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5.1 PRIMEIRA PARTE: AGOSTO DE 2018

5.1.3 Turma 2 C

Turma composta de 16 alunos, formada por quatro grupos, mas que apenas três apresentaram o trabalho exigido. De modo geral, podemos dizer que faltou abordar mais a fundo algumas questões como as cotas de um modo mais preciso e delimitado. O grande desafio consistiu em trazê-los para o debate e a discussão em torno da liberdade a partir do texto filosófico. Não cabe analisar aqui o desempenho e o comportamento individual da turma, já feita pelo setor pedagógico, por meio de reuniões entre alunos e professores. Também não se trata de uma dificuldade exclusiva da disciplina de Filosofia, como foi observado junto aos professores nos conselhos de classes, mas as dificuldades desse trabalho, entre outros fatores, têm reflexo da indisciplina e da desmotivação da turma. Apesar desses problemas, cada vez mais comuns em nosso meio, tivemos alguns aspectos interessantes. Acreditamos ser importante o professor ouvir a voz e opinião do aluno, observar quais são as motivações e as desmotivações. Em vários momentos das apresentações, os jovens aproveitaram a oportunidade para dizer o quanto sentiam-se sem oportunidades, o quanto sentiam-se sem espaço para as suas decisões, suas opiniões, a respeito do que querem da escola, dos professores, das aulas. Segundo

eles, a turma é vista como o “patinho feio” do colégio. Todos ganham elogios, tem certos

privilégios, mas só eles não têm voz, são ignorados pela direção e equipe de docentes.

Enquanto professor de filosofia existencialista não poderia deixar de ouvir os argumentos e explicar à turma que, aqui, diante dessa situação, numa perspectiva Sartriana, ao assumir-se como “patinhofeio”, como a “turma mais complexa em comparação com o 2B”, ao indignar-se com o modo como a direção, setor pedagógico, professores, não lhe dão voz, injustamente os definem como “piorturma”, isso já é uma escolha, isso é liberdade.

No entanto, no pensamento da turma isso não se traduz em efetiva liberdade, pois sempre são outros que decidem por eles, são os outros que tem privilégios, deixando-os à margem das decisões importantes dentro da escola. Nesse caso, ao menos tiveram oportunidade, tiveram liberdade para expôs sua opinião, seus descontentamentos, ainda que esse não fosse o objetivo da aula.

O seminário não foi pautado pelo texto filosófico, mas sim pelo debate sobre a liberdade em alguns pequenos fragmentos de texto de O ser e o nada junto com um breve resumo escrito pelo professor. Turma com perfil diferenciado em relação às aulas expositivas. Por isso, optamos aqui em não fazer uma apresentação prévia sobre as principais ideias do filósofo. Conforme já dissemos acima, faltou prepará-los para um trabalho mais voltado para a leitura, o debate contraditório. Aqui tivemos um exemplo clássico daquilo que o professor Franklin Leopoldo e Silva chamou de utilização do texto filosófico como “referencial”, do qual

traz sempre o risco da discussão e dos debates caírem meramente num “livre pensar”, numa

mera opinião, sem a reflexão filosófica a partir do texto propriamente dito.

Grupo 1 - Meu próximo: o tema sugerido pelo grupo foi a condição feminina e o aborto. A apresentação desse grupo chamou a atenção pelo destaque dado ao conceito de má-fé ao apontar o debate para a polêmica questão do aborto, a liberdade feminina, as consequências de determinadas decisões, as leis civis, os costumes e as proibições.

De modo geral, podemos dizer que o tema despertou curiosidade e provocou um debate interessante entre os alunos. No entanto, o que se percebeu, na maioria dos integrantes do grupo e da turma, foram opiniões arraigadas em preconceitos e ideias muito vagas sobre os diversos aspectos que envolvem a controvertida questão. Mesmo entre as alunas, percebe-se a noção de

culpa e responsabilidade muito maior que a mulher carrega em relação ao homem em função

das exigências de uma cultura machista. As opiniões mais comuns vão contra o aborto: “ela deveria se prevenir, “existem tantos métodos de prevenção (camisinha, pílula)”, “sou contra,

quem mandou fazer?”,“Ela não tem direito de abortar, tem que criar ou doar a criança”.

