2. ABORDAGEM SOBRE VULNERABILIDADE E GRUPOS VULNERÁVEIS
2.4. Curadoria como tutela da vulnerabilidade processual
2.4.3. A vulnerabilidade processual do preso
O último grupo tratado no art. 9º do Código de Processo Civil, ao qual o legislador determinou que seja dado curador especial é o dos réus presos. Aos réus presos, independentemente do tipo de prisão ou de sua origem, configurado o impedimento a seu direito de ir e vir, impõe-se a nomeação de curador especial, em razão da presunção à restrição ao seu direito de defesa.92
A situação de prisão do réu inegavelmente lhe retira a ampla possibilidade de oferecimento de defesa. Terá maior dificuldade de contatar e de contratar um advogado, de reunir provas e de saber onde estão os documentos necessários à apresentação de sua defesa. Terá, também, mais dificuldade de indicar testemunhas.
Todos possuem direitos que devem ser resguardados, inclusive os transgressores. O crime não lhes retira esta característica. Aliás, a própria segregação do mundo exterior é experiência dolorosa por retirar do indivíduo sua autodeterminação, de modo que esta situação não pode ser agravada acima do necessário sob pena, inclusive, de violação aos Direitos Humanos.93
A privação da liberdade constitui limitação à possibilidade de prática de atos processuais, que leva à necessidade de especial atenção do Estado. Explica Elida Séguin que os presos indubitavelmente constituem um “grupo vulnerável, a mercê de seus carcereiros e com a sociedade querendo cobrar uma dívida acima da possibilidade de pagar do devedor. O tema é prenhe de preconceitos, intolerâncias e mágoas, tanto por parte do
92
MACHADO, Antonio Claudio da Costa. Código de Processo Civil Interpretado e Anotado: Artigo por
Artigo, Parágrafo por Parágrafo. 3. ed. Barueri: Manole, 2011. p. 241.
preso, quanto da sociedade que sofreu a violência e reage com tanta ou mais agressividade”.94
Costa Machado ensina que o direito de defesa é interesse relevantíssimo, cuja concretização não pode ficar “à mercê de fatores imponderáveis que cercam o preso, de forma que o próprio Estado, nesta hipótese, toma para si o dever de defender, com o que legitima o processo e a efetividade da jurisdição. [...] Dada a restrição à liberdade do réu, é muito provável que este não se defenda ou, se se defender, faça-o mal, de sorte que só uma atividade defensiva séria do curador compensará a hipossuficiência processual que é inerente a quem esteja sujeito a tais circunstâncias”.95
Por esta razão, a nomeação de curador especial ao réu preso visa conferir efetividade à sua defesa, resguardando seus direitos. As pessoas em situação de prisão possuem grande dificuldade organizacional e de informação, justamente em razão da restrição à sua liberdade. Tem prejudicadas as condições de conhecer os aspectos de sua vida civil por perder sua gerência de fato, o que limita tanto o conhecimento do que exatamente ocorreu como o acesso aos meios de prova, além do natural distanciamento que pode existir na relação com seu procurador judicial.96
O perfil do preso no País reafirma sua situação de vulnerabilidade: a grande maioria da população carcerária é composta por homens, jovens e de baixa escolaridade, além do relevante aspecto da superlotação das prisões.97
A condição de privação de liberdade também foi reconhecida pelas Regras de Brasília como causa de vulnerabilidade, que impede o sujeito de exercitar com plenitude
94 SÉGUIN, Elida. Minorias e Grupos Vulneráveis: Uma Abordagem Jurídica, cit., p. 109. A autora explica
que “a assistência jurídica é conditio sine qua non para conceber a reclusão como processo de diálogo entre os seus destinatários e a comunidade. É um dever do Estado e não um favor, mas ela se revela precária, eis que apesar de agasalhada na Constituição Federal, vários estados ainda não dispõe de Defensoria Pública estruturada ou a tem funcionando precariamente”. (Ibid., p. 122).
95 MACHADO, Antonio Claudio da Costa. A Intervenção do Ministério Público no Processo Civil
Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 1989. p. 202.
96 SILVA, Fernanda Tartuce. Vulnerabilidade como Critério Legítimo de Desequiparação no Processo Civil,
cit., p. 223 e 224.
97 Dados Consolidados do Sistema Penitenciário do Brasil, divulgados pelo Ministério da Justiça -
Departamento Penitenciário Nacional, demonstram que no final de 2009, a população prisional total chegava a 473.626 pessoas para 294.684 vagas. A população masculina equivale a 93% deste total. Além disso, 59% dos presos tinham até 29 anos e 53% não possuíam sequer o ensino fundamental completo. Disponível em [http://portal.mj.gov.br/data/Pages/MJC4D50EDBPTBRIE.htm]. Acesso em 03/09/2011.
seus direitos.98 Não bastasse isso, é justamente o reconhecimento da vulnerabilidade processual do preso também no âmbito do processo civil que ensejou a previsão de que o curador deve atuar em seu favor.99
A curadoria especial é fator de desigualação que visa permitir ao preso o pleno exercício de seus direitos. É critério razoável e pertinente à dificuldade enfrentada pela pessoa em situação de prisão, constituindo legítimo e acertado discrímen implementado pelo legislador.100
Desta forma, diante da dificuldade do preso para exercitar com plenitude seus direitos, em razão de sua vulnerabilidade e exclusão social, quando demandado em processo judicial, o legislador determina que o curador especial atue para garantir a equalização da relação processual, de modo que esta atividade defensiva compense a vulnerabilidade processual da parte.101
98 CONFERÊNCIA JUDICIAL IBERO-AMERICANA. Regras de Brasília sobre acesso à justiça das pessoas
em condição de vulnerabilidade. Secção 2, Regra (4). Disponível em [http://www.defensoria.sp.gov.br /dpesp/repositorio/0/100%20Regras%20de%20Acesso %20 %c3%a0%20 Justi%c3%a7a.pdf]. Acesso em 26/08/2011.
99 A mera situação de a pessoa ser egressa do sistema prisional é reconhecida pela Defensoria Pública do
Estado de São Paulo como fator que evidencia a exclusão social para fins de avaliação de sua hipossuficiência, o que demonstra que, com maior razão, a situação de prisão deve ser especialmente tutelada. Vide Deliberação n. 89 do Conselho Superior da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, de 08 de agosto de 2008. Artigo 2º, § 4º. “O limite do valor da renda familiar previsto no inciso I deste artigo será de quatro salários mínimos federais, quando houver fatores que evidenciem exclusão social, tais como: d) entidade familiar composta por idoso ou egresso do sistema prisional”. Disponível em [http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/Conteudos/Materia/MateriaMostra.aspx?idItem=2485&idModulo =5010]. Acesso em 03/09/2011.
100 Aplicação de critérios sugeridos por BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Conteúdo Jurídico do
Princípio da Igualdade, cit., p. 21.
101MACHADO, Antonio Claudio da Costa. A Intervenção do Ministério Público no Processo Civil