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3 A ATUAÇÃO DA ECONOMIA SOLIDÁRIA NA LÓGICA DA ECONOMIA CAPITALISTA ATRAVÉS DAS MOEDAS SOCIAIS

3.2 UMA ANÁLISE DA ATUAÇÃO DA MOEDA SOCIAL NAS RELAÇÕES ECONÔMICAS TERRITORIAIS

3.2.2 Uma breve introdução às experiências com moedas sociais

Para a compreensão do conceito da moeda social é necessário expor algumas das experiências de seu uso. Como o foco do presente trabalho não é o detalhamento delas, essas experiências serão abordadas de maneira sucinta, mediante alguns instrumentos sociais, tais como: Clubes de troca, Bancos Comunitários de Desenvolvimento (BCDs) e Local Exchange Trade System (LETS).

a) Local Exchange Trade System (LETS)

O LETS é uma das experiências de trocas comunitárias mais populares do planeta e tem início na Ilha de Vancouver, Canadá, em 1983, por Michael Linton. Segundo Freire (2011, p. 234), a diferença desse tipo de experiência para o escambo é que não é necessário haver a dupla coincidência de necessidades, pois os bens e serviços são transacionados com base em uma unidade monetária. Nesse sistema, porém, normalmente não há utilização de moedas físicas, os participantes têm contas virtuais nas quais são creditados e debitados valores, com a venda e compra, respectivamente.

Para abrirem uma conta no sistema, os membros devem se inscrever e pagar uma pequena taxa e, nesse sistema, eles apontam os bens e serviços aos quais se interessam e também divulgam suas ofertas (FREIRE, 2011, p. 235). De acordo com Freire (ibid), a maior vantagem do LETS é que não há limite para a quantidade de trocas, exatamente pelo fato de não se utilizar moeda. Porém um problema que pode ser criado por conta disso, é se alguém quiser se aproveitar do sistema e realizar muitos débitos sem que haja tantas vendas para compensar essas compras.

Por isso, para reduzir essas ocorrências, que podem culminar na falta de confiança e, consequentemente, na quebra do LETS, é estabelecido um limite na quantidade de participantes para mais ou menos 200 e a elaboração de medidas que avaliem a credibilidade dos membros e que limitem a quantidade de débitos de cada um deles, além de um termo de compromisso que faça com que os integrantes ―zerem‖ sua conta antes de fechá-la (FREIRE, 2011, p. 237). O LETS permite que alguém compre sem que haja crédito na sua conta, porém

fica com o saldo devedor. Para que essa pessoa ―zere‖ sua conta é necessário que ela venda alguma mercadoria ou preste algum serviço a outro indivíduo que faça parte do sistema.

b) Clubes de troca

De acordo com Soares (2006, p. 141), os clubes de troca são organizações da economia solidária pelos quais seus participantes se reúnem para trocarem produtos, serviços ou até mesmo conhecimentos entre si, através de uma moeda social física própria do clube. Essa organização é a forma mais comum de utilização da moeda social na América Latina, com a Argentina como um bom exemplo de difusão desse tipo de experiência, sobretudo por conta da forte crise financeira que ocorreu na década de 1999 a 2002. A autora explica que os clubes de troca têm como base o uso da moeda social e a existência do papel de ―prossumidor‖, o qual exerce tanto o papel de produtor quanto de consumidor. Os bens e serviços comercializados são de origem familiar ou de terceiros, porém, essa última procedência pode ser ou não aceita dependendo dos princípios do clube.

A moeda social que circula nos clubes de troca pode também ter as denominações de ―crédito‖ ou ―bônus‖ e é administrada pelos próprios integrantes do clube. O valor da moeda pode variar dependendo do clube, alguns adotam a paridade de 1 para 1 com a moeda nacional ou, até mesmo, atribuindo ―x‖ valor da moeda a 1 hora de trabalho. Ademais, há, em alguns casos, o intercâmbio de mercadorias e serviços entre clubes vizinhos enquanto há outros que funcionam isolados (SOARES, 2006, p. 143).

