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A abstracção visual da letra

2.1 Visual Word Form Area

Em 1887, o Neurologista francês Joseph-Jules Déjerine, após um exame clínico a um paciente que sofrera um acidente vascular cerebral, diagnosticou pela primeira vez as primeiras conclusões científicas acerca das bases cerebrais para a leitura. O paciente em causa, apesar de preservar o intelecto e a linguagem, teria perdido a capacidade de ler: conseguia reconhecer objectos, pessoas, escrever correctamente e mesmo reconhecer números e efectuar cálculos matemáticos complexos, mas tinha perdido toda a faculdade de reconhecer letras ou palavras. O fenómeno observado, apontava pela primeira vez a existência de uma zona do cérebro especializada no reconhecimento de caracteres. Após a morte do paciente, a autópsia revelara uma lesão na zona posterior do hemisfério esquerdo – o polo occipital e suas circunvoluções. Déjerine supôs que a lesão teria desligado as fibras que forneciam informação visual a uma zona, que denominou de «centro visual para as letras».

O caso diagnosticado por Déjerine como «cegueira

verbal», na terminologia da neurologia contemporânea, é hoje denominado de alexia pura (Dehaene, 2009).

Figura 8 Orientações e principais Lobos do Cérebro.

A maioria dos doentes de alexia pura sofrem de uma lesão na zona temporal occipital do hemisfério esquerdo do cérebro. O recurso às imagens obtidas por ressonância magnética (MRI, do inglês Magnetic Ressonance Imaging) sugerem que as zonas posteriores do hemisfério esquerdo não desempenham um papel exclusivo para a leitura. Estas zonas, normalmente lesionadas em pacientes com alexia encontram-se, por vezes, lesionadas em pacientes que não manifestam perturbações ao nível da leitura. De acordo com os investigadores são zonas que estão directamente envolvidas nos primeiros estágios de análise visual, contribuindo para o reconhecimento de formas, cores e objectos. Embora muitos dos pacientes lesionados na zona temporal occipital do hemisfério esquerdo do cérebro não sejam aléxicos, demonstram contudo, sintomas de perda de visão parcial que afectam o desempenho na leitura pela incapacidade de visualizar à direita do ponto de fixação e por conseguinte de reprogramar a próxima sacada.

De acordo com Stanislas Dehaene e Laurent Cohen, a zona do cérebro crítica para os aléxicos puros recai sobre uma zona a que os anatomistas denominam, área occiptotemporal esquerda, uma vez que esta se encontra na fronteira entre duas zonas do cérebro, o lóbulo occipital e o lóbulo temporal. Apesar de continuar a ser motivo de debate, os investigadores denominam esta zona de Visual Word Form Area (VWFA), sugerindo que esta zona tem um papel crucial na identificação de letras e sequências de letras válidas da linguagem –

palavras e pseudopalavras – transmitindo informação a outras áreas superiores do hemisfério esquerdo, envolvidas no processamento fonológico, semântico e articulatório- motor (Cohen et al., 2000; 2002; Dehaene, 2009) [figura 9].

2.2 Invariância

Sem esforço aparente, reconhecemos milhares de palavras, independentemente da sua forma tipográfica ou manuscrita

e de forma inconsciente associamos os mesmos sons a dois alfabetos distintos, o maiúsculo e o minúsculo. Sem nos questionarmos, reconhecemos mensagens impressas em dezenas de milhares de tipos de letra diferentes, com todas as suas variações de peso, inclinação e largura. A tal capacidade quase involuntária, conseguimo-lo fazer independentemente da localização das letras no papel ou no ecrã, desde que a sua escala não comprometa os limites impostos pela retina.

Na verdade, o simples facto de milhares de formas poderem representar a mesma palavra, impõe um problema perceptual a que os psicólogos denominam de Invariância Perceptual. De facto, desconhecemos o modo como o nosso cérebro aprende a categorizar a forma das letras. Se aparentemente a forma de alguns caracteres parece não representar um problema perceptual maior, como por exemplo o carácter o, que se mantém constante na sua forma minúscula ou maiúscula (O). Outros, como por exemplo o carácter a, representam um problema adicional, uma vez que não mantém uma relação formal com outros caracteres – a ou A –, que representam a mesma letra. A capacidade para reconhecer invariavelmente múltiplas formas resulta, provavelmente, da existência de detectores de letras abstractos, ou seja, a existência de neurónios capazes de reagir à identidade de uma mesma letra, representada nas suas mais diversas formas [figura 10].

Segundo os investigadores, o nosso cérebro lida com o problema da invariância segundo um sistema organizado, onde uma dada informação que estimula o córtex visual primário é progressivamente categorizada, de forma que a distinção entre duas palavras iguais compostas por letras com características formais diferentes, como por exemplo

GRANDE e grande, inicialmente processadas por neurónios

diferentes na área visual primária, vão sofrendo um processo de abstracção por codificação e recodificação sucessiva até que se tornem palavras indistintas (Dehaene, 2009).

Portanto, e de acordo com Laurent Cohen et. Al (2002),

a

a

A

a

«A»

Figura 10 Invariância da forma

da letra a por meio do detector abstracto «a». Adaptação de autor a partir de Grainger (2008).

adquirir competências da leitura envolve, não só reconhecer as formas das letras, como compreender que diversas formas poderão equivaler a uma única entidade abstracta e que entre todas as combinações possíveis de letras, apenas algumas são consideradas válidas. Segundo a equipa de investigadores estes três tipos de conhecimento estão patentes nas propriedades funcionais da VWFA. Os estudos revelam que a zona occipital temporal do hemisfério esquerdo reage com maior intensidade ao estímulo de caracteres reais do que a pseudocaracteres, demonstrando igualmente invariância da caixa alta e caixa baixa. Em 1988, Steve Peterson, Peter T Fox, Mark Mintun, Michael Posner & Marcus Raichle, através de imagens obtidas por tomografia, por emissão de positrões (PET), mediram as mudanças no fluxo sanguíneo no cérebro de indivíduos, com o objectivo de identificar as regiões de actividade cerebral durante o processamento de leitura de palavras isoladas. As imagens de Petersen, Fox, Posner, Mintun, & Raichle (1988) demonstraram que, em reacção ao estimulo visual de palavras escritas, os voluntários activavam não só uma região localizada na parte de trás do cérebro, reservada à visão, como a VWFA. A equipa de cientistas concluiu que a VWFA apenas é estimulada pela palavra escrita. Portanto, não constituindo uma área de processamento visual de baixo nível, capaz de responder a padrões visuais, tais como quadrículas, os investigadores propuseram que a VWFA seria uma zona de ligação, que actuava como um filtro, entre o processamento visual primário e o restante sistema da linguagem.