5.1 PRIMEIRA PARTE: AGOSTO DE 2018
5.1.4 Turma: 2D
Turma composta de 15 alunos, divididos em pequenos grupos de três a quatro estudantes. Apesar da turma apresentar ótimos resultados no que diz respeito ao comprometimento, organização e responsabilidade, dois grupos se abstiveram da apresentação. Nessa turma tivemos duas aulas expositivas do professor em torno dos principais conceitos e ideias a partir de alguns fragmentos de texto da obra Existencialismo é um
humanismo. Esse procedimento, realizado antes dos trabalhos em grupo, facilitou o
entendimento do aluno em relação aos principais aspectos do pensamento existencialismo, mas também deixou a leitura do texto filosófico no plano secundário, pois eles já tinham uma concepção prévia sobre as principais ideias do autor em relação ao tema escolhido. Algumas apresentações ganharam destaque - grupo 1 Meu próximo (Marketing e Propanda); Grupo 3 Meu passado/Meus arredores. No entanto, esperava-se dos grupos um relato mais voltado para o cotidiano, para as situações consideradas limites da liberdade na vida diária, no dia a dia, não um debate tão polêmico como a questão das cotas raciais e o racismo. Temas como esse devem ser obviamente mais aprofundados de antemão. Além do mais, percebe-se uma certa defasagem em termos de conhecimentos em Geografia, História e até mesmo Sociologia, não que isso não seja de responsabilidade da disciplina de Filosofia também.
Grupo 1 - Meu Próximo: o tema escolhido: o mundo das técnicas e dos utensílios - o marketing e as propagandas
O primeiro grupo a apresentar-se teve como tema ‘A influência das propagandas na
escolha das pessoas’ e a polêmica em torno da possibilidade da liberdade do indivíduo diante
grupo a respeito desse tema é que o desejo obsessivo por novidades, o impulso pelo consumo de produtos, não exclui a liberdade, uma vez que o ato de comprar é livre, e para Sartre a liberdade está no ato, na ação, no modo como projetamos e conduzimos nossas vidas. A propaganda, o marketing, a influência não seria algo excludente de nossas deliberações, pois temos aceitação, ausência de reflexão, escolhas e isso, segundo a concepção Sartriana, também é liberdade. Quem compra um produto, seja ele necessário ou supérfluo, compra porque escolheu comprar, muitas vezes sem reflexão, influenciado pela propaganda, mas isso não exclui sua liberdade, sua responsabilidade, sua liberdade no ato de se deixar influenciar.
Embora não fosse esse o tema escolhido pelo grupo, uma frase contida no
‘Existencialismo é um humanismo’ de Sartre chamou a atenção de um aluno em especial.
Trata-se da frase de Dostoiévski, a qual afirma que “se Deus não existe então tudo seria permitido”. Tal frase foi interpretada de modo equivocado e se fez necessário um esclarecimento por parte do professor. Os jovens tiveram dificuldades em compreender que, segundo Sartre, uma sociedade sem um Deus, não significa uma sociedade sem leis, sem normas, sem moral, sem responsabilidade, nada disso, apenas denota, no existencialismo sartriano, o conceito de liberdade plena do homem em suas infinitas possibilidades de ação, já que está só no mundo e tudo que fizer e de sua inteira responsabilidade. A maioria do grupo, acredita que os princípios e os valores cristãos são fundamentais na família, consequentemente, na sociedade e que, a ausência deles, poderia causar certo alvoroço, certa desordem na vida social. Nesse ponto, temos aqui uma clara divergência de ideias entre o pensamento filosófico, a partir do autor (do próprio professor), a partir do texto, e o modo como o jovem vê, observa, opina, julga, a partir de suas experiências, do seu sentimento do mundo, as significações já dadas no mundo em que vive. Trata-se de uma divergência em que o grupo não avaliou como negativa, ao contrário, os alunos trataram com grande respeito as conclusões do autor e do professor. Isso se reflete naquilo que Kneller havia dito em relação a honestidade do professor que se reflete no respeito e na confiança dos alunos. O professor apresenta os pontos de vistas, a sua própria convicção depois de longa reflexão, o aluno julga a partir da sua vivência, das suas significações de mundo, mas ainda que não tenha uma longa experiência suficiente para a reflexão, ainda que não tenha a noção exata de que essa postura, essa concepção de mundo é
também liberdade. De mais a mais, essa relação aluno-professor, ainda que diante de um tema complexo, consolidou um importante elo de respeito, integridade e acima de tudo, honestidade. Grupo 2 - Meu Próximo: o tema escolhido foi “As significações do pertencimento a
minha etnia: Racismo e preconceito”.