Essa moeda se propaga entre seus usuários de forma diversificada, ―sendo a mais comum um empréstimo inicial de um número pré-determinado e igual de unidades para cada participante que deverá ser devolvido caso este resolva se desligar do grupo.‖ (SOARES, ibid). O interior de um clube de trocas é semelhante a uma feira tradicional, porém, há uma diferença que não é percebida explicitamente: a relação de autonomia monetária proporcionada pela moeda social própria.

c) Bancos Comunitários de Desenvolvimento (BCDs)

Os BCDs são instituições mais amplas da economia solidária em relação às anteriores, pois não tratam somente de coordenar as moedas sociais (inclusive existem BCDs que não as

emitem), mas de facilitar o acesso ao crédito, promover a inclusão financeira, com a prestação de serviços financeiros e bancários, geralmente em territórios mais pobres. O Brasil é um dos países que mais tem Bancos Comunitários, os quais são os responsáveis majoritários pela emissão da moeda social no país (RIGO, 2014, p. 43).

A primeira experiência no país foi o Banco Palmas, localizado no Ceará, em 1998, instituído por Joaquim Melo, motivado pelas dificuldades da população quanto ao desemprego e baixa renda, além das necessidades básicas como saneamento e água encanada (MELO, 2003, p. 100).

No intuito de estimular a produção e consumo local, o BCD cria e mantém no território instrumentos de incentivo ao consumo, tais como cartão de crédito e a moeda social circulante local. Ao se tornarem legítimos no território, o que exige um processo relativamente longo de sensibilização, desempenham papel importante não apenas na circulação de riqueza (notadamente econômico), mas social e identitário. O uso da moeda social no território acaba desempenhando papel pedagógico e simbólico que envolve a noção de apropriação cidadã da moeda, a história e a identidade do lugar. (RIGO, 2014, p. 40)

Portanto, a intencionalidade maior dos BCDs é ―promover no território a articulação de atores locais - produtores, consumidores e prestadores de serviços -, vinculada ao movimento de economia solidária e preocupada com o fortalecimento da economia local.‖ (RIGO, 2014, p.33). Ainda, a cooperação entre essas pessoas, fortalece os laços de solidariedade e do sentimento de pertencimento – identidade – em relação a esse território e às pessoas que fazem parte desse circuito. A figura a seguir representa a comparação entre a forma de circulação da moeda oficial e da moeda social emitida pelos Bancos Comunitários de Desenvolvimento.

Figura 03 – Circulação da moeda oficial e da moeda social usada nos BCDs

Fonte: Elaboração própria, 2018, com base em EPINAL EM TRANSITION.

Como se percebe na figura, o circuito da moeda oficial é mais amplo, no qual a moeda é lançada na economia nacional, destinada ao consumo de mercadorias e serviços de grandes empresas do mercado, ou é emprestado pelo banco para o financiamento, em maior volume, de empresas grandes ou destinado à compra de moeda estrangeira através do câmbio. Além disso, uma parte desses recursos é utilizada no mercado financeiro, inclusive para especulações, para que haja a reprodução financeira do capital aplicado. Por outro lado, a circulação da moeda social, no contexto dos BCDs, é utilizada de forma endógena ao território:

Os usuários aderem ao sistema na medida em que passam a receber empréstimos, parte do salário ou trocam diretamente Reais em moeda social no BCD. De posse das moedas, os moradores as utilizam nos comércios das comunidades que aderiram ao sistema (e passam a constituir o cadastro no BCD). Uma vez que os comerciantes recebem as moedas, utilizam-nas para dar troco ou para comprar mercadorias dentro da comunidade. Ao final desse processo, estabelece-se a rede de produtores, comerciantes, prestadores de serviços e consumidores que usam a moeda social no seu dia a dia complementarmente ao Real. (RIGO, 2014, p. 44).

Nesse ciclo, os recursos dessa população ficam retidos no próprio território, o que leva a uma maior dinamização dessa economia, uma vez que a moeda será direcionada ao incentivo da produção familiar e do consumo local. Nesses termos, em vez da renda dessa população ser ―esvaída‖ para o comércio externo a seu território, agora será usada para potencializar o desenvolvimento dentro de seu território, com a criação de novos empreendimentos, novos empregos, consequentemente, da ampliação da demanda e oferta de bens e serviços (RIGO, 2014, p. 45).

