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Em meio a toda reflexão sobre a dificuldade que a televisão tem em ajustar uma narrativa do futebol mais apropriada aos recursos que dispõe, especialmente a imagem, a orientação de um trabalho de conclusão de curso do aluno Francisco Ângelo Brinati, na Faculdade de Comunicação da UFJF, trouxe-nos uma observação e

uma descoberta: Sílvio Luiz. Ele é, provavelmente, o que já encontrou a fórmula de transmitir o futebol pela tv sem cair na mesmice. Claro, com seu estilo próprio e, curiosamente, não imitado até hoje. Por isso, merecerá uma abordagem especial.

Enquanto em todos os grandes nomes que despontam na narração do futebol na tv há uma percepção clara da influência da narrativa do rádio, Sílvio se diferencia, com a plena consciência de que é responsável por uma transmissão absolutamente ajustada ao meio. Filho de uma atriz de rádio, conseguiu que a mãe o colocasse trabalhando no meio desde pequeno, na Rádio São Paulo. Em 1952 Sílvio Luiz já fazia parte da equipe da TV Paulista, que mais tarde, precisamente em 1964, se transformaria em TV Globo Paulista.

A TV Paulista tinha o objetivo de enfrentar a liderança da TV Tupi e resolveu investir na formação de uma equipe de esportes. Moacir Pacheco Torres foi convidado para ser o narrador. Nos comentários, Leônidas da Silva (ex-craque da Seleção e do São Paulo) e, analisando a arbitragem, José Jazetti. Para reportagem de campo, o escolhido foi Sílvio Luiz. Já nesta função ele demonstrava uma preocupação em ter uma conduta profissional que diferenciasse o trabalho do repórter de rádio para o de tv.

Em 1953, com a criação da TV Record, de São Paulo, com a presidência de Paulo Machado de Carvalho, surgia mais uma equipe de esportes na televisão.

Leônidas foi convidado e levou Sílvio Luiz. Só depois de ter passado por algumas experiências no esporte na televisão é que Sílvio passou por equipes esportivas em rádio. Foi árbitro de futebol e teve sua primeira chance de narrar em 1976. A morte de Geraldo José de Almeida deixou a Record sem seu nome principal na narração. Ao lado de Hélio Ansaldo, Sílvio começou a fazer revezamento entre narração e comentários da

partida. No campo, como repórter, Flávio Prado. O torcedor gostou do novo estilo que surgia.

Sílvio ousou e levou o humor, a descontração, o nonsense e uma ácida ironia para o campo de futebol. Ele sabia que seria necessário encontrar um caminho novo na Record, que teve grandes narradores como Raul Tabajara e Geraldo José de Almeida. Jamais poderia seguir o caminho trilhado por eles.

Começava a nascer um estilo único de locução esportiva. Sílvia vai, aos poucos, rompendo com o padrão clássico de narração em televisão e passa a fazer brincadeiras, criar bordões e até a avisar no ar que havia problemas técnicos na transmissão... pela primeira vez um narrador de televisão rompia com a escola do rádio para comunicar-se de maneira inovadora.... Sílvio Luiz abandonava o até então único modo de se transmitir futebol, e finalmente libertava a imagem na televisão, percebendo o que era evidente:

o telespectador estava vendo o que ocorria. Não era preciso dizer o que ele já sabia.209

Sílvio Luiz trouxe para a transmissão do futebol na tv o comportamento do torcedor da arquibancada e do que vê o jogo pela televisão e comenta com quem está ao seu lado ou sozinho. Ele cria, inclusive, um diálogo com o telespectador. Ao contrário de descrever cada jogador que tocou na bola e de utilizar a redundância, já apontada neste trabalho como um aspecto negativo da narração televisiva, ele apresenta um estilo que foge ao óbvio.

