• Nenhum resultado encontrado

Wittgenstein e as trˆes escolas cl´ assicas

WITTGENSTEIN E O LOGICISMO

Nos di´alogos de Wittgenstein, nas PhBm e nos respectivos manuscritos, com os trˆes grandes expoentes do logicismo (Frege, Russell e Ramsey), algo se deixa notar pela ausˆencia: o termo “logicismo” n˜ao ocorre uma vez sequer, nem vinculado a um destes trˆes nomes, tampouco isoladamente. Esta ausˆencia ´e, contudo, justific´avel: por um lado, o termo, hoje t˜ao corriqueiro, n˜ao era unanimidade∗ `a ´epoca; por outro lado, n˜ao

fazia parte do estilo do fil´osofo austr´ıaco o uso meton´ımico do termo “logicismo” para se referir `a doutrina de fil´osofos t˜ao pr´oximos, com os quais ele teve a oportunidade de conversar diretamente. O emprego dos termos referentes `as outras duas escolas – cujo uso era mais difundido `a ´epoca – tamb´em ´e raro: o termo “formalismo” ocorre uma ´unica vez (PhBm, XI−121b), enquanto o termo “intuicionismo” ´e encontrado duas vezes, e apenas nos manuscritos (WAi, pp. 101 e 125).

Ainda que Wittgenstein n˜ao tenha se referido explicitamente a uma doutrina logicista nestes textos, ´e poss´ıvel mostrar que suas reflex˜oes tocam o n´ucleo do programa logicista, bem como procuram retirar a motiva¸c˜ao por tr´as deste programa. O slogan do logicismo, em uma formula¸c˜ao bastante geral, ´e “[Parte da] matem´atica ´e [redut´ıvel `a] l´ogica”. A ideia de uma redu¸c˜ao traz consigo a ideia de um fundamento: sendo a matem´atica (ou parte dela) redut´ıvel `a l´ogica, o fundamento da verdade das proposi¸c˜oes matem´aticas (ou de parte delas) ´e a l´ogica. A nega¸c˜ao desta tese seria, portanto, a de que o fundamento da verdade destas proposi¸c˜oes matem´aticas n˜ao ´e a l´ogica (e sim, p. ex., uma intui¸c˜ao pura, ou, ent˜ao, um reino matem´atico intang´ıvel e independente da l´ogica etc.). Como vimos no primeiro Cap´ıtulo deste estudo, a justificativa de Frege para a plausibilidade desta redu¸c˜ao (para o caso da aritm´etica) provinha da extens˜ao do campo de aplica¸c˜ao da aritm´etica, que n˜ao se reduzia a objetos intu´ıveis ou a objetos ideais, mas abarcava todo tipo de objeto, seja ele f´ısico ou et´ereo. Sendo a aritm´etica aplic´avel a todo e qualquer dom´ınio, a nega¸c˜ao das leis aritm´eticas levaria, assim como no caso de uma lei l´ogica, `a impossibilidade de um pensar, de um raciocinar (independentemente do dom´ınio sobre o qual este pensamento se debru¸ca). A aritm´etica deveria, assim, juntar-se `a l´ogica enquanto “ciˆencia primeira”: n˜ao primeira enquanto universal, mas primeira e, por consequˆencia, universal. As leis aritm´eticas, assim como as leis l´ogicas, constituem o quadro formal de todo o discurso, de todo o pensamento, e devem ser, por isso, anteriores a todo discurso, a todo pensamento. Mas, uma vez que ´e da natureza de uma “ciˆencia primeira” ser ´unica, singular, de duas coisas uma: ou as leis l´ogicas

Ramsey, em seu influente artigo de 1925The Foundations of Mathematics, preferiu usar a express˜ao

seriam leis aritm´eticas, e a aritm´etica seria consequentemente a ciˆencia protol´ogica do discurso, ou as leis aritm´eticas nada seriam sen˜ao consequˆencias sofisticadas de leis l´ogicas b´asicas, sendo a l´ogica, portanto, o fundamento da aritm´etica. A segunda alternativa se apresenta como consequˆencia de uma constata¸c˜ao trivial: a aritm´etica investiga proposi¸c˜oes e se interessa pelo seu valor de verdade. Na medida em que a l´ogica ´e a ciˆencia do “ser verdadeiro”, a aritm´etica deve pressupˆo-la, jamais fundament´a-la. Soma-se a isso o fato de que a aritm´etica aparentemente aplica os modos de inferˆencia l´ogicos para deduzir seus teoremas, sendo ileg´ıtima, portanto, a pretens˜ao de justific´a-los a partir do c´alculo aritm´etico.

