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5.17 ASPECTOS NEGATIVOS DO PATENTEAMENTO DE SOFTWARE

5.17.2 VIOLAÇÃO DO ORDENAMENTO JURÍDICO

Conforme visto, software é protegido no Brasil por meio da Lei de Direitos Autorais

(BRASIL, 1998b) e por legislação específica (BRASIL, 1998a). Portanto, é preocupante a

interpretação que o INPI implementa na prática e que está descrita na consulta pública

realizada. Tal interpretação é uma forma de contornar o impedimento legal, caracterizando

alguns programas de computador como processos ou métodos industriais.

Ou seja, tem sido aceitos pedidos de depósitos de patentes de software, em clara

afronta à legislação e ao interesse nacional, sem que tivesse havido qualquer tipo de debate

maior sobre o tema, seja com a sociedade, com o setor empresarial, ou com acadêmicos.

Em resposta à consulta pública do INPI, houve um estudo técnico da USP e da FGV,

que foi categórico ao esclarecer que:

[a] proposta do INPI teria como objetivo tão-somente “auxiliar no exame

técnico de pedidos de patente envolvendo invenções implementadas por

programa de computador”; porém, ao fazê-lo, já admite, em diploma

infralegal (Resolução de órgão Ministerial), que o software está sujeito ao

regime de patentes, o que é o avesso do regime adotado pela legislação

pátria. O conteúdo das “Diretrizes” é ainda mais surpreendente ao conferir

ampla patenteabilidade aos programas de computador abrangendo tanto

efeitos técnicos no mundo físico quanto no mundo virtual, estando o

programa embarcado ou não em máquina e alcançando inclusive processos

computacionais, como otimização de processadores de texto ou benefícios

na interface com usuário. Tudo isso assentado na interpretação de que

‘programa de computador em si’ (que não pode ser ‘invenção’ por força do

art. 10, inc. V da Lei de Proprieda- de Industrial – 9.279/96) constituiria

apenas o software sem efeito técnico, sendo os demais, todos aqueles com

aplicação ou utilidade técnica, patenteáveis. Mas a utilidade prática é uma

das dimensões de qualquer software, o que confere às Diretrizes do INPI um

impacto potencial em termos de patenteabilidade de software ainda maior do

que o encontrado nos EUA, abrindo o espaço para a descrição de qualquer

software como invenção em pleito de patente. (GRAU, 2012, p.5-6)

Como forma de confirmar esse problema e verificar na prática os tipos de depósitos de

patentes de software que estão sendo requisitados no INPI, foi realizada uma busca no banco

de patentes do INPI, disponível na url https://gru.inpi.gov.br/pePI/jsp/patentes/

PatenteSearchAvancado.jsp.

Como a pesquisa não oferece a opção direta de busca de patentes pela categoria de

invenção implementada por programa de computador, foi utilizada a opção de busca por

palavras chaves no titulo do pedido de depósito, com o termo “(metodo or processo) and

(software or programa) and not aparelho and not dispositivo and not aparelhos and not

dispositivos and not equipamento and not equipamentos and not maquina and not maquinas”.

Assim, foram procurados pedidos de patentes de métodos ou processos, relacionados a

software ou programa, e que não fossem aparelhos, dispositivos, equipamentos ou máquinas.

Foram encontrados 1326 resultados de pedidos de patentes, das quais 42 já efetivamente

obtiveram a concessão pelo INPI.

Muitos dos resultados se relacionam a software envolvendo controle de hardware,

como terminais de pagamento, torres de perfuração, reversor de empuxo de aeronaves, injeção

de combustível, etc. Porém, muitos resultados envolvem apenas código e algoritmos, sem

nenhum envolvimento de hardware. Algumas dessas invenções implementadas de programa

de computador (IIPC) estão listados no quadro abaixo, para efeito exemplificativo:

Pedido Depósito Título Depositante

BR 10 2014 029255 1 24/11/2014 MÉTODO PARA PROTEÇÃO DE

COMPONENTES DE SOFTWARE EM AMBIENTE WEB

CPQD (BR)

BR 11 2016 002280 7 01/08/2014 MÉTODO E SISTEMA DE PROGRAMA DE RECOMPENSA DE FIDELIDADE DE CONSUMIDOR

ZVI

BOGOMILSKY (US)

BR 10 2014 015634 8 24/06/2014 MÉTODO IMPLEMENTADO POR COMPUTADOR PARA EVITAR ATAQUES CONTRA SISTEMAS DE AUTORIZAÇÃO, E PRODUTO DE PROGRAMA DE COMPUTADOR TELEFONICA DIGITAL ESPAÑA, S.L.U. (ES)