Através das experiências explicitadas, nota-se que cada moeda social tem suas peculiaridades, como seu objetivo, sua relação com o mercado, a forma como é disseminada, sua gestão, como se comporta em relação à moeda nacional, a dimensão em que atua, a relação entre os próprios participantes. Cada experiência, portanto, provém de um contexto único. Rigo (2014, p. 66-69) faz uma sistematização dos contextos dessas experiências com as moedas sociais e chega às seguintes conclusões:

1- As moedas sociais podem ser criadas em territórios com características diversas: empobrecidas ou não; em bairros de pequenas, médias ou grandes cidades; isoladas ou integradas com grupos até mesmo intranacionais. Porém, segundo a autora, a maioria das moedas sociais do Brasil – que são criadas nos BCDs – circulam em territórios que detém menos renda.

2- As crises econômicas são motivações para o uso das moedas sociais, assim como a pobreza como, por exemplo, a crise argentina que estimulou a criação de várias experiências com a moeda social.

3- Cada sistema de moedas sociais possui seu nicho, que são determinadas pelos próprios integrantes: há sistemas que são utilizados por moradores e empresas, outros somente usados por empresas, outros somente a empreendimentos de economia solidária, outros que servem a todos os moradores do território.

4- Maior parte das moedas sociais é criada por organizações da sociedade civil. Porém há casos em que há a atuação dos governos, tanto locais quanto nacionais e de ONGs, além de casos em que há a parceria de todos esses atores em conjunto.

5- Há várias formas para a criação e circulação dessas moedas: algumas são físicas, enquanto outras são virtuais. Além desse aspecto, há moedas sociais que possuem paridade com as moedas nacionais e outras que são indexadas em outras unidades, como o tempo. Segundo a autora, ainda há experiências que inovaram com um sistema misto,

ou seja, com o uso tanto de moeda virtual como física, tanto pareada ou não com a moeda nacional, como o Sol-Violette.

6- A gestão da circulação da moeda também é variada. Há experiências em que os próprios participantes gestionam; outras em que há uma rede central de gestão como os BCDs.

Portanto, visualizar o impacto das moedas sociais no desenvolvimento econômico de um território exige o conhecimento de suas peculiaridades. O presente trabalho não tem o intuito de detalhar cada uma dessas experiências, mas a de descrever a forma de atuação das moedas sociais, de modo geral, como um instrumento que tem o potencial de proporcionar mudanças no ambiente em que é inserido. Dessa forma, com base nos princípios expostos no quadro 03, e nos aspectos trabalhados sobre o sistema econômico capitalista, segue-se à análise da moeda social dentro do cenário capitalista.

3.3 A DINÂMICA DAS MOEDAS SOCIAIS NO CONTEXTO DO MODO DE

PRODUÇÃO CAPITALISTA

A moeda social é uma moeda que tem o potencial de complementar a moeda oficial do país. Heloísa Primavera (2010), especialista em economia solidária e moedas sociais, considera que as moedas oficiais, são concentradoras de renda e riquezas, o que ela denominou de ―antissociais‖. Logo, as moedas sociais, que são pautadas apenas nas trocas, ou seja, são apenas intermediárias (como na circulação simples de mercadorias visto no capítulo anterior), que passam de mão em mão e tornam a economia desse local mais dinâmica. Dessa maneira, essa dinâmica faria com que a distribuição da renda e da riqueza fosse mais equânime, e essa moeda seria, então, mais ―social‖.

A dinâmica das moedas sociais propõe um desenvolvimento territorial, através de mudanças numa realidade capitalista bastante contextual, para se adaptar às necessidades de uma determinada população. Por conta das contradições internas que há no sistema capitalista, como já fora explicitado, a moeda social torna-se uma ―alternativa‖ de desenvolvimento em relação ao desenvolvimento econômico ―padrão‖ de mercado. As moedas oficiais não ficam somente na parte real da economia, como também são destinadas à esfera financeira, sobretudo à sua parte especulativa. Segundo Soares (2006, p. 158), há alguns diagnósticos que indicam como uma das causas da exclusão social e do baixo nível de desenvolvimento esse ―desvio‖ monetário da economia real para o sistema financeiro, o que leva a uma diminuição

na quantia de trocas e uma produção mais concentrada nas empresas que detém moeda tanto no âmbito real quanto financeiro. Isso se deve ao fato de que:

Quando se tem uma economia plenamente monetizada, como é o sistema econômico contemporâneo, e em simultâneo a noção de que a base do valor da moeda é a escassez, coloca-se o sistema em um círculo vicioso, em um jogo de soma zero. Para que alguns participantes ganhem (valorizem seu capital) se torna necessário que os outros percam (não consigam valorizar seu trabalho/capital). (SOARES, 2006, p. 159).

