Diante dessa clínica de crise e acting outs podemos nos segurar em Lacan em seu texto A direção do tratamento para pensar direções a seguir. Lacan sintetiza
com clareza que essa direção é apontada pelos seus meios já que não pode pressupor um lugar a chegar:
Para aonde vai, portanto a direção do tratamento? Talvez baste interrogar seus meios para defini-la em sua retidão. Observe-se:
Que a fala tem todos os poderes especiais do tratamento;
Que estamos muito longe, pela regra, de dirigir o sujeito para a fala plena ou para o discurso coerente, mas que o deixamos livre para se experimentar nisso;
Que essa liberdade é o que ele tem mais dificuldade de tolerar;
Que a demanda é propriamente aquilo que se coloca entre parênteses na análise, estando excluída a hipótese de que o analista satisfaça a qualquer uma;
Que, não sendo colocado nenhum obstáculo à declaração do desejo, é para lá que o sujeito é dirigido e até canalizado;
Que a resistência a essa declaração, em última instância, não pode ater-se aqui há nada além da incompatibilidade do desejo com a fala.
(LACAN, 1998, p. 647)
Pensando então os meios, os métodos, nesse tempo de seu ensino, Lacan transmite que sustentar a possibilidade da associação livre para o falante é sustentar o desejo do analista. O desejo do analista, vale lembrar, é o desejo dessubjetivado, um desejo de se colocar diante desse falante para que ele simplesmente conte, deixando-o livre para que expresse a sua máxima diferença: a sua singularidade.
Isto é abrir caminho para que a fala tenha todos os poderes especiais do tratamento.
“(...) deve se afirmar que, obra de um animal presa da linguagem, o desejo do homem é o desejo do Outro. ” (LACAN, 1998, p. 634).
Contudo o corpo dilacerado no Beco é uma questão que parece querer sempre empurrar o analista precipício abaixo e restaurar a dimensão do concernimento. A vulnerabilidade das pessoas, a fome, os sofrimentos do corpo, pedem uma assistência e um socorro, o que nos mobilizou (erroneamente) em vários momentos. Diana e Chumbinho apontam bem o lugar onde a “pessoa” entra na cena e o analista sai. Diana ao me levar para a casa dela e ameaçar a minha integridade física tenciona a presença do “eu” no na cena. Dessa não escapei, fugi como sujeito, encarnei a humanidade, tive angústia e fugi. Ao pensar A direção do tratamento, Lacan tenciona a discussão introduzindo o assunto pelo lado do analista:
(...) digamos que no investimento de capital da empresa comum, o paciente não é o único a entrar com a sua cota. Também o analista tem que pagar.
Pagar com palavras, mas pagar também com sua pessoa na medida em que, haja o que houver, ele a empresta como suporte aos fenômenos singulares que a análise descobriu em sua transferência. (LACAN, 1998, p.
593)
No Beco, pensamos que nas ruas de modo geral, é comum a transferência ser tencionada no ponto do corpo. “Chumbinho”, outro habitue do Beco, sempre que encontra a analista quer um abraço. O abraço no Beco quer dizer um laço de transferência, uma preferência no campo do amor, uma escolha. Um abraço vale mais que muitas palavras, e antes que as palavras possam ser postas. O primeiro contato que tem registro de importância é esse ir ao encontro do outro num abraço.
O abraço é uma evidência do laço afetivo, é a franca declaração do amor de transferência.
Chumbinho quando tomava banho saia gritando pela rua e dizendo: “Eu tomei banho!” - e abraçava forte. Um dia ele veio assim com aquele cheiro que parecia de chorume e abraçou para não largar mais! Então eu disse para ele: “Pare Chumbinho! Cê tá sujo! Cê tá fedido!" E ele dizia: “É eu sei que eu não tomei banho mais eu gosto de abraçar assim para ver quem gosta de mim! Quem gosta de mim, gosta de mim com o meu cheiro!”.
