendem a operação de memória para além das dimensões biológicas do sistema nervoso humano, permitindo incorporar a ele estímulos artificiais, ou autogerados, que chamamos de signo (VYGOTSKY, 2007, p. 32).
Dessa assertiva, podemos então afirmar que para os alunos surdos tais operações são de grande relevância para a construção de sentido na leitura e escrita da L2, já que, segundo Vygostsky (2007), elas estendem a “operação de memória”. Lembramos que essa “memorização” não se dá num vácuo de repetições, mas de construções simbólicas.
Para compreendermos a aprendizagem de tais sujeitos, precisamos também compreender os diferentes aspectos relacionados ao desenvolvimento das formas sociais de conduta e das funções psíquicas superiores, trazendo-as para as superfícies das interações pela e na língua posta em uso, na realidade social, ou seja, na articulação da linguagem.
As formas sociais de conduta, segundo o autor, referem-se ao processo de domínio dos meios externos do desenvolvimento cultural e do pensamento; como exemplos temos: a linguagem, a escrita, formas diferentes de calcular – usando algoritmos, cálculo mental -, dentre outros.
As funções psíquicas superiores dizem respeito, no indivíduo, à maturação do pensamento no processo de escolhas. A formação de conceitos, atenção voluntária, memória lógica são exemplos desse processo, podendo, assim, agir de modo a transformar a natureza e o ambiente sócio-cultural, no qual o sujeito da ação/percepção está inserido.
A respeito do desenvolvimento das funções psíquicas, Vygotsky (2012) ainda afirma que
[...] o ensino de uma determinada matéria influencia o desenvolvimento das funções superiores para além dos confins dessa matéria específica; as principais funções psíquicas mobilizadas pelo estudo de várias matérias são interdependentes — as suas bases comuns são constituídas pela
consciência e pelo domínio deliberado da matéria, os principais contributos dos primeiros tempos de escola. Destas descobertas segue-se que todas as matérias escolares fundamentais atuam como uma disciplina formal, facilitando cada uma delas a aprendizagem das outras; as funções psicológicas por elas estimuladas desenvolvem-se num único processo complexo (VYGOTSKY, 2012, p. 102).
Buscando desenvolver essas formas sociais de conduta e as funções psíquicas superiores, propusemos aos professores bilíngues da EMEF, professoras Jurema e JP trabalhar com a construção de sentido usando a literatura infantil como elemento propulsor para inserir novos conhecimentos de diferentes áreas, e assim trabalharmos a Linguagem Matemática e os enunciados.
Todavia, nos diálogos estabelecidos com as professoras bilíngues, nos momentos de trocas, as professora sugeriam construir atividades que estivessem relacionadas aos temas abordados em sala de aula pela professora polivalente, ou aos assuntos abordados na sala de recurso pelas professoras bilíngues.
Ao propormos o trabalho de construção de sentido usando a literatura como ponto de partida, observamos o papel fundamental que a tradução exerce para a compreensão dos diferentes textos apresentados. A tradução é a “possibilidade de interpretar um signo com um outro signo através do encontro de línguas e de linguagens diferentes, de interpretantes5 diversos.” (WELBY apud PETRILLI, 2013, p. 333).
Nesses momentos de interação e dialogismo, expomos os alunos ao que Vygotsky chama de ZDP (Zona de desenvolvimento proximal). Corroboramos com esse autor ao afirmar que é na construção das relações interpsicológica, dialógicas - entre pessoas - e da intrapsicológica - dentro, no interior da criança - que as relações de troca vão se estabelecendo, do social para o interior da criança, o que estava anteriormente na ZDP será desenvolvimento real no futuro próximo.
O que uma criança lê hoje com auxílio de um par; como exemplo: nossos alunos que têm um intérprete para traduzir os textos e enunciados para ele, mais a frente, ele mesmo desenvolverá mecanismo que trarão referências aos seus processos
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cognitivos que possibilitarão sua própria ação no ato de ler, como segunda língua, os enunciados propostos.
A todo o momento, ao usarmos a língua e interagirmos com ela e com o outro, fazemos releituras e muitas vezes a ressignificamos, retextualizamos para lhe dar o corpo que diz respeito a nossa forma de ver o mundo e ao todo que nos cerca. Assim sendo, isso também ocorrerá nos atos de leitura e compreensão textual de nossos alunos surdos.
