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A utilização da expressão universidade corporativa, muitas vezes, apresenta questionamentos e dúvidas a respeito das razões para essa denominação e, principalmente, em relação às semelhanças e diferenças existentes entre universidades corporativas e instituições de ensino superior tradicionais. Segundo Alperstedt (2001), a utilização do termo universidade não confere às universidades corporativas a mesma conotação que a palavra apresenta no sistema educacional. No contexto do ensino superior, o termo universidade tem, conforme Ferreira (1999: p.2032), a seguinte conotação:

instituição de ensino superior que compreende um conjunto de faculdades ou escolas para a especialização profissional e cientifica, e tem por função precípua garantir a conservação e o progresso nos diversos ramos do conhecimento, pelo ensino e pela pesquisa.

De acordo com a Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, conhecida como Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDBEN -, a universidade tradicional assim é caracterizada:

“Art. 52. As universidades são instituições pluridisciplinares de formação dos quadros profissionais de nível superior, de pesquisa, de extensão e de domínio e cultivo do saber humano, que se caracterizam por:

3 EBOLI, M. Panorama Brasil. Revista T&D. v. 130, ano 11, out.2003, p. 22

I – produção intelectual institucionalizada mediante o estudo sistemático dos temas e problemas mais relevantes, tanto do ponto de vista cientifico e cultural, quanto regional e nacional;

II – um terço do corpo docente, pelo menos, com titulação acadêmica de mestrado ou doutorado;

III - um terço do corpo docente em regime de tempo integral.

Parágrafo único. É facultada a criação de universidades especializadas por campo do

saber”. (Lei n. 9.394,1996).

Por outro lado, as universidades tradicionais estão sujeitas ao credenciamento e ao controle pelo poder público, o que não ocorre com as universidades corporativas que, além de não estarem sujeitas a esse credenciamento e controle, têm seu certificado aceito pelo mundo empresarial sem a necessidade de reconhecimento oficial.

Entretanto, segundo Monteiro (2002), as universidades corporativas podem oferecer cursos e programas com características da educação formal, com o objetivo de atender a um público específico e visando à migração de créditos, ou seja, o aproveitamento dos estudos realizados no ambiente da educação corporativa com a educação formal. Mas, para tanto, universidades corporativas e universidades tradicionais devem estabelecer parcerias, mediante contratos ou convênios, especificando e delimitando todos os procedimentos necessários à operacionalização de tal migração.

Ainda, segundo Monteiro (2002), as universidades corporativas podem atuar na área de especialização profissional, em cursos e programas de pós-graduação (especialização ou mestrado profissional) ou de formação profissional, em nível médio ou superior, conforme Lei de Diretrizes e Bases - LDB - e normas editadas pelo MEC, incluindo ensino à distância.

Contudo, para isso, as universidades corporativas que desejarem oferecer esses cursos e programas devem buscar o credenciamento junto ao MEC, com base nas normas vigentes, ou seja:

Ensino à Distância: Decreto n. 2.494, de 1998 e Portaria MEC n. 301 de 1998 Educação Profissional: Decreto n. 2.208 de 1997;

Pós-Graduação:

Em nível de especialização: Resolução CFE n. 12 de 1983;

Em nível de mestrado (mestrado profissional): Portaria CAPES n. 80 de 1998.

Esse novo contexto está alterando significativamente a relação entre empresas e escolas fazendo com que as parcerias entre elas sejam cada vez mais requisitadas. Conforme Eboli (1999b: p.63),

a proliferação de Universidades Corporativas ao mesmo tempo em que abre possibilidades concretas para transformar em realidade o velho sonho da integração escola-empresa, tem gerado muita discussão nos circuitos acadêmicos. A grande questão que se coloca é: a Universidades Corporativas constituem ameaça ou oportunidade para as escolas tradicionais de administração?

Para a autora, o surgimento das universidades corporativas não significa o enfraquecimento ou esvaziamento do papel das escolas tradicionais de administração. Ao contrário, demonstram que as experiências mais bem-sucedidas, nos Estados Unidos, são de empresas que buscaram parcerias com universidades visando agregar valor a programas corporativos principalmente pela expertise das universidades na realização de pesquisa (geração de conhecimento) e educação (assimilação de conhecimento), permitindo às organizações realizarem, com maior habilidade e resultados, o processo de divulgação e aplicação dos conhecimentos considerados críticos para o sucesso do negócio.

