DIRECIONAMENTOS AOS NÚCLEOS MUNICIPAIS
4.5. TRANSFORMANDO MENTES E CORPOS: A EDUCAÇÃO INTEGRAL NA PARAÍBA
Como podemos perceber, a Cultura Política Integralista necessitava de todo um aparato para convencer e manter em vigência a doutrina do sigma, toda a mística que fazia parte do movimento tinha como princípio a obediência e até mesmo a submissão disciplinar e hierárquica, que uma vez adquirida deveria ser preservada e sempre que possível transmitida. Para manter vivo esse repasse doutrinário a AIB-PB usou, além de todos os meios já destacados, a instrução educacional151, mantendo treze escolas que congregavam centenas de alunos na Paraíba.
O primeiro registro que temos sobre uma escola da AIB-PB, é do ano de 1935, onde o núcleo de Pirpirituba, por determinação de Pedro Batista, então chefe provincial, instalou no dia 13 de maio de 1935 a escola “Caetano Spinele”152. A nota do jornal revelava que “A homenagem desse núcleo à vitima da Praça da Sé é uma demonstração do ardor integralista revelado pelos camisas verdes locais” (A Imprensa, 24 mai. 1935). Assim como as Bandeiras, os nomes dados às escolas seguia o objetivo de rememorar os “mártires” do movimento ou pessoas tidas pela AIB como importantes no desenvolvimento da nação, fazendo com que a
Cultura Política Integralista estivesse presente no cotidiano dos alunos e da própria cidade.
No começo dos anos 1930, 70% da população paraibana era analfabeta (SANTANA, 1999, p. 111), e por isso, acreditamos, que mesmo sem uma infraestrutura adequada153 a inauguração e o próprio funcionamento das escolas integralistas repercutia, consideravelmente, na população local, como nos aponta o jornal católico, ao afirmar que no dia 17 de novembro de 1936 foi
151 A criação das escolas não era uma ação exclusiva da AIB-PB, a direção nacional integralista apontava para a
necessidade de criar uma rede escolar com objetivo de facilitar a revolução do espírito. Segundo Cavalari (1999, p. 72) em 1937 o número dessas escolas era bastante significativo atingindo 3.000.
152
Caetano Spinelli foi um integralista ferido e morto, no conflito entre integralistas e comunistas ocorrido em novembro de 1934 em São Paulo, na Praça da Sé.
153
Cavalari (1999) aponta que a maior parte das escolas integralistas funcionava nas próprias sedes e se resumia a uma sala de aula. (CAVALARI, 1999, p. 72-73).
instalada no núcleo de Canoas a escola “Henrique Dias”154, “sob intensa vibração do povo daquela localidade”. (Ibid. 19 nov. 1936). A informação de vibração popular, mesmo partindo de uma fonte oficial, nos parece provável, já que a escola integralista era destinada primordialmente, aos menos favorecidos, algo pouco comum no período. Cabe destacar que essa ação integralista, mais do que demonstrativo de solidariedade, visava alistar eleitores para seus interesses políticos, no caso específico a campanha de Plínio Salgado a presidência da República.
Na mesma matéria que destacava a fundação da escola em Canoas, era relatada a participação da Bandeira chefiada por José Mayrink, no ato de inauguração de mais uma escola, essa em Pocinhos, batizada de “Felipe Camarão”155, tendo nesse mesmo dia prestado juramento mais “26 novos integralistas”. (Ibid.). As fundações das escolas serviam como demonstrativo de vigor do movimento e consequentemente atraíam mais pessoas para se integrarem a AIB-PB. Não temos, em nossos registros, informações sobre todas as escolas criadas pelos integralistas, mas em dezembro de 1936 a quarta escola gerenciada pelo sigma era criada, destinada ao público feminino, como nos mostra o relato abaixo:
“A AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA” inaugura mais uma escola em João Pessoa.
