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1.2 | UB ER LÂND IA EM B USCA D E MOD ER NIDAD E

No interior do estado de Minas Gerais, mais especificamente no Triângulo Mineiro, grande parte das cidades nasceu ao final do século XIX, sob fortes influências do urbanismo progressista. Uberlândia, nos remonta pela sua história, ao processo de colonização da América Portuguesa entre o final do século XVII e início do XVIII, apresentando um traçado urbano “irregular”, ou melhor, “fora de esquadro”, que pouco a pouco adquire um esquema progressista ao longo do tempo. A história do município irá assumir assim, gradativamente, o imaginário disseminado nacional e internacionalmente de cidade progressista e moderna.

Em 1850, com uma população pouco expressiva, agrupamentos já situados ao entorno da igreja matriz, influência do catolicismo, serviam-se de ponto de passagem para os desbravadores do “sertão” em busca de riquezas.

Ocupada por indígenas caiapós, a região aos poucos foi povoada28 por grupos não indígenas com a finalidade de exploração do interior, instalando-se os núcleos iniciais, sendo apoio dos locais de mineração na

capitania de Goiás. Mas apenas ao final do século XVIII, com objetivos na agropecuária é que se deu a ativa ocupação.

Sertão da Farinha Podre29, como era designada, em 1816, deixa de pertencer a Goiás tornando-se parte da Comarca de Paracatu de Minas Gerais. As políticas de povoamento das regiões não litorâneas incentivaram o desenvolvimento, elevando a criação de arraiás, principalmente a partir da organização política do Império, em 1822, é que se deu o efetivo aumento da população do Brasil, relacionando-se aos planos de expansão para o “sertão”. Em relatos30, o povoado de Desemboque, atual distrito do município de Sacramento aparece como o primeiro assentamento oficial, em 1736, no Triângulo Mineiro, e em 1817, Uberlândia. Algumas famílias se instalaram em terras uberlandenses com a finalidade de demarcar posse e outras posteriormente para trabalhar ou adquirir território, incentivadas pela Coroa portuguesa e brasileira na tentativa de ocupação do “sertão”.

É bastante comum na história da ocupação do interior e de zonas de fronteira a criação de um patrimônio específico como base para o estabelecimento de um templo no futuro núcleo urbano, comumente em honra a um santo de

29 Nome dado à região do Triângulo Mineiro devido ao fato de os bandeirantes enterrarem farinha no solo, sendo a mesma posteriormente deteriorada.

30 De acordo com registros documentais de 1820 e 1821.

devoção. O patrimônio urbano ou da capela em geral se iniciava com a doação ou venda pelos donatários das sesmarias ou proprietários de fazendas dela originadas. Algumas vezes o estabelecimento do patrimônio se dava a partir de duas ou mais propriedades, noutras vezes a partir de uma única fazenda, como foi o caso de Uberlândia. Houve a mobilização de membros da comunidade e de uma herdeira de terras na formação do patrimônio, inicialmente doado a Nossa Senhora do Carmo e Mártir São Sebastião. A barra do ribeirão São Pedro com o Rio Uberabinha demarcava seus limites, e acabou determinando a denominação do arraial. Ao povoado original, que posteriormente configuraria a Uberlândia atual, chamou-se Nossa Senhora do Carmo e São Sebastião da Barra de São Pedro de Uberabinha, ou simplesmente Uberabinha. (CERASOLI, J. et all, 2009, p.7)

Em 1842, é então oficializado o primeiro povoado às margens do rio Uberabinha. O local passou a atrair novas famílias, se constituindo, assim, a população recebe a primeira capela curada no local, com autorização dos eclesiásticos, que depois de implantada (1853) passa a atrair novos moradores. No ano de 1857, tanto o povoado é elevado à Freguesia, quanto a capela à Matriz. Posteriormente, em 1888, a população cobiçando a emancipação administrativa é expedida documentação ao governo provincial reivindicando a elevação à categoria de Vila. No mesmo ano, sem nome alterado, recebe o título de cidade.

Com a promulgação da Constituição do Estado de Minas Gerais, deu-se início, em 1891, a uma organização administrativa do município, coincidindo com a mudança do regime imperial pelo republicano no Brasil, havendo assim uma série de modificações na gerência da cidade. A dinâmica do município, a partir de então, obteve várias melhorias em infraestrutura urbana e serviços.

Ao final do século XIX, a cidade necessitava de um plano de expansão, que ficou a cargo do engenheiro inglês James John Mellor31 que imprimiu ao projeto um traçado ortogonal (tabuleiro de xadrez), escolhido justamente pelo fato de comunicar uma visão moderna e progressista, estendendo-se do bairro Fundinho, antigo núcleo, até a Estação Ferroviária, onde atualmente se encontra o Fórum da cidade. Constituído assim, dentro da concepção de racionalidade, que segundo Lopes (2010), determinou a direção e o sentido de ruas e avenidas, as dimensões e os formatos dos lotes urbanos, impondo um ritmo ao cotidiano.

Ao analisar a cartografia de uma quadra do Fundinho, Lopes (2010) alega que é possível ver as mais variadas figuras geométricas formadas pela dimensão irregular dos lotes.

31 James John Mellor foi responsável pelo primeiro planejamento urbano de São Pedro do Uberabinha, que projetou ruas e avenidas que seriam abertas. (LOPES, 2010)

Terrenos quadrados, retangulares, triangulares, quinas e bicos somente explicados pela não padronização do espaço, cada um deles tem sua particularidade que possivelmente, também era a do seu proprietário, são histórias múltiplas e variadas. Paradoxalmente, os lotes da ‘cidade nova’ foram padronizados como todas as mercadorias; deixaram de ser quintais, agora transformaram-se em ‘datas’, são medidos de forma precisa e todos têm o mesmo ângulo, comprimento e formato, contam histórias diferentes, são antes de tudo um produto vendido pelo mercado imobiliário. (LOPES, 2010, p. 78)

O traçado urbano é desse modo a materialização do discurso acerca do progresso e desenvolvimento, no qual as elites procuraram intervir, onde

As mudanças visavam, sobretudo, a adequar a forma urbana às possibilidades de acumulação do capital, de modo que a cidade simbolizasse o progresso, indicativo das novas condições econômicas implementadas pela atividade comercial. Para atingir esse objetivo, era necessário criar uma nova concepção de cidade e de sociedade, pela qual seriam impostos aos seus personagens novos valores, atitudes e comportamentos, que, sem dúvida, criariam uma nova urbanidade (SOARES, 1995, p. 100)

Assim, no imaginário cultural da população uberlandense, conforme nos diz Leandro José Nunes (1993), se calcava o discurso progressista, compondo uma cidade disciplinarizada e moralizada pelo ideário burguês.

Em obras como Bandeirantes e Pioneiros do Brasil Central (1970), de Tito Teixeira, considerado um dos principais memorialistas da cidade, percebemos pela fala do autor a visão de uma cidade concebida pela saga de modernos e pioneiros bandeirantes, numa exaltação de homens destemidos que transformaram a região quase agreste em um dos locais mais prósperos do Brasil. Características éticas e morais foram assim atribuídas aos “desbravadores”, dotados de força, moral e vontade, que de acordo com Nunes (1993), elementos subjetivos e princípios ideológicos burgueses utilizados para compor uma imagem, como marca distintiva dessa sociedade, sempre apontando para um futuro superior, assim, por meio do trabalho, do esforço próprio, poder-se-iam gerar fortunas pessoais tanto quanto o progresso da cidade.

O fio condutor que alinhava o discurso é sempre o mesmo: a história da cidade e de seu progresso é a vitória do trabalho, da inteligência, da capacidade de empreendimento e da determinação de alguns homens -a classe dominante- que souberam dar continuidade às iniciativas pioneiras. (NUNES, 1993, p.28)

Desse modo, o crescimento de Uberlândia foi caracterizado por uma ideologia positivista, que foi incorporada ao imaginário brasileiro, segundo Selmane Felipe de Oliveira (2002), após a segunda metade do século XIX, quando ocorreu a mudança do trabalho escravo para o trabalho livre.

Essa mudança não redefiniu somente as relações de trabalho, mas também os lugares e as funções destes agentes na sociedade. Para tanto, houve uma reformulação do Estado – tornando-o Estado de Direito -, que tinha como objetivo assegurar a reprodução do capital, através da redução dos conflitos entre capital e trabalho. Neste contexto, a redefinição do discurso dominante foi fundamental, na medida em que junto com uma nova noção de trabalho, era incorporada também a idéia de ordem e progresso. (SALLES, 1986 apud OLIVEIRA, 2002, p. 21)

O discurso ideológico produzido pela burguesia, ressaltando assim a ordem e o progresso da cidade como interesse comum, ou seja, de todos, escamoteava a desigualdade social. Oliveira (2002) afirma que além de escamotear a desigualdade e as contradições sociais, a burguesia uberlandense se colocava como principal agente no processo de crescimento da cidade. Apesar de afastada de centros urbanos e mesmo não sendo Uberlândia sede de governo, o que caracterizou o boom no crescimento da cidade é o fato da construção do terminal de Uberabinha

da Estrada de Ferro da Companhia Mogiana32. Temer (2001) aponta ser por influências das elites locais e por questões políticas, que a ferrovia e o terminal se instalaram na cidade. A ferrovia era na época sinônimo de progresso, e foi essa a imagem que se passou a imprimir na cidade.

Esse fato deve-se à influência desta elite33 forte, principalmente grandes proprietários de terra, cujas ambições contrastavam com as dimensões e a dinâmica da cidade. Apesar de serem essencialmente rurais, os grandes proprietários vislumbravam, no meio urbano, lucros maiores que o rural, atividade rentável na época (final do século XIX). Houve também, conforme Oliveira (2002), uma associação entre políticos e empresários a favor de interesses da cidade, prevalecendo a aliança entre setores dominantes urbano e rural e desses com a classe política e poderes governamentais.

32 A companhia Mogiana trouxe, de acordo com Lopes (2010), muitas mudanças decorrentes da apropriação do espaço, inicialmente como símbolo de progresso ao final do século XIX (1895) e, posteriormente, a partir dos anos de 1950, como entrave ao desenvolvimento da cidade, sendo demolida na década de 1970.

33 Conforme Soares (1995), a elite era composta por um grupo político e econômico que iria se perpetuar no poder por décadas, ”empregando um discurso que privilegia o progresso da cidade e o caráter ordeiro de seus habitantes, na busca inexorável do desenvolvimento do município. Nesse intuito, ela procura, no seu cotidiano, criar fatos e acontecimentos que vislumbrem grandiosidade e o progresso da cidade, colocando-a como um modelo ideal de cidade para se viver.” (SOARES, 1995, p. 77)

A concepção moderna de cidade esteve comprometida com o ideal da burguesia de criar um código nacional de administração que, atravessando fronteiras, ligasse os cidadãos em torno de princípios universais que os igualassem juridicamente como cidadãos na relação uns com os outros e não através de mediação de castas, clãs ou grupos. (BOMENY, 2002, p. 209)

A imagem de cidade “metrópole” ambicionada e amparada pelo discurso do progresso não condizia mais o nome Uberabinha, de “pequena Uberaba”, sendo cogitado o nome Maravilha, mas foi como Uberlândia, em 1929, que se constituiu o imaginário “terra fértil”.

Com as políticas de interiorização do país, a partir da década de 1940, no governo de Getúlio Vargas, o desenvolvimento uberlandense foi impulsionado pela Fundação Brasil Central34, reafirmando a tentativa de

34

“A Fundação Brasil Central (FBC), que teve origem na Expedição Roncador-Xingu, inicialmente comandada por João Alberto Lins de Barros (ministro da Coordenação de Mobilização Econômica e ex-tenente da Coluna Prestes), foi um órgão, criado em 1943, com o objetivo de ‘desbravar e colonizar as zonas compreendidas nos altos rios Araguaia, Xingu e no Brasil Central e Ocidental’, região alvo da chamada ‘Marcha para Oeste’, programa de colonização e ocupação de fronteiras impulsionado pelo então presidente Getúlio Vargas nos primeiros anos do Estado Novo. Essa iniciativa fundou as cidades de Aragarças, em Goiás, e Nova Xavantina, no Mato Grosso; assumiu a administração da Estrada de Ferro Tocantins; firmou convênios com outros órgãos para mobilização de trabalhadores do norte do país; construiu usinas de cana, estradas, campos de pouso, redes de comunicação; e adquiriu entrepostos comerciais.” (http://www.coc.fiocruz.br/comunicacao/index.php?option=com_content&view=article&i d=278, acesso em 18/09/2011 as 10:47 hs).

transmitir a identidade de uma cidade moderna. Novas estradas foram abertas, conectando o Centro-Oeste até as áreas mais populosas do litoral, fazendo, conforme Oliveira (2000), com que a cidade efetivasse seu caráter de entroncamento viário, auxiliando na afirmação de polo comercial. A população local entre os anos de 1947 e 1958 passou de 31.850 para 64.660 habitantes (SOARES, 1995); e juntamente com o crescimento populacional crescia o discurso progressista.

Essas evidências demonstram que no transcorrer da ditadura do Estado Novo não houve estudos locais, privilegiando um crescimento urbano racionalizado. Isto talvez esteja associado ao fato de, neste período, os prefeitos terem sido interventores nomeados, às vezes procedentes de outra localidades, (...) fazendo- nos pensar em submissão a um governo federal, cuja prioridade era criar antes estratégias de dominação, evitando contentas particularizadas/setoriais que pusessem em jogo seu projeto político ditatorial. (LOPES, 2010, p. 79)

O que Lopes (2010) nos indica é para a lacuna nos projetos de planejamento urbano de Uberlândia que são interrompidos em 1927 e só reaparecem no final da década de 1940 e início de 1950, portanto, não há projetos que contemplam questões referentes à organização espacial nas administrações compreendidas entre os anos de 1930-1948.

Com o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek (1956/1961), políticos, empresários, imprensa, associações classistas e clubes de serviço criaram uma Comissão Permanente de Defesa dos Interesses de Uberlândia, pressionando e controlando negociações para uma efetivação industrial na cidade, demonstrando que nenhuma outra cidade se equiparava geograficamente a Uberlândia. A construção da nova capital federal acarretou a modernidade e o progresso que o governo divulgava, atrelados tanto na arquitetura como no planejamento urbano, impulsionando a urbanização, a industrialização e o desenvolvimento econômico.

Não apenas Uberlândia, mas inúmeras cidades interioranas brasileiras incorporaram elementos de modernidade sob égide das elites e/ou do Poder Público, tomando força a utopia nacionalista. “A nova sociedade aparece diretamente comprometida com a nação, o progresso e o desenvolvimento industrial.” (VELLOSO, 2002, p.172)

Por meio da imagem de progresso, Uberlândia era projetada regionalmente e nacionalmente, como ilustra o trecho abaixo publicado em jornal35 local de 1956:

35 Sabe-se que estes textos são impregnados de ideologias, não sendo neutros e imparciais.

(...) E Uberlândia, o ponto de convergência e marco de atração do Triângulo Mineiro. E nessa meca econômica, uma “Nova Yorque” em pleno sertão do Brasil.

Na América do Norte, Nova Yorque representou em nossos dias a capital econômica do mundo. Aqui no Brasil, Uberlândia representa a capital econômica do Centro Oeste do país. (Jornal O Repórter 20/10/1956)

A ideia de uma sociedade era calculado comunicando características como o “espírito” empreendedor de seu “povo” e o progresso sem limites, aliada a um ideal de cidade-jardim36 representado pelo espaço urbano: avenidas limpas, praças construídas sob novos conceitos paisagísticos e edifícios “modernos”, assim, o ideal estético moderno era transmitido, conforme transcrito no trecho abaixo:

O que evidencia o progresso de uma cidade é a transformação de sua fisionomia urbana (...). Uma cidade que não muda sua fisionomia, através de obras de urbanização, é uma cidade verdadeiramente estacionária, onde não se constrói, não se melhora nada, não se empreende nada. Felizmente, assim não

36 Termo já utilizado por Ebenezer Howard (1898), porém não há relação da cidade de Uberlândia com as garden cities inglesas, aqui o desígnio partiu de um repórter da revista Noite Ilustrada, na era Vargas, que esteve na cidade para criar uma propaganda do município, apelidando assim de cidade-jardim, nome que marcou, devido ao fato de a cidade possuir “belos e aprazíveis jardins”, mesmo estes estando secos no momento da visita. (SOARES, 1995)

acontece em Uberlândia, que gosta de andar na moda, de saber dos últimos figurinos (Jornal Correio de Uberlândia, 06/10/1956).

A arquitetura e o urbanismo, desse modo, foram instrumentos das elites na tentativa de se propagar a expressão de uma cidade voltada para o futuro, para o progresso e, consequentemente, para a modernidade. Por meio de sua cartografia urbana, como nos diz Lopes (2010), Uberlândia era descrita como “reduto do desenvolvimento, da moralidade, de hábitos e costumes estreitamente vinculados a uma ordem social comprometida com o poder político e econômico local.” (LOPES, 2010, p.90)

Não apenas as ruas e avenidas delineadas pelo Plano de Urbanização Róscoe37 dos anos de 1950, o caráter das futuras construções também, nesse sentido, o processo do Legislativo 909, deliberava sobre as construções

entre as praças Antonio Carlos e Oswaldo Cruz, Avenida Floriano Peixoto, entre a Praça Ruy Barbosa e a Rua Coronel Antonio Alves Pereira, decidindo que não serão permitidas reconstruções, reformas ou modificações de prédios de um só pavimento.

37 Conforme Lopes (2010), o Plano de Urbanização Róscoe foi sendo sistematizado aos poucos na década de 1950, propondo novas, largas e simétricas avenidas, como também desapropriações para suas aberturas, a construção de muros e passeios, a taxação de terrenos vagos e a arborização. Como sendo sua execução atacada aos poucos se evitou descontentamento popular.

(CÂMARA MUNICIPAL DE UBERLÂNDIAA [Uberlândia]) Processo nº 909, Projeto nº 712, 750, 847, 1957, apud, LOPES, 2010, p. 89)

Na perspectiva do autor, essa urbanística moderna seria o referencial que constituiria os discursos, conformando a paisagem.

De acordo com Lima (2008), os artigos de jornais locais serviram- se de uma apologia da destruição, por vezes de uma futilidade quase cômica, termos do próprio autor, a favor de uma estética moderna, como afirmam os trechos abaixo:

Finalmente, está sendo demolido o velho prédio existente na esquina da avenida Floriano Peixoto com a Rua Santos Dumont, que há muito tempo contrastava com a edificação de uma das mais belas artérias urbanas. É um prédio que deve ter sido dos melhores da cidade no seu tempo, há meio século passado. Forrado, assoalhado de tábuas, material usado nesta época, com vidraças de orelha, que eram as conhecidas, por certo embelezou um trecho de rua quando Uberabinha começou o seu moroso crescimento acima da Praça Antonio Carlos, antigamente com o nome de Praça da Liberdade (...) Mas Uberlândia progride, e o progresso tem suas exigências que atentam contra as tradições. A avenida Floriano Peixoto, a segunda via pública comercialmente falando, não podia permanecer com aquele edifício antiquado ocupando o terreno que se presta para uma construção predial de três andares,

como o que está fronteiro. (Jornal Correio de Uberlândia, 15/01/1953)

Trata-se de um quisto urbano que enfeia uma de nossas formosas artérias. E note-se que não é só por ser prédio antigo, sem segurança, sem arquitetura, despojando das construções elegantes que aparecem no centro da cidade. (...) o governo tem o dever de se interessar pelo urbanismo, estimulando a construção de edifícios de aspecto moderno e substituindo por eles os pardieiros que ainda demoram em via pública, contrastando com o nosso desenvolvimento (Jornal Correio de Uberlândia, 16/10/1958).

Os fragmentos acima elucidam o desprezo pelo passado em virtude de uma ideologia progressista, menosprezando edifícios históricos, considerados símbolos do passado de uma cidade interiorana e rural, em benefício de um ideal moderno, acatado como belo. Esse ideal, de acordo com Nunes (1993), buscava materializar o modo capitalista da elite, incutindo na população um entusiasmo pelo aparente desenvolvimento e a admiração pelos que eram considerados empreendedores, enaltecendo as conquistas e realizações privadas dos seus empresários como sendo benfeitorias que atingiriam toda a população.

A elite local remodelou a cidade, segundo sua imagem, construindo, assim, um lugar que materializava seus princípios políticos, econômicos e culturais. Ao mesmo tempo, foram sendo

introjetados no cotidiano de seus moradores, valores e modos de vida que pudessem projetar Uberlândia na divisão inter-regional do espaço mineiro, num primeiro momento e, posteriormente, em nível nacional. (SOARES, 1995, P. 80)

Nesse sentido, em dimensões diferentes, o espaço socialmente produzido apresenta o reflexo de uma formulação ideológica clara, em que valores materiais são utilizados como suporte na transmissão de mensagens. Barrios (1986) alega ser fato físico, ou seja, o espaço transformado, um fato social, em seus atributos de propriedade, valor e símbolo. Dessa maneira “são essas razões que respaldam as proposições segundo as quais não existe teoria do espaço que não seja parte integrante de uma teoria social geral.” (CASTELLS, 1974 apud BARRIOS, 1986, p. 2).

Edifícios residenciais, indústrias, praças, bairros, clubes e instituições públicas foram incorporados ao espaço, apresentando novos modos, novas técnicas construtivas, nova plástica e uma nova utopia.

Influenciados principalmente por Le Corbusier, os arquitetos dissiparam a linguagem moderna no Brasil, ao final da década de 1920, obtendo-se seu ápice a partir de 1950 com o ideal desenvolvimentista de JK, associando uma identidade urbana de cidade voltada para o futuro, projetada para um tempo sem fim em seu traçado retilíneo e racional. A

arquitetura brasileira, com a Bienal de 195138, estava sendo divulgada internacionalmente e, ainda, a discussão da mudança da capital federal