A tributação verde não apenas faz parte da realidade econômica mundial, mas também constitui uma visão profundamente inovadora do binômio humanidade-meio ambiente.
A estrutura do sistema econômico vigente, assentada na ultrapassada ideia da infinitude dos recursos naturais, gerou (...) um estágio em que, ou há uma mudança de postura por parte daqueles que dos recursos naturais usufruem/dependem, ou a espécie humana estará à mercê de uma insegurança, seja provocada por mudanças climáticas, seja originada por disputas políticas cujas causas sejam os bens naturais (CUNHA & LUZ, 2010).
O direito ambiental deve ser respeitado como o instrumento balizador desse clima de incerteza. As normas ambientais tentam colocar a humanidade dentro dos limites suportados pelo meio ambiente sadio, os quais não se traduzem, de forma alguma, em abandono das práticas econômicas de que o homem necessita para a sua sobrevivência, mas, de outra sorte, em compatibilização com a capacidade suportada pela natureza, de forma a assegurar o desenvolvimento sustentável, por meio da prevenção, que é o seu objetivo maior (CUNHA & LUZ, 2010).
Os direitos fundamentais incluem, conforme a vigente Constituição brasileira, “direitos individuais” (art. 5º), “direitos à nacionalidade” (art. 12), “direitos políticos” (arts. 14 a 17), “direitos sociais” (arts. 6º e 193 e ss.), “direitos coletivos” (art. 5º) e “direitos solidários” (arts. 3º e 225). O aspecto ecológico é considerado um “direito solidário” e de “terceira geração”, por integrar o rol dos novos direitos, dentre os quais se destacam o direito à paz, o direito ao desenvolvimento, o direito à comunicação e o direito ao patrimônio comum da humanidade. (CUNHA & LUZ, 2010).
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Os impostos verdes ou ambientais podem ser impostos que foram projetados especificamente para atender às metas ambientais, podendo alguns deles ser impostos existentes que foram reestruturados para refletir objetivos ambientais, e outros, impostos que não foram introduzidos por razões ambientais, mas implicam um impacto ambiental. Diferentes definições são usados dentro do governo para diferentes fins: o Tesouro utiliza uma definição com base nos objectivos subjacentes à introdução de um imposto especial, enquanto a definição do Instituto de Estatísticas Nacional se foca mais sobre o efeito de um imposto específico.
Apesar de recente, o tratamento constitucional dado ao meio ambiente se baseia nos princípios comuns às normas constitucionais ambientais de vários países desenvolvidos, tais como: compreensão holística do meio ambiente; compromisso ético de não empobrecer a Terra e a sua biodiversidade; sustentabilidade; e preocupação com a implementação das normas ambientais – não programaticidade das normas de direitos fundamentais.
Régis (2003) descreve os principais aspectos legais da proteção ambiental prevista pela legislação especial, pelo novo Código Civil e por diretrizes cominadas na própria Constituição Federal, tais como os princípios do poluidor-pagador, do desenvolvimento sustentável, da defesa do meio ambiente e o instituto do bem ambiental, do mesmo modo que a distinção dos bens quanto à titularidade: bem público, bem particular e bens de uso comum do povo. Em termos do art. 225 da Constituição Federal de 1988, “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê- lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
Em face dessa previsão constitucional (do bem ambiental), foi publicada a lei n. 8.078 de 1990, que tratou de definir os direitos metaindividuais (direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos) e acrescentou o antigo inciso IV do art. 1o. da Lei n. 7.347/85, que havia sido vetado, possibilitando, desse modo, a utilização da ação cível pública para a defesa de qualquer interesse difuso e coletivo. Assim, tivemos a criação legal dos direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos. (FIORILLO, 2001: 26).
Dessa forma, o bem ambiental está destacado na CF/88 como bem de uso comum do povo, isto é, todos poderão utilizá-lo, mas ninguém poderá dele dispor ou transacioná-lo.
Profundamente atrelado ao conceito de desenvolvimento sustentável, que surgiu inicialmente na Conferência Mundial do Meio Ambiente, realizada em 1972 em Estocolmo, e depois foi ratificado em várias conferências sobre o meio ambiente, o princípio da defesa do meio ambiente, (...) dentro da Ordem Econômica, preconiza uma grande mudança na postura constitucional, que se espraia para o âmbito empresarial, diante do meio ambiente.
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Da visão utilitarista, passa-se, através de arroubo ambiental da Carta Magna – a chamada opulência constitucional, à visão ecologista, a partir da qual o meio ambiente não é compreendido isoladamente, longe dos processos econômicos, mas como um pressuposto para que estes se realizem (CUNHA & LUZ, 2010).
