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III – REFERENCIAL TEÓRICO

III. 1 – Turismo Como Forma de Desenvolvimento

O turismo tem sido apresentado por muitos como uma ferramenta de desenvolvimento. Aos olhos de muitos países menos desenvolvidos, o turismo é a indústria “sem chaminés” que promove os tão desejados empregos e renda, necessária para o financiamento de outras atividades econômicas (FREITAG, 1994).

Os partidários desta idéia citam numerosos benefícios potenciais para as comunidades locais, incluindo aumento nas receitas em moeda estrangeira, aumento de oportunidade de emprego, melhoria nas condições socioeconômicas e uma maior estabilidade de mercado do que aquela proporcionada pela exportação de commodities (WALPOLE e GOODWIN, 2000; MOWFORTH e MUNT, 2003). Já os críticos, ressaltam os problemas relativos à dependência do turismo de capital externo e as desigualdades na distribuição dos benefícios. Considerando a dimensão geográfica da dependência, BRITTON e PEARCE (1989) argumentam que a maior parte do controle e emissão de turistas estão situados nas economias desenvolvidas, enquanto os resorts são criados nos países destino WHEELER (1991) reforça esta visão afirmando que, de uma forma irônica, o turismo internacional reflete os desequilíbrios econômicos globais e a dependência estrutural das nações em desenvolvimento em relação às nações desenvolvidas. Outros autores são mais enfáticos, ressaltando que o turismo, além de refletir, perpetua as desigualdades entre as nações consumidoras desenvolvidas e os anfitriões em desenvolvimento (SHAW e SHAW, 1999).

Esta dicotomia é explicada por LEA(1988) quando pondera que, na literatura moderna, os estudos sobre turismo têm se dividido em duas escolas de pensamento: “Político econômica” e “Funcional”.

A abordagem “Político Econômica” tem como base a premissa de que o turismo se desenvolveu de uma forma muito semelhante aos padrões históricos do colonialismo e da dependência econômica. De acordo com esta visão, a indústria é tão governada por determinantes políticas e econômicas que pouca atenção é direcionada para outros aspectos. As análises, nesta abordagem, tendem a ser negativas sobre os efeitos do turismo, que é visto apenas como uma outra forma de nações desenvolvidas e ricas se desenvolverem às custas dos menos afortunados.

Para entender, com sucesso, os fundamentos da abordagem “Político Econômica” é necessário analisar dois aspectos que estão inter-relacionados: a forma como a o turismo internacional está organizado e a estrutura das economias dos países de Terceiro Mundo. Vamos a eles.

Após a segunda Guerra Mundial, com o crescimento do turismo de massa, as empresas se estruturaram para atender à crescente demanda da classe média dos países desenvolvidos de viajar para o exterior. Os três pilares da indústria do turismo – hotéis, companhias aéreas e operadoras de turismo – tornaram suas operações transnacionais, durante os anos 70 e 80, ao ponto de alguns destes empreendimentos dominarem todos os setores. No turismo, como em numerosos setores industriais, os países em desenvolvimento se encontram confrontando os grupos multinacionais que, muitas vezes, têm resultados maiores do que seu PIB e cujos orçamentos para investimento em pessoal qualificado suplanta aqueles dos organismos nacionais encarregados do turismo (ASCHER, 1984).

Quando observamos as cadeias hoteleiras notamos que, apesar das origens diversas, elas apresentam traços comuns, responsáveis pelo êxito do que ASCHER (1984) denomina “invasão dos destinos do Terceiro Mundo”. Estes traços são:

• Empreendimentos raramente investem grandes somas de capital próprio no terceiro mundo, mas buscam atrair investimentos de fontes locais privadas ou governamentais, minimizando o risco;

• A infra-estrutura – como estradas, fornecimento de energia, saneamento, aeroportos – associada ao turismo, que é essencial para o desenvolvimento do destino, são igualmente financiadas através de fontes internas ou através de empréstimos externos; • Um fluxo viável de visitantes é assegurado através de campanhas mundiais de

marketing;

• As corporações participam dos lucros de seus hotéis no terceiro mundo através de tarifas de gerenciamento, investimento direto limitado, contratos de licenciamento, franquia e acordos de serviço. Em todos os casos, a habilidade da empresa-mãe de se retirar destes acordos a coloca numa posição de controle.

Os países de terceiro mundo, desejosos de atrair hotéis internacionais, têm poucas alternativas a estes tipos de contratos, através dos quais se tornam imediatamente presos numa relação comercial desigual.