As formas como são usadas as moedas, tanto na ―economia tradicional ou hegemônica‖ quanto na ―economia solidária‖ podem, portanto, diferir e interferem nas relações sociais. Se na dinâmica capitalista, como foi visto, a moeda tem a capacidade de se reproduzir com o pagamento de juros e crédito, a sociedade calcada nesse sistema torna os indivíduos, em geral, reféns dos que estão no topo da estrutura social, ou seja, as camadas dominantes da sociedade.

A moeda social, por outro lado, é uma escolha, grosso modo, que visa alternativas de se escapar das amarras de um sistema muitas vezes draconiano, por parte de atores explorados e excluídos das benesses da sociedade capitalista. O desenvolvimento territorial pode ser pensado de acordo com o que é considerado benéfico à comunidade, assim, o gerenciamento de cada moeda social é relativo ao contexto de cada território: de acordo com suas dificuldades, suas especialidades, tamanho do grupo, grau de desigualdade, entre outras características.

A utilização intensiva, portanto, da moeda nacional com a função de reserva de valor propicia a acumulação capitalista financeira, que, em boa medida, deixa de ser usada na economia real. Pensar um desenvolvimento com a utilização das moedas sociais é repensar a forma como se é dada a função da moeda no desenvolvimento, inclusive capitalista.

Para Soares (2006, p. 161), a proposta da moeda social vai de encontro à visão capitalista de que é necessário a acumulação para haver investimento, de que é necessário ganhar escala para haver transformação. A compreensão de uma moeda com uma concepção diferente da qual a sociedade se adaptou exige uma inovação: ―novas formas de crédito e poupança vocacionados para a produção e capacitação de prestação de serviços precisam ser desenvolvidas.‖ (SOARES, 2006, p. 162).

Percebe-se que o maior diferencial entre uma moeda social e a moeda nacional é o fato da primeira não estar pautada exclusivamente pelo lucro em cima da própria moeda, ou seja, pela

reprodução do capital, tampouco na financeirização do sistema. Como bem explica Soares (2006, p. 162):

O acesso ao crédito pode deixar de ser penalizado com juros e a poupança deixar de ser premiada, caso o dinheiro/moeda social seja operacionalizado como bem público3, sujeito a empréstimos sob critérios sociais e econômicos, indiferente ao critério de rentabilidade do capital que em si fica destituído de função. Ou seja, a recompensa por um investimento bem sucedido pode até permanecer na lógica do rendimento, do lucro, mas não extrapolar para a possibilidade de se transformar esse lucro em elemento financeiro, capaz de produzir mais capital. (SOARES, 2006, p. 162).

Esse diferencial da moeda social refletiria na propensão à acumulação de capital, com a diminuição da concentração, mas, sobretudo, da centralização do capital. Em outras palavras, haveria uma ―desreificação‖ da moeda ao tornar o foco de valorização econômica da sociedade o próprio homem, em lugar do dinheiro (SOARES, 2006, p. 165).

Outro fato também atrelado ao uso da moeda social é, como foi visto, o incentivo à produção e consumo familiares, ou seja, é notado uma volta dos meios de produção para a mão do próprio produtor, em oposição ao determinado pela lógica do sistema capitalista.

De acordo com o quadro apresentado a seguir e com o conteúdo abordado no presente trabalho, em suma, para o sucesso das moedas sociais é necessário, acima de tudo, uma reformulação dos preceitos capitalistas, da mudança dessa ótica individualista e exacerbadamente acumuladora, ou gananciosa, para uma com vistas aos benefícios coletivos.

A moeda social, como parte da economia solidária, é uma proposta que exige uma cooperação e consciência social entre seus usuários e sua emergência surge das contradições do modo de produção excludente capitalista.

3

O bem público é um bem que pertence ao Estado. É um tipo de bem que não tem sua quantidade reduzida quando consumida por algum indivíduo (não-rival), nem pode ser impedido de ser consumido por qualquer outro indivíduo (não-exclusivo).

