CAPÍTULO 2 VULNERABILIDADE E RISCO SOCIAL E ADOLESCÊNCIA
2.4 A DOLESCÊNCIA E A VULNERABILIDADE SOCIAL
2.4.2 Vulnerabilidade
As medidas de proteção especial direcionam-se aqueles (criança e adolescente) que se encontram em situação de risco social e pessoal. Segundo Gomes e Costa (1993 apud HILLESHEIM; CRUZ, 2014, p.76), “[...] neste caso, essas medidas não se referem ao universo da população infanto-juvenil, mas se voltam, especificamente, para a chamada infância em situação de risco [...]”, ou seja, para aquelas crianças e adolescentes que se encontram em situação particularmente difíceis na vida. A infância em situação de risco, segundo as autoras, está vinculado a fatores que ameacem ou causem dano à integridade física, psicológica da criança ou adolescente, sendo decorrência da omissão ou ação de diversos agentes como: “família, outros grupos sociais ou o próprio Estado”.
Assim, é pertinente esclarecer, que o antigo código de menores, anterior ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), classificava as crianças e adolescentes conforme sua inserção no trabalho e sua conduta estabeleciam graus de periculosidade, os quais se originariam na família. De acordo com Passetti (1999 apud HILLESHEIM; CRUZ, 2014, p.76) o ECA irá definir a “[...] situação socioeconômica como fundamental para compreendermos as condições de emergência da infância em situação de risco, cabendo ao Estado, em conjunto com a sociedade civil formular políticas sociais que dêem conta desta questão”. Desse modo, Castel (1987 apud HILLESHEIM; CRUZ, 2014) elucida que o risco surge como um mecanismo de controle vinculado ao biopoder, onde cada vez mais a população passa a admitir os riscos, como sendo esses decorrentes de seus comportamentos e escolhas.
Deste modo, especificamente, os motivos que levam adolescentes ao acolhimento em instituição de longa permanência, devido à situação de vulnerabilidade e risco social, estão relacionados à “omissão e ação”, estas estão relacionadas ao processo de desenvolvimento sócio- econômico. Há também, o impacto do Estado através de suas políticas econômica e sociais, que afetam a família. As vulnerabilidades sociais e riscos discutidos sobre as famílias impactam diretamente as crianças e adolescentes.
Para que as crianças e adolescentes sejam encaminhadas ao acolhimento devem ser violados os seus direitos, e estes são devidos, na maioria das vezes, pelos próprios familiares. Estes adolescentes foram acolhidas devido a algum tipo de violência, como: física, psicológica, sexual, abandono ou negligência.
A violência contra a criança e adolescentes representa,
[...] todo ato ou omissão praticado por pais, parentes ou responsáveis contra crianças e/ou adolescentes” que – sendo capaz de causar dano físico, sexual e/ou psicológico à vítima- implica, de um lado uma transgressão do poder/dever de proteção do adulto e, de outro, uma coisificação da infância, isto é, uma negação do direito que crianças e adolescentes têm de ser tratados como sujeitos e pessoas em condição peculiar de desenvolvimento (GUERRA, 2001, p.32).
Deste modo, crianças e adolescentes acolhidas, trazem em sua história a diferença de inserção social, pois vivenciam no seu cotidiano o afastamento do convívio familiar e comunitário.
Gelles (1979 apud GUERRA, 2001) explica que à violência física é avaliada como um “ato executado com intenção”, ou percebida, de trazer dano físico a outra pessoa. Segundo Azevedo e Guerra (1989 apud GUERRA, 2001, p. 33), a violência sexual é aquela que se caracteriza como todo “[...] ato ou jogo sexual, relação hetero ou homossexual entre um ou mais adultos e uma criança ou adolescente, tendo por finalidade estimular sexualmente [...]”. A mesma autora elucida que à violência psicológica acontece quando um adulto frequentemente despreza a criança, dificulta seus esforços de “auto-aceitação”, gerando grande sofrimento mental. Quanto à negligência advém quando os pais ou (responsáveis) se omitem em promoverem as necessidades físicas e emocionais de uma criança ou adolescente. Conforme Azevedo e Guerra (2016) os fenômenos da violência física e sexual por mais que são encobertas são mais fáceis de detectar, enquanto que a violência psicológica e negligência continuam ocultas. Segundo Gonçalves no Brasil,
[...] a dificuldade de diferenciar negligência e pobreza é particularmente aguda. O desamparo familiar e a privação econômica, associados ao baixo nível de informação de grande parcela da população, são características comuns num país marcado por profunda desigualdade social; são também traços usualmente relacionados ao comportamento negligente dos pais [...] (GONÇALVES, 2003, p.166 apud GREGORIO; BIDARRA, 2007, p.2).
