Considerando que há necessidade de o ser humano conhecer sua
própria cultura e apreender o conhecimento, para só então propiciar o
desenvolvimento dos direitos humanos, indivisíveis e universais, ressurge com
mais força a questão do universalismo dos direitos humanos frente o relativismo
cultural.
Reafirmamos a concepção universal dos direitos humanos, que tem
fundamento
– como já explanado – a Declaração Universal dos Direitos do
Homem, constituindo o pilar da internacionalização e, a priori, do universalismo.
Contudo, persiste a indagação sobre a dimensão ou alcance das normas de
direitos humanos em relação à cultura local ou regional.
Segundo Lindgren Alves
160:
É inegável que a luta pelos direitos humanos, tais como hoje legalmente definidos, está associada a desenvolvimentos históricos registrados na Europa e nos Estados Unidos, tendo como marcos fundamentais a Revolução Parlamentar Inglesa, a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa, com as respectivas conquistas jurídicas e declarações.
[...]
As afirmações de que a Declaração Universal é documento de interesse apenas ocidental, irrelevante e inaplicável em sociedades com valores histórico-culturais distintos são, porém, falsas e perniciosas. Falsas porque todas as Constituições nacionais redigidas após a adoção da Declaração pela Assembléia Geral da ONU nela se inspiram ao tratar dos direitos e liberdades fundamentais, pondo em evidência, assim, o caráter hoje universal de seus valores. Perniciosas porque abrem possibilidades à invocação do relativismo cultural como justificativa para violações concretas de direitos já internacionalmente reconhecidos. Se, na consideração dos direitos humanos, os ocidentais privilegiam o enfoque individualista, e os orientais e socialistas o enfoque coletivista, se os ocidentais dão mais atenção às liberdades fundamentais e os socialistas aos direitos econômicos e sociais, os objetivos teleológicos de todos são essencialmente os mesmos. O único grupo de nações que ainda tem dificuldades para a aceitação jurídica de alguns dos direitos estabelecidos na Declaração Universal e sua adaptação às respectivas legislações e práticas nacionais é o dos países islâmicos, para quem os preceitos da lei corânica extravasam o foro íntimo, religioso, dos indivíduos, com incidência no ordenamento secular da comunidade.
Hoje, temos a coexistência de rede protetiva de direitos
conformando sistemas global, regionais e nacionais. O primeiro é assistido pela
Organização das Nações Unidas que, após a Declaração de 1948, tem sediado
profícua produção normativa, sinalizando há muito que os direitos humanos não
são matéria exclusiva dos Estados nacionais. Sendo assim, reconhece-se o
propósito da Declaração de promover o reconhecimento universal dos direitos
humanos e liberdades fundamentais, contudo foram elaborados outros pactos que
vieram a dar ao conteúdo de direitos humanos força jurídica obrigatória e
vinculante no âmbito do Direito Internacional, além de inaugurar o que se
convencionou denominar de Sistema Global de Proteção Internacional dos
Direitos Humanos.
O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos é resultado do
esforço de juridicização da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Seu
texto foi aprovado pela Assembléia Geral das Nações Unida em 1966, porém
somente dez anos depois, em 1976, veio a entrar em vigor quando atingiu o
número mínimo de ratificações para início de seus efeitos.
O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais
veio a conferir preceitos juridicamente obrigatórios e vinculantes aos direitos
descritos na Declaração, com texto aprovado pela Assembléia Geral das Nações
Unidas, em 1966, e também com vigência somente dez anos depois, a partir de
1976.
Importante observar – como Flávia Piovesan – que:
Enquanto o Pacto dos Direitos Civis e Políticos estabelece direitos endereçados aos indivíduos, o Pacto dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais estabelece deveres endereçados aos Estados. Enquanto o primeiro Pacto determina que „todos têm o direito a ...‟ ou „ninguém poderá...‟, o segundo Pacto usa a formula „os Estados-partes reconhecem o direito de cada um a...‟
Se os direitos civis e políticos devem ser assegurados de plano pelo Estado, sem escusa ou demora – têm a chamada auto-aplicabilidade – os direitos sociais, econômicos e culturais, por sua vez, nos termos em que estão concebidos pelo pacto, apresentam realização progressiva. Vale dizer: são direitos que estão condicionados à atuação do Estado, que deve adotar medidas econômicas e técnicas, isoladamente e através da assistência e cooperação internacionais, até o máximo de seus recursos disponíveis, com vistas a alcançar progressivamente a completa realização dos direitos previstos pelo Pacto (art. 2o, parágrafo
1o do pacto)161.
