1.3 As abordagens da chamada “primeira onda” dos estudos da polidez
1.3.2 A abordagem de im/polidez de Geoffrey Leech
boa impressão e ser ‘polidos’ de acordo com seus próprios padrões” (LAKOFF, 1975, p. 69), o que não implica a existência de regras diferentes, mas sim o fato de que as diversas culturas
“têm condições diferentes para a aplicabilidade das três regras que compartilham” (LAKOFF, 1975, p. 70). Em suma, os postulados teóricos de Lakoff permitem refletir sobre a natureza interacional dos encontros sociais a partir da perspectiva do locutor que organizará a sua ação considerando o contexto e as ações que podem ser apreendidas no sentido de amenizar riscos aos participantes da interação.
A seguir, apresentaremos os postulados teóricos de Leech que reconhece a polidez como um sistema de expressão de crenças que orienta as ações dos indivíduos no sentido de manifestar o que é potencialmente favorável a um interlocutor, mas não para o agente da ação, o locutor.
têm máximas constituintes que podem colidir entre si. As máximas do PP também podem colidir com as do PC (LEECH, 2014, p. 86).
O Princípio de Polidez de Leech (1983, p. 81) é definido por ele como uma forma de minimizar a expressão de crenças23 impolidas e de maximizar a expressão de crenças polidas.
Assim, Leech concebe a polidez como uma forma de altruísmo comunicativo24 que implica a realização de ações que são benéficas para outros, mas não para o agente da ação. Nesta concepção, ser polido significa “falar ou comporta-se de forma a (parecer) dar benefício ou valor não a si próprio, mas à outra pessoa” (LEECH, 2014, p. 3). Considerando o objetivo do PP de oferecer formas de agenciar a redução de crenças impolidas e a maximização de crenças polidas, Leech (1983, p. 132) propõe um conjunto de seis máximas que são assim especificadas:
(a) máxima de tato: minimizar o custo para 0; maximizar o benefício para 025;
(b) máxima de generosidade: minimizar o benefício para S; maximizar o custo para S;
(c) máxima de aprovação: minimizar as críticas a 0; maximizar o elogio a 0;
(d) máxima de modéstia: minimizar o elogio a S; maximizar as críticas a S;
(e) máxima de acordo: minimizar a discordância entre S e O; maximizar a concordância entre S e 0;
(f) máxima de simpatia: minimizar a antipatia entre S e O, maximizar a simpatia entre S e 0.
Na obra The pragmatics of politeness de 2014, Leech revisa a sua obra de 198326, respondendo a algumas críticas27 em relação à sua abordagem e também ampliando explicações sobre o fenômeno da im/polidez. Em relação à ampliação, Leech (2014, p. 92) acrescentou mais
23 Culpeper (2011, p. 120-121) considera que a noção de crença “não é uma formulação ideal, pois a polidez não diz respeito essencialmente às crenças”. No entanto, adverte o autor que ela tem o mérito de jogar o peso na expressão e propõe reformular a noção da seguinte forma: escolha expressões que minimamente menosprezem o status do ouvinte.
24 A noção de altruísmo para Leech (2014) não deve ser interpretada como “altruísmo genuíno, em que alguém faz ou diz algo benéfico a outra pessoa sem segundas intenções. O altruísmo comunicativo diz respeito apenas ao fenômeno comportamental observável e não está relacionado aos sentimentos internos.
25 Cf. Leech (2014): S = SPEAKER (falante), 0 = OTHER (outro), H= HEARER (ouvinte).
26 Leech (2014, p. 87) esclarece que a obra de 2014 é uma reformulação da obra de 1983 com a qual o autor pretende uma atualização e uma ampliação de conceitos tratados anteriormente.
27 Leech (2014) faz um resumo das críticas que foram direcionadas à sua obra de 1983, mencionando Wierzbicka (1991, 2003); Huang (2007); Spencer-Oatey (2009). Algumas dessas críticas fazem referência a uma visão
“universalista” e tendenciosa da polidez em relação aos valores da sociedade ocidental, aos conceitos de polidez relativa e polidez absoluta, ao excesso do número de máximas, a um suposto viés voltado para uma excessiva preocupação com outros, etc.
quatro máximas ao seu quadro conceitual28: duas máximas de obrigação de pos-polidez (contabilizando agradecimentos, desculpas e as respostas) e duas máximas de neg-polidez29: as máximas de reticência de opinião e reticência de sentimentos. O quadro a seguir explicita a visão atual de Leech (2014) sobre as máximas de polidez.
