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2 O CUIDADO E A MATERNIDADE

4 ALEITAMENTO MATERNO E CUIDADO: EXPERIÊNCIAS, NECESSIDADES E URGÊNCIAS

4.1 AS FALAS SOBRE ALEITAMENTO MATERNO

4.1.1 Valorização e conflito com a recomendação médica

Uma das formas de interação pelas quais passam as de mulheres que serão mães se dá com o setor saúde. Sendo as participantes desta pesquisa incluídas na ESF, as recomendações padronizadas deste setor chegam a elas pelas ACSs, pelos profissionais de saúde da UBS e pelo médico que faz o pré-natal. Na maternidade, no pós-parto, as informações sobre cuidado da criança e aleitamento materno são relembradas para as mães pela equipe de saúde.

A recomendação biomédica sobre o aleitamento materno (aleitamento materno exclusivo até o sexto mês e complementar até os dois anos ou mais, e as formas de se alcançar isto), em teoria, é aceita e reproduzida por muitas das mulheres entrevistadas, que reconhecem sua importância, e referiram gostar de receber informações sobre cuidado e aleitamento materno.

Eles falam sobre como que tem que amamentar, que o leite materno é essencial, né, até os 6 meses, que não precisa dar mais nada, que é bom pra tudo, pra infecção... (...) [e] que a gente tem que amamentar até os 2 anos. (Ana Rosa, 37 anos, 4 filhos)

Referiram que receber estas informações é “aproveitar” e “aprender” o que estes profissionais sabem, e verbalizam que o aprendido faz parte de um ideal. Joana diz que “ia sempre no postinho, porque tinha palestra das gestantes, daí eu sempre estava lá, para ver a amamentação, como que era o ideal. Na verdade eu me sentia aproveitando do que eles sabiam para eu aprender”. (Joana, 25 anos, 2 filhos).

Duas das entrevistadas haviam passado pelo curso de técnico de enfermagem; uma concluiu o curso, e outra paralisou para cuidar do filho mais novo quando ele nasceu.

Ambas relatam o saber institucionalizado como importante e fonte de experiência para o cuidado de seus próprios filhos.

A minha sorte é que eu tenho um curso técnico de enfermagem, então aí fiz estágio, fiz estágio na área de pediatria, então eu já sabia cuidar bem do bebê nesse sentido, não porque eu tinha experiência com bebê, mas porque eu tive que aprender, pelo fato do curso, né. (Melissa, 31 anos, 3 filhas)

Anteriormente à vivencia como mães dentro de uma estrutura de Saúde, estas mulheres pertencem a uma cultura onde a amamentação é valorizada em princípio.

Amamentar é bom. E é algo que as mães fazem. A partir disto, escutam e tentam apreender a teoria de quem tem o conhecimento socialmente válido a respeito do tema. A reprodução do discurso biomédico teórico, de caráter abstrato, tal e qual é veiculado, não é rara, bem como o reconhecimento verbal da importância do saber institucionalizado. Mesmo quando sinalizam que estão dando suas opiniões, as frases demonstram a colonização do discurso médico no imaginário sobre o ideal em aleitamento materno.

Eu penso que [o leite materno] é excelente, né, para as crianças, é excelente. Eu continuaria dando, porque é muito bom, excelente, já assisti a palestras que [diziam que] até os seis meses é muito bom dar só o leite materno. (Joana, 25 anos, 2 filhos, grifo nosso)

No mínimo, eu acho assim... no mínimo, no mínimo, no mínimo, seis meses, que é o importante, assim. Depois o bebê já tem que comer... já vai se alimentar, né.

Daí até seis meses não é necessário dar água, né, não é necessário nada, de tão importante que é o leite, né. Seis meses o bebezinho não precisa de nada!

Então eu acho no mínimo seis meses, mas eu acho que o ideal, se a mãe pode, quem pode e não trabalha, tem todo esse tempo para o bebê, para a criança, eu acho que dá para amamentar até os dois [anos], tranquilo. (Melissa, 31 anos, 3 filhas, grifos nossos)

até os dois anos a criança ainda depende, né, de leite, e a criança fica imune a outras doenças, porque o leite do peito, ele ajuda um pouco, né, e até dois anos a criança é meio fraquinha, né. (Andréa, 39 anos, 6 filhos, grifo nosso).