Quadro 04 – Comparações entre a moeda social e a moeda nacional

Fonte: SOARES (2006, p. 164). (1) Aparecem em ordem de relevância.

O capitalismo surgiu da emergência de um novo modo de produção que absorvesse as contradições não mais suportadas pelo sistema feudal. Seria a moeda social um instrumento que premeditaria o início de um rompimento com o capitalismo – e, consequentemente um marco no devir dos sistemas de produção – ou apenas mais um elemento de desenvolvimento capitalista para ―resolver‖ suas contradições?

Até o presente momento, segundo Soares (2006, p. 232), a moeda social não é percebida como uma ameaça à moeda nacional. Isso porque, mesmo com as contradições capitalistas, a moeda social ainda não tem força para alterar as estruturas econômicas que a sociedade já está

acostumada. Seriam necessárias muita conscientização social, confiança e desprendimento com a moeda usada no sistema capitalista para haver alguma ruptura. De toda forma, a moeda social contribui para a melhoria econômica e social de territórios, como exposto ao decorrer do trabalho. Portanto, só o tempo poderá dizer se o desenvolvimento do modo de produção capitalista criará, com base nas moedas sociais, pressupostos para um novo modo de produção ligado à economia solidária.

4 CONCLUSÃO

O presente trabalho trouxe uma análise sobre o uso das moedas sociais dentro do contexto capitalista, em contraposição à moeda oficial. Além disso, buscou explicitar o surgimento da economia solidária como meio para contrabalancear os efeitos de exclusão social propagadas pelo capitalismo. Para essa compreensão foi necessário abordar a transição feudal para o capitalismo a fim de captar a essência das transformações originárias das contradições. O processo histórico ao qual culminou no atual sistema hegemônico, como exposto pela análise do declínio do feudalismo, demonstra que sua concepção foi orientada por uma contínua centralização do poder e riquezas: o homem sempre dominando o outro.

O sistema capitalista se retroalimenta através de seus próprios elementos que se conectam entre si. A necessidade da ampliação de mercados, com a moeda tornando-se cada vez mais importante para a circulação das mercadorias (monetarização do sistema), levava a uma dinâmica mais acelerante. Essa dinâmica acelerante, por sua vez, incorre em maior crescimento econômico, que precisa de mais impulso para se expandir, a qual é facilitada pelas inovações tecnológicas tanto na produção quanto nos meios de circulação. A moeda, mais uma vez, exerce o papel de dissipar o sistema, através da sua capacidade de reprodução do capital com a função de crédito. Além disso, a mudança para o trabalho assalariado foi uma forma do sistema para haver a apropriação de renda, na forma de mais-valia.

Ou seja, basta um elemento desses ser prejudicado, para que o sistema entre em crise, seja de forma mais branda ou mais grave. A importância deste trabalho se dá à medida em que questiona-se uma outra forma para utilizar um intermediador de trocas sem almejar o lucro, mas sim com vistas ao benefício da sociedade como um todo. A essa provocação, assim, foi proposto o objetivo de analisar a inserção da moeda social como um instrumento que possa exercer essa função, tanto por ser, talvez, uma forma do capitalismo lidar com suas contradições internas, ou por ser um indicativo de algum outro modo de produção que está por vir.

Dessa forma, foram explicitadas, também, algumas experiências com as moedas sociais que levantaram conclusões a cerca de suas peculiaridades. Ou seja, que cada experiência tem sua motivação, seu modo diferente de ser propagado, de ser gerido, ou seja, mesmo sendo moedas sociais, não há uma homogeneização entre elas, algo que determine o modo que devem se

comportar, pois tudo é relativo ao território em que é inserido. Porém, são demonstrados os princípios que regem esse sistema, tais como uma democracia participativa, a continuidade, a confiança, ser um ―serviço público‖ e o objetivo principal de proporcionar o bem-estar dessa população. Com isso, é necessário que haja o processo de desreificação da moeda, em prol da própria sociedade: a valorização do próprio homem.

A análise proposta mostrou também que a confiança é o elemento que sustenta o sistema de moedas sociais e, com isso, para perpetuar, é necessário que a população se adeque a uma realidade diferente à das relações econômicas capitalistas, de forma a desbravar novos

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