Outra vez, Chumbinho vai ao meu encontro e entra na Pastoral dizendo que quer falar comigo. Ele fala da dor que ele sabe que existe em mim por eu não poder ajudar ele. Fala que sabe que eu (analista) sinto dor por ter frustrado ele. Eu disse que iria levá-lo à Rondonópolis em uma conversa a um tempo atrás. Ele havia me pedido e dizia que aquilo o livraria do sofrimento pelo qual passava. Ele segue diz que deixei ele “no vácuo”. Após esse episódio da promessa o encontrei no Natal que realizamos no Beco tivemos mais um encontro e fiquei muito tempo sem vê-lo. Num só depois, pela sua fala, pude entender o que aconteceu. Foi ele que refletiu sobre como eu deveria agir e não eu:
“Oh, dói em mim falar isso porque eu sei que dói em você ouvir, mas é verdade eu tive que vir aqui por que eu fiquei muito bravo e triste com você.
Você não sabe o que é eu esperar por um socorro e você não veio. Você disse que ia me atender naquele dia da festa [Natal] e você não me atendeu. Você combinou comigo, tia e depois você disse que não era isso.
Você não pode dizer que num vai, você tem que deixar eu acreditar que você pode ir. Você não pode acabar com a minha esperança, você não pode dizer nem que sim nem que não. Você tem que deixar assim. Então eu vou sempre achar que você pode me levar lá. ”
Diz que foi por isso que andou sumido, que andou doente e que ficou dois dias – ele enfatiza: “quarenta e oito horas!” – “(...) na mesma posição, bebendo só um pouquinho de água de uma garrafinha”. Esteve “emburacado”, doente, com febre. E ele conta que saiu do buraco porque Deus falou para ele que “Ele” é que tinha mandado a analista (eu) dizer que não ia levar ele em Rondonópolis.
Essa dimensão do “cerne do ser” está tencionada no Beco. Os abraços e a fala do Chumbinho, a cena que Diana me chama para ver interrogam a analista aí:
como estar com seu corpo na cena, não recusar a dimensão da transferência que se corporifica como abraço, e sustentar ainda aí, o pagamento com sua pessoa, ou seja, não acolher o abraço como uma pessoa?
Estar nesse abraço como uma pessoa significa estar presa à um nível do imaginário. Lacan situa esse ponto como o ponto situado no grafo do desejo entre os dois níveis do grafo, mostrando uma relação essencial da angústia com o desejo do Outro, num aprisionamento onde uma certa sustentação narcísica do “eu” no primeiro nível busca responder à pergunta que retorna do outro: “Che voi?”. “O que quer ele de mim?” “Que quer ele comigo?”
“Construir sua viagem de volta”, diz Chumbinho. E por que remete isso a mim sendo que já rodou o Brasil inteiro de carona em caminhões? “Construir sua viagem de volta à terra onde nasceu”. Compreende-se aí muito bem a transferência. É em outra viagem que Chumbinho espera que eu o leve e que confia que eu vou levá-lo.
Por isso mesmo o analista deve manter-se sempre na posição de quem não atende, mas não nega. Esse vago, esse vazio que o analista veicula como agente do discurso põe o sujeito na posição de trabalho, e isso faz com que o outro fale. Nessa
‘fala de si’, nesse ponto onde ele pede que eu mantenha vago, Chumbinho projeta uma possibilidade de ser no futuro, por que fala com aquela para onde dirigiu um apelo, um apelo por uma viagem às origens. Este é ponto de passagem de uma transferência à condição de transferência analítica. Ele acha que eu tenho o saber que pode leva-lo lá, lá de onde veio. É como nos diz Lacan no Seminário VIII - A transferência:
Pelo simples fato de haver transferência, estamos implicados na posição de ser aquele que contém o agalma, o objeto fundamental de que se rata na análise do sujeito, como ligado, condicionado por essa relação de vacilação do sujeito que caracterizamos como o que constitui a fantasia fundamental, como o que instaura o lugar onde o sujeito pode se fixar como desejo.
(LACAN, 1992, p. 194)
Depois desse encontro, volto a vê-lo, ele me demanda roupas, banho e até escuta. Mais tarde alguma coisa da ordem da sobrevivência o fez ir para outros recantos da cidade. Ele falava que quando queria comer ia “lá pra cima que o rango é melhor [para uma região alta e chique da cidade]”.
