2. ANÁLISE DO SETOR INDUSTRIAL ERVATEIRO PARANAENSE
2.4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
2.4.2. AS UNIDADES CANCHEADORAS DE ERVA-MATE
2.4.2.3. Transformações no setor ervateiro
A observação deste fenômeno de concentração das ervateiras estimulou uma análise mais detalhada sobre o comportamento do setor ervateiro ao longo de 10 anos, a partir dos dados apresentados a seguir. A Tabela 2.7 é composta por duas seções, a primeira contém
Tabela 2.7 - Evolução do setor industrial ervateiro paranaense durante o período de 1993 a 2003.
19931
Categoria Industrial
Núcleo Regional Municípios com
Ervateiras (n.o)
Ervateiras
Ativas Pequena Média Grande
Campo Mourão 1 1 1 0 0 Cascavel 5 6 5 1 0 Curitiba 6 11 6 3 2 Francisco Beltrão 14 19 19 0 0 Guarapuava 9 73 63 9 1 Irati 6 10 9 1 0 Ivaiporã 3 9 9 0 0 Pato Branco 7 15 10 5 0 Ponta Grossa 3 8 8 0 0 Toledo 2 3 3 0 0 Umuarama 1 1 1 0 0 União da Vitória 9 54 44 9 1 Total 66 209 177 28 4 2003 Categoria Industrial
Núcleo Regional Municípios com
Ervateiras (n.o)
Ervateiras
Ativas Pequena Média Grande
Campo Mourão 0 0 0 0 0 Cascavel 1 5 2 3 0 Curitiba 7 8 6 0 2 Francisco Beltrão 4 4 2 2 0 Guarapuava 5 20 17 3 0 Irati 7 11 7 3 1 Ivaiporã 3 3 2 1 0 Laranjeiras do Sul 2 5 7 2 5 0 Pato Branco 2 4 3 1 0 Ponta Grossa 2 5 2 3 0 Toledo 0 0 0 0 0 Umuarama 0 0 0 0 0 União da Vitória 9 34 10 22 2 Total 45 101 53 43 5 1
Dados adaptados de MAZUCHOWSKI e RUCKER (1997). 2 Núcleo criado após 1993.
Regional. As ervateiras são classificadas conforme o Ato nº001/86 do Ministério da Fazenda (Tabela 2.3) em três categorias: pequena, média e grande (PARANÁ, 1997).
A Tabela 2.7 confirma a alteração na estrutura do setor ervateiro paranaense visualizada através dos mapas apresentados. A comparação dos dados atuais com os apresentados por MAZUCHOWSKI e RUCKER (1997) mostra uma redução no número de municípios com unidades processadoras de erva-mate em oito dos treze Núcleos. Em três destes (Campo Mourão, Toledo e Umuarama) houve o encerramento completo das atividades de processamento de erva-mate, embora os dados do Fundo de Participação dos Municípios informem ter ocorrido comercialização da matéria-prima.
O número de municípios sedes de ervateiras sofreu uma redução de cerca de 1/3 (31,8%) do valor observado em 1993, com o número de municípios caindo de 66, em 1993, para os atuais 45 em 2003. Fato interessante é que os dados do IBGE (Produção Extrativa Vegetal)/ SEAB-DERAL mostram que a produção paranaense de erva-mate cancheada foi de 64.016 toneladas em 1993 e em 2002, apenas um ano antes da safra estudada, a produção foi de 109.798 toneladas e em 2001 foram 122.695 toneladas. Estes valores mostram que houve um aumento na produção de erva-mate cancheada, apesar da redução no número de unidades em atividade.
Além da redução no número de municípios, houve uma queda no número de ervateiras em atividade. Eram listadas 209 ervateiras em 1993 contra apenas 101 unidades em atividade em 2003, uma queda de 51,7%. Cabe lembrar que entre as ervateiras ativas algumas possuem filiais e estas foram desconsideradas no cálculo. Se forem incluídas as filiais, o total passa a ser de 109 empresas em funcionamento no Paraná, atenuando a queda para 47,8%.
A redução do número de ervateiras durante este período de 10 anos pode ser associada a diversos fatores.
- Substituição dos ervais nativos por outras culturas: a redução ou até mesmo a extinção da atividade ervateira foi maior em alguns núcleos, em particular naqueles com acentuado crescimento da atividade agrícola. A substituição dos ervais nativos por outras culturas de maior rentabilidade implica em queda na oferta de matéria-prima e aumento nos custos de transporte.
- Concentração do setor econômico: o fenômeno de concentração é observado em vários segmentos produtivos, incluindo a indústria de alimentos, fenômeno associado à economia de escala, levando à existência de menor número de empresas, mas de porte maior.
- Retração de mercado: a queda no consumo da erva-mate poderia levar ao fechamento das unidades, face à redução na demanda pelo produto.
A hipótese que se mostra mais viável dentre as apontadas é a da concentração do setor. Tal tendência se mostra presente no setor argentino, onde há predomínio de unidades de beneficiamento de grande porte (DE BERNARDI, 1999). Assim, é de se esperar que o setor ervateiro brasileiro passe a ter menor número de empresas com maior capacidade produtiva, maior grau de profissionalização e de adoção de tecnologia. Isto pode ser claramente observado nos dados da Tabela 2.7 referentes ao tamanho das empresas, em particular do número de pequenas ervateiras presentes no setor. Este número que era de 177 passou a ser de 53, uma redução de 70,1% no número de unidades de pequeno porte.
O predomínio das pequenas empresas sempre foi característica marcante no setor ervateiro. No entanto, pelos dados levantados, este quadro parece estar mudando, com o crescimento da participação de unidades de maior porte. No caso das empresas de médio porte, o número passou de 28 para 43 unidades, um aumento superior a 50%.
A realização do censo do setor industrial ervateiro no Paraná permitiu a observação de alguns aspectos de relevância, pouco abordados pela literatura sobre o tema industrialização da erva-mate e que devem ser considerados quando da análise das informações obtidas.
Os estudos de campo mostram uma certa “flexibilidade” no funcionamento das ervateiras, especificamente nas de pequeno porte. Em muitas das unidades visitadas os entrevistados disseram estar em atividade naquela safra em função da situação favorável de mercado, mas que, em anos anteriores, não “haviam trabalhado”. A tecnologia simples e de baixo custo nas unidades de pequeno porte permitiria deste modo a interrupção das atividades em uma safra e a retomada na safra seguinte, sem grandes prejuízos ou danos aos equipamentos.
A observação deste comportamento levou à adoção de alguns critérios no levantamento de campo. No momento da entrevista com os técnicos de cada município, eram feitas perguntas sobre a situação de cada ervateira do município. Boa parte das unidades
inativas havia sido “desmontada” e os equipamentos comercializados, deixando claro o encerramento das atividades.
A tecnologia simples e a flexibilidade das pequenas unidades permitem uma rápida resposta à conjuntura econômica, conferindo dinamismo e complexidade ao setor. Assim, são previsíveis oscilações na estrutura, vinculadas a mudanças de mercado. Exemplo disto é o estudo da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (FEPAGRO) sobre a atividade dos estabelecimentos processadores de erva-mate na região Sul, durante o período de 1992 a 1995. Os resultados mostraram que o número de estabelecimentos subiu de 409 para 725, crescimento de 77,3%, com destaque para o Paraná com crescimento de 151,8%, contra um crescimento de 84,4% no Rio Grande do Sul e de 20,4% em Santa Catarina (DESER, 2001).