Capítulo II: Capítulo II: Ética e Direito pensados a partir da relação de intersubjetividade ética no agir ético
2.4. Ética e Direito reaproximados com o reconhecimento e o consenso
2.4.2. A Ética e o Direito e o reconhecimento e o consenso
134 intersubjetividade ética –, constitui-se em “fundamento de uma autêntica comunidade ética” (EF V, p. 70), impensável senão no horizonte do reconhecimento recíproco entre as consciências-de-si, que é, “igualmente consciência de um Nós” (EF V, p. 68). Isto porque, Razão e Liberdade significam, no nível da universalidade intersubjetiva, o reconhecimento da “aparição do outro no horizonte universal do Bem” e, também, o consentimento “em encontrá-lo em sua natureza de outro Eu” (EF V, p. 71).
Veja-se que o encontro ético possui como fundamento ou pressuposto antropológico o espírito que, como Razão e Liberdade é acolhimento do ser e consentimento ao ser, o qual, no seio do agir ético – ou Razão prática – se materializa como verdade na ordem do conhecimento, na medida em que permear os princípios e valores emanados do ethos e, como bem, quando na ordem da vontade houver adesão pelo melhor em vista da sua realização (cf. EF V, p. 33-34). E, propriamente no recesso da intersubjetividade, serão Razão e Liberdade que, novamente, operarão a possibilidade do reconhecimento do outro como outro Eu e o respectivo consentimento quanto a participar do mesmo universo de valores, fins e bens (cf. EF V, p. 70-72).
Portanto, torna-se de jure afirmar que a base ou o fundamento da comunidade ética reside, com especificidade, nas dimensões do ser espiritual e do ser ético; no entanto, reserva-se para o próximo item a análise da possibilidade de o encontro ético, pervazado pelo o reconhecimento e pelo consenso, reaproximarem a Ética e o Direito.
135 desiderato e, na Modernidade, dada a autodiferenciação da Razão e a elevação da Razão poiética, as racionalidades que daquela procedem alcançaram “extraordinária eficácia como instrumento seja para a transformação da Natureza, seja para a transformação da Sociedade” (ERM, p. 69). Com isto, espraiou-se o télos operacional da poíesis e o Direito se exilou como técnica de controle do arbítrio individual, distante do seu tronco ancestral – ou Razão como Razão prática – e se apartando inteiramente da Ética como ciência do ethos (cf. EF II, p. 180).
É sob referido pano de fundo que se justifica o discurso filosófico acerca da Ética, do Direito, do reconhecimento e do consenso, a fim de, em contraposição ao paradigma da universalidade hipotética, que não permite a instituição de uma comunidade realmente ética, revisitar alguns aspectos da relação de intersubjetividade ética – ou universalidade nomotética –, no intuito de resgatar o “sujeito ético das garras do indivíduo particular empírico” para restaurar a “comunidade não como simples associação gregária de indivíduos, mas como comunidade ética” (PERINE, 2002, p.
67), entendida como “aquela situação de convivência na qual as relações intersubjetivas estão reguladas por leis éticas como leis públicas” (OLIVETTI, 1984, p. 209).
Isso não quer dizer que se intentará a reconstrução de tudo que se expôs, mas que se revisitará alguns pontos e, a partir deles, diligenciar-se-á situar Ética e Direito, bem como reconhecimento e consenso, entrelaçados, ou então, reaproximados. A propósito, parece oportuno, como primeiro passo, rememorar que
(...) a ciência do ethos não é mais do que a estrutura do espaço lógico no qual as dimensões do sujeito ético, da comunidade ética e do mundo ético objetivo determinam a singularidade da ação ética ou designam as dimensões lógicas da praxis no seu acontecer histórico. (EF II, p. 75)
Pois bem, mas “o que isso significa?” Sem dúvida um esforço filosófico no sentido de transpor, dialeticamente, a “universalidade abstrata da razão prática na universalidade concreta do ethos histórico, por um lado, e na praxis virtuosa do sujeito, por outro” com a adoção da “estrutura triádica dialética”, explicitando “como isso acontece nas dimensões do mundo ético objetivo, da comunidade ética e do sujeito ético” (TOLEDO, 2005, p. 29-30).
