3. STAR TREK, IMPÉRIO E MULTIDÃO
4.2 PODERES ESPECIAIS E FACULDADES GENÉRICAS
4.2.2 Uma base comum
Outra similaridade entre as faculdades genéricas da multidão e as habilidades especiais do seriado aparece no fato de todos os personagens portadores de poderes, por mais distantes que estejam no globo, aparecerem interligados de alguma maneira. Kring, em entrevista, afirmou o seguinte: ―That somehow these disparate characters were all interconnect and this idea of ordinary people coming together to do something great. And there were the themes of hope and regeneration of world that I think connect with people.‖193
(BERNSTEIN, 2008, p. 31).
Nos primeiros episódios, os personagens são apresentados em separado, descobrindo os seus poderes. Alguns elementos, porém, denotam uma ligação entre eles. No episódio Genesis, um eclipse lunar é o que potencializa os poderes de todos os personagens. A cena apresenta o eclipse e rapidamente aponta para o que está ocorrendo com cada um dos
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Nossa tradução: De alguma forma esses personagens díspares estão todos interconectados e essa ideia de pessoas comuns que se juntam para fazer algo incrível. E lá estão os temas de esperança e regeneração do mundo o qual eu acho que conecta as pessoas.
superpoderosos naquele momento, mantendo a mesma faixa musical: ―Birds pass by to tell me that I'm not alone.‖.194
Outro indício de sua interligação são os desenhos realizados pelo artista Isaac Mendez que tem o poder de ver o futuro. Isaac pinta as próximas situações que acontecerão com os heróis espalhados pelo globo. Além disso, constantemente é apresentado um mapa-mundi criado pelo pai de Mohinder Suresh, também cientista, em que são sinalizados os possíveis pontos de manifestação de poderes especiais. Todos eles estão ligados por barbantes.
A afirmação de que todos estão conectados também é repetida pelos personagens na série, como no discurso de Nathan Petrelli, candidato ao senado que tem o poder de voar, em One Giant Leap ea fala de Peter Petrelli em Hiros (T1 E5). Em Fight or Flight (T02 E05), Maury Parkman se refere a uma geração anterior de pessoas com habilidades especiais e afirma que elas foram se achando como se estivessem conectadas de certa forma.
Assim como as faculdades genéricas, o comum, são ao mesmo tempo o ponto de união da multidão e a base que permite a diferenciação dos indivíduos (VIRNO, 2002), os poderes em Heroes são formados sobre um ponto que possibilita tanto a diferenciação entre os personagens como os mantêm unidos.
A referência a uma base unificadora comum a todos os seres humanos a partir da qual emergem as individualidades da multidão fica bastante evidente numa fala de Peter no episódio final da primeira temporada, How to Stop an Exploding Man (T01 E23), quando consola a filha do idoso de quem cuidava e para quem a morte é iminente:
I'm just saying ... you know, death is the one thing that connects us all. Reminds us that's what really important is who we've touched, and ... you know, how much we've given.195
Butler, ao criticar as ações americanas após os atentados de 11 de setembro, contexto de produção do seriado, apresenta a vulnerabilidade dos corpos humanos como uma situação compartilhada por todos. Podemos associar tal afirmação à ideia de comum. Butler (2006, p. 46), assim como o personagem Peter, apresenta a morte como uma base em que todos os humanos estão ligados:
194 O título da música é Eyes,escrita por Zachary David Schwartz e interpretada por Rogue Wave. Nossa
Tradução: Pássaros passam para me dizer que não estou sozinho.
195Nossa tradução: Eu só estou dizendo... Você sabe, a morte é a coisa que conecta nós todos. Lembra-nos que o
A pesar de no venir del mismo lugar y no compartir una misma historia, tengo la sospecha de que es posible apelar a un "nosotros", pues todos tenemos alguna noción de lo que significa haber perdido a alguien. La pérdida nos reúne a todos en un tenue "nosotros". […]Esto significa que en parte cada uno de nosotros se constituye políticamente en virtud de la vulnerabilidad social de nuestros cuerpos -como lugar de deseo y de vulnerabilidad física, como lugar público de afirmación y de exposición.196
Butler (2006) propõe que a vulnerabilidade dos corpos humanos seja colocada como ponto central na criação de uma solução política pacífica para as questões que se seguiram aos atentados. Ao contrário do que o governo Bush propôs, proteção para os a dos corpos americanos como uma justificativa para a violência contra os corpos dos afegãos, Butler (2006, p.57) sugere que a vulnerabilidade seja tomada como uma questão comum à humanidade:
Deberíamos entonces evaluar y oponer las condiciones bajo las cuales ciertas vidas humanas son más vulnerables que otras, y ciertas muertes más dolorosas que otras. ¿De dónde podría surgir un principio que nos comprometa a proteger a otros de la violencia que hemos sufrido, si no es de asumir una vulnerabilidad humana en común?197
Heroes se aproxima da proposta de Butler (2006) ao afirmar que a morte é algo que conecta a todos. Segundo Hardt e Negri (2009), a possibilidade da existência de uma democracia da multidão que supere as formas de organização social pré-existentes está no fato de todos dividirem uma participação no comum, entendida por eles tanto como o patrimônio material da humanidade, a água, o ar, quanto os resultados da produção social necessários para a interação humana, como a linguagem, os conhecimentos e afetos. Segundo os autores, esse comum, embora esteja diante de nós é difícil de ser enxergado em razão das ideologias dominantes que nos separam hierarquicamente e que permitem a expropriação do comum pelo capital.