Nessa perspectiva Leal e César (1998, p.76) elucidam que “[...] a violência básica pano de fundo das demais, é a estrutural que se manifesta na desigualdade, na exploração, nas relações de poder, na precariedade e condições do capitalismo moderno”. Igualmente, são as relações violentas que possui na sua estrutura particularidades como: cultura, poder e a questão econômica que se articulam, as quais estão no âmbito familiar e na sociedade. Vale sublinhar que segundo Leal e Cesar (1998, p. 76), no âmbito da família os resultados da “[...] violência estrutural são reduplicados, não se podendo pensar a violência intrafamiliar sem considerar o processo estrutural de produção e manutenção da violência”. Conforme Monteiro (2010) a violência é percebida a partir de um conjunto de ações cometidas por
grupos ou indivíduos, ela é um fenômeno social e traz tanto para quem a praticou, como para a vítima, danos físicos, morais ou emocionais.
Além disso, é necessário elucidar que em relação à vulnerabilidade social de crianças e adolescentes, existem particularidades. Carinhanha e Penna (2012) esclarecem que as questões de gênero, provocam uma construção cultural diferenciada do papel do homem e da mulher, ainda numa sociedade patriarcal30
como a brasileira. Essas diferenças estão presentes nas manifestações e impactos da violência entre adolescentes do sexo feminino e masculino. Assim sendo,
Estudo sobre a compreensão dos profissionais de abrigo em relação à violência vivida pelas adolescentes abrigadas apontou a vivência da violência de gênero como uma questão crítica e preocupante ao verificar a reprodução marcante da sujeição das meninas em relação aos meninos de forma naturalizada no interior das unidades de abrigamento, quer dizer, sem que as mesmas se percebessem violentadas. [...] entendemos haver peculiaridades quanto à violência vivida pela adolescente em situação de abrigamento, principalmente pela assimetria de gênero, por ser adolescente e estar institucionalizada (afastada do convívio familiar), o que torna tais condições relevantes diante das recomendações governamentais sobre a assistência a adolescente em situação de violência, bem como seu direito à convivência familiar (CARINHANHA; PENNA, 2012, p.69).
Compreende-se que estas jovens segundo Carinhanha e Penna (2012) podem ter uma visão diferenciada sobre o sentido da violência, e o impacto que essa tem em suas vidas.
Partindo destas reflexões, destaca-se que nos últimos 20 anos, ocorreram distintas transformações na concepção da modalidade de proteção chamada abrigo, desde a reordenação resultante da implementação do Estatuto da Criança e do adolescente (ECA) e à sua inclusão de forma pronunciada na Política de assistência social (SUAS). Também, que em seguida do ECA, foram criadas as diretrizes técnicas do CONANDA, Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente pelo Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) em 2009. Esses dois conselhos trouxeram como objetivo a ordenação das ações em diferentes modalidades de acolhimento, isso significa que inauguram uma nova nomenclatura para tratar das medidas de proteção previstas no Estatuto. O abrigo, na nova terminologia passou a se chamar acolhimento institucional, tendo a função de assegurar todos os direitos e não apenas a proteção física. É relevante mencionar que as diretrizes propostas pelo Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária, foram acompanhadas por ambos os documentos. Guará (2006) elucida que,
Muitos estudos mostram os prejuízos da ausência de convívio familiar e comunitário ao desenvolvimento da criança e do adolescente. Mas esse direito só pode ser realmente atendido numa comunidade e numa família segura e acolhedora em relação às demandas da infância. Infelizmente, há muitas crianças que não têm condições efetivas de proteção temporária ou definitiva na família. Assim, o abrigo – que deveria ser uma alternativa extrema – ainda é, e continuará sendo por algum tempo, o lugar de cuidados da criança e do adolescente em situação de abandono social (GUARÁ, 2006, p.66, grifo nosso).