A colonização da vida das mulheres mães pelo discurso médico está presente no discurso e, pelo menos em parte, na prática destas mulheres, como uma parcela das técnicas de biopolítica dos corpos. A colonização faz parte do modelo de ciência que organiza quem está dentro e quem está fora do conhecimento hegemônico, quem pode falar sobre o que, pois detém o conhecimento verdadeiro. (SANTOS, 2000). A ciência médica desta forma vive e se desenvolve de forma circular e autorreferida, mantendo o conhecimento destas mulheres, e suas experiências, fora do reconhecido como importante.

Ao mesmo tempo, os médicos são profissionais com competência técnica organizada socialmente da maneira a que Giddens (1991) conceitua como “sistemas peritos”, que detém um conhecimento que as outras pessoas não possuem, mas requer a necessidade de confiança, que se baseia também na expectativa prévia em relação ao funcionamento do sistema perito, ou na consciência geral sobre como se espera que ele

funcione. O sistema joga com suas fichas simbólicas para que seja reconhecido como conhecimento confiável, utilizando-se do não conhecimento pleno dos procedimentos a serem empregados pelo perito. O leigo, neste caso as mães, possuem sua agencia reflexiva ao assumir riscos na escolher pela confiança na orientação do perito. (GIDDENS, 1991).

Giddens (1991) ainda afirma que a defesa das reivindicações da razão, como o saber científico da medicina, e o conhecimento reflexivamente aplicado são constituintes das instituições modernas. É desta forma que a medicina também colonizou a vida cotidiana, com a democratização de conceitos que, embora não possam ser precisamente definidos, foram apropriados por membros leigos da população, que os utilizam implícita ou praticamente.

Esta democratização não ocorre da mesma maneira para as diferentes pessoas, e no caso dos conceitos da medicina, são utilizados para arrancar a confiança e capturar a experiência das mulheres. Mantém-se a importância do discurso da medicina, que coloniza a vida cotidiana, desvalorizando o saber prático destas mulheres. Em uma primeira análise, vemos que na verbalização, elas reproduzem as normas de aleitamento materno provindas da instituição saúde, considerando, a princípio, como as mais adequadas.

Também foi verificado o reconhecimento de importância do discurso médico na sensação de se estar cumprindo o dever, pelo menos externamente:

Eu fui uma vez só na palestra lá no [hospital] sobre amamentação também. Eu fui porque elas [técnicas de enfermagem] falaram, insistiram pra eu ir, porque estava no horário, ele já tinha mamado, né, daí: “Vai lá mãezinha, vai lá, tirar alguma dúvida”, “Tá bom, eu vou”, mas eu já sabia alguma coisa, já. Fui, assim, mais porque elas pediram. (Joana, 25 anos, 2 filhos)

Se as orientações não se fizeram presentes na prática, a valorização daquelas está implícita em atos como o de Joana, que faz o que lhe pediram no hospital, mesmo com a percepção de que não seria tão interessante para ela, pois ela tinha o conhecimento institucionalizado por ter frequentado um curso de técnica de enfermagem. Externamente, entretanto, considerou que seus atos deviam condizer com o de “boa mãe”, que no caso, englobava receber as informações adequadas em relação ao aleitamento da criança.

A nomenclatura médica acaba por povoar as explicações das mulheres em relação ao aleitamento materno, e a medicalização do processo também pode ocorrer, como no caso de Melissa, que relata não ter produzido leite suficiente no puerpério das três filhas.

Da Olívia, ela foi a que mais amamentou, consegui amamentar até três meses.

Mas eu tenho um problema fisiológico assim com... não consigo produzir leite, então, das minhas gestações... os bebês nunca passam de três meses. Isso porque eu tomo remédio, vou ao médico, pego, tomo remédio pra produzir, né, o leite...

e não tenho. (Melissa, 31 anos, 3 filhas, grifo nosso)

O uso da linguagem médica também é usada como forma de se reapropriar de sua experiência, e de tentar buscar sua agência (EUGENI, 2011). Melissa relata um pouco sobre estes problemas fisiológicos, e conta como eram as conversas com o médico, que a incentivava a utilizar medicamentos, beber muito líquido e se alimentar bem, para produzir leite.

ele [médico] me deu um remédio, “Olha, esse aqui. Vai continuar tomando os dois litros de água... toma três. Você está amamentando, toma três”. E eu, dá-lhe água, água, água... Aí eu tomei o Plazil®, ele produz a prolactina, né. Plazil®, né?

