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O tratamento do texto no quadro dos estudos sociocognitivos

Tira 2: Gatão de meia-idade

2 GÊNERO TEXTUAL: CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS

4.1 O tratamento do texto no quadro dos estudos sociocognitivos

A LT, cujas origens remontam à década de 1960, vem ampliando seus objetivos e procedimentos de análise, de acordo com a concepção de texto que norteia suas reflexões e estudos.

Segundo Koch (1997, 2004), na fase inicial da LT, o texto era visto como uma unidade de linguagem em uso, e não mais como uma sequência de frases isoladas. Nessa perspectiva, o problema epistemológico estava ligado ao conceito de coesão, o qual se relaciona/imbrica com o de coerência, sendo esses dois elementos importantes fatores para garantir textualidade ao texto. Surgiram, nessa primeira fase, os primeiros estudos sobre o referente, cuja introdução e reativação são responsáveis pelo estabelecimento da coesão/coerência textuais.

O contexto, segundo essa visão, é compreendido na própria ocorrência linguística. Entretanto, conforme defende Marcuschi (2007), as línguas, como atividade, são, em si, indeterminadas sob o ponto de vista sintático-semântico. Em outras palavras, o processamento do texto não depende apenas do cotexto (contexto linguístico), como se o(s) sentido(s) estivesse(m) confinado(s) à materialidade textual. Em estudos recentes sobre o texto, a crença na autossuficiência de fatores linguísticos para negociação de sentido(s) não mais se sustenta.

Os estudos em Pragmática promoveram o surgimento de teorias do texto para além do enfoque sintático-semântico. O texto passa a ser visto como um fenômeno que se constrói em determinada situação de interação, envolvendo os usuários e seus objetivos da interação. Trata-se de uma atividade verbal realizada por meio da seleção, sistematização e ordenação de elementos linguísticos, de acordo com os propósitos de dizer de seus usuários, durante a interação comunicativa.

Nessa perspectiva, o contexto é entendido como tudo aquilo que circunda os interlocutores, envolvendo ações conjuntas, coordenadas e orientadas para um determinado fim. Se, por um lado, o contexto se (re)constrói com base numa rede de traços sociocultuais, tais como classe social, status, gênero, etnia, idade, poder etc., por outro lado, o(s) sentido(s) de um texto não deve(m) ser reduzido(s) a um determinismo social (van DIJK, 2012). Defende van Dijk que o contexto é uma interpretação subjetiva e reflete aspectos sociais e intersubjetivos, não havendo, portanto, uma relação objetiva entre discurso e situação social.

Nesse sentido, a noção de contexto não abrange somente um conjunto de ações sociointerativamente construídas e temporalmente delimitadas, o que implicaria considerar,

apenas, fatores externos à língua. Essa visão, que opera na distinção entre fenômenos mentais e sociais, vem sendo questionada nos estudos em LT, situados no paradigma sociocognitivo.

Reconhecendo, então, não haver uma diferença nítida e estanque entre processos cognitivos que acontecem dentro da mente dos indivíduos e os processos que acontecem fora dela, a LT propõe uma visão integradora e dinâmica entre processos internos e externos, como argumentam Koch e Cunha-Lima:

[...] compreender a linguagem é entender como os falantes se coordenam para fazer alguma coisa juntos, utilizando simultaneamente recursos internos, individuais, cognitivos, e recursos sociais. Uma boa explicação sobre a natureza da linguagem tenderá a superar essas dicotomias e explicar as ações verbais como resultantes tanto de uma vida psicológica individual quanto de ações públicas e históricas (KOCH; CUNHA-LIMA, 2004, p. 255).

Nesse sentido, van Dijk (2012 [2008]) defende a inter-relação entre fenômenos mentais e sociais. Dentro desse quadro teórico, o contexto está intrinsecamente ligado a modelos mentais, aos objetivos dos participantes e à própria interação.

Para van Dijk, modelos mentais compõem o aparato cognitivo dos sujeitos. De natureza sociointerativa, os modelos mentais não são representações meramente estáticas, uma vez que “o tempo, o lugar, as pessoas, as relações entre as pessoas, bem como suas propriedades e ações, estão constantemente mudando durante a experiência” (VAN DIJK, 2012, p. 105). Desse modo, frisa o autor, os sujeitos representam subjetivamente não só aspectos relevantes do evento comunicativo, como também estruturas sociais mais amplas, tais como grupos, organizações, instituições, papéis e funções sociais.