Quadro 2 – As máximas de polidez de Leech Máximas (expressas de modo
imperativo) Par de máximas
relacionadas Marca para esta
máxima Tipo (s) de evento de fala típico (s) (M1) atribuem um alto valor aos
desejos de O Generosidade/tato Generosidade Condescender
(M2) atribuem um baixo valor aos
desejos de S Tato Diretivas
(M3) valorizam muito as qualidades
de O Aprovação/modéstia
Aprovação Elogios
(M4) atribuem um baixo valor às
qualidades de S Modéstia Auto-
desvalorização (M5) dar um alto valor à obrigação de
S para com O Obrigação Obrigação (de S
para O) Desculpas, agradecimentos (M6) atribuem um baixo valor à
obrigação de O com relação a S
Obrigação (de O para S)
Respostas a agradecimentos e
desculpas (M7) valorizam muito as opiniões de
O Opinião Concordância Concordância
(M8) atribuem um baixo valor às
opiniões de S Opinião
reticente Dar opiniões (M9) valorizam muito os sentimentos
de O
Simpatia Parabenizar, solidarizar-se (M10) atribuem um baixo valor aos
sentimentos de S Sentimento Sentimento
reticente Suprimir sentimentos Fonte: LEECH, 2014, p. 91.
Todas essas máximas, segundo Leech, operam como sub-máximas de uma super- máxima denominada “Estratégia Geral de Polidez” (General Strategy of Politeness - GSP).
Segundo a GSP, para ser polido “S expressa ou implica significados que associam um valor favorável ao que pertence ao O ou associa um valor desfavorável ao que pertence a S” (LEECH, 2014, p. 90). Destaca-se com essas máximas que elas não são de caráter prescritivo. São formas de descrever o que acontece na comunicação “por padrão”, ou seja, “se não houver outros princípios, máximas ou outros fatores limitantes intervindo” (LEECH, 2014, p. 35).
28 As seis primeiras máximas foram sistematizadas em Leech (1983), as demais em Leech (2014).
29 Os termos pos-polidez e neg-polidez são utilizados por Leech (2014) para estabelecer uma distinção com os termos polidez positiva e polidez negativa de Brown e Levinson (1987). Na obra de Leech (2014, p. 12), a pos- polidez é uma forma de dar ou atribuir valor positivo ao destinatário, ampliando ou fortalecemos a expressão de valor positivo e a neg-polidez tem a função de mitigar, reduzir ou diminuir a expressão de valor negativo na transação.
Para o autor, algumas máximas como a máxima de tato e a máxima de modéstia representam o que os interactantes perseguem para manter a concórdia comunicativa. A fim de alcançá-la, os interactantes buscam manter o equilíbrio entre os objetivos ilocucionários (pedir permissão, dar conselhos, elogiar, etc) e, também, objetivos sociais como manter boas relações com os demais interlocutores. Nesse sentido, o autor postula que os objetivos ilocucionários podem apoiar ou competir com os objetivos sociais, por exemplo, ao fazer um elogio, o objetivo ilocucionário de uma pessoa é comunicar a H sua alta avaliação a H ou a alguma qualidade de H. Neste caso, o objetivo ilocucionário apoia o objetivo social (dizer algo polido, a fim de manter boas relações). Mas em um pedido, ou em uma crítica a H, por exemplo, o objetivo ilocucionário compete, ou está em desacordo, com esse objetivo social. Para especificar melhor como se dá essa relação, Leech (2014, p. 90) dividi os atos de fala pela sua função ilocucionária em quatro categorias:
Competitivo: o objetivo ilocucionário compete com o objetivo social, por exemplo, ordenar, pedir, exigir, implorar.