Esse pra enjoo, bem simples, remédio simples, daí melhorou, consegui amamentar mais um mês. (Melissa, 31 anos, 3 filhas)

Melissa termina concluindo que tais estratégias não funcionavam, e que provavelmente não produzia leite suficiente por “questão emocional”, pois ela ficava muito nervosa e cansada cuidando de cada uma de suas filhas. Explica-se, portanto, de duas formas diferentes. Uma utilizando a colonização pelo discurso médico (“problema fisiológico”, “produz a prolactina”), e outra baseada nas suas percepções e sentimentos (“questão emocional”), sem que para ela estas explicações sejam contraditórias ou excludentes, ou ainda fora de seu corpo.

Além do uso do repasse de informações para as mães, em diferentes formas – como visitas domiciliares, consultas e palestras –, a busca pela adesão ao ideal de aleitamento materno pode abarcar outras estratégias, como por exemplo, quando o discurso médico é demonstrado na prática, como forma de ensinar o recomendado18. Suzana reconhece a importância de profissionais terem ensinado na prática como amamentar seu filho, porém não tem recordação das recomendações faladas, embora tenha participado de palestras e tenha recebido Agentes Comunitários de Saúde em sua casa durante a gestação.

Suzana – A doutora já ensinou como dar mamá, né, porque eu não sabia também.

Ela pegou, pôs o peito na boca dele, e ele já pegou o peito na hora... não quis saber de chupeta, mamadeira, nada (...). Ela pôs ele no peito ele começou a chupar. Aprendeu na hora.

18 Nota-se que o médico, homem, fica responsável pela teoria, valorizada. A prática acontece a partir das

“auxiliares” do setor saúde, neste caso enfermeiras e técnicas de enfermagem, mulheres.

Pesquisadora – E alguém te falou mais alguma coisa sobre o leite do peito, te ensinou mais alguma coisa?

Suzana – Não, não falaram nada sobre isso. (Suzana, 21 anos, 1 filho)

Laís ouviu, concorda e tenta seguir a recomendação sobre aleitamento materno que recebeu de profissionais, muito embora tenha sanado suas dúvidas com sua mãe, a respeito de queixas de dor no seio, pelo volume de leite produzido, em contraste ao pouco que a filha mamava enquanto estava internada. À tal queixa, sua mãe respondeu que “é assim mesmo”, o que parece ter feito Laís se convencer que é um sacrifício comum a todas as mulheres, pelo bem da criança.

[O aleitamento materno] é bom, né. Ela mamou... está mamando ainda, né... até os 6 primeiros meses foi só o leite materno só, depois que a gente começou a dar outras coisas pra ela. Porque quando eu estava no hospital, eles fizeram palestra de que até os 6 meses é necessário, tipo, dar, que se a criança mamar mais, até os 2 anos, vai da mãe. Dá pra passar, até um ano é bom pra criança, porque previne de bastante coisa né? Deram bastante palestra, assim, previne de doenças, um monte de coisa, dá imunidade pra criança o leite, né, na verdade, mas eu vou ir [dar o peito], até quando ela não quiser [risos]... (Laís, 25 anos, 1 filha)

A biopolítica dos corpos se estabelece a partir dos mecanismos de conhecer, organizar e controlar a vida, neste caso, da mulher que amamenta, engajada no discurso de verdade sobre aleitamento materno. O setor saúde torna-se o local legítimo da administração dos corpos e da gestão calculista da vida, abrindo espaço ao desenvolvimento das práticas políticas em saúde pública que visem manter e disseminar a proposta de aleitamento materno como função obrigatória da mulher que é mãe.

O engajamento ao saber institucionalizado, entretanto, é apenas parte de uma rede de interdependências que se faz para a prática do aleitamento materno. A reflexividade pode ter levado a um caminho de confiança no sistema perito, mas ele não é o único. A forma como estas mulheres compartilham, traduzem e ressignificam estes saberes com sua cultura local e sua história dá origem às suas experiências, analisadas a seguir.