BR 11 2012 010501 9 03/11/2009 MÉTODO PARA PERMITIR COMPARTILHAMENTO DE ARQUIVOS DE CONTEÚDO ENTRE NÓS DE UMA REDE NÃO HIERÁRQUICA, REDE NÃO HIERÁRQUICA, E, SOFTWARE DE CLIENTE

Telecom Italia S.P.A. (IT)

PI 0719484-6 20/12/2007 MÉTODO, EQUIPAMENTO E PROGRAMA PARA DAR SUPORTE À SELEÇÃO DE OBJETO NA CRIAÇÃO DE PÁGINAS DA WEB

IBM (US)

PI 9802354-3 (patente concedida)

08/07/1998 MÉTODO PARA IMPEDIR INSPEÇÃO NÃO AUTORIZADA DE CÓDIGO FONTE DE UM PROGRAMA DE COMPUTADOR. Dell USA, L.P. (US) PI 9506787-6 (patente concedida) 01/02/1995 MÉTODOS DE CONVERTER PALAVRAS DE INFORMAÇÃO EM UM SINAL MODULADO E DE PROVER UM SUPORTE DE GRAVAÇÃO, DISPOSITIVOS CODIFICADOR, PARA GRAVAR INFORMAÇÕES, DECODIFICADOR E DE LEITURA, SINAL, E SUPORTE DE GRAVAÇÃO

KONINKLIJKE PHILIPS ELECTRONICS N.V. (NL)

Quadro 3.

Alguns pedidos de patentes de IIPC.

Pode-se aqui verificar a dificuldade da separação do que o INPI considera “software

em si” em relação à invenção implementada por programa de computador. Os exemplos

acima listados são todos métodos implementados por software, podendo ser caracterizados

como algoritmos, para obter uma dada finalidade.

Além desses exemplos, também pode-se arrolar os casos de patentes inadequadas

como as de números de pedido PI0505190-8 e PI0419011-4, citados na carta ao INPI feita

pelos Membros do Centro de Competência em Software Livre da Universidade de São Paulo

(CCSL, 2012). A primeira delas trata de um algoritmo de compactação de dados, que é uma

concepção puramente abstrata. A segunda versa sobre o uso de compactação de dados para o

tráfego de informações sobre redes a cabo. O mero uso de uma técnica de software no

contexto da transmissão via cabo não deveria ser alvo de proteção; somente seria admissível

pensar em patente de compactação de dados em redes a cabo se o mecanismo de compressão

fosse baseado em novas técnicas de transmissão de sinais eletromagnéticos através do cabo.

SILVEIRA (2014) fez uma análise mais detalhada do último caso apresentado na

quadro acima, sobre a patente PI 9506787-6, demonstrando como a patente não deveria ter

tido a reivindicação aceita, muito menos concedida:

A patente PI9506787 tem um histórico que remonta a um pedido holandês

de 15/02/1994, ao pedido europeu EP0745254 de 01/02/1995 e ao pedido de

patente internacional PCT publicado em 24/08/1995 como W095/22802

para, então, iniciar a fase nacional em 16/09/1997, que resultou em sua

concessão pelo INPI, em 07/08/2001, quando passou finalmente a ter

vigência no Brasil.

Analisando-se a patente PI9506787, não é difícil constatar que a essência de

seu objeto, expressa na reivindicação principal, é um certo "método de

converter palavras de informação" o qual, efetivamente, consiste em um

algoritmo, ou seja, um método matemático, para transformar uma sequência

de dígitos binários em outra sequência, método este que foi detalhadamente

explicado no relatório descritivo.

É por esse motivo que o método reivindicado na PI9506787 não poderia ter

sido "patenteado", pois um algoritmo que transforma uma seqüência de buis

em outra sequência de bits segundo certas re.: gras será sempre um método

matemático, mesmo que possa ser aplicado à solução de um problema

técnico, seja no campo da Genética, da Robótica ou da Teoria da

Informação, como é o caso, para a modulação de "sinais".

Contudo, a patente PI9506787 foi concedida; com o título "métodos de

converter palavras e informação em um sinal modulado e de prover um

suporte de gravação, dispositivos codificador para gravar informações,

decodificador e de leitura, sinal e suporte de gravação".

Embora se possa imaginar, da leitura do título acima, que revele métodos e

dispositivos, a patente descreve, efetivamente, um método matemático para

transformar uma sequência de dígitos (1 Wou 0) em outra sequência, por

meio de um algoritmo de transformação previamente definido, que utiliza

uma determinada tabela de conversão.