Evidentemente, faltou aqui debater e aprofundar mais a discussão com questões relacionadas a condição feminina na sociedade, tais como, a condição feminina de nascer mulher, pobre, negra, numa sociedade machista, sexista, e a forma como o sexo feminino pode ou não enfrentar tais obstáculos. A concepção determinista pela qual a mulher passa, definida

pelo seu “ser biológico”, a concepção fetichista e mecanicista, digamos assim, pela qual a

mulher é definida pelo modo como se veste, fala, age, etc., parece ainda algo dominante no pensamento das famílias, da sociedade e, numa abordagem como essa, se revela no pensamento do jovem. Constitui-se, portanto, um grande desafio, nesse sentido superar essas duas visões baseadas exclusivamente no fator biológico e no fator cultural como determinantes do que sexo feminino representa.

Grupo 2 - Meu Próximo: O tema sugerido foi “as significações da etnia – a vida de Nelson Mandela, símbolo da luta pela liberdade e resistência contra o preconceito.”

O grupo fez uma breve exposição sobre a vida de Nelson Mandela, líder negro e estadista, que depois de passar décadas na cadeia, tornou-se presidente da África do Sul. O trabalho teve como ênfase a luta contra apartheid, movimento que transformou o nome de Mandela num símbolo na luta pela liberdade. Os estudantes também colocaram em foco a questão racial, as significações que dizem respeito a etnia e o problema do preconceito das pessoas em relação na atualidade. Os alunos não compreenderam a liberdade em sua forma absoluta, no sentido do autor, pois, por todos os lados, o preconceito, o nascer negro, pobre, marginalizado, segundo eles, é um claro limite à liberdade. Haveria um conjunto de situações na sociedade que impedem a liberdade absoluta e a falta de respeito pelo outro ser humano, de outra cor, seria um exemplo disso. No entanto, alguns integrantes do grupo, brancos, pardos, parecem desconhecer a dimensão do problema do preconceito. Eles não têm uma dimensão exata do problema, mesmo conhecendo alguns relatos, até mesmo de amigos, que já sofreram algum tipo de discriminação. Em determinado momento da apresentação a discussão caiu na

questão das cotas, a maioria contra, ao acreditar que isso não deveria ser uma prioridade do Estado nem pode ser entendido como justiça social ou qualquer outro meio que o governo procure para amenizar um problema histórico-cultural. Para os jovens, não importa se a discriminação e a violência contra negros seja histórico-social, a “oportunidade deve ser para todos”, brancos ou negros. Quando o debate caiu sobre o papel e função do Estado em

determinadas situações como a questão das cotas, isso demandou algumas considerações importantes que é a tarefa do professor. Alguns argumentos em sua maioria contra as cotas: “se

os seres humanos são iguais, independentes da cor da pele, por que as cotas?”; “as cotas raciais menosprezam as pessoas negras”.

Vale lembrar que o princípio da meritocracia tem sido amplamente divulgado nas mídias sociais, na imprensa, colocando a sociedade contra toda e qualquer forma de serviço social. Os contra-argumentos foram colocados pelo professor, embora esse deveria se um debate exclusivo dos alunos. Não iremos nos deter nesses argumentos a favor das cotas já abordados em outras aulas sobre a função do Estado, o que fica como destaque desse trabalho foi a memória e a dedicatória dos jovens a um personagem emblemático como Nelson Mandela na luta contra a segregação racial. Com relação ao racismo, evidentemente, será necessário no futuro um estudo mais aprofundado envolvendo outras disciplinas como Geopolítica, História e Sociologia.

Grupo 3 - Meus arredores: O tema sugerido foi: “notícias do cotidiano, nascimento de

um bebê durante um trágico acidente com caminhão.”

O grupo trouxe uma notícia do cotidiano que revela como, no reino da liberdade humana, conforme Sartre, há espaço para o imprevisível e o inesperado. O grupo optou, como exemplo, um acidente, ocorrido no interior de São Paulo, em 2018. Na ocasião, uma mulher pegou carona com um caminhoneiro, o caminhão capotou e a mulher teve o bebê no meio dos destroços do acidente. A mãe não sobreviveu, a criança permaneceu ilesa.

Os estudantes não compreendem, junto com o autor, a ideia de que em todo projeto que fazemos, há sempre uma margem para o imprevisível, o indeterminado. Não seria possível, na visão deles, que no lugar onde estamos, nós próprios descobrimos nossos arredores. As decisões que tomamos ao mudar de lugar, que realizamos livremente, possibilitam a aparição de

imprevistos, os piores acidentes. A existência, segundo eles, está repleta de surpresas, sustos, de forças além da nossa vontade, logo, a liberdade não pode ser entendida como diz Sartre, porque há também a questão do destino, a vontade de Deus e situações inexplicáveis, entendidos como o milagre da vida tal qual o bebê que fora expelido do útero da mãe e sobreviveu ao trágico acidente.