Wittgenstein concorda com as premissas do argumento. Em primeiro lugar, Wittgenstein subscreve a ideia de que n˜ao ´e poss´ıvel colocar limites para a aplica¸c˜ao da aritm´etica: “O que dep˜oe contra demarcar o dom´ınio de aplica¸c˜ao [da aritm´etica] ´e o sentimento de que podemos entender a aritm´etica sem ter em vista tal dom´ınio”∗.

Em segundo lugar, Wittgenstein tamb´em concorda com a ideia de que a aritm´etica ´e anterior ao discurso, e que este apenas se constitui em harmonia com as leis aritm´eticas. N˜ao obstante esta dupla concordˆancia, Wittgenstein recusa a conclus˜ao do argumento: a aritm´etica n˜ao ´e redut´ıvel `a l´ogica, a verdade das proposi¸c˜oes aritm´eticas n˜ao ´e deduz´ıvel a partir de leis l´ogicas b´asicas, a l´ogica n˜ao ´e o fundamento da aritm´etica. Essa formula¸c˜ao, entretanto, precisa ser qualificada, afinal, em certo sentido, a matem´atica – logo, a aritm´etica – ´e l´ogica e, portanto, a ideia de redu¸c˜ao sequer entraria na pauta da discuss˜ao.

N˜ao s˜ao poucas as vezes em que Wittgenstein trata ambas as disciplinas – l´ogica e matem´atica – como uma unidade para a qual s˜ao v´alidos diversos racioc´ınios. Se n˜ao h´a, na matem´atica, uma dualidade entre lei e s´erie infinita que dela se segue, ´e porque n˜ao h´a, na l´ogica, descri¸c˜ao e efetividade. Da hip´otese de que Deus pudesse saber

algo, na matem´atica (e.g., a distribui¸c˜ao dos n´umeros primos), que n´os n˜ao pud´essemos saber, decorreria – o que, aos olhos de Wittgenstein, ´e um absurdo – a existˆencia de algo, na l´ogica, que n´os n˜ao poder´ıamos saber, mas que poderia ser conhecido. O

m´etodo para se encontrar a solu¸c˜ao de um problema matem´atico, na ausˆencia do qual este problema n˜ao teria sentido, ´e um m´etodo l´ogico§. Mesmo o n´umero, talvez o

conceito mais fundamental da matem´atica, ´e de responsabilidade da l´ogica; o conceito

formal [1, ξ, ξ + 1] ´e um conceito l´ogicok. Em todos estes casos, a unidade entre l´ogica e

PhBm, X−109j .

Cf. ibid., XVI−180b. Cf. tb. WAii, p. 27: “(...) in der Logik gibt es nicht Beschreibung und

Gegenstand. Ist πgleich π dann ist es wesentlich gleich π und dann muß die Andeutung die in ihm

liegt, es k¨onne von π verschieden sein unsinnig sein”.

Cf. PhBm, XV−174d.

§Cf. ibid., XIII−149f.

Cf. ibid., XII−126c.

matem´atica se justifica pelo fato de ambas as disciplinas concorrerem para estabelecer – em uma acep¸c˜ao bastante ampla – as condi¸c˜oes de possibilidade do sentido proposicional, do discurso apto `a verdade e `a falsidade.

Ora, se matem´atica ´e, nesse sentido, tamb´em l´ogica, em que sentido a aritm´etica n˜ao ´e redut´ıvel `a l´ogica? A resposta para esta quest˜ao se deixa entrever na insistˆencia de Wittgenstein em separar as no¸c˜oes de “equa¸c˜ao verdadeira” e “tautologia”∗. Tautologias

s˜ao proposi¸c˜oes da l´ogica calculadas por meio do c´alculo com opera¸c˜oes de verdade. O que Wittgenstein recusa ´e a redutibilidade do c´alculo aritm´etico ao c´alculo com opera¸c˜oes de verdade. Isso significa, como afirma Gallerani Cuter, que a aritm´etica “n˜ao precisa (e tampouco poderia) encontrar seu fundamento fora dela – na l´ogica das fun¸c˜oes de verdade, por exemplo. A aritm´etica deve cuidar de si mesma, como tudo aquilo que pertence ao dom´ınio da l´ogica”†. A aritm´etica pertence ao dom´ınio da l´ogica;

a verdade das proposi¸c˜oes da aritm´etica n˜ao ´e justificada pelo c´alculo com opera¸c˜oes de verdade.