Houve ainda uma vez em que duas irmãs solicitaram internação para nossa equipe. Uma delas havia acabado de ter neném, ela o deixou na maternidade. Ela estava achando que a criança tinha ido para adoção e tinha esperança de que a sogra tivesse a adotado assim como adotou os outros filhos dela. Agora é a outra que está grávida. Veio pedir ajuda para fazer pré-natal. Para atendê-las movemos todos os dispositivos do CAPS, o que foi um trabalho em vão: na sequência desse movimento todo de entrada no SUS, as meninas nos deixam na porta da Pastoral fugindo sem dar palavra. Verifica-se no contrapelo - ali onde atendemos a demanda eles recusaram a oferta - a verdade do inconsciente.
Dizemos tanto que a prática da psicanálise na Rua é diferente daquela que praticamos no consultório, mas uma observação mais detida nos mostra que, pelo menos em seus eixos estruturais e determinantes, ela não é tão diferente assim.
Estamos diante da velha clínica psicanalítica e seu método que tem como princípio a abnegação do analista, como dizia Freud. Claro que esta é uma curva na qual se tende a derrapar no Beco, contudo é preciso calçar sapatos “antiderrapantes”:
desprender-se do imaginário para poder ouvir os sujeitos, e deixar que no campo o discurso do analista – que sustenta que numa conversa só haja um sujeito – permaneça.
O caso das duas irmãs revela uma verdade: a demanda precisa ser recusada, com o custo maior de que seu atendimento seja tomado pelo sujeito como engodo, como pontua Lacan:
Mais ainda, a satisfação da necessidade só aparece aí como engodo em que a demanda de amor é esmagada, remetendo o sujeito ao sono em que ele frequenta os limbos do ser, deixando que este fale nele. (Lacan, 1998, p.
634)
Em algumas noites no nosso trabalho já fomos testemunhas de muito maltrato que essa população sofria pela polícia. Chegavam ordenando e revistando bolsos e sacolas, tudo que encontravam de valor era retirado deles: celulares, dinheiro, maconha ou pedra de crack. Certa noite, num abuso de poder declarado apesar da nossa presença, os policiais revistaram violentamente os meninos passando os cassetetes entre suas pernas, bulindo com seu sexo e dizendo que iam matá-los.
Enquanto eles ficaram quietos olhando para a parede os policiais fingiram que estavam preparando uma execução a céu aberto, então, um tempo de pressão, eles soltaram rojões e bombas na rua e saíram cantando pneus e rindo alto da grande
“piada” que fizeram. Depois de tantas opressões e ameaças de morte, um rapaz, humilhado, chorou e vomitou se abraçando à escultura do Jonas. Ele dizia: “Eu vou morrer como meus maninhos!” Assim que a cena se revelou como uma farsa eu também caí em prantos, como uma descarga nervosa depois de ter temido ver a execução sumaria daqueles rapazes no beco. Chorava e tremia, tudo em mim era indignação frente a essa cena abusiva, uma náusea revoltava minhas entranhas.
É preciso se deslocar do concernimento para poder estar no campo verdadeiramente como analista e sustentar que em cada um daqueles semelhantes há de ter um sujeito que possa olhar para sua própria morte e fazer alguma coisa com isso. Estar diante da cena de uma possível execução à queima roupa dos rapazes de mãos estendidas, praticamente nus, empurrados contra a parede, humilhados, sem ter “dó”, sem ser invadido pela angústia de querer “fazer o bem”.
Vê-se aí mesmo como deve ser difícil para o analista não atender a demanda
“(...) nem que seja só um pouquinho” como diz Lacan. O que está situado com essa ação que vai ao cerne do ser é estar ali “de corpo presente” sem estar com seu “eu”, seu narcisismo e as dimensões imaginárias às quais ele remete. “Os sentimentos do analista só têm um lugar possível nesse jogo: o do morto. ” (LACAN, 1998, p. 595).
