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PARTE I: MARCO TEÓRICO

CAPÍTULO 2. VALORES HUMANOS COMO EXPLICADORES DAS ATITUTES FRENTE

2.3. Valores na perspectiva individual

2.3.1. Valores instrumentais e terminais de Rokeach

Tipicamente, os valores são vistos em termos de um sistema. Este sistema consiste numa disposição hierárquica dos valores ao longo de um contínuo de importância. O conceito de hierarquia permite a comparação de indivíduos, grupos sociais e culturais, não somente com relação a valores, mas também com prioridades axiológicas. Milton Rokeach (1973) é quem tem recebido o maior crédito por dar um maior impulso à pesquisa de valores após o apogeu do behaviorismo. Ele conceituou valores e explicou o seu significado; solicitou também às pessoas que identificassem palavras em cujo conteúdo estivesse embutido o conceito valor, na ordem de importância para elas, como um princípio orientador de suas vidas.

Rokeach (1981) foi quem pela primeira vez procedeu à mensuração específica dos valores na década de 1960, o qual propôs diversas versões do seu Rokeach Value Survey

(Ros, 2006). Entretanto, somente quase duas décadas depois, nos anos 1980, observa-se no Brasil uma tentativa explícita de adaptá-lo (Günther, 1981). O seu modelo teórico parte de cinco pressupostos básicos: 1. O número de valores que uma pessoa possui é

relativamente pequeno; 2. Todos os homens possuem os mesmos valores em graus diferentes, independente da cultura na qual estejam inseridos; 3. Os valores são organizados em sistemas de valores; 4. Os antecedentes dos valores humanos podem ser encontrados em cultura, sociedade, instituições e personalidade de cada indivíduo; e 5. Os valores são manifestados (virtualmente) em todos os fenômenos que os cientistas sociais possam considerar como importantes de serem pesquisados.

Rokeach (1973) conceituou os valores sendo uma crença duradoura de que um modo específico de comportamento ou estado final de existência é pessoal ou socialmente preferível a um modo de comportamento ou estado final de existência oposto ou inverso. Neste sentido, os valores podem ser compreendidos como crenças prescritivas – proscritivas que permitem aos indivíduos julgarem objetos ou ações como desejáveis ou indesejáveis, recomendáveis ou reprováveis. Nesse sentido, uma vez que um valor fosse internalizado, ele se tornaria, consciente ou inconscientemente, um padrão ou critério para guiar a ação existiria (Rokeach, 1981).

O referido autor teoriza um sistema de valores, dividindo-os em terminais (o próprio desejável) e instrumentais (os comportamentos), que são operacionalizados por meio de duas listas de 18 valores cada, como se descrevem:

Valores terminais: representam estados finais de existência, a exemplo de

igualdade, vida confortável, felicidade etc. Estes valores também são classificados como

autocentrados, ou seja, com um foco pessoal ou centrados na sociedade, sendo com um foco interpessoal.

Valores instrumentais: representam condutas que são consideradas preferíveis, a exemplo de ambicioso, honesto, responsável etc. Estes valores ainda podem ser subdivididos em valores morais, os quais reportam o modo como se comportar, e, quando são violados, geram sentimento de culpa (intrapessoal); e valores de competência, que

conduzem a um estado (pessoal) de competência, de que se está agindo de forma adequada.

Para uma melhor compreensão e na tentativa de facilitar o entendimento acerca desta teoria, a estrutura dos valores de Rokeach pode ser visualizada na Tabela 1, apresentada a seguir.

Tabela 2. Tipos de valores instrumentais e terminais proposto por Rokeach (1973).

Tipos de Valores Terminais

Estados finais de existência

Instrumentais

Modos de comportamento

Pessoais

Centrados na própria pessoa, foco intrapessoal

Exemplos: salvação, harmonia interior

De competência

Sua transgressão provoca vergonha, foco intrapessoal

Exemplos: lógico, inteligente Sociais

Centrados na sociedade, foco interpessoal Exemplos: um mundo de paz, amizade verdadeira

Morais

Sua transgressão provoca culpa, foco interpessoal

Exemplos: honesto, responsável

Neste modelo, os valores se integram em conjuntos, denominados de sistemas de valores, organizando-se de forma hierárquica, de modo que cada valor é elencado em razão de sua importância em comparação com os demais valores. Esta organização dos valores pode sofrer mudanças (reordenações) durante a vida dos indivíduos. Estas mudanças (reordenação) de valores se dão, segundo Gouveia (1998), em consequência das experiências culturais, sociais e pessoais.

Rokeach (1973) ressalta uma característica importante dos valores, isto é, suas funções, ou seja, os valores têm cinco funções distintas, a saber: (1) ego-defensiva: os

sentimentos ou ações pouco aceitos, seja no plano pessoal ou social, podem se modificar, por processos de racionalização e formação defensiva, em algo mais aceitável, de maneira que socialmente representem conceitos culturalmente justificáveis; (2) de conhecimento ou de auto-realização: alguns dos valores fomentam a busca de significado e compreensão, o que sugere conhecimentos e, consequentemente, auto-realização; (3)

critérios de orientação: para posicionamentos diante de problemas, tarefas como avaliar, julgar, emitir elogios a si ou a outras pessoas, comparar, persuadir, influenciar, racionalizar crenças, atitudes e comportamentos que de outro modo seriam pessoal ou socialmente condenados moralmente e necessários à manutenção da auto-estima; (4)

motivacional: os valores guiam as ações humanas no cotidiano e expressam as necessidades humanas básicas e, finalmente, (5) adaptativa: alguns valores dão ênfase a modos de conduta ou estados finais que são de orientação adaptativa ou orientados para a utilidade.

Portanto, pode-se observar que Milton Rokeach contribui de forma significativa para o avanço nos estudos valorativos. De forma resumida, podem-se destacar suas contribuições nos seguintes termos: sua abordagem reuniu diversas perspectivas e conhecimentos de áreas diversas como antropologia, sociologia e psicologia; providenciou a distinção dos valores de outros construtos que são relacionados, a exemplo de atitudes e traços de personalidade; apresentou um instrumento especifico para mensurar os valores; e destacou a centralidade dos valores no sistema cognitivo das pessoas, agrupando dados sobre seus antecedentes e consequentes.

Nos estudos de Gouveia et al. (2011) destacam algumas contribuições deste autor: (1) propôs uma classificação para os valores instrumentais e terminais, assim como seus respectivos subtipos; (2) desenvolveu o método de autoconfrontação no contexto de

mudanças de valores; e, por último, (3) propôs uma tipologia de ideologia política a partir da combinação de pontuações nos valores de igualdade e liberdade.

Entretanto, algumas críticas são apontadas ao seu modelo, como seguem os questionamentos de Gouveia, Martínez, Meira & Milfont (2001): (a) sua medida era de natureza ipsativa (sugere dependência entre as pontuações de um mesmo sujeito); (b) a estrutura dos valores, embora claramente delimitada, não foi formalmente testada com dados empíricos; e (c) a restrição das amostras de seus estudos, os quais foram realizados, principalmente, com estudantes universitários estadunidenses. Este talvez tenha sido seu maior problema, isolando-se academicamente, sem preocupação em difundir e divulgar seu modelo, aspectos que foram atentamente considerados por Schwartz (1992), quem tratou de montar um grupo extenso de pesquisadores espalhados pelos cinco continentes, procurando mostrar a universidade de seu modelo.