No âmbito regional, o Brasil é membro da Organização dos Estados
Americanos – OEA, e é indubitável que a Convenção Americana de Direitos
Humanos é o instrumento mais importante do sistema americano de proteção aos
direitos humanos. A Convenção Americana foi adotada em 1969, em uma
Conferência intergovernamental, na cidade de San José, Costa Rica, o que
justifica a denominação, também corrente, de Pacto de San José da Costa Rica.
Contudo, o Pacto entrou em vigor apenas em 1978 quando foi depositado o
décimo primeiro instrumento de ratificação.
A estruturação do sistema regional de proteção dos direitos
humanos assinala para os Estados-partes o dever de respeitar os direitos,
segundo princípio da boa-fé e do pacta sunt servanda
– que subsidiam os
tratados internacionais – consolidados no texto convencional, além de agir em
consonância aos princípios de direito internacional (Artigos 1
oe 2
oda Convenção
Americana). Isso justifica a criação de um texto mais próximo das Américas, dos
membros da Organização dos Estados Americanos, possibilitando um
detalhamento em razão dos laços históricos e culturais que unem os povos.
Não obstante, há quem advogue no sentido de que os direitos são
constituídos em consonância com a estrutura estatal, tendo sua conformação
associada aos valores vigentes naquela sociedade. Por outro viés, há os que
sustentam a existência de um fundamento absoluto, portanto inquestionável, dos
direitos do homem. Nesse sentido, diz-se que qualquer ordenamento jurídico, ou
melhor, qualquer ordenamento jurídico que propugne pelo regime democrático, a
busca do desenvolvimento, o equilíbrio dos ideais de liberdade, igualdade e
fraternidade, inclusive a ordem jurídica internacional, terá como valor máxime o
princípio da dignidade humana.
Não há que se questionar a necessidade de pluralismo cultural como
critério de engrandecimento do ser humano, dotado na própria coexistência de
diferenças. Todavia, o que se deve observar é até que ponto o relativismo cultural
indiscriminado se sobrepõe a valores ditos universais. É de se questionar: todas
as identidades culturais dos diversos grupos humanos devem ser fomentadas e
merecedoras de reconhecimento social? Todas as diferenças e identidades
culturais contêm os mesmos aportes para o bem estar, a liberdade e a igualdade
dos seres humanos?
Aqui não se prega a prevalência cultural de países ou regiões com
maior poderio econômico, não é esta a questão, não é este o substrato que jaz. É
de se indagar: quais são os limites do multiculturalismo ou do relativismo
cultural
162?
A resposta deve estar no senso comum de verificar quando a
diferença e a diversidade não se traduzem em privilégios, nem se inscrevem em
sistemas de poder, nem implicam em exclusões, possibilitando, assim, a
construção de uma sociedade única com base na liberdade e igualdade.
162 Segundo Flávia Piovesan, na análise dos relativistas, a pretensão de universalidade dos
instrumentos internacionais de direitos humanos, simboliza a arrogância do imperialismo cultural do mundo ocidental, que tenta universalizar suas próprias crenças. A noção universal de direitos humanos é identificada como uma noção construída pelo modelo ocidental. O universalismo induz, nessa visão, à destruição da diversidade cultural. A essa crítica reagem os universalistas, alegando que a posição relativista revela o esforço de justificar graves casos de violações dos direitos humanos que, com base no sofisticado argumento do relativismo cultural, ficariam imunes ao controle da comunidade internacional. Argumentam que a existência de normas universais pertinentes ao valor da dignidade humana constitui exigência do mundo contemporâneo. Acrescentam ainda que, se diversos Estados optaram por ratificar instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, é porque consentiram em respeitar tais direitos, não podendo isentar-se do controle da comunidade internacional na hipótese de violação desses direitos e, portanto, de descumprimento de obrigações internacionais. In: Direitos Humanos e o Direito
Consolidando esse entendimento é de se reviver a Declaração da
Independência dos Estados Unidos da América, ocorrida em 04 de julho de 1776,
na qual já constavam expressos como direitos inalienáveis o que segue:
Sustentamos como evidentes por si mesmas as seguintes verdades: todos os homens nascem iguais e são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis; entre esses direitos estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade. Os governos são estabelecidos ente os homens para garantir esses direitos, e seu justo poder emana do consentimento dos governados.