Ademais, em situações discursivas, os modelos de discursos articulam memória e conhecimento, pois resultam de experiências individuais da memória (episódica) autobiográfica, e incorporam inferências relevantes que dizem respeito a crenças (conhecimentos, atitudes e ideologias) compartilhadas. Os modelos de contexto são entendidos na interface geral entre sociedade, situação, interação e discurso (VAN DIJK, 2012).

Vista assim, a inter-relação entre fenômenos mentais e sociais assenta-se em bases de conhecimentos acessíveis e atualizáveis, o que nos permite defender uma visão plástica e situada de contexto. Nessa noção ampla e integradora, o contexto deixa de ser uma realidade estável e passa a ser representado pelo espaço comum em que sujeitos, em função da interação e de percepções intersubjetivas, mobilizam diferentes tipos de saberes, tendo em vista aquilo que para eles parece ser relevante em uma determinada situação interativa.

Os estudos sociocognitivistas de texto e a concepção de gênero textual40, permitem contemplar práticas multimodais, tendo em vista que a seleção e a mobilização de semioses atuam na negociação das interpretações relevantes em dado evento comunicativo. Nesse aspecto, semioses não refletem o mundo biossocial; pelo contrário, são construções coletivas que dizem respeito a como sujeitos veem o mundo e nele atuam.

Guiando-se por uma concepção sociocognitivo-interacional da linguagem, pesquisas em LT vêm considerando que fatores intersubjetivos, sócio-históricos, culturais e cognitivos agem simultaneamente. Nesse contexto, ganham especial relevo a descrição e a explicação de fenômenos como referenciação. A fim de melhor explicar esse fenômeno, os linguistas de texto recorrem a uma abordagem multidisciplinar, cujo “objeto central é o texto enquanto processo, enquanto atividade sociocognitivo-interacional de construção de sentidos” (KOCH, 2008, p. 12).

O contexto é visto como um conjunto de suposições (KOCH, 2002; KOCH; ELIAS, 2009), construídas no momento da interação, a fim de orientar a negociação de sentidos. Como tal, o contexto se configura/reconfigura na atividade interacional como parece evidenciar a tira 37:

TIRA 37 – Gatão de meia-idade Fonte: Paiva (1995)

Na interação verbal via telefone, a personagem Malu não sabe com quem interage. Por meio da fala do personagem Gatão, no segundo quadro, percebemos que ela, então, constrói várias hipóteses, tendo em vista suposições realizadas sobre seu interlocutor, as quais são descartadas por ele (“não é o Alberto, não é o Luis Paulo, não é o Marcão, Bruno também não”) à medida que conversam. A construção dessas suposições acerca do provável

40 Conforme buscamos argumentar no capítulo sobre gêneros textuais, defendemos, com base em Bakhtin (2003

[1952-1953]); Kress e van Leeuwen (1996), uma concepção de gênero textual que focaliza a interface entre múltiplas linguagens e formas de interação cognitivo-discursiva. Nessa concepção, perpassam o sócio-histórico, o cultural, o ideológico, as estratégias sociocognitivas, os quais estão envolvidos e são mobilizados em eventos de interação.

interlocutor mobiliza on-line e simultaneamente estratégias cognitivas, textuais e sociointeracionais para a negociação dos sentidos. Dessa forma, a personagem feminina vai configurando/reconfigurando o contexto no curso da atividade interacional.

É, portanto, nessa interação específica, que a personagem Malu mobiliza um conjunto de saberes, crenças, habilidades e percepções, que, inserido no interior de um evento comunicativo, lhe permite construir hipóteses sobre a pessoa com quem fala. Isso evidencia ser a interação o lugar em que a sociocognição se estabelece. Portanto, o sentido de um texto é (re)construído e implica uma negociação que se estabelece na relação texto-interlocutores. Dessa forma, o contexto pode ser concebido, de modo geral, como “tudo aquilo que, de alguma forma, contribui para ou determina a construção do sentido” (KOCH; ELIAS, 2006, p. 59).

É nesse quadro de uma concepção de língua como atividade cognitivamente situada que ocorre a substituição da noção de referência para a de referenciação, entendida esta como uma atividade discursiva, que desencadeia a (re)construção de objetos de discurso (referentes).

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