Essas três grandezas – mundo ético objetivo, comunidade ética e sujeito ético – , para melhor compreensão, podem ser expostas da seguinte forma: (U) Universalidade – sujeito ético como conhecimento e liberdade inter-relacionados dialeticamente, no seio de uma comunidade ética em termos de reconhecimento e consenso, no contexto de
136 um mundo ético objetivo (universo simbólico do ethos), existente no medium da linguagem como estrutura ou sistema, manifestado na inter-relação dialética do fim (conhecimento) e do bem (liberdade), como princípio do agir ético; (P) Particularidade – sujeito ético particularizado como deliberação (boúlesis) e escolha (proaíresis), dentro de uma comunidade ética como espaço de participação e comunicação (educação e vida éticas), ordenados segundo o ethos histórico ou na tradição ética como universo simbólico de representações e valores (cultura ética); e, (S) Singularidade – sujeito ético determinado concretamente pela consciência moral (suneídesis), relacionado à comunidade ética como consciência moral social (ou eticidade propriamente dita) concreta existencialmente como expressão normativa (normas, leis, direito), sendo este o mundo ético que existe como mundo político (cf. EF II, p. 75-77; TOLEDO, 2005, p.
29-30).
Mencionado esquema explicita a relação que há entre o ethos, enquanto universo de valores, fins e normas, como objeto da Ética – ou ciência do ethos – com a comunidade ética e o sujeito ético, bem ainda, demonstra a presença do Direito “tanto como o momento de universalidade abstrata do mundo ético objetivo quanto como a dimensão de universalidade concreta desse mesmo mundo normativo objetivo”
(TOLEDO, 2005, p. 30).
Essa universalização abstrata e concreta do Direito só é inteligível no contexto do universo de valores, fins, bens e normas do ethos e referido àquela integração entre o sujeito e a comunidade éticos, o que sinaliza, desde já, a pretendida reaproximação entre a Ética e o Direito, melhor ainda, o Direito, como conjunto de normas e de regras próprias da comunidade ética, aludido inteiramente à ciência do ethos – ou Ética (cf.
BROCHADO, 2006, p. 161-162). Noutros termos, no contexto da Ética vaziana não se mostra adequada qualquer tentativa de submissão do Direito à Razão poiética, pois na origem ele diz respeito às coisas humanas (tà anthrópina) (cf. EF II, p. 191), o que não quer dizer que seu aprimoramento teórico – âmbito da TGD (Teoria Geral do Direito) – seja algo pernicioso, mas sim que sua referência deve ser, sempre, à Razão prática, no diapasão do “ponto de vista de seu fundamento no debitum natural” e, conjuntamente, do “ponto de vista do debitum da sociedade e do Estado” (MATA MACHADO, 1995, p. 43-51).
Isso porque, será somente sob o manto da Razão prática que tanto o sujeito ético quanto a comunidade ética se encontram ordenados constitutivamente ao Bem
137 como universo simbólico humano e, apenas nele, reitere-se, que o ser humano se realiza como humano (cf. EF V, p. 69), porquanto é nele que todos se reconhecem reciprocamente como tais e, também, consentem na participação de uma mesma estrutura de racionalidade e de liberdade (cf. EF V, p. 71). Todavia, não desconhece o Filósofo as dificuldades existentes na Modernidade no que respeita à concretização do reconhecimento e do consenso e, em razão disso, evidencia o “trabalho de educação ética” envolvendo o regramento ético-social (normas e leis ou direito) e as instituições (cf. EF V, p. 73-76 e 113-121).89
Essa paidéia ética possui o mister de assegurar a coesão entre os seres humanos constituídos em comunidade ética (EF V, p. 80-81), o que não exclui a possibilidade do surgimento dos conflitos de interesses; todavia, partindo-se da concepção de que o ser humano é estruturalmente um ser social, e não um ser solitário e conflituoso, mesmo diante do grave problema das “necessidades elementares da vida”, tendem as soluções para os conflitos tomarem como parâmetro as normas e leis éticas que procedem do ethos (cf. EF V, p. 81-83 e 120-121), por meio das quais os eventuais contendores encontrarão a melhor solução, o que reforça o propósito de uma educação ético-jurídica (cf. BROCHADO, 2006, p. 166).
Essas normas e leis possuem como horizonte a universalidade do Bem e, como tais, impulsionam as instituições à sedimentação ou concretização do reconhecimento e do consenso. Portanto, mesmo diante das situações ou condições presentes na particularidade – nível empírico ou dos conflitos de interesses –, e com um possível esgarçamento do tecido social, não há perigo quanto à dissolução da comunidade ética.