Ao ler um texto em L2 ele fará essa ressignificação em Libras pra internalizar os sentidos a serem atribuídos ao que leu. Um elemento importante no momento de retextualização é conscientizar aos professores que a leitura será contextualizada, retextualizada, e não traduzida palavra por palavra.Trata-se de um processamento de sentido sobre os sentidos e não sobre o significado.
A tradução é válida somente se o tradutor é capaz de afirmar e expressar o “sentido” do texto de partida. Se a sua compreensão limita-se ao âmbito do “significado”, não será possível realizar de forma adequada a tarefa de traduzir (PETRILLI, 2013, p. 330).
Dentro desse contexto, retomamos a fala de Jakobson (2005), na qual aborda as três maneiras de interpretar um signo verbal: (1) Tradução intralingual - por meio de outros signos da mesma língua; (2) Tradução interlingual – Língua: um sinal para substituir uma palavra do português ou do português para Libras; (3) Tradução intersemiótica: para outro sistema de signos visuais - vídeos, pintura, imagens.
Esse autor reforça que a tradução exerce um papel de investigador profundo do interior do signo; para ele, “o significado de um signo não é mais que sua tradução por outro signo que pode ser substituído, especialmente um signo no qual ele se ache desenvolvido de modo mais completo” (JAKOBSON, 2005, p. 64).
A paráfrase ou reformulação é a explicação de uma palavra por meio de outros signos da mesma língua, quando explico o significado de uma palavra usando a metalinguagem estou aplicando a tradução intralingual. O significado das palavras não é fixo, uma vez que dentro da tradução cada reformulação poderá ser exposta com palavras diferentes que busquem atribuir o mesmo sentido.
A tradução interlingual é a língua substituindo seus significados por meio de alguma outra língua. Um sinal para substituir uma palavra do português ou do português para Libras, o sinal em Libras para traduzir um trecho de um texto matemático escrito em português.
O tradutor, nesse caso, de acordo com Ferreira (2010), atua
[...] simultaneamente como leitor, intérprete e textualizador, que cria um texto em outra língua, por meio da leitura e interpretação do texto na língua de partida. Essa atividade requer muita atenção, pois, no caso do surdo, é comum ele acreditar que está fazendo uma tradução, quando, na verdade, está produzindo uma transposição da língua de sinais para a modalidade escrita do português, o que às vezes torna o texto do surdo incompreensível (FERREIRA, 2010, p. 45).
A tradução intersemiótica consiste na ressignificação dos sistemas de signos verbais em visuais e, para Ferreira (2010), a partir das definições de tradução apresentadas por Jakobson (2005),
[...] percebemos que as traduções intralingual, interlingual e intersemiótica ocorrem no trabalho de sala de aula a todo instante. Quando um aluno surdo nos pede uma explicação sobre um sinal e usamos um classificador, estamos utilizando uma tradução intralingual. Quando escrevemos uma palavra em português e fazemos seu respectivo sinal na Libras, estamos praticando a tradução interlingual e já o ato de reformular/transformar um texto escrito, fazendo a transmutação para a língua de sinais, nos leva para o campo da tradução intersemiótica, pois a construção desse novo texto (visual) requer o uso de sistemas linguísticos (os sinais) e não linguísticos (expressões faciais, classificadores, expressões corporais) (FERREIRA, 2010, p. 45).
O tradutor, aqui, intérprete de Libras ou professor bilíngue, recodifica e passa a ser o remetente de uma mensagem advinda de outras fontes, sendo o representante discursivo, naquele momento, de muitas outras vozes sociais, promovendo mais uma vez a interação, ressignificação e a construção de sentido para os alunos aqui estudados.
Figura 1 - A professora bilíngue apresentando ao aluno o conceito de pintor a partir da história “Beleléu e as cores”.
Fonte: arquivo da pesquisadora, 2013.
Observamos, portanto, que para haver compreensão dos enunciados matemáticos essas traduções se fazem necessárias e acontecem a todo o momento, efetivando assim a comunicação entre pares.
Sob o nosso olhar investigativo e de pesquisadores, acreditamos que as três formas de traduzir são usadas a todo instante. Durante uma narrativa de uma história infantil em Libras, em muitos momentos quando a criança não entende o sinal, o professor usa outros elementos para fazê-lo compreender. Ora um novo sinal, ora a datilologia, ora um classificador.
Todavia, sob nossa ótica, a tradução intersemiótica é a que mais se destaca nesse processo de traduzir histórias e traduzir o mundo para crianças surdas inseridas nos anos iniciais do ensino fundamental. Dizemos isso por observarmos o processo de aquisição da linguagem em diferentes línguas acontecendo ao mesmo tempo.