Mas qual ´e a motiva¸c˜ao do logicista para esta redu¸c˜ao? A aplicabilidade universal da aritm´etica. Contudo, esta caracter´ıstica serve, de in´ıcio, apenas como raz˜ao heur´ıstica para creditar `a aritm´etica um fundamento l´ogico. A legitimidade desta aplicabilidade geral deve, na verdade, ser justificada, e esta justifica¸c˜ao toma a forma, no projeto logicista, de uma redu¸c˜ao da aritm´etica ao c´alculo l´ogico, pois da aplicabilidade universal da l´ogica n˜ao se duvida. Inversamente, se porventura a aritm´etica n˜ao fosse redut´ıvel `a l´ogica, a verdade das proposi¸c˜oes aritm´eticas deveria repousar sobre outro tipo de fundamento – n˜ao l´ogico –, o que limitaria a aplica¸c˜ao da aritm´etica a dom´ınios de onde prov´em este fundamento, tal como ocorre, de acordo com Frege, com as proposi¸c˜oes geom´etricas (cuja verdade depende de nossa intui¸c˜ao do espa¸co, sendo, portanto, aplic´aveis apenas ao espa¸co).

O racioc´ınio acima, no entanto, repousa sobre pressupostos que Wittgenstein contesta. Em primeiro lugar, o de que haveria na l´ogica, bem como na matem´atica, verdades fundadas e verdades fundantes. J´a no Tractatus, Wittgenstein faz quest˜ao de notar que “Todas as proposi¸c˜oes da l´ogica tˆem os mesmos direitos. N˜ao h´a, entre elas, o que seja essencialmente lei b´asica ou proposi¸c˜ao derivada. Toda tautologia mostra, ela pr´opria, que ´e uma tautologia”‡. No aforismo seguinte, Wittgenstein critica Frege por

A despeito desta insistˆencia, alguns membros do c´ırculo de Viena, bem como o matem´atico G.

H. Hardy, atribu´ıam a tese de que as proposi¸c˜oes matem´aticas s˜ao tautologias a Wittgenstein. Wolfe

conta a hist´oria de que, em uma conferˆencia dada por Hardy no ano de 1940 em Cambridge, este atribuiu a Wittgenstein a tese acima para, em seguida, discordar dela. Wittgenstein, que estava na plat´eia, apontou para si pr´oprio e interpelou, incr´edulo: “Quem, eu?”. Mays Wolfe: Recollections of Wittgenstein, em: K. T. Fann (ed.): Ludwig Wittgenstein: The Man and his Philosophy, New Jersey: Humanities Press, 1967, p. 82.

Jo˜ao Verg´ılio Gallerani Cuter: Le programme philosophique sous-jacent aux Remarques philo-

sophiques, em: Philosophiques, 39.1 (2012), p. 73.

ter recorrido ao grau de evidˆencia como crit´erio para adotar suas “leis l´ogicas b´asicas”. E, em maio de 1930, em uma observa¸c˜ao bastante pr´oxima, o racioc´ınio ´e estendido para a matem´atica:

A l´ogica e a matem´atica n˜ao repousam sobre axiomas; tampouco um grupo repousa sobre os elementos e opera¸c˜oes que o definem. Nisto repousa o erro de considerar a autoevidˆencia das leis b´asicas como um crit´erio de corre¸c˜ao na l´ogica.

Um fundamento que n˜ao repousa sobre nada ´e um mau fundamento.∗

Isso n˜ao impede que Wittgenstein procure explicar o papel dos axiomas nos sistemas axiom´aticos modernos. De modo algum, entretanto, eles seriam “proposi¸c˜oes” cuja verdade fundamentaria as proposi¸c˜oes delas derivadas. Na ´algebra, por exemplo, Wittgenstein fala de “regras b´asicas” (Grundregeln) e proposi¸c˜oes derivadas. Mas estas regras b´asicas s˜ao defini¸c˜oes, por meio das quais se pode proceder em um c´alculo. Enquanto defini¸c˜oes, estas regras b´asicas n˜ao carecem de fundamento: s˜ao estipula¸c˜oes arbitr´arias. Tamb´em as equa¸c˜oes que o c´alculo prova n˜ao carecem de fundamento: elas valem incondicionalmente. A deriva¸c˜ao a partir de certas premissas ou de equa¸c˜oes verdadeiras j´a provadas ´e completamente inessencial para se provar uma proposi¸c˜ao matem´atica. O essencial ´e que ela tenha uma an´alise completa, uma prova que seja constru´ıda com o aux´ılio das defini¸c˜oes. E n˜ao se pode dizer que as defini¸c˜oes constituem o fundamento da equa¸c˜ao provada, pois as defini¸c˜oes n˜ao s˜ao propriamente condi¸c˜oes de verdade da equa¸c˜ao (uma condi¸c˜ao de verdade ´e verdadeira ou falsa, uma defini¸c˜ao n˜ao ´e nem verdadeira nem falsa), mas condi¸c˜oes de sentido da equa¸c˜ao, da proposi¸c˜ao matem´atica. Em outras palavras, n˜ao ´e o caso da equa¸c˜ao ser falsa na ausˆencia da defini¸c˜ao: faltar-lhe-ia um sentido.

