4. MATERIAL E MÉTODO
4.5 Tratamento Estatístico
Com a finalidade de testar a normalidade na distribuição dos dado foi aplicado o teste de Kolmogorov-Smirnov e medidas de achatamento e assimetria. Foi
utilizada análise de variância (Two way Anova) para medidas repetidas, sendo os momentos de coleta definidos em 4 tempos (T1 - pré-exercício, T2 - pós-exercício, T3 - 03 horas e T4 - 48 horas após o fim da sessão de treino respectivamente). A análise das modificações nas variáveis dependentes (linfócitos totais, CD4+, CD8+ e razão CD4+ / CD8+), nas diferentes intensidades de treino (50% e 80%), foi também realizada mediante a utilização da análise de variância Two way Anova para medidas repetidas. O índice de variância – covariância dos grupos avaliados foi feito através do teste Wilk’s Lambda. Para avaliar os efeitos intra-sujeitos nas variáveis dependentes anteriormente descritas considerando a análise isolada com relação ao tempo, intensidade, e combinada tempo/intensidade foi usado o teste de esfericidade Greenhouse-Geisser. Para o ajustamento das múltiplas comparações foi usado o teste de Bonferroni. Em todas as análises foi adotado o nível de significância P ≤ 0,05.
5. RESULTADOS
As variáveis antropométricas (idade, estatura, massa corporal e IMC) foram analisadas a partir da estatística descritiva com os valores das médias e desvios-padrão sendo apresentados na Tabela 1.
Tabela 1 - Médias e desvios padrão das características da amostra.
MÉDIA
SD
IDADE (anos) 67,53 3,92
ESTATURA (cm) 154,27 5,59
MASSA CORPORAL (Kg) 67,76 14,30
IMC 21,95 4,2
As tabelas abaixo apresentam as variações nos linfócitos totais, CD4+ ,CD8+ e razão CD4+ /CD8+, e comparando-se os diversos momentos de mensuração e também a resposta entre as intensidades de treino.
A Tabela 2 mostra o impacto propiciado pelo exercício resistido nas diferentes intensidades na quantidade de linfócitos totais das idosas, considerando os diversos momentos de mensuração. Enquanto que na tabela 3 podemos observar o comportamento da sub-população linfocitária CD4+, em função dos momentos de quantificação celular e intensidades de treino. Na tabela 4, são apresentadas as respostas dos linfócitos CD8+ frente a estimulação via diferentes intensidades do exercício resistido nos momentos de mensuração. A Tabela 5 mostra o comportamento da razão CD+ / CD8+ para diferentes intensidades de treino e momentos de dosagem linfocitária.
Tabela 2 – Médias, desvios-padrão e delta percentual dos linfócitos totais. Linfócitos (cells/mm3) Pré (T1) Pós (T2) 3 horas (T3) 48 h (T4) 50% 1RM 2322,53±476,01 2304,13±477,79 2992,00±860,94* 2043,93±475,32 ∆ % 0,79 28,83 12,00 80% 1RM 2403,26±444,85 2450,46±527,14 3118,33±568,79* 2308,20± 548,05 ∆ % 1,96 29,75 3,96 Sem exercício 2103,75±326,83 2277,37±387,21 2712,00±568,79* 1975,12±231,81 ∆ % 8,25 28,91 6,11
∆ % - Para o cálculo foram considerados os dados de T2, T3 e T4 em relação a T1. Onde * efeito significante (p≤0,05) entre os tempos T1 - T3 e T2 -T3 nos treinos a 50% e 80 % de 1-RM, e entre os tempos T1 - T3 , T2 -T3 e T3 - T4 no período sem treino.
Tabela 3 – Médias, desvios-padrão e delta percentual dos linfócitos CD4+. CD4+ (cells/mm3) Pré (T1) Pós (T2) 3 horas (T3) 48 h (T4) 50% 1RM 911,60±288,25 881,27±276,53 1002,14±248,46 955,60±314,42 ∆ % 3,33 9,93 4,83 80% 1RM 946,93±269,66* 937,26±527,14 1071,33±290,16* 915,6± 291,22 ∆ % 1,02 13,14 3,31 Sem exercício 904,00±162,52 867,50±131,79 1004,72±209,91* 890,50±209,91 ∆ % 4,04 11,14 1,49
∆ % - Para o cálculo foram considerados os dados de T2, T3 e T4 em relação a T1.