Os estudantes trataram da questão do preconceito racial, ao mostrar, através de um vídeo, dados estatísticos sobre a dificuldade de egresso dos afrodescendentes nas universidades, no mercado de trabalho, em cargos importantes seja no setor privado, seja no serviço público, tais como, no Judiciário, no Legislativo e no Executivo.
Ao referir-se sobre a exclusão e a questão do problema da liberdade do indivíduo negro na sociedade brasileira marcada pelo racismo, de alguma forma, os jovens consideraram que embora seja inegável a existência do preconceito, da discriminação e da violência, isso ainda não exclui a liberdade dos negros enquanto seres humanos, pois todos concordam sobre a igualdade em condições intelectuais com os brancos. O modo como os negros constituíram e mantiveram uma cultura, ainda que debaixo dos açoites, da humilhação, da violência dos senhores de Escravos, é entendido pelos alunos não como uma plena realização da liberdade, mas como resistência, como luta constante contra a injustiça e a violência.
Na segunda parte da apresentação, tivemos uma discussão em torno das cotas raciais, algo polêmico repleto de divergências de ideias em função da desinformação e o desconhecimento histórico a respeito. Os jovens não compreendem as cotas como uma forma do Estado corrigir desigualdades sociais, históricas, culturais, desde o tempo do Brasil Colônia. Na memória dos jovens, há um desconhecimento em torno do significado de uma sociedade escravista que ecoa na sociedade até hoje. Ainda prevalece a ideia de que destinar vagas para os afrodescendentes retiram direitos daqueles que o conseguem por seu mérito próprio. A conclusão do grupo é que as cotas não devem ser impostas pelo Estado e não constituem o melhor instrumento para combater a discriminação e as injustiças sociais.
Apesar de minoria, alguns contrapontos foram observados tais como: a) “são os negros
que percebem na pele os efeitos de um etnocentrismo que é histórico e social”. b) “Em meio a
tantas desigualdades, a destinação das vagas é uma forma do governo estimular um processo de inclusão daquelas pessoas que não tem acesso ao espaço e ao serviço público”. Os favoráveis
às cotas lembram que os serviços prestados pelo Estado não se dirigem exclusivamente às minorias, mas há que lembrar o auxílio que o Estado brasileiro sempre propiciou, desde o Brasil Colônia, aos demais setores da sociedade civil, incluindo os grandes proprietários de terras: no passado foi a doação de terras para os senhores de Engenho, atualmente, são interesses do grande capital (mercado financeiro, bancos, grandes empresas, ruralistas, etc.).
O debate permaneceu em aberto, com a possibilidade de um exame e um estudo mais a fundo em torno do funcionamento das regras de como são feitas as reservas de vagas ainda desconhecida por parte dos alunos.
Grupo 3 - Meu passado/Meus arredores: o tema sugerido foi “ninguém nasce campeão”.
O tema escolhido pelo grupo foi um relato sobre a vida e a trajetória do atleta paraolímpico, Daniel Dias, um dos maiores medalhistas da natação brasileira. O atleta nasceu com uma má formação congênita dos dois braços e da perna direita, mas, mesmo assim, desde os 16 anos, isso não foi um obstáculo para que ele se tornasse um dos maiores competidores ao quebrar todos os recordes da modalidade.
Esse tema ficou entendido como um misto entre Meu passado e Meus arredores: as condições do corpo, do nascimento, e os obstáculos a transpor, os objetos do mundo a utilizar. Uma doença genética seria algo não que não se escolhe, que a princípio não se espera, mas se pode superar. Os jovens compreendem, tal como o filósofo que, numa condição como essa, no
âmbito dos “Em-sis”, isto é, os obstáculos, as resistências, forças externas, o projeto de uma liberdade está na previsão, na aceitação, na derrota ou na vitória sobre essas resistências. No caso do atleta, ele não nasceu campeão, fez-se campeão, num mundo prefigurado por sua escolha. O que seria motivo de desistência diante de um obstáculo`, o que parecia intransponível, para ele, foi motivo de superação, foi um ponto de apoio para um projeto livre de realizar-se como um competidor e um vencedor.