3. ENQUADRAMENTO INSTITUCIONAL
3.5. Turmas
3.5.1. Turma Residente
A minha turma residente foi uma turma do ensino secundário, 11º ano, do curso de Humanidades. Era uma turma constituída por dezoito alunos em que catorze eram raparigas. Foi um desafio uma vez que as raparigas não tinham muita tendência para a prática desportiva e, como a nota da disciplina não contabilizava para a média, era mais uma razão para não existir empenho e motivação para as aulas de EF. Como já referi, anteriormente, a minha turma era, maioritariamente, do sexo feminino. Uma turma de dezanove alunos apenas quatro eram do sexo masculino. Era notório verificar que o sexo feminino era o que comandava “as tropas”. Contudo, devo confessar que fiquei, bastante, assustada quando descobri que iria ter, tão, poucos alunos do sexo masculino. Ao ler a lista de alunos que a turma constituía, fui absorvida por um turbilhão de questões e de filosofias que jamais pensara: “Será que vão ter alguma aptidão
para a aula de EF? Será que vão gostar das aulas? Será que vão realizar as aulas?” Todas estas questões estiveram presentes até à primeira aula, a aula de
apresentação. Admito que no final daquela aula ainda, mais, assustada fiquei. Espanto meu quando descobri que quase todos os alunos, à exceção dos rapazes, praticavam dança ou ginástica acrobática. Algumas alunas não praticavam atividades extraescola. Contudo, fiquei assustada com estas duas modalidades presentes na turma pois eram duas modalidades em que não
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estava, muito, à vontade. E posto isto pensei: “Estou feita!”. Não sabia até que ponto a turma, em desportos coletivos (DC), teria um bom desempenho ou se tinham qualquer conhecimento acerca dos mesmos. Todas estas dúvidas e angústias foram partilhadas e comentadas em seio de NE. Contudo, estas características muito próprias, de certa forma, motivaram-me e entusiasmaram- me, pois, se a turma tivesse muitas dificuldades, como pensava no primeiro contacto, teria muita matéria-prima para trabalhar e moldar, ao longo do ano letivo.
“Hoje foi a primeira aula…Não sei se fico entusiasmada ou assustada pois descobri que a dança e a ginástica são duas modalidades presentes na turma. Apesar de serem poucas as aulas a praticarem, estas duas modalidades, fico um pouco preocupada pois são duas modalidades em que não me sinto, minimamente, à vontade. Terei que pensar e elaborar estratégias e métodos que me ajudem a ultrapassar as minhas dificuldades nestas modalidades caso as lecione”
(Diário de Bordo – Pensamentos, setembro de 2016)
Como era uma turma, maioritariamente, feminina, as demoras no balneário foram condicionadas. Foi um ponto negativo que marcou presença nas primeiras aulas. Contudo, apesar de o sexo feminino predominar na turma, não houve quaisquer conflitos entre os alunos. Era notório a existência de grupos na turma, mas estes grupos nunca criaram rivalidades. Sentia que era nas aulas de EF onde, esses mesmos grupos, não eram, tão, visíveis. A forma como organizava a aula e a construía fazia com que os grupos não trabalhassem, sempre, em conjunto. As aulas de EF eram o único momento onde os alunos funcionavam como uma turma, como um só. O fato de ter adotado, várias vezes, a estratégia de construção de equipas fez com que os alunos se unissem mais e desenvolvessem a cooperação, a interajuda, entre outros valores.
“Mais uma vez sinto que a construção de equipas, no processo educativo, é um aspeto positivo, principalmente, por dois motivos. Primeiro ajuda-me na organização e estruturação das situações de aprendizagens, bem como em atribuir alguma competitividade e cooperação à turma. Em segundo lugar, noto que a turma está mais unida apesar da existência de grupos “preferidos”. Assim, com esta estratégia consigo, de alguma forma, esconder os grupos e fazer com que a turma trabalhe como um só, apesar da competitividade.”
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Assim, tentei, também, desenvolver estratégias e criar dinâmicas diversificadas para promover a motivação, bem como o rendimento dos alunos. Segundo Batista (2014, pp. 35), o que marca os EE são as tarefas inerentes ao processo ensino-aprendizagem, principalmente as ligações que criam com os alunos: “É com eles e para eles que eles investem”.
Era uma turma com bastante dificuldade a nível motor e cognitivo e, acima de tudo, a nível de conhecimento desportivo. O seu nível podia ser comparado com o ensino básico. Eram enormes as dificuldades que apresentavam em várias modalidades. É incompreensível, no meu ponto de vista, os alunos de ensino secundário serem portadores de tamanhas dificuldades motoras e cognitivas referentes à EF. Com isto, consigo perceber que a suas aprendizagens e experiências anteriores, nesta disciplina, foram fracas e pouco enriquecedoras. Não sei se a falta de competência por parte dos professores ou a falta de participação e de envolvência dos alunos foram fatores que influenciaram este resultado final.