Fiorillo (2001) resume essa nova visão ecologista da maneira seguinte:
A Constituição Federal estabelece que a ordem econômica, fundada na livre iniciativa (sistema de produção capitalista) e na valorização do trabalho humano (limite ao capitalismo selvagem), deverá regrar-se pelos ditames de justiça social, respeitando o princípio da defesa do meio ambiente, contido no inciso VI do art. 170.
Assim caminham, lado a lado, a livre concorrência e a defesa do meio ambiente, a fim de que a ordem econômica esteja voltada à justiça social. Vejamos o dispositivo:
Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:
(...)
VI – defesa do meio ambiente...
(BRASIL, Constiuição Federal de 1988).
3.4.2 ASPECTOS TEÓRICOS DA TRIBUTAÇÃO AMBIENTAL: CATEGORIAS E FUNÇÕES DOS TRIBUTOS
Segundo a classificação preconizada pelo Código Tributário Nacional (CTN), são tributos os impostos, as taxas e as contribuições de melhoria. Infelizmente a legislação brasileira não determina especificamente os tributos ambientais ou ecológicos, mundialmente conhecidos como “Green Taxes” (RÉGIS, 2003).
Imposto é o tributo cuja obrigação tem por fato gerador uma situação independente de
qualquer atividade estatal específica relativa ao contribuinte (art.16 do CTN). Taxa é a espécie tributária cujo fato gerador é o exercício regular do poder de polícia, ou a utilização, efetiva ou potencial, de serviço público específico e divisível, prestado ao contribuinte ou posto à sua disposição (art.77 do CTN), tais como, licenciamento, fiscalização, limpeza, iluminação, etc. Contribuição de melhoria é o tributo que tem por fato gerador a valorização imobiliária decorrente de obra pública ou, no caso de contribuição social e de intervenção no domínio econômico, tem caráter regulador e financiador da seguridade social e outras atividades desenvolvidas pelo Estado (art. 81 do CTN).
Quanto às suas funções, o tributo pode ter função fiscal, parafiscal e extrafiscal. A função fiscal é a mais perceptível. Ela consiste na arrecadação de recursos financeiros para que o Estado desempenhe as suas funções vitais; a função parafiscal diz respeito à
A natureza fiscal da tributação consiste em prover a Administração Pública com os recursos necessários para realizar obras em prol da sociedade. Entretanto os tributos
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arrecadação para a realização de atividades não propriamente estatais, mas que são desenvolvidas pelo Estado por meio de entidades paraestatais; a função extrafiscal, por sua vez, refere-se ao uso do tributo para estimular ou desestimular determinados comportamentos na economia. Trata-se, neste último caso, da regulação da economia por meios não propriamente impositivos, mas, de outra sorte, incitativos, até porque, se fosse utilizada a imposição, a não obediência configuraria ato ilícito, o que não diz respeito à seara tributária (CUNHA & LUZ, 2010).
O tributo, segundo o Código Tributário Nacional (CTN), precisa ser compulsório, expresso em moeda, não sancionador de ato ilícito, instituído em lei e cobrado por atividade administrativa lastreada pela lei. Muitas vezes, o tributo ambiental é considerado sanção para os poluidores, o que não é nem pode ser verdade. Quando se diz que a base da tributação ambiental reside no princípio do poluidor-pagador, e na sua variante chamada usuário-pagador, tem-se em vista uma sanção por ato ilícito. A linha diferenciadora entre multa e tributação ecológica ou verde torna-se muito incerta. No entanto, há de se ter em consideração que o referido princípio não é uma punição, já que independe de qualquer infração. E mesmo que as infrações ambientais, consubstanciadas no dano ambiental, tenham ocorrido, isso não impede que se venha a cobrar o tributo pelo uso do recurso natural. Saliente-se que, neste caso, não se trata de escolher o ilícito como fato jurídico a ser tributado, já que o fato gerador do tributo não é o dano ambiental, no caso dos tributos ecológicos, mas, de outra sorte, o “simples” uso do recurso, que culminou no dano. Dessa forma, o aspecto “não sancionador de ato ilícito” dos tributos – em particular, dos tributos ambientais – reveste-se de especial importância.
No que diz respeito às questões ambientais, salientam essas autoras, tem-se observado que é muito mais eficiente o estímulo, por meio dos mecanismos tributários, do que a penalização de determinadas condutas, pois o sujeito passivo é estimulado constantemente a melhorar, a progredir, isto é, a intensificar suas medidas de racionalização do uso dos recursos naturais (inputs), bem como de produção de efluentes (outputs) da produção, no caso da gradativa concessão de benefícios fiscais conforme o nível de poluição. (...) A excessiva penalização feriria a subsidiariedade do direito penal, na medida em que existiriam outros instrumentos que serviriam muito bem a esses fins, os quais seriam desperdiçados, em prol da utilização dos mecanismos penais (CUNHA & LUZ, 2010).
comportamento dos contribuintes, no sentido de fazer com que estes protejam o meio ambiente. Partindo desse conceito, é possível inferir, em decorrência do estudo da
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podem ser utilizados com outras finalidades, por exemplo, para promover certas políticas públicas. Nesses casos, o Estado pode conceder abatimentos ou isenções de um determinado tributo a quem faça algo que seja de interesse público.
