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«AMIGO SINCERO DO BRASIL»

1 2 UMA FALTA DE D PEDRO

Honrado por D. Pedro II com o título de «amigo sincero do Brasil» 25, Francisco Gomes de Amorim dedicou ao imperador O Cedro Vermelho (1874).

Se, por gratidão, o escritor fez os maiores encómios ao monarca brasileiro, aquando da sua primeira estada em Portugal, no mês de Junho de 1871 26, sendo uma das não muitas vozes que turibularam o imperador, a verdade é que também D. Pedro II teve para com Francisco Gomes de Amorim especial deferência, ao mandar-lhe dizer que, se o seu

estudo de saúde não lhe permitisse deslocar-se ao Hotel Bragança, iria ele, imperador, a casa do poeta. Este não consentiria em tal honra e, mesmo com sacrifício, «foi ontem à noite cumprimentar S. M. ao Hotel Bragança, sendo cordialmente recebido pelo ilustrado e bondoso monarca» 27. Em reforço da boa relação existente está, ainda, o facto de ter sido a pedido de D. Pedro II que Francisco Gomes de Amorim lhe fez a oferta de todas as suas obras:

«[...] estou precisado de dinheiro e farto de procurar um exemplar dos Cantos, em bom estado, para dar ao Imperador do Brasil, que mo pediu com todos os meus livros, e que eu não queria comprar» 28.

O imperador do Brasil faria uma segunda visita a Portugal, em fins de Agosto de 1877. Nos recortes de jornais e de revistas coleccionados por Francisco Gomes de Amorim não há sequer um com alusão, própria ou alheia, a essa presença de D. Pedro II em Lisboa. Dados os antecedentes, a lacuna é sem duvida intrigante. Ou talvez não. Em Os

Contemporâneos - Alexandre Herculano (manuscrito não totalmente autógrafo 29), há

uma passagem que leva a pensar em como Francisco Gomes de Amorim levava à prática a 'sua divisa usque tenebo, firme na amizade e na admiração por Alexandre Herculano, mesmo

depois da morte do historiador:

«No Rio fizeram-se pomposas exéquias. O presidente da Comissão, Visconde de S. Salvador de Matosinhos, foi pedir ao imperador para assistir a elas, e S. M. respondeu que não podia ir. m** que assistiria em espírito! Teria medo de se pôr novamente em conflito com o clero do seu país, ou receava que diante da eca o pungisse o remorso, lembrando-lhe que contribuíra talvez, se bem que involuntariamente, para a morte do grande homem? Acaso se teria esquecido tão depressa daquele a quem chamava amigo? Ou influiria no seu ânimo o desdém dos reis de cá para com Herculano? 30.

No Brasil, as relações entre o Estado e a Igreja, fixadas pela Constituição de 1824, estiveram expostas a frequentes conflitos, especialmente depois da publicação da encíclica

Quanta Cura e do Syllabus, em 1864, pelo Papa Pio IX, que condenavam, entre outros

Maçonaria. Os bispos D. Vital Maria de Oliveira (Pernambuco) e D. António de Macedo Costa (Pará), ao darem cumprimento, em 1872, aos documentos pontifícios, provocaram não só atritos entre a Igreja e a Maçonaria, como também açularam contra os portugueses «a cólera satânica dos apaniguados das sacristias», na cruzada de extermínio contra os mações, e «atribuindo a existência dessa sociedade à influência e à adesão dos cidadãos portugueses domiciliados entre nós» 31 Em nome de Cristo, foi lançado o brado de mata

português - mata mação. Os prelados brasileiros, activando as milícias jesuíticas, atiçando

focos de reacção, nas suas dioceses, despertaram ódios que, em alguns casos, se cevaram na morte de portugueses, como aconteceu, por exemplo, em Macapá (Pará). Se os bispos diziam gemer «em silêncio diante do Senhor vendo o seu santuário invadido pela impiedade, sem o poder remediar», os opositores do jesuitismo, como Francisco Gomes de Amorim, deixavam soltar-se o pranto à vista de uma instituição detestada:

« Seja como for: sem discutir contigo a política e a moral dos jesuítas, não lhes dou o meu voto, porque reputo, essa instituição contrária à felicidade e liberdade dos povos» 32.

É neste enquadramento polítieo-religioso que tem de ser visto o incidente ocorrido em casa de Alexandre Herculano e relatado por Francisco Gomes de Amorim.

«Pouco mais ou menos por esse tempo, teve Herculano outro cruel desapontamento com um dos homens que julgara seu amigo e do seu partido. Monsenhor Pinto de Campos, brasileiro, contraiu relações com ele, dando-se por liberal sincero e dizendo-se partidário das mesmas ideias do mestre. De volta da sua viagem a Jerusalém, foi a Vale de Lobos, onde o grande historiador o acolheu com a maior afabilidade. À noite, durante o serão, enquanto Alexandre dormitava, referia o brasileiro a D. Mariana os sucessos da sua viagem, concluindo por mostrar-se um fanático vulgar [...]» 33.

Só a falta de informação terá levado Herculano ao engano de ver no padre brasileiro um liberal, quando este estava do lado da barricada dos «conservadores "puros", reaccionários, ultramontanos, absolutistas: D. António de Macedo Costa (1830-1891), bispo do Pará, que [...] pronunciou e mandou imprimir o discurso inaugural da Biblioteca

Pública de Belém, ou Monsenhor Joaquim Pinto de Campos (1819-1887), autor da biografia de Pedro II, impresssa no Porto, com uma "advertência" de Camilo Castelo Branco [...]» 34. Ortodoxo por excelência, Pinto de Campos teve na «questão religiosa» um comportamento que levou a Semana Ilustrada a caricaturá-lo com um pé no prato da

infalibilidade e o outro no do Governo*Mações, pretendendo com esse equilibrismo estar

de bem com Deus e com o Diabo 35. Havia de ser o mesmo Pinto de Campos a tirar dores por Santa-Anna Nery que, no seu livro Le Pays des Amazones, se apropriara de notas de O

Cedro Vermelho e de Ódio de Raça.

Se, realmente, houve um esfriamento na relação D. Pedro II - Francisco Gomes de Amorim, e se para isso contribuiu o modo como o imperador se comportou na doença e na morte de Alexandre Herculano, o possível despeito do autor de O Cedro Vermelho não derivou de qualquer alteração nas suas opções políticas, nem outras produziria.

«Por aqui anda tudo em polvorosa com os festejos! Até eu deitei versos. Mas, apesar de aludir agradavelmente aos re.s e príncipes, não lhos dediquei, e foi-me pedido isso com instância, mas não o quis fazer. Porque os meus versos são unicamente homenagem ao princípio monárquico, e não a estes nem àqueles. Se eu acreditasse que a república era mais útil para o bem-estar da nossa nação, fazia-me republicano. Mas tenho a convicção contrária, e veja o meu am° o que está acontecendo por toda a parte com as repúblicas modelos: nos Estados Unidos e em França!» 36.

O ex-imperador e o poeta morreram no mesmo ano (1891): Francisco Gomes de Amorim, no dia 4 de Novembro; D. Pedro II, exilado em França, a 5 de Dezembro.