Onde * efeito significante (p≤0,05) entre os tempos T1 -T3 na intensidade 80 % de 1- RM e entre os tempos T1-T3 e T3-T4 no período sem treino.
Tabela 4 – Médias, desvios-padrão e delta percentual dos linfócitos CD8+. CD8+ (cells/mm3) Pré (T1) Pós (T2) 3 horas (T3) 48 h (T4) 50% 1RM 422,04±127,9 428,28±130,8 463,73±137,2 419±122,55 ∆ % 1,48 9,88 0,72 80% 1RM 418,26±125,29 432,31±126,83 468,26±157,88* 382,60± 96,53 ∆ % 3,36 11,95 8,53 Sem exercicio 389,25±87,93 395,25±86,74 449,25±121,28* 374,50±77,97 ∆ % 1,54 15,41 3,79
∆ % - Para o cálculo foram considerados os dados de T2, T3 e T4 em relação a T1.
Onde * efeito significante (p≤0,05) entre os tempos T3-T4 na intensidade 80 % de 1-RM e entre os tempos T1-T3 e T3-T4 no período sem treino.
Tabela 5 – Médias, desvios-padrão e delta percentual da razão CD+ / CD8+.
CD8+ (cells/mm3) Pré (T1) Pós (T2) 3 horas (T3) 48 h (T4) 50% 1RM 2,38±1,16 2,23±0,97 2,48±1,08 2,48±1,08 ∆ % 6,30 4,20 4,20 80% 1RM 2,48±1,07 2,40±1,21 2,57±1,25 2,54±1,02 ∆ % 3,23 3,63 2,42 Sem exercício 2,39±0,50 2,27±0,48 2,30±0,41 2,44±0,52 ∆ % 5,02 3,77 2,09
∆ % - Para o cálculo foram considerados os dados de T2, T3 e T4 em relação a T1.
6 - DISCUSSÃO
A redução da força idade-relacionada é caracterizada por uma variedade de fatores que atuando de forma combinada podem comprometer a autonomia dos idosos. O processo degenerativo em nível de sistema nervoso, assim como a redução no número de fibras musculares são apontados como os principais fatores desse comprometimento.
É freqüentemente reportado na literatura científica que níveis mínimos de força são necessários para um eficiente desempenho nas atividades da vida diária, assim como freqüentes alusões são creditadas ao exercício resistido como um meio eficiente para a manutenção e/ou elevação desta qualidade física. Discussões amplas ocupam-se de estabelecer a relação entre o aumento da força e a necessidade de aplicação de sobrecargas de trabalho mais elevadas, entretanto, devido à possibilidade de ocorrência de bio-adaptações negativas, a resistência à aplicação de intensidades e volumes de treino elevados é corrente sendo abordada com cautela pelos profissionais da área da saúde.
Segundo RASO (2000), baixas sobrecargas no treino resistido tem a capacidade de promover significativos incrementos na força muscular próximos aos de programas que utilizam altas sobrecargas (80%1-RM), adicionando a este fato a menor possibilidade de ocorrência de lesões músculos esqueléticas e comprometimentos cardiovasculares. Entretanto, outras respostas fisiológicas sobretudo no sistema imunológico ainda carecem de mais pesquisas. Mesmo que de forma controversial, a associação entre o exercício físico de alta intensidade e a depressão do sistema imunológico aparece quase como um consenso na literatura especializada. Porém a diversidade de estratégias de combinação das variáveis no programa de exercicio resistido pontual nos obrigam a ver com certa prudência determinadas conclusões.
