Ao comercializar seus produtos, a Requerida o faz de forma irregular, vê-se, portanto, que viola de forma transparente o princípio da boa-fé objetiva, o qual deve ser respeitado como a principal premissa orientadora do Código de Defesa do Consumidor.
É o princípio em questão que deve pautar a harmonização das relações de consumo, filosofia consolidada pelas normas consumeristas e transgredida pela Requerida.
Outrossim, o CDC traz esculpido o princípio da boa-fé objetiva em seu art. 51, inciso IV:
“Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de
produtos e serviços que:
(...)
IV - estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a eqüidade”
Tal dispositivo normativo, conforme a doutrina pátria, é visto como cláusula geral de conduta a ser seguida pelo consumidor e, principalmente, pelo fornecedor, parte mais forte na relação de consumo.
Insta declinar que a boa-fé objetiva, sistematizada por Franz Wieacker, atua por meio de três funções essenciais, a saber: cânon interpretativo, norma de criação de deveres jurídicos anexos e norma de limitação ao exercício de direitos subjetivos. É com relação à função de criação de deveres jurídicos anexos que a boa-fé objetiva deve fazer-se presente no presente caso.
Os deveres anexos, obrigações concomitantes à prestação principal, podem ser divididos em três: dever de informação, dever de cooperação e dever de cuidado.
Na presente lide, percebemos, por exemplo, que a divulgação de prazos de entrega que não são cumpridos viola, em um primeiro momento, o dever de informação, o qual deve atuar na fase pré-contratual e pós-contratual.
Ademais, o desrespeito aos prazos de entregas vai de encontro ao dever de cooperação e de cuidado, vez que a Requerida não atua de maneira proba e leal dentro da relação consumerista.
Da mesma forma, observa-se a falha no dever de informação no momento em que a Requerida disponibiliza produtos que não serão entregues porque não existem ou não estão disponíveis em estoque.
Igualmente grave é a falta de informação acerca da possibilidade de embutir juros e outros encargos ao preço final do produto em compras parceladas.
Os outros deveres também são ignorados na prestação de esclarecimentos e resolução de conflitos por meios das vias de comunicação oferecidas pela Requerida.
O que se vê, portanto, é a perpetração de uma conduta que contraria o princípio regente das relações de consumo, a boa-fé objetiva.
IV. I. II . PUBLICIDADE ENGANOSA
Cumpre ainda ressaltar que a Requerida, ao veicular prazos de entrega inverídicos, atua de forma contrária à sistemática do Código de Defesa do Consumidor, o qual impõe a transparência no fornecimento de produtos e serviços.
Exemplos dessa publicidade podem ser vistos em destaque nos sítios das lojas vituais com as frases “os melhores produtos importados a pronta entrega”, “a entrega mais rápida do planeta”, “todos os
produtos com entrega imediata” e “produtos no Brasil, a entrega mais rápida da
internet” (doc. 12).
Nessa esteira, dispõe o art. 37, §1º, do Código de Defesa do Consumidor:
“Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.
§1º É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.”
De acordo com a supracitada norma, pode-se vislumbrar que é abusiva qualquer forma de informação publicitária falsa, que possa induzir em erro o consumidor. No entanto, ao se verificar a conduta da Requerida, é o que se encontra. Senão, vejam-se as reclamações que possibilitam a identificação da conduta rechaçada:
“Boa tarde a todos venho por meio desse canal reclamar do prazo de entrega da empresa Fator Digital. Quando você entra site o mesmo informa: "Todos os produtos com entrega imediata" e "A entrega mais rapida da internet", mentira. Eu comprei um aparelho no dia 14 de setembro de 2011 às 8h30 efetuei o pagamento na hora
do almoço do mesmo dia, hoje dia 21 de setembro de 2011 não foi postado ainda meu aparelho e fui informado que para eles postarem demora 7 dias. A propaganda que o site faz é enganosa tomem cuidado com as chamadas de entrega.”18
“gostaria que estes site que não são verdadeiros fossem proibidos de expor propagandas mentirosas, pois nos leva a compar o que não existe, pois fiz umas compras e nunca chegaram.eu gostaria muito que voces podessem me ajudar, obrigado.”19
Cumpre ressaltar que a oferta de prazos de entrega menores que os observados pela concorrência induzem o consumidor a optar por realizar suas compras nas lojas virtuais vinculadas à Requerida. O consumidor escolhe a loja virtual da Requerida, pois é logrado a acreditar que receberá o produto em menos tempo.
Bem como também tem o fito de ludibriar os consumidores e afetar a concorrência ao afirmar que a loja virtual está constituída legalmente há 14 anos, isso porque, a Requerida foi registrada na JUCESP há 4
18 CD-ROM disponibilizado pelo ReclameAqui. Fator Digital. Reclamação nº. 13408. Danilo Ciriaco. Rio Claro/SP
19
CD-ROM disponibilizado pelo ReclameAqui. Fator Digital. Reclamação nº. 13. José Pinheiro Gomes Pinheiro. Cruzeiro do Sul/AC
anos. Essa atitude tem o condão de aumentar a confiabilidade da Requerida perante os consumidores, influenciando em um juízo de valor a ser feito sobre a loja.
Resta claro, portanto, que a conduta adotada pela Requerida induz o consumidor em erro, importando em afronta direta ao Código de Defesa do Consumidor, não só em seu art. 37º, §1º, como também aos incisos III e IV, art. 6º, os quais instituem, como direitos básicos do consumidor, a proteção contra a publicidade enganosa; e informação adequada sobre produtos e serviços, inclusive quanto à especificação de seus preços.
IV. II. A RESPONSABILIDADE CIVIL PELOS DANOS CAUSADOS AOS