Os efeitos dessa estrutura foram notados por BRITTON (1981 apud LEA, 1988): (1) a maior parte dos gastos no turismo são retidos pelas empresas multinacionais; (2) os turistas que visitam os países do Terceiro Mundo tendem a se confinar em enclaves separados da população local (este é um padrão notado principalmente em destinos de praia e ilhas) e (3) a crescente padronização dos pacotes turísticos aumenta a possibilidade de substituição entre um destino “sea, sand and sun" por outro, diminuindo o controle dos países anfitriões sobre sua própria indústria de turismo.

Uma outra questão digna de nota refere-se à acentuação da desigualdade no país destino. Esta costuma resultar do fato das empresas, instituições e governos de países desenvolvidos estabelecerem relação comercial com uma determinada elite dos países do terceiro mundo (provavelmente aquela que teve acesso a educação). Desta forma, os representantes destas elites ficam com a maior parte dos poucos recursos que cabe à economia do país em desenvolvimento, sobrando muito pouco para as pequenas empresas e prestadores de serviço locais.

A outra visão apresentada por LEA (1988) é a abordagem “Funcional”. Esta enfatiza a importância econômica do turismo para todos os participantes e formas de melhorar sua eficiência e minimizar seus efeitos negativos, sem qualquer envolvimento da questão política. Esta perspectiva dá pouca ênfase ao histórico de mudanças nas sociedades do terceiro mundo e à possibilidade de contribuição da indústria do turismo para as presentes iniqüidades. Ao contrário da perspectiva anterior, esta oferece uma visão otimista, vendo a maior parte dos problemas como passíveis de serem solucionados através do gerenciamento e de políticas apropriadas. A abordagem “Funcional” é viabilizada através da subdivisão e análise das partes que compõem o turismo internacional. MATHIESON e WALL (1982 apud LEA, 1988) apresentam uma forma de fazer esta divisão que compreende três fases: a fase dinâmica que corresponde à demanda turística; a fase estática que envolve o período da estada em si e a fase consequencial, que descreve os principais impactos.

Apesar da reconhecida limitação de qualquer tentativa de modelagem de atividades complexas, como é o caso do turismo, a abordagem “funcional” procura demonstrar de forma adequada como os impactos do turismo se inter-relacionam com outros componentes do processo.

Assim, apesar das duas abordagens aparecerem freqüentemente na literatura como completamente opostas, elas são antes complementares, uma vez que permitem apreciar de uma maneira mais completa – respectivamente, macro e micro - a diversidade e os interesses dos diferentes participantes do turismo no terceiro mundo.

O presente estudo busca se inserir dentro desta proposta, ou seja, mesmo reconhecendo o cenário do macro ambiente como extremamente desfavorável para que o turismo exerça sua proposta de desenvolvimento em países do terceiro mundo, procura verificar se e como as iniciativas de responsabilidade social corporativa dos resorts produzem impactos favoráveis nos destinos.

III.2 - Desenvolvimento Sustentável

O desenvolvimento sustentável é um assunto que se tornou objeto de debate recentemente - a partir dos anos 90. Contudo, seu sentido mais amplo - que consiste no desenvolvimento que atenda às necessidades atuais sem comprometer a habilidade de atendimento de necessidades futuras - nos acompanha há alguns séculos. Certamente podemos ilustrar essa preocupação através do planejamento das cidades na história moderna,como, por exemplo, Paris ou Brasília. No entanto uma possibilidade ainda mais remota consiste na idealização e desenvolvimento de vilas e cidades pelos Romanos (SWARBROOKE, 1998). Com o passar do tempo, mudanças tecnológicas e crescimento populacional, aliados às mudanças sociais e econômicas, proporcionaram o crescimento da indústria e da urbanização, o que agravou muito as questões relacionadas à sustentabilidade, deixando claro que, sem controle, o ambiente físico e a qualidade de vida poderiam sofrer grandes perdas ou até chegarem a sua completa destruição.

Para fazer frente a essas questões surgiram algumas iniciativas isoladas por parte de empresários que desenvolveram vilas operárias e parques na tentativa de garantir a qualidade de vida nas cidades industriais. Por outro lado, o governo passa a encampar ações procurando eliminar os problemas de saúde pública e o crescimento desordenado das cidades, movimentos que começam a se tornar mais freqüentes (como, por exemplo, o movimento sanitarista no Rio de Janeiro).