Guará (2006) explica que, quando precisam ir para o acolhimento, a criança e ao adolescente ficam com uma grande tensão, pois ocorre o rompimento de laços de parentesco e de afetos. Seja o ambiente familiar acolhedor ou ameaçador, ao sair dele a criança e ao adolescente vai para o desconhecido. De acordo com Guará (2006, p.66) “[...] a incerteza quanto ao futuro desequilibra o presente e faz emergir reações de isolamento, emudecimento, revolta ou agressividade”. Cyrulnik (2004 apud TOROSSIAN; RIVERO, 2014, p.61) afirma que, após um trauma, é necessário que a pessoa faça uma reelaboração da memória corporal e do dano, “[...] esse gesto de reelaboração não pode ser solitário, existe a necessidade de um olhar do outro sobre a transformação”. Portanto, de acordo com o autor, tornam-se essencial os atores (equipe) dos serviços que oferecem o acolhimento, são “tutores da resiliência”. Também são colaboradores do “processo de ressignificação do trauma”, quando aceitam o trabalho de reconfiguração da memória traumática (violência e o acolhimento).
Com relação às famílias, quando as (os) filhas são acolhidas, pensam em retomar o vínculo, há esperança de recuperar a capacidade de proteger, sendo o acolhimento um recurso de emergência. Guará (2006, p.66) afirma que,
Atrás da história de cada criança há sempre as histórias das famílias que também foram frequentemente penalizadas pela violência e pelo sofrimento causado pela pobreza. [...] A ida da criança à própria casa e à de pessoas com as quais conviveu e tem laços afetivos deve, quando possível, ser incentivada. Além disso, pode-se facilitar os contatos telefônicos ou por carta. A relação entre a criança e a família deve ser resguardada e estimulada, pois foi esse laço consanguíneo que instaurou seu lugar no mundo.
Entende-se que é de fundamental relevância a compreensão bem como o trabalho da equipe do acolhimento, quanto aos horários para a família visitar a criança e ao adolescente. O incentivo a manter o vínculo familiar, seja a família nuclear ou a família extensa, a qual é entendida como: avós, tios, primos e outras pessoas que possuam aproximação, como os padrinhos e vizinhos. Vale ressaltar que a rede social de proteção espontânea inclui também outros atores como: grupos de vizinhança, clubes e igrejas, esses atores podem ajudar no retorno da criança ao convívio familiar e comunitário.
Losacco (2010, p.65) lembra que crianças e/ou adolescentes institucionalizados também têm família, “[...] não são filhos de chocadeiras! São frutos de uma união homem/mulher. Sua gênese é produto de uma determinada configuração familiar, portanto, possuem laços a serem pesquisados e desvelados”. Além disso, a mesma autora, explica que as relações afetivas das crianças e/ou adolescentes serão determinadas ao longo de seu processo de institucionalização.
Desse modo, Losacco (2010, p.65) explica que as funções de mãe, pai, tios, avós, “[...] serão vivenciadas através dos papéis virtuais com base nas diversas relações estabelecidas”. Complementando essa perspectiva, Somer (2014) descreve (sentimentos, atitudes e interações) a partir de suas observações no acolhimento Casa Santa Luiza de Marillac,
A adolescente acolhida é nostálgica, ligada aos momentos que passou com a família, visto que não sabe para onde, e se vai, nos finais de semana. Vivem vários momentos de conflitos e de perdas, mas vivem reencontros. Vê-se como adulta, fumando , bebendo, usando drogas, e o faz porque não compreende as dificuldades que vivem e não está preparada para essa fase. É um período confuso, quer ser criança para estar no colo, quer ser jovem “comum” estar com a família, ir para escola, voltar para casa, mas não pode, pois o âmbito familiar não é seguro. Na maioria das vezes se refugiam, nas cuidadoras (conversas e choro) e nas amigas acolhidas (realizando fugas, gazeando a escola). A fantasia existente é que quer ir para casa (tia (o), prima, avó, mãe, irmão), quer voltar para o aconchego familiar (SOMER, 2014, p.77).
Confirmando essa perspectiva Dessen e Poloni (2007, p.25) afirmam que “[...] os padrões de relações familiares relacionam-se intrinsecamente a uma rede de apoio que possa ser ativada, em momentos críticos, fomentando o sentimento de pertença [...], para que possam buscar soluções e compartilharem as atividades.
Diante do exposto, Guará (2006, p.66, grifo nosso) assegura que “[...] as relações comunitárias são importantes também para garantir os contatos com a rede de proteção, especialmente quando o vínculo com a familiar precisa ser suspenso [...]”, a autora exemplifica “[...] nos casos de filhos de presidiários ou daqueles cujos pais são vitimizadores”. Assim, as relações externas [rede de apoio social e familiar], auxiliam extremamente no momento da saída da criança ou do adolescente do acolhimento, uma vez que elas entram novamente em processo de ansiedade e insegurança.