4.2 Percurso de análise: descrição dos módulos e formas de organização para o estudo dos comentários
4.2.2 O estudo do módulo interacional: o quadro interacional
Como mencionado anteriormente no tópico 3.1, na abordagem modular, a interação é considerada de um ponto de vista dinâmico. Essa consideração implica que cada interação se constitui de uma materialidade própria, moldável a partir da ação dos interagentes. Para
descrever essa materialidade, o módulo interacional oferece o quadro interacional, um instrumento que permite definir os parâmetros materiais de cada interação particular: o canal, o modo e o tipo de vínculo, ou seja, esses três parâmetros interacionais permitem descrever a interação em termos do meio material em que elas são realizadas (BURGER, 1997). Assim, para descrever a materialidade de que se constituem os comentários, apresentamos o seguinte quadro interacional.
Quadro 14 – O quadro interacional dos comentários
Fonte: Elaboração da autora com base em Roulet; Filliettaz; Grobet, 2001.
Como se observa, o quadro interacional posiciona os interagentes uns em relação aos outros, definindo os níveis de interação e especificando as suas características materiais. Na nossa interpretação, a interação na qual são estabelecidos os comentários no site G1 pode ser descrita, como demonstrado no quadro acima, situando os comentadores e as suas ações dentro de uma interação mais ampla. Assim, os participantes estão distribuídos em três níveis de interação distintos. No nível mais externo, estão posicionados a mídia de informação, representada pelo site G1, e o público em geral, representado por todos usuários da referida plataforma. Nesse nível, o canal é escrito e visual, pois as informações se constituem de componentes verbal e não verbal, há distância espacial uma vez que os participantes não ocupam o mesmo espaço físico e distância temporal, pois as informações são produzidas e divulgadas em momento anterior ao acesso feito pelo público. No que se refere ao vínculo que une esses dois participantes nesse nível, não há reciprocidade entre eles.
No nível intermediário, estão representados o jornalista, autor da notícia a partir da qual os comentadores elaboraram as suas reações, e o leitor da notícia, posicionado nesse nível por demonstrar interesse a um tipo de conteúdo mais especifico dentro do universo de informações fornecido pelo site G1. Nesse nível, estamos considerando que, assim como no nível mais externo, o canal também é escrito e visual, há distância espaço-temporal e que não há reciprocidade entre os participantes.
O nível mais interno é, para a nossa pesquisa, o de maior relevância, pois é nesse nível que os participantes se posicionam efetivamente como interagentes no sentido de que podem
“dialogar” entre si. Nesse nível, optamos por representar três participantes: dois comentadores, que efetivamente interagem entre si por meio dos comentários, e um terceiro participante, que representa o leitor dos comentários, um participante especifico que pode assumir a posição de comentador, caso seja motivado para isso. A presença desse “terceiro ausente” representa para os demais participantes um ente imaginário, um público virtual cuja existência reflete em suas ações, ora falando em seu nome, como se o presentasse, ora buscando meios de se proteger dele, pois, esse “público imaginário”, realidade do meio virtual, pode representar uma ameaça para as intenções e para as ideias que são divulgadas, quando estes se posicionam de maneira contrária a elas. É por meio desse público que se realiza o efeito recursividade e da ampliação enunciativa de que fala Paveau (2021) na propagação infindável não só dos conteúdos, mas também dos efeitos, bons ou ruins, deles advindos no meio digital. Dessa forma, “todos os destinatários de uma mensagem, mesmo aqueles que o são apenas indiretamente (unaddressed) desempenham um papel importante no desenvolvimento da interação” (KERBRAT- ORECCHIONI, 1990, p. 89).
No nível mais interno, o canal é predominantemente escrito. Chamou a nossa atenção o fato de que nos comentários do site G1, ao contrário do que ocorre com outros tipos de comentários, a linguagem não verbal, como emojis, fotos, memes, não foi identificada como representativa, por isso, estamos considerando a predominância do canal escrito. Em relação ao modo que os interagentes se posicionam, há distância espacial. No que se refere à distância temporal, a interação mostra uma particularidade representativa, pois é possível aos participantes desse nível mais interno reagir de forma simultânea em relação a outros participantes (relacionalidade), embora essa não tenha se mostrado como a mais recorrente no nosso corpus. Dadas as possibilidades, propiciadas pelo meio digital, de ampliação (possibilidade de “extensão” de uma informação) e de investigabilidade (recuperação de informação por meio de ferramentas de busca e de redocumentação), conforme descrito anteriormente (Tópico 4.1), há uma tendência de os comentadores serem mais tardios em suas
respostas, de não responderem ao comentário imediatamente anterior ao seu, de recuperar informações de outras fontes, etc. o que amplia a forma de atuação desses participantes. Por isso, estamos considerando que nesse nível interacional a distância temporal é relativa.
Por fim, estamos considerando que é no nível mais interno que a interação entre participantes efetivamente se realiza, pois existe a possibilidade de reciprocidade, de retroação.
Nesse nível, os participantes reagem uns em relação aos outros, reagem em relação ao conteúdo das notícias, questiona a pertinência das informações divulgadas. É, nesse nível, que os participantes se constituem como “seres dizentes” de suas verdades, interpretando as
“verdades” de seus interlocutores e se posicionando em relação aos eventos do mundo. Além disso, no meio digital, deve-se considerar que a reciprocidade incorpora instrumentos digitais que auxiliam a ação dos comentadores no momento de sua reação: são as ferramentas de busca, a possibilidade de marcar um endereçamento, etc. que maximizam a ação dos comentadores no momento de elaborar a sua intervenção.
Essas informações são relevantes, pois se constituem como um conjunto de dados que ganha relevância na articulação com informações de outros módulo e formas de organização, como será apresentada na análise no capítulo 5, pois ajudam a salientar de que maneira as restrições de natureza interacional podem pesar sobre a elaboração dos comentários, limitando ou ampliando a ação dos participantes na interação e na elaboração de seus discursos.
A seguir, apresentaremos o quadro acional, componente do módulo referencial, utilizado aqui para descrever o engajamento dos comentadores na interação no meio digital.