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S EGUNDA PARTE

1.5. Q UEREM SABER ? N ÃO ESTAMOS NEM AÍ

O sentir-se em casa de Raul e Saul, porém — apesar de nem o filme ou mesmo o texto original enveredarem pelo homoerotismo explícito; tudo é mais sugerido do que dito — desperta o discurso homofóbico dos colegas da repartição. A princípio, subliminarmente, apenas entre algumas suspeitas, risos em falsete e quem-sabe-se. Depois, de forma mais escancarada, quando a própria condição homossexual é levantada por Clara Cristina como aberração, doença. Saul e Raul vêem-se então usando palavras como viados, bichas. Sabem como são vistos e o que os esperam. Saul quer desistir; Raul, enfrentar. Sozinho em seu quarto, sob a luz azul fria de uma noite que se anuncia, Raul dedilha versos no violão. O fluxo de pensamentos do personagem não é revelado, mas se sabe que há no subtexto a consciência de uma mediocridade moralista, que logo se levantará, exigindo a humilhação e a punição de dois culpados. Raul sabe o que virá, mas reage à iminência da frustração alheia com o prazer livre pela música.

Dali em diante, sempre novos risos, dedos sutilmente apontados, olhares de pesar em uma convivência que, pouco a pouco, anuncia que vai ruir. Até que Raul ausenta-se da repartição. Problemas de família. “Saiu direto, apressado, não disse nada, não falou com ninguém. Não voltou mais naquele dia, nem no dia seguinte, nem no outro”. A voz amarga em off de Saul denuncia a solidão de quem se encontra novamente perdido no meio da multidão. O reencontro só acontece dias depois, quando um telefonema basta para que Saul encare as estradas. Até que, enfim, vemo abraço, presenciado apenas pelo luto dos móveis cobertos por lençóis brancos. É a primeira vez que se tocam. “Foi tão calada a volta. A morte do pai do Raul. O trabalho amanhã. O tal deserto. As tais almas também desertas. A verdade é que já não tem ninguém mais em volta. Mais ninguém”.

Chega o ano-novo. Alheios à festa que acontece na repartição, Raul e Saul brindam sozinhos. “Pelo ano velho. Pelos anos que virão. Pelo teu quitinete com Carlos Gardel. Pelo teu quarto de pensão que eu não conheço. Pelo bolero e pela nossa amizade. Que nunca vai terminar. Que mal começou. Por nós dois”. Imersos ao mundo que os rodeiam, testemunhados apenas pelos fogos de artifício que estouram no céu, Raul e Saul celebram aquilo que Caio Fernando Abreu chamaria de uma possibilidade de amor. “Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-

roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados”. Na versão de Sérgio Amon, as palavras do escritor ganharam a cor azul de um quarto escuro em que Saul e Raul se esperam em silêncio. Uma ou outra respiração mais profunda, a melodia de Tu me acostumbrastes, o desejo. Cada um a sua maneira, Caio Fernando Abreu e Sérgio Amon se utilizam da delicadeza para construir a dificuldade que os amigos sentem em assumir o afeto; mas se o escritor foge da atmosfera de conto de fadas, deixando evidente que se trata apenas de um corpo de homem gostando de um corpo que, por acaso, é de homem também, o filme apela para uma inocência às avessas, fragilizando a atitude dos personagens.

Quando janeiro começa, antes mesmo que os restos do natal sejam retirados da repartição, Saul e Raul são chamados na sala do chefe (o ator Biratã Viana) para prestar explicações sobre uma certa denúncia anônima contra “aqueles dois, de nomes parecidos”. Escutam coisas como aberração, conduta invertida, psicologia deformada, comportamento doentio. Não se resignam. No fim, de costas para a câmera e assumindo de frente o que lhes espera a partir de então, escutam a ordem de demissão e o eco das risadas debochadas vindas do corredor. Indiferentes, Raul e Saul deixam a repartição.

No último plano do filme, “pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu” (a narração já não é mais de Saul, deixando rastros de que agora ele está em uma nova história), os amigos caminham pelas ruas da cidade que descobrem fazer parte. Riem juntos. Seguem em direção à câmera parada que os espera. Gargalham. Como se dissessem “querem saber? Não estamos nem aí”. Pois por mais que o universo inteiro pesasse ao seu redor, tinham a nítida sensação de que sempre haveria saídas, formas possíveis de ser quem eram, mesmo que, como o próprio Caio afirmou, isso lhes custasse perder para sempre o reino das condições burguesas. “Ganhariam em troca outro reino? O da dignidade interior, talvez” 30. Enquanto aqueles outros, contrários às histórias de fadas, eles sim seriam infelizes para sempre. E foram.

30 Texto de Caio para o folheto de divulgação do filme da Roda Filmes, 1984. Para mais detalhes, ver

Moreno, Antônio – A personagem homossexual no cinema brasileiro, Editora da Universidade Federal Fluminense, 2001.

Se o caminho trilhado por Sérgio Amon na construção das tramas de Aqueles

dois — a narração em off do personagem de Saul, a acidez das personagens

femininas, a esterotipização de uma inocência existente, para citar alguns — por vezes deixou a sensação de ser o filme menos cinematográfico que o próprio conto (não cabendo aqui um julgamento de mérito entre um e outro), por outro lado, cumpriu seu propósito de contar, sem panfletarismo homossexual, o encontro entre dois homens em um ambiente de mediocridade e repressão.

Não há, em ambas as versões, a dor da fatalidade ou mesmo um elogio homoerótico explícito. Os corpos aparecem quase sempre ausentes; em seus lugares, o(s) discurso(s) privilegia(m) o resgate do afetivo, dos detalhes. Contrário ao que se espera dos movimentos das minorias, a delicadeza é acionada para questionar os valores e condutas sociais. Num mundo em que se convive diariamente com a arte do estardalhaço e do escândalo, da mídia e das polêmicas, Saul e Raul apontam uma forma de, quem sabe, sobressair-se no meio da multidão, revelando que, sim, é possível viver de tudo o que é normal.

# ENSAIO 2

QUANDO O AUTORITARISMO É CAMINHO PARA A LIBERTAÇÃO