Os heróis do seriado também precisam gerir um comum, até agora escondido, capaz de resolver os vícios das formas sociais dominantes o que nos permite aproximá-los de uma demonstração do ―Devir Príncipe‖ da multidão, que como vimos é o processo através do qual ela aperfeiçoa a arte do autogoverno e cria formas estáveis e democráticas de organização
196 Nossa tradução: Apesar de não virmos do mesmo lugar e não partilharmos a mesma história, tenho a suspeita
de que é possível recorrer a um "nós" porque todos nós temos alguma noção do que significa ter perdido alguém. A perda nos deixa todos juntos em um tênue "nós". [...] Isto significa que, em parte, cada um de nós é politicamente constituído sob a vulnerabilidade social de nossos corpos como o lugar do desejo e da vulnerabilidade física, como um lugar público de exposição e de afirmação.
197Nossa tradução: Devemos, então, avaliar e se opor as condições em que determinadas vidas humanas são mais
vulneráveis do que outras, e alguns mortes mais dolorosa do que outras. De onde pode surgir um princípio que nos comprometa a proteger os outros de violência que sofrem, se não assumirmos uma vulnerabilidade humana em comum?
social. A fala de Suresh em Four Months Later...(T02 E01) descreve um comum escondido capaz de suplantar problemas globais:
And they're still out there, among us, in the shadows, in the light. We pass them on the street without a glance, never suspecting, never knowing. Do they even know yet? That they are bound together by a common purpose, a glaring reality, to be extraordinary? [...] Without this advancement, the challenges of the modern world, global warming, terrorism, diminishing resources, seem almost insurmountable on our thin shoulders. The fate of humanity itself hangs in the balance.198
Como também já afirmamos na introdução, a maneira como alguns personagens do seriado significam seus poderes aproximam-nos das subjetividades contrárias à ordem imperial. Um exemplo é Hiro Nakamura. Como já dito, Hiro luta para se individualizar indo contra a tendência homogeneizante de seu trabalho. Kring o descreve da seguinte maneira:
So I needed one character who would sort of break that mold and actually embrace these abilities with a certain amount of enthusiasm and zeal. I thought of this trapped office worker bee drone kind of character, who had always fantasized about being different and being special, had read comic books and watched movies. So for [Hiro], this discovery is the greatest thing that ever happened, the answer to all of his wildest dreams.199(DOUGLAS, 2015b.)
A possibilidade para Hiro aparece no desenvolvimento da habilidade de viajar no tempo e no espaço. Podemos entender que essa busca de Hiro entra em consonância com a reivindicação da multidão pelo indivíduo marginalizado nas concepções de estado, povo e poder soberano (VIRNO, 2002). Essas possibilidades de resistência ao domínio total do capital encontradas no seriado, nos holofotes da indústria cultural, denotam aquilo que Didi- Huberman (2011) nomeia de lampejos de vaga-lumes.
Assim como em Star Trek, podemos extrair de Heroes a presença do questionamento da ordem estabelecida em seu contexto de criação, o que reaviva tal objeto e o torna apto para a utilização pela história materialista numa luta em favor dos oprimidos, como defende Benjamin (1987).
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Nossa tradução: E eles ainda estão por aí, entre nós, nas sombras, na luz. Nós passamos por eles na rua sem dar um breve olhar, sem suspeitar, sem nunca saber. Será que eles já sabem? Que eles estão unidos por um objetivo comum, uma realidade deslumbrante, serem extraordinários? [...] Sem esse avanço, os desafios do mundo moderno, o aquecimento global, o terrorismo, a diminuição de recursos, parecem quase insuportáveis em nossos pequenos ombros. O destino da humanidade em si está na corda bamba.
199Nossa tradução: Então eu precisava de um personagem que quebrasse com esse molde e realmente abraçasse
essas habilidades com certa dose de entusiasmo e zelo. Eu pensei nesse funcionário de escritório com caráter do tipo abelha zangão, que sempre tinha fantasiado ser diferente e ser especial, tinha lido histórias em quadrinhos e assistido filmes. Assim, para [Hiro], esta descoberta é a melhor coisa que já aconteceu, a resposta a todos os seus sonhos.