Convivial: o objetivo ilocucionário coincide com o objetivo social, por exemplo, ofertas, convidar, cumprimentar, agradecer, felicitar.
Colaborativo: o objetivo ilocucionário é indiferente do objetivo social, por exemplo, afirmar, relatar, anunciar, instruir.
Conflitivo: o objetivo ilocucionário entra em conflito com o objetivo social, por exemplo, ameaçar, acusar, amaldiçoar, repreender.
Leech afirma que “os dois primeiros tipos são os que mais envolvem polidez” (LEECH, 2014, p. 89). Os atos de fala mencionados em (a) estão sujeitos à polidez negativa porque são atos reconhecidamente impolidos (inerentemente impolidos) por materializarem um alto grau de imposição dos desejos de S em relação ao seu interlocutor. Daí, a necessidade da polidez negativa a fim de mitigar ou diminuir o grau da imposição. Os atos mencionados em (b) envolvem a polidez positiva, isto é, a atribuição de alto valor à face positiva do interlocutor.
Para Leech, esses atos são considerados polidos por natureza uma vez que estão relacionados ao estabelecimento e à manutenção dos vínculos sociais. Por sua vez, os atos colaborativos não têm razão especial para envolver a polidez porque são neutros, ou seja, não contribuem nem competem para o objetivo social. Finalmente, os atos conflitantes não envolvem a polidez, exceto em casos de ironia, pois o objetivo é o face-ataque e, assim, “não há razão para ser polido quando o objetivo é causar ofensa deliberada” (LEECH, 2014, p. 90).
Um outro ponto relevante da abordagem de Leech (1983, p. 10) é a divisão apresentada por ele entre a pragmática geral (condições gerais do uso comunicativo da língua), a pragmalinguística (condições “locais” mais específicas sobre o uso da língua) e a sociopragmática (recursos particulares que uma determinada língua proporciona para transmitir ilocuções particulares). Apesar dessa distinção, Leech ressalta que a pragmalinguística e a sociopragmática não devem ser estudadas de forma isolada, pois “ambas são facetas da pragmática: uma voltada para a linguagem e a outra para a sociedade” (LEECH, 2014, p. 15).
Sendo assim, Leech argumenta que “uma parte fundamental do estudo da polidez é investigar como elas se interconectam: como os recursos pragmalinguísticos de uma língua permitem que os valores culturais sejam expressos” (LEECH, 2014, p.15).
A partir dessa distinção, Leech (1983, p. 83 - 84) estabeleceu os conceitos de polidez absoluta e polidez relativa, reformulados em 2014, utilizando-os sob o conceito de polidez pragmalinguística e polidez sociopragmática, respectivamente. Com o conceito de polidez pragmalinguística, o objetivo de Leech é indicar que existem certas expressões que tendem a ser consideradas im/polidas, independente do contexto (polidez absoluta). Essa noção foi alvo de vários questionamentos30, pois muitos comentadores da teoria de Leech alegaram que o autor fazia referência à existência de expressões que eram inerentemente polidas ou impolidas.
Na verdade, o posicionamento de Leech a esse respeito, como fica explícito em seu texto de 2014, é que seria possível ordenar afirmações numa escala de polidez, mantendo o contexto invariável. Segundo o autor, há uma razão semântica para isso: “em um sentido padrão, quanto mais um pedido oferece escolha para H [hearer], mais polido ele é” (LEECH, 2014, p. 88). Por sua vez, a polidez sociopragmática é dependente do contexto, ou seja, uma atitude é considerada polida em relação às normas de uma dada sociedade, grupo ou situação. Com essa noção, Leech (2014) sugere que “os juízos sociais de polidez dependem não só das palavras usadas e dos seus significados, mas também do contexto em que são usadas” (LEECH, 2014, p. 17). A noção primordial da polidez sociopragmática é a polidez considerada “normal” ou
“apropriada” a cada contexto.