Esse chamado de atenção para o estilo Sílvio Luiz como uma possibilidade diferenciada de transmissão do futebol na tv veio acompanhada de um desafio. A jornalista Gesane Luchese, apresentadora da TV Alterosa (Juiz de Fora-MG), sabendo da pesquisa que estava sendo desenvolvida, sugeriu que fizesse o teste definitivo. Ouvir Sílvio Luiz e outros narradores da tv com os olhos fechados. Era o que faltava. Enquanto é possível saber o que está acontecendo no jogo sem a imagem, ouvindo a descrição dos outros narradores, com Sílvio Luiz isso não é possível. Ele deixa que a imagem fale, ocupe seu papel, e ele faz o dele.

Em vez de narrar o óbvio, ele ia além, ampliava os limites da tela, cantando o lance seguinte, pedindo marcação e deslocamentos, apontando os jogadores em melhores condições para a seqüência da jogada, exatamente como um torcedor na geral. A forma como ele fazia isso também era um choque: era um narrador de televisão gritando frases de arquibancada: “dá,

209 WILLIAM, 2002, p.133

dá pra ele”, “encosta para receber”, “tá livre na ponta”, “cada um pega um”,

“vai chorar na cama que é lugar quente”, “se mexe no ataque”.210

É justamente no público do futebol, no comportamento do torcedor na arquibancada ou em casa, vendo uma partida, que Sílvio encontra os seus diversos bordões. Ele admite que busca na transmissão que faz assimilar o que o torcedor pensa.

Eu não estudei este troço aí. Eu achei que você ia ter que estar em casa, vendo a televisão, e quem estivesse transmitindo o jogo teria uma conversa com você... Você tem que estabelecer um diálogo... você ser obrigado a ouvir aquilo que você está vendo é o que mais me irrita na transmissão da tv.

Pô, eu estou vendo que o nego chutou com a perna direita, estou vendo que o nego cabeceou...Tem gente que gosta, pois vai ao banheiro e fica ouvindo, ou alega que é para quem tem deficiência visual, então seria necessário este tipo de narração redundante. Mas estas pessoas com deficiência visual são uma minoria... O problema é a imagem. Ela te ajuda e te derruba. Como você dá emoção a uma coisa que o sujeito vê que não tem emoção? Lateral toca para o zagueiro e esse recua para o goleiro. Qual é a emoção do lance?

Você pode criticar aquilo: “isso é uma palhaçada”, a emoção que você pode dar é essa aí. É legendar a imagem com um tom de voz um pouco mais alto.211

Entre alguns bordões que Sílvio Luiz criou estão alguns famosos, que se tornaram clássicos e que o identificam junto ao torcedor de futebol. “Olho no lance” é um dos mais conhecidos. Acontece quando surge um perigo de gol e ele chama a atenção do telespectador. “Pelas barbas do profeta” e “Pelo amor dos meus filhinhos” é a referência a uma jogada infeliz. “O que é que só você viu” é a chamada para a participação do repórter, já o colocando dentro do espírito da sua transmissão, ou seja, ele está pedindo algo que a imagem já não tenha mostrado ao torcedor.

Se o jogo não está bom, ele diz: “está todo mundo como o Papai Noel”.

Se a jogada foi boa, “papai gostou”. O gol é assim: “Éééééé... é do Palmeiras. Foi, foi, foi, foi eeeeeleeee. O craque da camisa número...”. Expressões referentes a algumas jogadas: “olha o ladrão”, “entortou a bigorna”, “balançou o esqueleto”; “mandou um canudo”; “ficou todo arrepiado”; “de carrapeta”, “na orelhinha da girafa”, “pega a raspa do tacho”. Se o goleiro vai arrumar a barreira, ele diz: “olhando pelo buraco da fechadura”.

210 WILLIAM, 2002, p.133

211 ANEXO 1

Quando opta por falar como o torcedor, costuma usar expressões como

“mete o bico nela” ou “sai, louca”, pedindo para alguém tirar a bola da zona de perigo.