As universidades e instituições formais de ensino desempenham um papel primeiro e único no processo de aprendizagem, na formação inicial da pessoa, construindo os alicerces de conhecimentos teóricos, sociais e metodológicos, os quais constituirão a base para o desenvolvimento das competências necessárias para a organização. O processo de aprendizagem continua no interior da organização conduzido pela universidade corporativa e alinhado com os objetivos estratégicos.

Por outro lado, maior proximidade e incorporação pelas universidades corporativas de práticas adotadas e utilizadas pelas universidades tradicionais podem também ser uma maneira eficaz de internalizar e desenvolver nas empresas uma cultura voltada à inovação e à aprendizagem. Para Eboli (1999b), o ponto principal dessa parceria é promover a gestão do conhecimento com eficácia e sucesso.

As diferenças existentes entre as universidades tradicionais e as universidades corporativas são explicitadas pelas diferenças de missão, visão e propósitos de umas e de outras, mas as parcerias entre elas, visando à complementação e colaboração, são viáveis e recomendáveis para atender às necessidades de mudanças movidas especialmente pela tecnologia da informação e que estão alterando drasticamente a forma de estrutura e gestão das instituições em todo o mundo.

A figura 4 apresenta uma comparação entre o papel das escolas de negócio e/ou administração vinculadas às universidades tradicionais e o papel das universidades corporativas.

Universidade Tradicional Universidade Corporativa Desenvolver competências essenciais para

o mundo do trabalho

Desenvolver competências essenciais para o sucesso do negócio

Aprendizagem baseada em

sólida formação conceitual e universal

Aprendizagem baseada na prática dos negócios

Sistema educacional formal Sistema do desenvolvimento de pessoas pautado pela gestão por competências Ensinar crenças e valores universais Ensinar crenças e valores da empresa e do

ambiente de negócios

Desenvolver cultura acadêmica Desenvolver cultura empresarial Formar cidadãos competentes para gerar o

sucesso das instituições e da comunidade

Formar cidadãos competentes para gerar o sucesso da empresa e dos clientes

Figura 4 - Papel das universidades tradicionais e das universidades corporativas.

Fonte - EBOLI, M. Desenvolvimento e alinhamento dos talentos humanos às estratégias empresariais.

São Paulo: Schmukler, 1999a , p.117.

Conforme destaca Eboli (1999a), sendo a atualização contínua da base de conhecimento de um empregado uma tarefa desafiadora, as universidades corporativas estão

unindo forças com universidades tradicionais e conciliando os objetivos do empregado, da corporação e da instituição de ensino em uma parceria a três, benéfica para todas as partes envolvidas.

Meister (1999) faz referência a resultado de entrevistas realizadas com reitores de universidades corporativas e de escolas de administração de empresas americanas em que foram identificados tipos de parcerias entre empresas e universidades. Esses tipos de parcerias abrangem principalmente:

desenvolvimento de programas de ensino personalizados para executivos;

criação de programas de graduação personalizados;

formação de um consórcio de parceria de aprendizado.

No Brasil, a necessidade e oportunidade para o estabelecimento e concretização dessa parceria - universidade-empresa - fica melhor caracterizada nas considerações do então Ministro Paulo Renato de Souza, apud Eboli (1999a: p.05), em 20.09.99, ao afirmar que

estamos vivendo um processo de importantes e intensas mudanças no campo educacional, e evidencia-se a necessidade urgente de se integrarem os esforços na esfera pública e privada, para a formulação e a viabilização de práticas educacionais adequadas e modernas.

Contudo, a integração escola-empresa exige o amadurecimento da postura de ambas as partes visando não só ao estabelecimento de uma relação de ampla cooperação, mas que também preserve a essência do papel de cada uma delas: de um lado, as universidades corporativas com o objetivo de desenvolver nos profissionais as competências críticas para viabilização das estratégias empresariais e, de outro, as escolas tradicionais de administração tendo como objetivo desenvolver nos profissionais as competências críticas para o mundo do trabalho (EBOLI, 2002).