Deste modo, n˜ao apenas a l´ogica n˜ao ´e o fundamento da aritm´etica, mas tamb´em cada proposi¸c˜ao da l´ogica n˜ao se funda sobre outra proposi¸c˜ao da l´ogica, e o mesmo vale, mutatis mutandis, para a aritm´etica. N˜ao h´a uma hierarquia na l´ogica e na matem´atica de acordo com a qual certas proposi¸c˜oes se seguem de outras mais b´asicas, mais fundamentais (no sentido estrito em que se pode dizer que a verdade de uma proposi¸c˜ao se segue logicamente da verdade de outra). Diferentemente dos edif´ıcios cient´ıficos, em que h´a proposi¸c˜oes de base e proposi¸c˜oes que delas se seguem, na l´ogica e na matem´atica n˜ao h´a n´ıveis: todas as proposi¸c˜oes verdadeiras se encontram no mesmo n´ıvel com os mesmos direitos. S˜ao todas logicamente independentes umas das outras. O segundo pressuposto que Wittgenstein contesta ´e a ideia de que o predicado “ser verdadeiro” ´e aplicado com o mesmo sentido no caso das proposi¸c˜oes da l´ogica e no caso das proposi¸c˜oes matem´aticas. Embora a verdade de uma tautologia n˜ao seja algo que dependa de como o mundo ´e, j´a que isso pode ser decidido mediante a mera

inspe¸c˜ao do s´ımbolo por meio da qual ela ´e expressa, o c´alculo que ´e respons´avel por essa decis˜ao trabalha com proposi¸c˜oes emp´ıricas, para as quais “ser verdadeiro” ´e “dizer como o mundo ´e”. Diferentemente do c´alculo l´ogico com fun¸c˜oes de verdade, o c´alculo matem´atico n˜ao trabalha diretamente com a verdade ou a falsidade de proposi¸c˜oes emp´ıricas, mas apenas com formas proposicionais, e os elementos do c´alculo n˜ao s˜ao definidos a partir dos contextos proposicionais dos quais eles fazem parte, mas apenas a partir da forma que eles assumem quando aplicados a estes contextos proposicionais: “Quero dizer: os n´umeros s´o podem ser definidos a partir de formas proposicionais, independentemente da quest˜ao de quais proposi¸c˜oes s˜ao verdadeiras ou falsas”∗.

Assim, o “ser verdadeiro” de uma tautologia n˜ao se confunde com o “ser ver- dadeiro” de uma equa¸c˜ao. O primeiro corresponde simplesmente a mostrar que as opera¸c˜oes de verdade resultaram na dissolu¸c˜ao do sentido proposicional: a tautologia deixa de fazer um recorte no espa¸co l´ogico, deixa de ser uma decis˜ao a respeito de como as coisas s˜ao. J´a o “ser verdadeiro” de uma equa¸c˜ao corresponde a construir uma estrutura atrav´es da an´alise completa desta equa¸c˜ao; n˜ao h´a, aqui, dissolu¸c˜ao do sentido proposicional, j´a que n˜ao se fala de proposi¸c˜oes factuais em nenhuma etapa desta an´alise.

Na Se¸c˜ao seguinte, procuraremos tecer algumas considera¸c˜oes sobre esta irre- dutibilidade de equa¸c˜oes a tautologias para, na Se¸c˜ao subsequente, voltar `a quest˜ao da aplicabilidade universal da aritm´etica, desta vez n˜ao para lan¸car um olhar cr´ıtico no modo pelo qual Frege conduziu esta quest˜ao, mas para esclarecer a posi¸c˜ao de Wittgenstein acerca dela.