Como qualquer outro narrador, em jogos da Seleção Brasileira, Sílvio Luiz libera ainda mais o lado torcedor, mas sem ser irritante como outros. Ele se dá ao direito de dizer que “a bola é nossa”, “cuidado com os home”, “é mais um gol brasileiro, meu povo”. Se a Seleção toma um gol: “xi, deu zebra”, “queimou o filme aqui”.

Mas o torcedor que ouve Sílvio Luiz também pode ver sua transmissão, enquanto o jogo está morno ou sem qualquer lance de perigo, se transformar em algo mais inusitado. Com irreverência e deboche, ela já deu receita de bolo, passou a falar dos prédios vizinhos aos estádios, ou acusou que seu celular estava tocando e, muitas vezes, o atendeu. Outra contribuição que ele deu às transmissões de tv foi a introdução de vinhetas musicais.

Eu e o cara que fazia o som para a transmissão separávamos, durante a semana, e combinávamos, por exemplo: o sujeito levava uma porrada, caía, colocava a mão no joelho e eu dizia, “o que será que a Gal Costa falou disso aí? E entrava a música, “dessa vez, doeu, demais”. Outra coisa, o goleiro que tomam um gol, “e o Jair? O que o Jair fala?”. “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Entendeu? Você ligava as situações. A gente passava horas na discoteca separando as frases e de tempos em tempos mudávamos.

Você tem que criar.212

Esse jeito de “conversar” com o torcedor, de buscar algo além da imagem é encontrado de forma mais reduzida em transmissões de Walter Abrahão, que tentava fugir do óbvio e usava metáforas. Sílvio admite que sua maior inspiração foi Raul Tabajara, que também busca dialogar com o telespectador. Mas ele mesmo garante que seu estilo é individual e ainda não imitado pelos narradores. Até porque, segundo Sílvio, a cópia seria logo identificada.

212 ANEXO 1

7 NARRADORES E TORCEDORES ENTRAM EM CAMPO

Além de procurar embasamento na história e toda a discussão teórica feita sobre o futebol e essa relação tão especial que ele tem com o povo brasileiro, intermediada pela mídia, a busca pela comprovação da hipótese levantada neste estudo não teria como fugir à consulta aos locutores e torcedores. Extremos do processo de comunicação, ligados pela narrativa, seja na tv ou no rádio, essas pessoas “entram em campo” para contribuir para alguns aspectos que podem ter ficado de fora nos capítulos anteriores ou reforçá-los.

Não se trata de uma pesquisa com rigor científico, o que não invalida a iniciativa, visto que ficaria uma lacuna em toda a argumentação sem que se abrisse um espaço para ouvir os “atores” que fazem parte de todo o processo. Alguns narradores (rádio e tv) e cronistas esportivos (inclusive de impresso) foram contatados pessoalmente, em partidas realizadas no Estádio Municipal Radialista Mario Helênio, em Juiz de Fora, e no Estádio do Morumbi, São Paulo. Outros foram entrevistados por email.

Quanto aos torcedores, todas as entrevistas foram realizadas nos estádios.

O objetivo da pesquisa era focar a conversa com aqueles que estavam nas arquibancadas tendo como companhia, o rádio. Essa orientação buscou reforçar o entendimento das razões que fazem com que um número considerável de espectadores que vão para o estádio sinta tanta necessidade da tradução do espetáculo pela rádio.

As entrevistas variaram entre os mesmos segmentos ouvidos, buscaram ilustrar e contribuir para a discussão. Estão, na íntegra, nos apêndices, oferecendo a oportunidade para futuros desdobramentos. Destes dois extremos – narrador, torcedor – muita coisa interessante surgiu. Desde a questão da credibilidade, da fidelidade ao que

se está narrando, passando pela emoção, palavra mais citada entre os entrevistados, a discussão traz elementos importantes, controvertidos e que merecem algumas análises mais profundas.