No entanto, não se pode perder de vista que essas normas e leis devem ser incutidas
89 A alusão ao “regramento ético-social” envolve as categorias norma, lei e direito e, nesse sentido, merece uma explicitação. O termo norma remete à metáfora geométrica de regra ou modelo e pode ser utilizado em vários campos do saber, como: ético, jurídico, econômico, técnico etc. Na esfera ética seu conceito refere-se ao horizonte objetivo do agir como determinação para o sujeito quanto ao bem que deve ser feito, segundo o princípio de moralidade, i.é, trata-se da imposição de um valor ligado à natureza universal da Razão prática e, assim, é orientativa e prescritiva sobre o valor das ações a serem praticadas (cf. EF V, p. 112-113). A norma, com esse teor, refere-se ao agir no âmbito de sua causalidade intrínseca à atividade e perfeição do sujeito ético (conhecimento e aceitação internos), e, dela, surge a lei como sua manifestação social ou exigência histórica (cf. EF V, p. 116). Portanto, no campo da Ética, pode-se afirmar que há um intercâmbio entre o sentido de norma e o de lei, aquela voltada para o recesso do sujeito ético e, esta, como objetivação social daquela, ou então, que se pode falar numa relação dialética que une norma, lei e direito (cf. EF V, p. 120). A norma se situa como reta razão para o agir do sujeito ético e, a lei, como reta razão para a comunidade (cf. EF V, p. 121). Poder-se-ia aventar, como óbice, o problema da coatividade da lei, mas evidencia Lima Vaz que referido atributo não é da sua essência como expressão da forma da ação justa, pois como tal ela é conforme a justiça, primeira das virtudes morais (cf. EF V. p. 121).
138 socialmente, o que remete, novamente, à educação ética, a fim de formarem a consciência moral social, i.é, uma “forma fundamental de unidade e identidade da comunidade ética, análoga à unidade e identidade do indivíduo ético” (EF V, p. 85).
Essa unidade e identidade em termos de consciência moral social é um problema e o Filósofo o distingue, tanto que desenvolve vários níveis de encontros éticos – pessoal, comunitário e societário – e avalia que neste último pode aparecer a face mais inferior de reconhecimento e de consenso com a “instrumentalização do outro” (EF V, p. 89). Isto, logicamente, devido à complexidade do nível societário na Modernidade, mas aponta alguns elementos que mostram a identidade ética, como no caso dos “direitos humanos”, da “primazia do diálogo”, da “paz sobre os conflitos”, da
“aceitação da superioridade política do regime democrático” e a do “intercâmbio cultural de valores considerados universais, sejam eles religiosos, estéticos, pedagógicos etc.” (EF V, p. 90).
A questão que se poderia propor seria, “diante da complexidade da sociedade moderna, como consumá-la como comunidade ética?” A resposta pode seguir vários caminhos, mas afigura-se oportuno retomar a definição de comunidade ética, proposta anteriormente, ou seja, permeada por “leis e normas éticas que regem e ordenam as relações intersubjetivas”, as quais deverão vigorar “como leis e normas públicas e não apenas como normas particulares” (EF V, p. 90). Essas leis – ou Direito –, agora éticas e públicas, é que nortearão o agir e as relações nas diversas esferas em que o membro da sociedade se faz presente, sejam elas: da necessidade, da afetividade, da realização pessoal e da obrigação cívica (cf. EF V, p. 90-91).
Note-se que a concepção de leis éticas como leis e normas públicas retoma, em sentido amplo, o que seja a Ética como ciência do ethos, pois nelas estarão presentificados os valores e os fins do ethos, o que reafirma a conexão entre o Direito e a Ética; àquele como correlato à lei (cf. EF V, p. 119) e, esta, como manifestação social da norma, cuja aparição foi uma necessidade histórica (cf. EF V, p. 116). Não é só, aquele plexo normativo também se coloca como âncora para solução dos conflitos de interesses entre os membros da comunidade ética, porquanto instituído tendo como horizonte a universalidade do Bem, i.é, com o escopo de consolidar o reconhecimento e o consenso e, ao mesmo tempo, proporcionar coesão e estabilidade à própria comunidade ética. E, como o reconhecimento significa “reconhecer a aparição do outro no horizonte universal do Bem”, do qual decorre “consentir em encontrá-lo em sua
139 natureza de outro Eu” (EF V, p. 71), pode-se concluir que há uma circularidade entre Direito – ou normas éticas e públicas –, comunidade ética e sujeito ético, que se unifica ou encontra significado no âmbito da Ética enquanto ciência do ethos.