Com o término da Segunda Guerra Mundial, todas as formas de planejamento ganharam muita força na Europa, pois se acreditava que uma nova ordem mundial deveria ser construída. SWARBOORKE (1998) menciona a existência de inúmeros planos, todos relacionados ao conceito de desenvolvimento sustentável: Abercrombie projetava o desenvolvimento futuro de regiões inteiras como a Grande Londres; foram desenvolvidas estratégias para explorar recursos sociais e econômicos com o objetivo de reduzir as disparidades e expunham-se planos para criar parques nacionais por toda a Europa.

A partir dos anos 60, a questão do desenvolvimento sustentável passa a se tornar relevante em alguns dos países que compunham o chamado “Terceiro Mundo”. É interessante notar que até este momento os países periféricos buscavam o desenvolvimento através de políticas de curto- prazo, onde buscavam obter ganhos através da exploração de recursos naturais. Este comportamento foi reforçado pelos países desenvolvidos que buscavam proteger suas próprias reservas obtendo insumos em “locais remotos”. No entanto, com o aparecimento de questões globais – destruição da camada de ozônio, superaquecimento da terra, chuva ácida, movimentos migratórios, entre outros - ficou claro que as ações não poderiam ser locais. Começam aí os esforços para discutir, planejar e implementar soluções globais.

Os movimentos descritos acima são retratados nas publicações. Encontramos as primeiras preocupações com as condições ambientais do mundo mencionadas em Silent Spring de Rachel Carson (apud McCOOL; MOISEY, 2001) e no relatório do Clube de Roma, chamado “Limites do Crescimento” (MEADROW et al., 1972). Este último consiste num relato do impacto do crescimento econômico no futuro mundial. Danella e Dennis Meadows usaram simulações de computador para mostrar que o mundo não poderia arcar com a quantidade de recursos consumida e a poluição gerada pelo crescimento econômico.

Esses documentos são seguidos pela Conferência de Estocolmo em 1972, onde a discussão principal passa a ser a forma de desenvolvimento - revendo as bases predatórias em que este vinha sendo praticado - e não a busca por formas de limitá-lo (VENTURA, 2002). A mudança de visão também se estende ao conceito de meio ambiente, que passa a associar à questão ambiental, o ambiente humano, fato que acrescenta ao debate a perspectiva social.

Em 1980, a International Union for the Conservation of Nature and Natural Resources publicou um dos primeiros artigos que fala abertamente sobre o conceito de desenvolvimento sustentável: o “World Conservation Strategy”.

Contudo, o desenvolvimento sustentável ganhou notabilidade com Our Common Future, editado em 1987 pelo World Commision on Environment and Development, onde se argumenta que a sobrevivência da espécie humana depende da adoção de uma nova forma de desenvolvimento econômico chamado de “desenvolvimento sustentável” (McCOOL e MOISEY, 2001). Esse é definido no relatório como “aquele que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de gerações futuras satisfazerem as suas” (CMMAD, 1991). O relatório afirma que o desenvolvimento sustentável envolve dois conceitos-chave:

• O conceito de necessidades e bem-estar, particularmente para os pobres a quem se deve dar prioridade;

• A idéia da limitação imposta pelo estado da tecnologia e da organização social no que se refere à habilidade ambiental de atender a necessidades presentes e futuras.

O Relatório Brundtland, como é mais conhecido, foi bem aceito pela comunidade internacional, pois, ao contrário dos documentos anteriores, não apresenta críticas à sociedade industrial.

Outro destaque do Relatório refere-se à passagem do conceito à ação. Nessa trajetória, apesar de assinalar que o objetivo das ações deva ser global, sugere que a solução deve ser elaborada por cada país individualmente, uma vez que os sistemas econômicos e sociais são muito diferentes.

Como resposta às provocações feitas pelo Relatório Brundtland surgiu uma série de ações dentre as quais destacamos os “Earth Summits”– que em 1992 aconteceu no Rio de Janeiro; e em 2002, em Johannesburg, África do Sul – e a elaboração da “Agenda 21”.

Estas ações tiveram grande repercussão na indústria do turismo que defende ser a primeira a adaptar o conteúdo da agenda 21 para uma realidade setorial específica. Tomando como base a Agenda 21, produzida durante a Conferência Rio-92, o WTTC e o Earth Council lançaram - em 1996 - a “Agenda 21 for the Travel and Tourism Industry: Towards Environmentally Sustainable Development.”. Outra ação a ser lembrada é a de preparação do “Tourism Industry Report” que foi apresentado na Conferência Mundial de Desenvolvimento Sustentável em Johannesburg - 2002. O referido relatório contém os progressos feitos no campo da sustentabilidade e as perspectivas futuras – abrangendo três segmentos: as operadoras de turismo, os hotéis e restaurantes e os cruzeiros marítimos.