Sob outro prisma, recordemos a Declaração Universal de 1948, nas
palavras de Flávia Piovesan:
A inexistência de qualquer questionamento ou reserva feita pelos Estados aos princípios da Declaração e a inexistência de qualquer voto contrário às suas disposições, conferem à Declaração Universal o significado de um código e plataforma comum de ação. A Declaração consolida a afirmação de uma ética universal, ao consagrar um consenso sobre valores de cunho universal a serem perseguidos pelos Estados. [...]
A Declaração Universal de 1948 objetiva delinear uma ordem pública mundial fundada no respeito à dignidade humana, ao consagrar valores básicos universais. Desde seu preâmbulo, é afirmada a dignidade inerente a toda pessoa humana, titular de direitos iguais e inalienáveis. Vale dizer, para a Declaração Universal a condição de pessoa é o requisito único e exclusivo para a titularidade de direitos. A universalidade dos direitos humanos traduz a absoluta ruptura com o legado nazista, que condicionava a titularidade de direitos à pertinência à determinada raça (a raça pura ariana). A dignidade da pessoa humana como fundamento dos direitos humanos é concepção que, posteriormente, vem a ser incorporada por todos os tratados e
declarações de direitos humanos, que passam a integrar o chamado Direito Internacional dos Direitos Humanos163.
Além do mais, a Declaração de 1948 introduz uma extraordinária
inovação: combinando o discurso liberal da cidadania com o discurso social passa
a elencar tanto direitos civis e políticos (arts. 3
oa 21
o) como direitos sociais,
econômicos e culturais (arts. 22
oa 28
o). Preceitos que, segundo interpretação
restrita, não têm força normativa, pois a Declaração tem a forma de uma
Resolução.
Há, contudo, aqueles que defendem que a Declaração teria força jurídica vinculante por integrar o direito costumeiro internacional e/ou os princípios gerais de direito, apresentando, assim, força jurídica vinculante. Para esta corrente, três são as argumentações centrais: a) a incorporação das previsões da Declaração atinentes aos direitos humanos pelas Constituições nacionais; b) as freqüentes referências feitas por resoluções das Nações Unidas à obrigação legal de todos os Estados em observar a Declaração Universal e c) decisões proferidas pelas Cortes nacionais que se referem à Declaração Universal como fonte de direito164.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos vem consolidar a tese da
universalidade dos direitos humanos por apontar o consenso não só de Estados
ou comunidades nacionais, mas de homens livres e iguais, no dizer de Norberto
Bobbio:
Não sei se se tem consciência de até que ponto a Declaração Universal representa um fato novo na história, na medida em que, pela primeira
163 PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional, 2007, p. 145-
146.
vez, um sistema de princípios fundamentais da conduta humana foi livre e expressamente aceito, através de seus respectivos governos, pela maioria dos homens que vive na Terra. Com essa declaração, um sistema de valores é – pela primeira vez na história – universal, não em princípio, mas de fato, na medida em que o consenso sobre sua validade e sua capacidade para reger os destinos da comunidade futura de todos os homens foi explicitamente declarado. (Os valores de que foram portadoras as religiões e as Igrejas, até mesmo a mais universal das religiões, a cristã, envolveram de fato, isto é, historicamente, até hoje, apenas uma parte da humanidade). Somente depois da Declaração Universal é que podemos ter a certeza histórica de que a humanidade – toda a humanidade – partilha alguns valores comuns e podemos, finalmente, crer na universalidade dos valores, no único sentido em que tal crença é historicamente legítima, ou seja, no sentido em que universal significa não algo dado objetivamente, mas algo subjetivamente acolhido pelo universo homem165.