Assim verificamos que possibilidade clínica de sustentação do analista na rua implica, rigorosamente, uma posição desumana porque reduzida a seu esqueleto lógico onde todo o concernimento, a encarnação de pessoa, tem que ser deixada fora do jogo. Essa condição discursiva, essa operação lógica, é resultado da análise:
coluna vertebral da formação do analista. Um psicanalista na rua, mais do que nunca, precisa ir até o fim de sua análise porque essa clínica nos põe face ao extremo.
Ali no Beco é preciso estar só, pura presença de escuta, precisando de pegar o “bicho” com a unha se esse bicho aparece na palavra do sujeito. Mesmo na recusa do atendimento da demanda é preciso sustentar a demanda.
O analista é aquele que sustenta a demanda, não, como se costuma dizer, para frustrar o sujeito, mas para que reapareçam os significantes em que sua frustração está retida. (LACAN, 1998, p. 624)
Lacan em Função e Campo da fala e da linguagem interroga se a frustração que a resposta do analista implica - sim, porque o não atendimento da demanda não equivale a uma ausência de resposta mas é uma resposta muito peculiar a ela na medida em que "toda demanda apela resposta, ainda que seja o silêncio (Lacan,
Função e campo), engendrando um vazio que o analista deve sustentar - não seria antes “uma frustração que seria inerente ao próprio discurso do sujeito?” (LACAN, 2003, p. 250). Está exatamente no método da psicanálise a sustentação desse vazio como modo de tratar a frustração inerente ao sujeito e possibilitar que pelos caminhos da fala ele acesse saídas próprias. É no trabalho da análise que:
(...) ele acaba reconhecendo que nunca foi senão um ser de sua obra no imaginário, e que essa obra desengana nele qualquer certeza. Pois nesse trabalho que faz de reconstruí-la para um outro, ele reencontra a alienação fundamental que o fez construí-la como um outro, e que sempre a destinou a lhe ser furtada por um outro. (LACAN, 2003, p. 251)
E
(...) a arte do analista deve consistir em suspender as certezas do sujeito, até que se consumem suas últimas miragens. E é no discurso que deve escandir-se a resolução delas. (LACAN, 2003, p. 253)
Não podemos nos ocupar com os apelos e demandas se não para escutá-los.
Escutar significa precisamente a resposta que o analista dá ao apelo que é a fala, ou, em nossa clínica de pesquisa, apelo que pode tomar a forma de ato ou de atividade. Escutar, portanto, é tomar o que há de apelo em uma fala e responder a ele, o que não significa, em absoluto, atender o que é pedido, satisfazer ou gratificar o apelo, o que tornaria inoperante o apelo, já que, uma vez atendido ou satisfeito, ele cessaria de levar o sujeito ao trabalho de análise, que é o de remontar, de apelo em apelo, à responsabilidade subjetiva daquele que está em análise sobre suas questões, escolhas e desejo. Por isso a psicanálise abstém-se do projeto de prestar ajuda, assistência, apoio, e, pelo mesmo motivo, de restringir-se aos objetivos terapêuticos de curar, que Freud nomeou como furor sanandi.
(ELIA, 2006, p. 20)
A caridade de Freud, como nos diz Lacan no Seminário 20, “Mais, ainda”, um efeito tardio da caridade cristã, um “rebrotamento da caridade”
Não é mesmo, em Freud, caridade ter permitido à miséria dos seres falantes dizer-se que há - pois que há o inconsciente – algo que transcende, que transcende verdadeiramente, e não é outra coisa senão aquilo que ela habita, essa espécie, isto é, a linguagem? Não é mesmo sim, caridade, anunciar-lhe a nova de que, naquilo que é sua vida cotidiana, ela tem, com a linguagem, um suporte de maior razão do que poderia parecer e que a sabedoria, objeto inatingível de uma vã perseguição, já está nela?
(LACAN, 1982, p. 130)
Mas não é nada fácil praticar essa caridade no Beco do Candeeiro, campo de tantas demandas e carências cruas, de corpos amordaçados e ameaçados. Essa população vive girando num curto-circuito paranoico, nessa “gira sem parada”, estão sempre com pressa e medo, e quando encontram a droga... Corta conexão, sem conexão com o falo, nesse movimento regressivo da libido, nesse gozo auto-erótico,
o sujeito renuncia o campo do sentido e se recusa a falar. O uso compulsivo de crack inscreve um sujeito “esvaído”, evaporado na fumaça que o consome, emagrecido, exaurido, abandonado, feito trapo, dejeto do Outro.