Assim, nós resolvemos submeter um mesmo grupo de sujeitos a duas intensidades de treinamento (50 e 80% de 1-RM) em momentos distintos com uma semana de intervalo entre as sessões. O n° de repetições foi ajustado em função da intensidade para que se preservasse o mesmo volume total de treino. A finalidade da adoção deste protocolo de treino era avaliar como as intensidades média e alta alterariam a contagem dos linfócitos totais, CD4+, CD8 + e a razão CD4+/ CD8 + em idosas.
As alterações no metabolismo contribuem para as modificações exercício associadas na função imunológico. A diminuição da concentração da glutamina plasmática em resposta ao trabalho muscular foi sugerida como influenciadora da função linfocitária (NEWSHOLME e PARRY, 1990). Além disso, a elevação das catecolaminas e do hormônio do crescimento induzem a mudanças imediatas nos sub- conjuntos dos leucócitos. O aumento do cortisol evidenciado nos exercícios de alta intensidade e duração mais longa (NIEMAN et al, 1998) é proposto como desencadeador da leucopenia e linfopenia (BERK et al., 1990).
Os resultados deste estudo reforçam o explicitado pela literatura científica nos quais percebe-se a sensibilidade das células do sistema imunológico diante do exercício físico. As respostas agudas do sistema imunológico ao exercício resistido, permitem sugerir que a dinâmica de alteração dos linfócitos totais, CD4+ e CD8+ e a razão CD4+ e CD8+ é semelhante àquela evidenciada no exercício aeróbio, ou seja: as respostas das subpopulações de leucócitos como efeito agudo do exercício são altamente estereotipadas, sendo que as concentrações de linfócitos aumentam durante o exercício provavelmente devido ao recrutamento de todos os sub-conjuntos linfocitários e caem para abaixo dos valores pré-exercício após trabalhos de longa duração. A relação CD4+ / CD8+ diminui durante o exercício, refletindo desta forma uma elevação de magnitude superior dos linfócitos CD8+ em relação aos CD4+ (PEDERSEN E HOFFMAN-
GOETZ, 2000), efeito também observado em nosso estudo nas duas intensidades de exercício resistido.
O número total de linfócitos e suas subpopulações CD4+ e CD8+, tiveram em nosso estudo incremento imediatamente após o exercício, efeito também documentado por SIMONSON E JACKSON (2004) que objetivando determinar os efeitos de uma sessão de exercício resistido (3 sets de 8 a 10 repetições máximas com intensidade relativa igual a 75% de 1-RM) no número de células do sistema imunológico de 16 homens moderadamente ativos (média de idade igual a 30 ± 7 anos), observaram entre os momentos pré-exercício, imediatamente pós-exercício, 15 minutos pós-exercício e 30 minutos pós-exercício os seguintes resultados: os monócitos, neutrófilos e linfócitos incrementaram (P≤0,05) em resposta ao treinamento proposto, fato não percebido em relação aos basófilos e eosinófilos. O decréscimo na contagem das células foi percebido 15 minutos pós-exercício persistindo até 30 minutos de recuperação. Porém, em relação aos neutrófilos os valores pré-exercício não foram alcançados até os 30 minutos da recuperação. Ainda segundo os autores, quando o volume plasmático retorna aos valores pré-exercício há uma queda no número de células, entretanto, se uma alteração no volume do plasma fosse o único fator que promovesse a leucocitose, o número de leucócitos volume plasmático-corrigidos não esclareceriam todo a variabilidade das suas subpopulações.
O aumento no número de leucócitos circulantes e de suas subpopulações a partir de 15 minutos do início de uma atividade aeróbia é demasiadamente rápido para que se possa confirmar a ocorrência de divisão celular (KEAST e MORTON, 1992; MACKNNON e TOMASI, 1988). Conseqüentemente parece haver uma migração celular de outros tecidos para o sistema circulatório, sendo ainda controversial quais seriam as prováveis fontes fornecedoras de células durante o exercício aeróbio. O
fígado, os pulmões e a medula óssea tem sido sugeridos como algumas dessas fontes. Parece que os neutrófilos são as únicas células que aumentam ainda mais após a finalização de uma sessão mais prolongada de exercício.