Inaugura-se hoje, mais uma escola fundada pelo Integralismo em nosso estado. Essa é a quarta escola instalada pelos camisas-verdes paraibanos. Isso indica claramente um aceleramento do ritmo integralista na Paraíba, e mais uma vez ficou provada a preocupação louvável da A.I.B. em disseminar o ensino, creando escolas de alfabetização, profissionaes, de artes aplicadas, etc. A escola a ser inaugurada hoje é de artes aplicadas e receberá o nome de “Joana Angelica” em homenagem a heroica religiosa baiana, mártir da Religião e da Pátria. Hoje, às 16 horas como se vê pelo programa abaixo será feita uma exposição dos trabalhos executados pelas alunas. A escola funciona à Rua Sete de Setembro, 13 (Praça D. Adauto). É deveras animador verificar o desenvolvimento que o Integralismo vem tendo em nossa terra, ultimamente, e a obra notável de educação que vem realizando com a criação de novas escolas, (4), de uma biblioteca de autores nacionalistas, à Rua Barão do Triunfo, 400) e de outras realizações de alcance social. Não furtamos de levar destas colunas uma palavra de parabéns à Chefia Provincial, transcrevendo abaixo o programa das solenidades de hoje:
a) 15 horas, de 8 de Dezembro, data cristã, entronização solene de Jesus Crucificado, na sala principal da escola e bençam dos respectivos cursos.
b) 16 horas – inauguração dos mostruários de trabalhos executados pelas alunas. c) Cerimonial de encerramento.
CONVOCAÇÃO
A Secretaria Provincial de Educação convoca todos os integralistas da capital para comparecerem hoje as 14 e meia horas, à rua 7 de Setembro, nº 13, Sede da
154 Apontado como herói negro, teria participado ativamente na luta pela expulsão dos holandeses da região
nordestina e era exaltado pelos integralistas, que o considerava como uma das referências de formação da sociedade brasileira.
155 Assim como Henrique Dias, o indígena Felipe Camarão, era tido pelos integralistas como um dos
Secretaria Provincial de Arregimentação Feminina e Plinianos. (A Imprensa, 08 dez. 1936)
O relato acima é bastante revelador, por meio dele podemos confirmar a recepção e empolgação de parte da opinião pública em relação às ações educacionais do movimento integralista. A interpretação de “louvável preocupação da AIB em disseminar o ensino” deveria se estender a todos os leitores, provocando-os a encararem o integralismo como grupo político definitivamente singular, que diferente de todos os demais, apresentava preocupações e ações atípicas, dignas de gratidão e de votos de parabéns. Acreditamos que essa imagem transmitida, também tinha interesse em gerar confiança nas pessoas, que poderiam enxergar nessas ações da AIB-PB, gestos que seriam ampliados significativamente em caso de vitória de Plínio Salgado. O nome dado à escola, como já ressaltávamos, fazia parte da Cultura
Política Integralista, a homenageada era a religiosa Joana Angélica de Jesus, que em meio
aos conflitos ocorridos na Bahia durante as lutas pela independência do Brasil foi assassinada por tentar impedir a entrada de soldados no convento, tornando-se para o movimento uma espécie de mártir religioso e da independência. A entronização da imagem de “Jesus Crucificado” demonstrava a compatibilidade da doutrina integralista com o cristianismo, além de seguir conduta do estado, que vigorava em decreto a necessidade das escolas de portarem tal símbolo.
Outro ponto revelador da notícia é o grau organizacional da AIB-PB em João Pessoa. A escola de artes aplicadas, diferente da maioria das escolas do interior, tinha um prédio próprio, assim como também a Secretaria de Arregimentação Feminina e Plinianos, tais espaços serviam como postos de arregimentação da Cultura Política Integralista que intensificava campanha perante as mulheres e crianças, a escola servia de meio de socialização feminina, enquanto a secretaria além de direcionar atenção para as “blusas verdes”, também atendia os pequenos integralistas.