Por outro lado, o governo pode aumentar a carga tributária de quem aja em contrariedade aos interesses públicos. Essa é a natureza extrafiscal ou parafiscal dos tributos que dá origem à tributação ecológica propriamente dita. (ARAÚJO et al., 2003). Na opinião de Cunha & Luz (2010), o imposto ambiental faz com que o agente econômico seja induzido a melhorar sempre, já que, como não tem sua receita vinculada, pode, a qualquer momento e respeitado o princípio da legalidade estrita, ser suspenso ou ter sua alíquota minorada, o que configuraria um ganho significativo para o sujeito passivo: tanto para a sua imagem corporativa, quanto em termos de concorrência financeira. Tal imposto seria mais maleável – em termos de utilização com finalidade extrafiscal – do que todas as outras modalidades tributárias que atuam em momento específico e determinado (contribuições de melhoria), têm caráter corretivo (contribuições sociais), além de se vincularem a um serviço público específico (taxas).
Desse modo, a extrafiscalidade tida como a atividade financeira em que o Estado exerce seu papel com vistas a ordenar ou reordenar a economia e as relações sociais (FALCÃO, 1980) constitui um instrumento vital, pois não paralisa o sujeito econômico nem fixa um padrão, podendo mudá-lo a qualquer momento – respeitada a segurança jurídica do cidadão e, portanto, obedecendo a certos critérios – e ainda oferece bonificação para aqueles que assumirem posição proativa, o que alguns chamam de sanção premial, gratificando aqueles que agirem por si e onerando progressivamente aqueles que permanecerem inertes.
A finalidade dos tributos verdes também consiste em promover um meio ambiente ecologicamente equilibrado com atitudes amigáveis. Segundo Cunha & Luz (2010), há duas espécies de tributos ambientais que se diferenciam pelo elemento teleológico. Uma espécie tem finalidade extrafiscal e a outra, finalidade arrecadatória. Os primeiros são definidos como impostos ambientais em sentido próprio e os segundos em sentido impróprio, sendo aqueles inseridos numa linha de prevenção (do dano ambiental) e estes numa linha de recuperação do equilíbrio ecológico.
Em relação à tributação ambiental, poder-se-ia pensar em aplicar instrumentos tributários que propiciem a geração de recursos necessários à prestação de serviços públicos de natureza ambiental, o que resulta na obtenção de orientação para o
Ministério do Meio Ambiente (MMA). Segundo Riva et al (2007), os IEs podem ser criados
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tributação ecológica, três objetivos para este ramo do direito: econômico, político e jurídico. O objetivo econômico consistiria em “atribuir um preço ao que anteriormente não o tinha”, isto é, internalizar a externalidade causada pelo uso do bem ambiental no processo produtivo, atribuindo um preço a esse bem, que foi incorporado sem qualquer ônus, e que gerou um lucro não compartilhado com os “donos” desse insumo, dos quais foi tirada a oportunidade de desfrutar deste integralmente; ademais, o uso do bem ambiental como rejeito também gera ônus aos “donos” do recurso. O objetivo político do tributo ecológico, por sua vez, é equalizar as condições entre produtor e sociedade, na medida em que, a partir do uso de um bem “essencial à sadia qualidade de vida”, aquele retira para si o seu lucro, extraindo elementos qualificadores da vida, tão necessária a todos. Este objetivo, portanto, realiza a justiça e a prevenção da desigualdade qualitativa, já que incentiva o produtor a não utilizar irracionalmente os recursos vitais.
O objetivo jurídico, por fim, consiste em induzir a práticas ecologicamente saudáveis, o que se traduz em fortalecer a condição de direito fundamental de que é dotado o meio ambiente. Assim, com relação aos tributos extrafiscais ambientais, cumpre observar como eles podem ser utilizados pelo Poder Público de maneira eficaz, conforme assertiva abaixo, que relata algumas das conclusões da Conferência ECO-92:
A criação de tributos ambientais teria que respeitar os critérios: i) eficiência no plano da prevenção aos danos ambientais e exploração desequilibrada dos recursos naturais; ii) eficiência do ponto de vista econômico, isto é, possuírem baixo custo; iii) empreender poucos recursos administrativos para sua apuração; e iv) não repercutirem negativamente no comércio interno e externo. (CUNHA & LUZ, 2010).