NATALE et al (2003), verificando os efeitos de três tipos de exercícios diferentes (cinco minutos de exercício em bicicleta ergométrica a uma intensidade de 90%-97% do VO2max, duas horas de exercício em bicicleta ergométrica a uma intensidade de 60% do VO2max, um circuito padrão de exercícios de resistência [3 sets de 10 repetições numa intensidade de 60 a 70% de uma repetição máxima em cinco estações diferentes] ou permaneceram sentados durante cinco horas) na contagem de leucócitos ( leucócitos totais, das células T totais (CD3+), dos linfócitos T auxiliares (CD3+CD4+), dos linfócitos T citotóxicos/supressores (CD3+CD8+), dos linfócitos B (CD19+), dos linfócitos T citotóxicos (CD3+CD16+/56+) e das células natural killer (CD3CD16+/56+), durante e após o exercício em 8 homens (idade média 24,9 ± 2,3 anos) chegou às seguintes conclusões: a) Os três tipos de exercício provocaram leucocitose que persistiu por 03 horas após o exercício principalmente devido à elevação do número de neutrófilos e monócitos circulantes, embora houvesse também um aumento pequeno na contagem dos linfócitos, b) A contagem de monócitos circulantes caiu abaixo dos valores do grupo controle (0,45 ± 0,08) x 109 cells/litro) após 24 horas, seguindo o exercício aeróbio do pico (0,35 ± 0.05) x 109 cells/litro) e os exercícios da resistência (0,34 ± 0.05) x 109 cells/litro), c) Todos os três tipos de exercício induzem (p variando de 0,02 a 0,0001) a um aumento significativo na contagem de linfócito T (CD3+) totais imediatamente depois do exercício. Houve mudanças similares para o exercício aeróbio [ (2,73 ± 0,24) x 109 cells/litro ] e prolongado [ (2,83 ± 0.24) x 109 cells/litro ], e uma resposta muito menor ao exercício da resistência [ (± 1,99 0.13) x 109 cells/litro ]. Em resumo, os exercícios aeróbios,
tanto o de alta intensidade quanto o prolongado submáximo, induziram alterações similares na contagem de células, e essas alterações foram maiores do que as induzidas pelos exercícios de resistência muscular, embora tanto o exercício aeróbico intenso quanto o de resistência muscular tenham resultado num decréscimo significantemente mais prolongado da relação CD4+/CD8+ do que o exercício aeróbico submáximo.
O aumento da atividade metabólica propiciado pelo exercício resistido desencadeia alterações hemodinâmicas como a elevação da freqüência cardíaca, da pressão arterial (SALE et al, 1994), bem como o aumento na velocidade do fluxo sanguíneo e sua passagem de laminar para turbilhonar causando um desprendimento das células pressas à parede dos vasos e posterior lançamento destas na circulação, processo denominado demarginação (MACKNNON e TOMASI, 1988), fato este que altera a contagem total e específica das células do sistema imunológico.
Apesar da relativa carência de estudos direcionados à verificação e quantificação do impacto promovido pelo exercício resistido sobre a função imunológica de indivíduos idosos, percebemos que as respostas encontradas em nosso estudo são corroboradas pelos estudos supra mencionados.
7 - CONCLUSÃO
Os resultados deste estudo permitiram concluir que o exercício resistido apresenta a capacidade de alterar a homeostase imunológica independente da intensidade utilizada no exercício.
A dinâmica das respostas imunológicas ao exercício resistido são semelhantes àquelas evidenciadas pelos exercícios cardiorespiratórios aeróbios, ou seja incremento no número de linfócitos totais, CD4+ e CD8+ no período imediatamente pós-exercício, com restauração dos valores pré-exercício à medida que a recuperação se prolonga podendo atingir valores inclusive mais baixos que os de repouso e diminuição da razão CD4+ / CD8+.
Assim, parece que o exercicio resistido pontual nas intensidades de 80% e 50% de 1-RM, como resposta aguda, não promove alterações no organismo do idoso que configuram-se como um quadro de imunodepressão mediada pelo exercício de força.Tal achado é importante por não aumentar a probabilidade destes indivíduos contraírem alguma doença mediada por falha no sistema imunológico.