O analista é uma presença em sua falta a ser, um lugar onde os precipitados das falas ganham sedimentação e leitura. Estar como presença de um lugar que causa receber, acolher e ler as falas desses falantes que falam por precisarem existir. Muito além da droga e de seus abusos, o sujeito e sua história merecem o devido tratamento pela psicanálise, muito além dos interesses de mercado o sujeito fala e quando fala diz do que se trata tratar, seu pade(s)cer na vida, é da dura vida da gente que vive na guerra e que como refugiados, são desumanizados.
Suportar a angústia e seguir elaborando nossos tropeços, nossas idas e vindas nessa construção de uma Psicanálise na rua, para o povo da rua. Ninguém disse que era fácil, mas na nossa presunção de principiante, nunca imaginaríamos tanta complexidade, supusemos muito menos difícil do que a realidade do território revelou. Bem, lembrando Freud, em sua franca humildade: “Ao que não se pode chegar andando, chegamos manquejando”
CONCLUSÃO
A experiência do trabalhar no Beco do Candeeiro na perspectiva de uma pesquisa de doutorado, revelou de modo que não poderia estar inscrito nos chamados "resultados esperados" de uma pesquisa, modo como instâncias acadêmico-científicas formulam certas demandas dos pesquisadores ao formularem seus projetos e/ou elaborarem seus Relatórios. Praticar a psicanálise na rua é uma empreitada destinada a encontrar os mais variados e espinhosos tipos de obstáculos, desde os que nos concernem como psicanalistas, ou com pesquisadores (lugares que sabemos distintos), até os obstáculos culturais, discursivos, ideológicos, passando pelos mais corriqueiros, os obstáculos históricos, geográficos (de território, no sentido em que um Milton Santos emprega esta categoria), urbanos, citadinos. Não sabíamos disso no início da pesquisa, e podemos considerar que este foi um dos ensinamentos mais importantes que pudemos extrair dela: praticar a psicanálise na rua exigirá décadas de trabalho contínuo de muitos psicanalistas, e não será talvez tarefa para uma só geração.
Demos passos iniciais importantes, estamos num momento de elaboração sobre a sustentação do trabalho no beco e a fundação da Fundação Teresa de Benguela é um ato para sustentar esse trabalho de forma mais permanente e consistente. Precisamos de uma casa no Beco do Candeeiro ou nas suas proximidades para acolher e tratar esse povo da rua, esses refugiados das guerras na cidade. Teremos com a Fundação um outro alcance, na possibilidade de convênios e parcerias e a aptidão de captar recursos para remunerar o trabalho de uma equipe e seu serviço. O desejo faz caminho e a transferência é a via da transmissão, então, estamos nesse pé de nosso caminho, apostando em nossa Fundação Teresa de Benguela, onde consta entre seus fundadores Luciano Elia, Gabriela...boa parte da equipe que vem sustentando o projeto até aqui.
Estamos rumo a construir nesse território, nossa casa quilombo, a Casa Quariterê, nosso espaço aberto para o povo da rua vir e banhar, vir e tomar um café, comer uma fruta, fazer documentos, se refazer da luta, falar com um analista. Um lugar que lembre o quilombo, nas palavras de Jarid Arraes:
No estado de Mato Grosso Havia o Quariterê
Um quilombo importante Para livre se viver
Cooperando em coletivo Guerreando prá vencer (...)
As algemas e outros ferros Que serviam de prisão Lá na forja transformavam Prá outra utilização Não serviam de tortura Mas para a libertação.
Que esta forja possa oferecer novos instrumentos, não para tortura e servidão, mas para libertação! Que Psicanálise na rua seja uma forja para a psicanálise derreter seu metal e fazer bons e novos espetos, que possamos construir dispositivos analíticos adequados a esse território de guerra e seu povo refugiado, que possamos estar à altura da verdadeira caridade nesses tempos que virão ou...o pior.