“Sei, também, que o nível de conhecimentos da turma em relação à EF é muito baixo. Poucos praticam desporto ou sabem, mesmo, o que realmente é isso. É um fator que me incomoda bastante pois não percebo que experiências tiveram no passado escolar. Como é que no 11º ano não sabem realizar um passe de ombro? É vergonhoso para a nossa profissão que tal aconteça. Sei que tal situação pode estar relacionada com as poucas horas dedicadas à EF, a falta de espaços e materiais, pouco empenhamento por parte dos alunos e, até mesmo, o aborrecimento pela disciplina. Contudo, também acredito que a incompetência de alguns professores pode estar relacionada com este fraco desempenho dos alunos. Porém, este fraco desempenho motor é algo que está a propagar-se nas instituições escolares. É necessário tomar medidas.”
(Reflexão da Aula nº7 – Andebol, janeiro de 2017)
“Nesta aula senti-me um pouco “perdida”, pois apesar de estar à espera de um baixo rendimento, nesta modalidade, nunca pensei que fosse tão baixo. Intervim várias vezes para os forçar a realizar os três toques, bem como para a realização do passe. Foi notória a falta de organização do jogo e a sua falta de intenção tática.”
(Reflexão da Aula nº79 – Voleibol, abril de 2017)
Ao longo deste ano consegui que estes se envolvessem nas práticas lecionadas e que, acima de tudo, começassem a gostar da EF e de todos os valores que este nos consegue fornecer.
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“Como isto, a aula correu conforme o que estava planeado. Os alunos estão, cada vez mais, envolvidos com a prática desportiva e com o Desporto, querendo estar presentes nos processos de aprendizagem.”
(Reflexão da Aula nº29 – Badminton, novembro de 2016)
“Para rever alguns conhecimentos importantes questionei, os alunos, acerca de alguns elementos que já tínhamos abordado. Fiquei surpreendida pois ainda se lembravam de alguns conceitos. Com isto, começo a perceber a sua envolvência e o seu interesse pelos conceitos abordados nas aulas. Fico feliz e realizada por começar a despertar algum interesse na turma para a minha disciplina.”
(Reflexão da Aula nº20 – Atletismo, janeiro de 2016)
Também, com muito esforço e dedicação por parte dos alunos foi notória a sua evolução e o seu desejo de se superarem em todos os desafios propostos. Apesar das suas dificuldades tenho a certeza que foi um ano de experiências enriquecedoras, diferentes, inovadoras e divertidas. Era uma turma constituída por alunos bem-educados, responsáveis e cativantes. Estes “conquistaram-me” logo no primeiro dia. Tenho a certeza que serão seres humanos pensadores, reflexivos, autónomos, responsáveis, criadores e inovadores.
Estabeleci uma ligação próxima com a turma ao tornar-me uma figura de confiança e de segurança para eles. Sinto que ficamos “apaixonados” na primeira semana. Eles com a minha personalidade e a minha maneira “querida e cuidada” de os tratar e eu com a sua maneira única e espontânea de ser. Foi “amor à primeira vista”. Ao longo do tempo fomos ficando mais próximos e a nossa relação de proximidade foi-se intensificando.
“Sinto que, cada vez mais, os alunos estão envolvidos nas aulas bem como, comigo. Sinto que “já os tenho do meu lado”. O fato de, nas aulas, conseguir ser descontraída e mais “divertida” é uma vitória pois não queria ter que usar uma personagem nas aulas. Falo na criação desta personagem pois, por vezes, as pessoas criam “figuras” nos diferentes contextos para conseguirem ter sucesso. E eu não preciso e ainda bem pois, acredito, que não estaria tão entusiasmada e motivada para as aulas. Adoro conseguir ser eu mesma e de mostrar todos os meus lados. O fato de ser descontraída e mais liberal não é espelho de desorganização e de pouco trabalho nas aulas, até pelo contrário. Com a minha postura consigo que, os alunos, se envolvam mais nas atividades e que vejam o desporto de uma forma positiva. No início, tinha medo de não conseguir conquistar a turma, mas, ainda bem, que aconteceu o contrário. Como os conquistei? Sendo eu mesma, em todos os momentos e em todos os sentidos.”
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Creio que a prevalência do sexo feminino, na turma, fez com que o nível de confiança e de cumplicidade fosse crescendo, acentuadamente, no decorrer do ano letivo. Graças às caraterísticas próprias da turma nunca houve uma necessidade de adotar uma postura e uma intervenção mais autoritária. Sempre foi possível incutir, nas aulas, momentos de puras gargalhadas e de partilha. Não podia ter desejado melhor turma para o meu Ano da Verdade.
Sinto que consegui transmitir-lhes conhecimentos e valores desportivos que estes não sabiam que existiam. Nunca tive problemas de mau comportamento nem de indisciplina. Sempre foram uma turma bastante educada e participativa, apesar das suas limitações. Acredito que a minha conceção de ensino e a minha maneira de o pensar foi uma mais-valia para o sucesso educativo, uma vez que defendo que os alunos devem estar por dentro do processo de ensino- aprendizagem e que devem ser agentes ativos do mesmo. No meu pensamento esteve uma filosofia que acredito que pode ser uma condição favorável para a EF. Esta disciplina pode e deve funcionar como um refúgio para os alunos, como um escape. Os alunos devem aproveitar estas aulas para se libertarem de todas as pressões e se envolverem na prática desportiva, pois a partir dela podem adquirir sentimentos, atitudes e valores que serão essenciais para a sua integração e participação na sociedade.
Foi um privilégio enorme ter partilhado este ano de formação com esta turma. Não podia ter sido melhor. Com eles tudo foi mais fácil e agradeço-lhes por isso. Levo-os comigo!