Paralela às questões relacionadas à polidez, Leech (2014) discute também questões específicas relacionadas à impolidez. Segundo o autor, a reivindicação recorrente de que a impolidez não recebia a devida atenção em comparação com a polidez começou a ser superada com os trabalhos
30 Cf. Leech (2014, p. 15), discordaram da noção de polidez absoluta autores como Locher (2006); Locher e Watts (2008); Wierzbicka (1991; 2003), Watts (2003) e Mills (2003). Watts (2003). O principal argumento apresentado contra a noção de polidez absoluta e polidez relativa é que não haveria comportamento linguístico que seja inerentemente polido ou impolido.
de Culpeper e outros autores31 que se propuseram a investigar especificamente os eventos impolidos.
Na esteira desses estudos, Leech menciona a polidez e seus “opostos” (Politeness and its
“oppositives”), nos quais estão enquadrados os diversos tipos de comportamentos impolidos: a não- polidez (formas de enunciado isentas de qualquer marca de polidez ou de impolidez), a impolidez (processo de violação de máximas do PP)32, a ironia33 ou sarcasmo (estratégia que usa a polidez para promover a impolidez) e a brincadeira (estratégia que usa a impolidez para promover a polidez e o vínculo social). Segundo o autor, todos esses fenômenos contrastam com a polidez, no entanto, cada um de uma forma diferente. Uma das distinções aparentes apresentadas é que os comportamentos impolidos seriam “marcados” e menos recorrentes em relação ao seu oposto polar, a polidez. É importante destacar a noção de “oposto polar” porque essa noção está sustentada na avaliação escalar proposta por Leech (escala pragmática e sociopragmática) para avaliar o grau de polidez e não na suposição de que a impolidez é o oposto da polidez.
De forma geral, o Princípio de Polidez proposto por Leech (1983) busca estabelecer por meio das máximas uma estratégia geral com o objetivo de evitar discórdia e promover concordância na interação. Assim como o Princípio Cooperativo de Grice, o Princípio de Polidez se constitui de máximas que, se violadas, geram implicaturas. Essas implicaturas veiculam sentidos que devem ser menos ofensivos aos destinatários, uma vez que para ser polido é necessário que o falante expresse ou implique significados que associam um valor favorável ao que pertence ao outro ou ainda associar um valor desfavorável ao que pertence a si mesmo. Ainda segundo o PP, “os interagentes, em geral, preferem expressar ou implicar crenças polidas em vez de crenças impolidas34” (LEECH, 2014, p. 34).
Isso porque, segundo o autor, a polidez é geralmente considerada algo positivo, uma qualidade socialmente desejável e, por isso, desde cedo a socialização das crianças, geralmente, inclui aprender a ser polido (LEECH, 2014). Dessa forma, a polidez é considerada uma estratégia de convívio social que visa a estabelecer e a manter boas relações entre os membros de uma sociedade, contribuindo para evitar a discórdia e para a coesão de grupos sociais. Além
31 Culpeper (1996; 2005; 201la, 2011b; 2011c); Culpeper et al. (2003); Bousfield, (2008); Bousfield e Locher, (2008).
32 A impolidez implica a violação de máximas do PP, ou seja, “tirar valor de outra pessoa e dar valor a si mesmo” (LEECH, 2014, p. 220).
33Leech estabeleceu o “Princípio de Ironia” com base na seguinte orientação: “Se você deve causar ofensa, pelo menos faça-o de uma forma que não entre em conflito evidente com o PP, mas permita que o ouvinte chegue ao ponto ofensivo da sua observação indiretamente, por meio de implicação” (LEECH, 1983, p. 82).
34 Leech (2014) não descarta a existência dos comportamentos impolidos e dos contextos em que este tipo de comportamento é predominante, ou ainda, situações em que as pessoas escolhem, por algum motivo, ser impolidas umas com as outras.
disso, Leech considera que a tendência do grupo em evitar a discórdia e buscar a concórdia tem a ver com atos de polidez individualmente motivados. O comportamento motivado para a polidez pode remeter ao conceito de face e a ações que são desenvolvidas mutuamente para a manutenção das faces que estão em contato, ou seja, “manter a face dá aos indivíduos a motivação para serem polidos” (LEECH, 2014, p. 27). Essa noção relacionada a um interesse do locutor motivado para a manutenção da face é considerada também na teoria de polidez de Brown e Levinson (1987) da qual trataremos no tópico seguinte.