Não satisfeito com a divulgação, o jornal católico cobriu o evento de inauguração da escola, errando no nome da mesma, trocando “Joana” por “Maria”, destacando mais uma vez a grandiosidade das atitudes da AIB-PB, como nos mostra o relato abaixo:
Constituiu uma nota de grande realce a inauguração ante-ontem da Escola de Artes “Maria Angelica” (...) Os camisas-verdes compareceram às solenidades devidamente uniformizados. Na hora marcada teve lugar a aposição do Crucifixo na sala principal do Dep. Feminino, e onde funciona também o curso de artes aplicadas. Oficiou a cerimônia o pe. José Coutinho, vigário da Catedral que na ocasião congratulou-se com a Chefia Provincial pela fundação da escola, pedindo a Deus pelo seu futuro e para que os integralistas continuem trilhando esse curso de realizações práticas e de alcance social que vem demarcando a sua atividade
proveitosa nesses últimos tempos em nosso Estado. As 16 horas teve lugar a abertura da exposição que contou de preciosos e distintos trabalhos de pinturas à lacre, à oriental, alto relevo etc tudo demonstrando o esforço e a inteligência da mulher integralista da Paraíba. (...) Usou da palavra ainda na ocasião d. Isabel Mayrink secretária da A.F. e plinianos que dirigiu frases de incentivo às blusas- verdes paraibanas. Por fim, leu um primoroso discurso d. Olga Silveira que conseguiu arrancar vivos aplausos dos presentes.
Encerrando a solenidade o Chefe Provincial pediu que se cantasse o Hino da Pátria e foram dirigidos três anauês ao Chefe Nacional. (Ibid. 11 dez. 1936)
Mais uma vez é nítido o apoio dado pela Igreja Católica ao movimento integralista, a presença do vigário da catedral, confirma a importância do evento, que como todos os outros, era transformado em uma celebração envolta de festividade. A exaltação feita pelo religioso para que os integralistas continuassem a trilhar o “curso de realizações práticas e alcances sociais”, provavelmente despertava impacto positivo para os católicos que presenciaram a cena ou leram a notícia do periódico. Outro aspecto que cabe destaque é a participação da mulher do chefe provincial, Isabel Mayrink, que chefiava o departamento feminino e plinianos, demonstrando o poder envolvente da Cultura Política Integralista, que agregava famílias inteiras nas fileiras do sigma, as ações dela, além de aumentarem a credibilidade do chefe provincial, serviam como elemento inspirador para as demais blusas verdes, que deveriam seguir o exemplo e tentarem ter em suas famílias a cópia da família Mayrink.
Assim como em 1937, os núcleos da AIB-PB se expandiram consideravelmente, as escolas integralistas seguiram o mesmo caminho. Em janeiro foram inauguradas mais duas escolas, uma em João Pessoa, em Jaguaribe, tendo como nome de batismo “o grande marinheiro” “Tamandaré” (A Imprensa, 21 jan. 1937) e outra em Campina Grande, batizada de “Dom Vital”, sendo dirigida pelo professor Serafim Lacerda, chefe municipal, e destinada ao ensino primário. (Ibid. 22 jan. 1937). No mês de março foi fundada em, São José de Lagoa Tapada, a escola “Nicola Rosica”, apresentada pela matéria como a “10ª fundada pelo integralismo na Paraíba”, contendo “40 alunos, filhos de operários e trabalhadores das construções. (Ibid. 25 mar. 1937). Em abril foi instalada em João Pessoa a 11ª escola, destinada aos gazeteiros e outros menos favorecidos pela sorte (Ibid. 07 abr. 1937), como também a escola de alfabetização em Coremas, apontada pelo jornal como a 13ª escola aberta pelos integralistas, tendo 137 alunos e 5 professores. (Ibid. 11 abr. 1937).
Não temos fontes que nos apresentem todos os locais e as escolas criadas pela AIB- PB. Das treze escolas conseguimos localizar registros de doze delas, conforme o quadro seguinte: