Relato Extra
3.2 Teorização: Tecnologias Digitais, crise do Capitalismo e os sujeitos da EJA
3.2.3 A uberização das relações de trabalho na economia do compartilhamento e os sujeitos da EJA
“Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. A famosa frase de Marx e En- gels parece mais atual do que nunca. Ainda mais se pensarmos nas cons-
tantes mudanças experimentadas no mundo do trabalho nos últimos anos, sobretudo por causa da consolidação da tecnologia digital. Apesar de to- das as transformações econômicas e sociais ocorridas após a 3ª Revolu- ção Industrial, o movimento de precarização das condições de trabalho se manteve e até mesmo se aprofundou. Isso acontece porque o capitalismo é um sistema que constantemente se atualiza para manter a sua força, ou seja, em muitos momentos, algo precisa mudar para que tudo continue como está, para usarmos um conhecido jogo de palavras empregado pelo escritor italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa (2017).
Considerando que os alunos da EJA são trabalhadores-estudantes, nada mais apropriado do que discutirmos os impactos da tecnologia sobre o sentido do trabalho no mundo contemporâneo. Sendo assim, procuramos entender que a relação entre trabalho e tecnologia faz parte da nossa ex- periência, pois o trabalho é uma atividade vital, uma das maneiras de ob- termos os recursos necessários à nossa sobrevivência, mas também é um dos modos de produção de sentido e de valor para a existência humana ao mediar a nossa relação com a natureza e com outros seres humanos. Por isso mesmo, uma das tarefas da Educação de Jovens e Adultos hoje é desenvolver uma abordagem crítica sobre o processo de precarização das condições de trabalho, que reduz o sentido do trabalho somente à luta pela sobrevivência (ANTUNES, 2018; e DOMINGUES, 2016).
Uma breve perspectiva histórica nos permite compreender melhor os con- tornos da imagem do mundo do trabalho hoje. Grosso modo, a sociedade do século XX, sob a influência da 2ª Revolução Industrial, pode ser inter- pretada como a “sociedade do automóvel”, porque o modelo das linhas de montagem do fordismo e do taylorismo revolucionou o modo de vida da humanidade com uma notável organização do trabalho, aumento da produtividade e foco na produção industrial de mercadorias em larga esca- la. Por sua vez, em consequência da 3ª Revolução Industrial, iniciada na década de 1970, a sociedade do século XXI pode ser considerada como a “sociedade do computador e do celular”, porque o paradigma da tecnolo- gia da informação também revolucionou o modo de vida da humanidade, dessa vez com um sistema de produção marcado pela flexibilidade (ajuste da produção de acordo com a demanda) e pelo trabalhador multifuncional com foco no setor de serviços.
Em poucas palavras, a tecnologia digital prometeu trazer o progresso eco- nômico e bem-estar social. No campo do mundo do trabalho, a promessa era que haveria uma atualização das profissões, tornando-as mais flexí- veis e dinâmicas, algo que seria traduzido em mais autonomia e liberdade para os trabalhadores. No entanto, a tecnologia digital foi absorvida pela
lógica capitalista que acumula o lucro nas mãos de poucos às custas da precarização da classe trabalhadora.
Para que não restem dúvidas: atualmente a tecnologia está enraizada em nossa experiência cotidiana e, portanto, constitui um eixo estruturante do mundo do trabalho. Afinal, sem um celular smarthpone dificilmente diver- sos trabalhadores do setor de serviços, como cuidadores de idosos, moto- ristas, eletricistas, bombeiros hidráulicos, profissionais da limpeza, pedrei- ros, motoboys, entregadores, motoristas, dentre tantos outros, conseguem ter acesso a oportunidades de trabalho para sobreviver. Diante disso, con- siderando que o trabalho é um princípio educativo da Educação de Jovens e Adultos, torna-se cada vez mais relevante que professores e estudantes discutam no processo de ensino-aprendizagem sobre os impactos da tec- nologia no mundo do trabalho hoje.
Nesse sentido, destacamos que as principais características das relações de trabalho mediadas pela tecnologia são a instabilidade e a insegurança, pois os trabalhadores e as trabalhadoras, cada vez mais, são submetidos ao trabalho informal, intermitente e precarizado, caso queiram escapar da ameaça do desemprego (Antunes, 2018). Isto é, no mundo contemporâ- neo, aqueles que se mantêm empregados acabam presenciando a corro- são dos seus direitos sociais e a erosão de conquistas históricas da classe trabalhadora que estavam garantidas pela CLT (Consolidação das leis tra- balhistas). Vale lembrar que, como destacamos no capítulo “EJA, Mundo do trabalho e direitos trabalhistas”, o principal argumento utilizado para justificar a Reforma Trabalhista empreendida pelo governo Michel Temer era precisamente atualizar e modernizar a legislação trabalhista. Como sabemos, o resultado foi a destruição de direitos trabalhistas e a abertura para o trabalho intermitente, isto é, aquela modalidade na qual a vigência do contrato de trabalho não é contínua e permanente.
Trocando em miúdos, agora o trabalhador ou trabalhadora pode ser con- tratado e receber salários em apenas alguns períodos do ano. Assim, eles, os trabalhadores, deixam de ser empregados com direitos assegurados para serem tratados como “colaboradores” da empresa, em uma relação de trabalho flexibilizada.
Como está ficando cada vez claro, os efeitos da atualização do mundo tra- balho na era digital são sombrios. Talvez o conceito que expresse de modo mais incisivo esse processo seja a noção de uberização do trabalho no contexto da chamada economia do compartilhamento. Segundo o teórico canadense Tom Slee (2018), a economia do compartilhamento remete a uma forma de organização do setor de serviços que aposta na cooperação
entre as pessoas e valoriza o uso em detrimento da propriedade. Nessa perspectiva, em vez de pagar um alto custo para ter a propriedade de um veículo, por exemplo, o consumidor escolhe pagar um custo menor para utilizar o serviço de um Uber ou 99 Taxi. Para tanto, é indispensável que a tecnologia realize a conexão entre os prestadores de serviço e os con- sumidores por meio de aplicativos e plataformas digitais. A promessa era que esse modelo econômico contribuiria para relações de trabalho mais horizontais e flexibilizadas, porém a realidade é que a uberização está re- sultando em uma maior precarização do precariado.
Nos quadros do capitalismo contemporâneo, a tendência de uberização do mundo do trabalho aponta para uma relação de trabalho flexibilizada, sem vínculo empregatício e mediada pela tecnologia. Ou seja, nessa modali- dade de prestação de serviço o trabalhador não está formalmente empre- gado e, por consequência, está desprovido de direitos trabalhistas como salário-mínimo, férias, descanso semanal remunerado, FGTS, seguro de- semprego etc. Quanto a isso, o trabalhador “uberizado” está próximo do “trabalhador informal tradicional”, que faz “bicos” para sobreviver. Como não há horário fixo de trabalho e a remuneração é insatisfatória é bastante comum que a jornada de trabalho aconteça inclusive naquilo que seria o tempo livre dos trabalhadores. Outra desvantagem da uberização é que o trabalhador assume os riscos inerentes à atividade profissional e também arca com os custos do material de trabalho (ANTUNES, 2018). Tudo isso faz com que a uberização contribua para o processo de precarização do precariado, conforme analisamos no capítulo “EJA, Mundo do trabalho e direitos trabalhistas”.
Se a lógica de organização do trabalho, vigente durante a 1ª e a 2ª Revo- lução Industrial, contribuiu para a formação e consolidação dos sindicatos como autênticos representantes da classe trabalhadora, a uberização re- força o processo de enfraquecimento e fragmentação dos sindicatos, pois há uma lógica de competição entre os trabalhadores de um mesmo setor. Como o salário depende totalmente da produtividade, os trabalhadores concorrem entre si na luta para conseguir mais clientes, em vez de se as- sociarem entre si na luta por melhores condições de trabalho.
Outro efeito negativo do processo de uberização do trabalho é que, para ampliar sua produtividade e melhorar o desempenho, o trabalhador se submete a exaustivas jornadas de trabalho, em uma espécie de “autoex- ploração” que pode resultar, inclusive, em seu adoecimento: “hoje a pes- soa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica perver- sa do neoliberalismo que culmina na síndrome de Burnout” (CHUL-HAN, 2018, n.p.). Então, em vez de se transformar em um microempreendedor,
o trabalhador uberizado está mais próximo do trabalhador informal, do tra- balhador terceirizado e do trabalhador intermitente. Por isso, os trabalha- dores estão cada vez mais esgotados e com menos direitos trabalhistas.