No relatório descritivo da patente são utilizadas diversas representações

gráficas, como fluxogramas, para representar a sequência de passos do

algoritmo, método, ou programa de computador em si.

A patente também reivindicou, denominando de "dispositivos", os meios

para transformar a informação, para codificar e decodificar, "gravar" e "ler".

Contudo, constata-se que para a concretização dos tais "dispositivos" seriam

necessárias especificações que não constam do relatório descritivo da

patente.

A patente PI9506787 foi concedida com 38 reivindicações, cinco das quais

redigidas como se fossem independentes.

A Reivindicação independente n° 1 foi assim redigida:

Método de converter palavras de informação em um sinal modulado, em

cujo processo uma série de palavras de informação de m bits é convertida em

uma série de palavras código de n bits, segundo regras de conversão, com m

e n sendo inteiros e n excedendo m, tais que o sinal modulado satisfaça um

critério predeterminado e em cujo método uma palavra-código é emitida

para uma palavra de informação recebida cuja palavra-código é selecionada

a partir de uma de uma pluralidade de conjuntos (V1, V2, V3, V4) de

palavras-código, cujo conjunto é asso-ciado a um estado de codificação (SI,

S2, S3, S4) estabelecido quando a palavra-código precedente foi emitida,

caracterizado pelo fato de:

• as palavras-código serem estendidas por pelo menos um grupo de um

primeiro tipo (G11, G12) e de pelo menos um grupo de um segundo tipo

(G2);

• a emissão de cada uma das palavras-código pertencentes ao grupo do

primeiro tipo (G11, G12) estabelecer um primeiro tipo de estado de

codificação (Si, S4) de um primeiro tipo, determinado pelo grupo do

primeiro tipo determinado pelo grupo do primeiro tipo e

• a emissão de cada uma das palavras-código pertencentes ao grupo do

segundo tipo (G2) estabelecer um estado de codificação (S2, S3) de um

segundo tipo determinado pelo grupo de segundo tipo e pela palavra de

informação recebida

• enquanto qualquer conjunto (V2, V3) das palavras-código asso-ciadas

com um estado de codificação (S2, S3) de segundo tipo não apresentar

nenhuma palavra-código em comum com qualquer outro conjunto (V2,

V3) de palavras-código associadas com quãlquer outro estado de

codificação (S2, S3) de segundo tipo, e

• enquanto pelo menos um conjunto (V1, V2, V3, V4) de palavras-código

compreende uma palavra-código de um grupo. de segundo tipo sendo

associado com uma pluralidade de palavras de informação

• cada palavra de informação da pluralidade estabelecendo um estado de

codificação diferente de segundo tipo

• permitindo então distinguir a respectiva palavra de informação a partir

da pluralidade detectando a palavra-código seguinte.

Com base no relatório descritivo percebe-se que essa reivindicação

independente descreve, efetivamente, de maneira longa e em lin-guagem

natural (embora um' tanto hermética) tão somente a utili-zação dê uma tabela

de conversão de sequências de números binários, o que, a propósito, é

realizado por meio de um mero algoritmo, melhor dizendo, de um método

matemático.

Em detalhado parecer de 2007, em cerca de 80 páginas demonstrei

minuciosamente que a PI9506787, efetivamente, reivindicou um método

matemático (para converter palavras de informação, codificadas em forma

binária em outras palavras de informação, igualmente codificadas em forma

binária) como sendo a invenção, portanto em desacordo com o inciso I do

artigo 10 da LPI. Além disso, constatei que não havia suficiência descritiva

no relatório descritivo da patente para realizar os "dispositivos"

reivindicados, o que contraria o artigo 24 da LPI.

Anterioridades analisadas, combinadas com publicação anterior do próprio

titular, foram suficientes para demonstrar também a falta de atividade

inventiva, exigida pelo artigo 13 da Lei n° 9.279/1996.

Finalmente, verificou-se que não havia consistência entre o quadro

reivindicatório e o relatório descritivo, o que contraria o artigo 25 da LPI.

A patente PI9506787 foi objeto de ação de nulidade na Justiça Federal

(SILVEIRA, 2014, p.30-31).

Pode-se depreender, a princípio, que os casos apresentados são todos “software em

si”, não envolvendo interação com nenhum hardware específico. Então, pela legislação, não

seriam considerdos inventos e consequentemente não poderiam ser patenteados. Porém, a

interpretação do INPI é diversa, entendendo como invenções esses casos que envolvam

somente software, e que possuam os requisitos de novidade, atividade inventiva e aplicação

industrial. Porém, como visto, é bastante discutível se estão de fato esses requisitos estão

realmente presentes nos casos apresentados.